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mitologia:lombard:arlequim
ARLEQUIM
René-André Lombard. L'Enfant de la nuit d'orage
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Arlequim é fundamentalmente um composto de manchas de cores, e essa bigarrure constitui seu traço visual essencial e primeiro.
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Na época da Commedia, as manchas resultam de um patchwork de tecidos diferentes, interpretadas como marcas da miséria.
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Uma lenda tardia narra que as crianças de Bérgamo, comovidas com a pobreza dos pais de Arlequim, ofereceram cada uma um pequeno triângulo de seu próprio tecido para compor o fantasia de Carnaval.
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A imagem visual de Arlequim é a de um ser manchado que carrega uma cauda de animal, presa ao chapéu em forma de cauda de raposa, ainda no século XVI.
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O rosto de Arlequim é coberto de negro de fuligem ou de uma máscara negra de focinho curto, arredondado e levantado, distinto dos bicos e narizes proeminentes das outras máscaras.
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A postura geral de Arlequim oscila entre o desajeitado e o acrobático, com aparições e desaparimentos surpreendentes combinados a uma aparente tolice que encobre uma astúcia extraordinária voltada a farejar e esquivar o perigo.
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Uma glutonaria constante marca o personagem, atribuível à miséria de sua condição, mas que o caracteriza essencialmente como voraz.
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Arlequim, com sua cabeça negra de felino e orelhas abaixadas, derivaria de um antigo predador noturno: o lobo-cervo, o lince malhado, a pantera da Europa.
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Nota de rodapé: referências ao tema nas obras Arte della maschera nella Commedia dell'Arte (Casa Usher, 1983), no Recueil Fossard e nos escritos de Duchartre.
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Sob o criado “cômico”, testemunha das transformações do campesinato tornado criadagem urbana com o enriquecimento burguês medieval, transpareceria não apenas o escravo tímido e ardiloso da comédia romana, mas uma terceira figura muito mais antiga, trazida pela tradição rural e fortemente marcada pela vida animal.
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Essa interpretação se sustenta por se encaixar como peça de puzzle num conjunto coerente de indícios.
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Os nomes Arlequino, Allequino, Harlequino, Herlquin, Hallequin, Hellequin remetem a uma potência da noite, caçador de almas que percorre a floresta escoltado por uma matilha uivante, e cuja aproximação anuncia a morte.
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Um clérigo do século XIII, ao atravessar uma floresta cercado por esses gritos, soube que o bispo que ia visitar estava morrendo.
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Essa matilha infernal é denominada la Maisnie Hellequin.
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Hell e Holl são vocábulos germânicos do Além, morada benéfica ou maléfica das almas dos mortos, e o Além possui ao mesmo tempo natureza subterrânea e celeste.
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Holy significa sagrado; Hell significa inferno; Holle designa a potência feminina da Morte.
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“Madame Holle” faz cair neve sobre a terra ao sacudir o edredom de sua cama.
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O Infernum é a região de baixo; os astros mergulham sob a terra e ressurgem no espaço celeste.
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O caráter simultaneamente subterrâneo e sideral do Além, que muitos arqueólogos e historiadores da arte negligenciaram ao classificar divindades em ctônicas e uranianas, aparece de forma concreta nas sepulturas egípcias, onde os mortos seguem as barcas dos astros em seu percurso sob a terra e seu retorno ao céu.
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Todos os astros — sol, lua, planetas, constelações zodiacais — mergulham sob a terra à direita do observador voltado para o Sul e ressurgem à esquerda no dia seguinte.
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A orientação sagrada universal é a curva da eclíptica.
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Essa visão do cosmos é dado fundamental do pensamento antigo, que registra com acuidade o que observa.
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O Hino Órfico à Noite, entre os gregos, expressa claramente esse Além ao mesmo tempo terrestre e uraniano, na tradução de Leconte de Lisle.
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A Noite é invocada como deusa que brilha na obscuridade, que circula pelo espaço, que caça a luz em direção a Aides, o Além dos mortos, ou retorna a ele, sob o peso da Necessidade que domina tudo.
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A cada noite o mundo do Além — o dos mortos e dos seres por nascer, o mundo das almas — se revela no céu para quem sabe decifrá-lo.
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Allequino, portador do conceito Hell (o Além) associado ao conceito KW.N ou PH.N (Morte e Renascimento), figura no Inferno de Dante como Demônio responsável pela estadia dos condenados.
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Nos Mistérios medievais, Allequino aparece como corifeu da tropa furiosa dos Diabos.
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A miniatura das Horas de Etienne Chevalier, pintada por Jean Fouquet, mostra a representação ao ar livre do Martírio de Santa Apolônia, onde um diretor-chefe de coros comanda músicos, atores e figurantes como numa produção de grande espetáculo; o lugar cênico do Inferno e da Morte é figurado à direita da imagem, isto é, a Ocidente para quem acompanha a ação como acompanharia o curso dos astros.
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A entrada do Reino dos Condenados, nessa miniatura, é uma enorme Cabeça de Cão Negro de boca escancarada — o Grande Cão da Noite —, identificado como fonte do Teatro.
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O ator que emerge dessa boca, guardião e atormentador das almas pecadoras, carregando um Bastão nodoso, evoca um animal peludo, pardo, de cabeça redonda, focinho e lábios de fera.
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Sob a máscara e as “diableries” de Arlequim se descobre não apenas o Fauve, mas, mais além, a Noite, a Morte e as trevas cósmicas.
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Em arqueologia teatral, basta raspar a superfície para que o Sagrado apareça como intuição da unidade do universo para além das noções aparentemente contraditórias de Vida e Morte, e Artaud dedicou sua vida a proclamá-lo.
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