Ana da Bretanha
MARKALE, Jean. Anne de Bretagne. Paris: Hachette, 1980.
Prefácio
1. A História surpreende sempre por não passar de um reflexo de imagens mais ou menos invertidas, como num espelho em que nos projetamos incessantemente com motivações diversas, imagens que não vemos de fato, mas interpretamos segundo o gosto e o desejo do momento, e que, sendo inertes e fixadas no fundo das memórias, só ressurgem por artifícios e astúcias, o que torna duvidosa a finalidade da História, dividida entre a evocação hábil de um passado extinto e o esforço de compreensão do que realmente aconteceu.
2. Diante dessa alternativa, mais fecundo do que afirmar dogmaticamente como as coisas se passaram é formular perguntas, pois toda descrição histórica será sempre falsa, obra de um escritor que, mesmo com as melhores intenções, projeta na cena seus próprios conceitos e fantasias, de modo que a objetividade histórica só seria possível se a História deixasse de ser narrativa para tornar-se equação pura, e ainda assim a simples interpretação dessa equação comprometeria toda a objetividade alcançada.
3. Cada época impõe inevitavelmente um modo de pensar e de escrever que se infiltra sorrateiramente em cada palavra e em cada frase, razão pela qual são vãs as disputas sobre termos julgados impróprios, já que todos o serão para traduzir a realidade profunda, a qual, paradoxalmente, não existe, pois só pode ser apreendida em seus aspectos sensíveis ou inteligíveis e permanece um mistério que beira o inexistente.
4. As tentativas de cercar o real o mais de perto possível jamais alcançaram mais do que uma verdade, e quando alguns imaginaram possuir não uma verdade, mas a Verdade única e pura, deram um grande passo atrás, o que no domínio histórico conduziu a aberrações perigosas para os seres humanos, fanatizados ou oprimidos, mas de qualquer forma vítimas.
5. Sobre Ana da Bretanha não cabe pretender descobrir a Verdade, mas apenas propor uma verdade pessoal, deixando a cada um a liberdade de encontrar a sua, uma vez que a linguagem, diferentemente da matemática, é um modo operatório pouco confiável, carregado de elementos psicoafetivos, funcionando como um receptáculo de matérias-primas do qual cada um pode extrair o elemento que o conduzirá à Grande Obra, desde que conheça a célebre entrada aberta ao palácio do rei de que falam os alquimistas.
6. Os personagens históricos que se tenta ressuscitar talvez não sejam realmente reais, mas venham antes satisfazer uma expectativa, aproximando-se dos heróis de romance, com a diferença de que estes se assumem francamente como fruto da imaginação nascido do mito primordial, ao passo que o herói da História possui um nome e deixou ações e vestígios visíveis, participando assim de uma dupla natureza: pertence a um cotidiano vivido que marcou com seu selo e é, ao mesmo tempo, um puro produto do mito.
7. Seja numa perspectiva evemerista, segundo a qual o personagem notável se torna herói e depois deus, seja numa visão mais matizada, o personagem histórico é simultaneamente ser humano e deus, surgindo no cotidiano por necessidade, pois corresponde a dados míticos muito anteriores à sua aparição, como ocorre nas épocas que exigem e anseiam por um salvador que fatalmente chega, embora às vezes com um rosto diferente do imaginado, como bem ensina o caso de Jesus de Nazaré.
8. Em outros casos, o personagem tão esperado assume o rosto da época em que surge, sendo reconhecido, seguido e obedecido de imediato por encarnar as pulsões mais íntimas do grupo social do qual depende e sem o qual não existiria, servindo, como o herói de um filme com quem os espectadores se identificam, de suporte à potencialidade de ação que fervilha nos indivíduos, e daí extraindo seu sucesso, para tornar-se mártir se fracassar em sua missão ou conhecer a apoteose, no sentido etimológico, se triunfar.
9. Evocar um personagem histórico exige, portanto, extrema prudência, porque o indivíduo em si não apresenta interesse algum, como mostra o poema de Alfred de Vigny sobre Moisés, em que o Chefe supremo e Ungido de Deus pede ao Criador que o deixe adormecer o sono da terra, lamentando não ter sido verdadeiramente amado por ser demasiado temido, embora respeitado, e não ter tido vida íntima e afetiva, tendo vivido não como indivíduo, mas como a encarnação aterradora de um grupo.
10. Sendo essa a vida do personagem histórico, narrar suas pequenas misérias e paixões funestas pertence ao folhetim e, embora possa divertir ou completar um retrato, mascara os verdadeiros problemas, pois o que importa estudar não é o personagem principal, mas o contexto em que vive, único capaz de explicar sua ação e de fundamentar um juízo sobre ela, já que essa ação só se concebe em função de um imperativo coletivo, sendo o homem não apenas animal racional, mas também animal social, que sem a sociedade equivale ao nada.
11. Não se trata, assim, de passear amavelmente pelos corredores da História para vislumbrar os belos vestidos das damas de outrora ou registrar quem vai e quem vem, pois esse tipo de recenseamento reduz a História a uma lixeira onde degenerados de toda espécie depositam seus dejetos, sabendo-se bem que os que fizeram a História estão longe de ser santos.
12. É infinitamente mais satisfatório para a inteligência compreender um pouco o porquê e o como das coisas do que observar marionetes girando em círculo sem outra justificativa senão ocupar a frente do palco, pois a História é um teatro, e mesmo um teatro de sombras, e são essas sombras que é preciso tentar penetrar.
13. Toda biografia deve, contudo, prender-se a um personagem principal e acompanhá-lo do nascimento à morte, operação essencial, desde que não se encerre estreitamente em seu corpo, sob o risco de ofuscar-se com os holofotes que o iluminam, já que todo personagem tem um antes e um depois nos quais reside o verdadeiro interesse, e se a análise excessiva deixa apenas farrapos e nem todos podem, como Cuvier, reconstituir o passado a partir de fragmentos, no caso de Ana da Bretanha a colheita documental pode ser rica, desde que se abandonem as ideias feitas e as imagens complacentes difundidas sobre a duquesa.
14. A importância de Ana da Bretanha reside em marcar um acontecimento essencial para a França e para a Bretanha, a união desses dois Estados, sem a qual nem uma nem outra seriam o que são, sendo inútil reavivar querelas ultrapassadas sobre quem tinha razão ou sobre o destino que a Bretanha teria tido sem a França, pois o fato está consumado, e importa sobretudo fazer justiça a todos os que contribuíram para esse acontecimento por trás da imagem um tanto melancólica de uma menina de onze anos lançada, por seu nascimento, num mundo cruel regido unicamente pela lei da selva.
15. Pequena, manca e sem beleza particular, Ana foi no entanto duquesa soberana da Bretanha e duas vezes rainha da França, prova de que a História por vezes surpreende.
