Joël Thomas
Frederic Monneyron et Joël Thomas. Mythes et littérature.
O termo “mito” invadiu largamente a linguagem cotidiana, mas, ao se vulgarizar, perdeu seu sentido antigo e primeiro para não mais designar, em sua acepção mais familiar, senão um conjunto impreciso de proposições que se opõem à realidade.
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Essa vulgarização do termo acompanha e ao mesmo tempo oculta um grande interesse científico pelo mito entendido em seu sentido tradicional como forma essencial do pensamento humano.
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Tornou-se raro que, nos programas universitários de ciências humanas e sociais — em disciplinas tão diversas quanto história das religiões, etnologia, antropologia, sociologia, psicanálise, história e ciência política — essa noção não seja abordada, analisada e debatida.
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O debate sobre o mito abre sobre numerosas aplicações práticas capazes de renovar singularmente os campos de estudos considerados.
Os programas de literatura também não escapam à regra, e ao menos um curso ou seminário é geralmente consagrado ao estudo de um mito “literário”, seja em letras clássicas, letras modernas ou nos cursos de línguas estrangeiras.
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Esse gênero de estudos tomou um lugar crescente nos últimos vinte anos, qualquer que seja a universidade considerada.
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No amplo leque de mitos estudados, alguns — como Édipo, Fausto e Dom Juan — tornaram-se passagens praticamente obrigatórias no percurso literário.
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A despeito desse sucesso e dessa inflação, o campo de estudos permanece relativamente mal definido, tanto epistemológica quanto metodologicamente.
As pesquisas conduzidas pelas ciências humanas permitiram chegar a definições relativamente precisas e a métodos doravante comprovados, mas esse conjunto se fissura assim que se trata de introduzir essas definições e esses métodos no terreno da literatura.
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As relações que o mito mantém com a literatura — e em particular a noção de mito literário — sofrem de muitas ambiguidades e são objeto de tomadas de posição variadas e contrastadas.
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Mesmo quando os desacordos não são demasiado importantes sobre esse primeiro ponto, as opções metodológicas subsequentes são tão diversas que, na maioria das vezes, parecem carecer de segurança e força para conquistar realmente a adesão.
O desafio é, no entanto, de importância, pois trata-se, com a ajuda dos mitos, de ler melhor a literatura — evidenciando o que uma criação individual deve a narrativas pertencentes ao velho fundo intemporal de uma civilização — e, inversamente, de manifestar a perenidade de um modo de pensamento mítico através do que pode aparecer como um de seus vetores privilegiados.
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Além disso, trata-se de revelar a importância de tal modo de pensamento em toda atividade sociocultural em geral.
