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Deuses

A. J. PERNETY. Fables egyptiennes et grecques.

Capítulo Segundo — Dos Deuses do Egito

  • Não se pode revogar em dúvida que a pluralidade dos deuses foi admitida pelo povo do Egito, e os historiadores mais antigos asseguram que gregos e outras nações não tinham outros deuses senão os dos egípcios, apenas sob nomes diferentes.
    • Heródoto (l. 2) contava doze deuses principais que os gregos haviam tomado dos egípcios com seus próprios nomes, acrescentando que estes últimos foram os primeiros a erigir altares e elevar templos aos deuses
    • Plutarco — refere que uma parte considerável do Egito, a Tebaida, não reconhecia nenhum deus mortal, mas um Deus sem começo e imortal, chamado na língua do país de Cneph, e segundo Estrabão, Knuphis
    • O que foi referido sobre Hermès e Jâmblico prova ainda mais claramente que os mistérios dos egípcios não tinham por objeto os deuses como Deus nem seu culto como culto da Divindade
  • Ísis e Osíris, sobre os quais gira quase toda a teologia egípcia, eram, ao se recolherem os sentimentos de diversos autores, todos os dois do paganismo — Ísis era identificada com Ceres, Juno, a Lua, a Terra, Minerva, Prosérpina, Tétis, a mãe dos deuses ou Cibele, Vênus, Diana, Belona, Hécate, Ramnúsia e a própria Natureza, o que lhe valeu o epíteto de Miriônima, ou a Deusa dos mil nomes.
    • Da mesma forma que Ísis era tomada por todas as deusas, Osíris era tomado por todos os deuses: uns dizem que era Baco; outros o identificam com Serápis, o Sol, Plutão, Júpiter, Amon, Pã
    • Hesíquio — identifica Osíris com Átis, Adônis, Ápis, Titã, Apolo, Febo, Mitra, o Oceano etc.
    • As interpretações mal compreendidas dos hieróglifos inventados pelos filósofos e sacerdotes deram origem a essa multidão de deuses que Hesíodo (Teogonia) eleva a 30.000
    • Trimégiste, Jâmblico, Pselo e vários outros não determinaram o número, mas disseram que os céus, o ar e a terra estavam deles repletos
    • Máximo de Tiro — afirma, falando de Homero, que esse poeta não reconhecia lugar algum na terra que não tivesse seu deus
    • A maioria dos pagãos considerava a própria Divindade como tendo os dois sexos e a chamava de Hermafrodita — o que levou Valério Sorano a dizer: “Júpiter onipotente, progenitor e genitriz dos reis, das coisas e dos deuses, deus único e tudo”
  • Essa confusão tanto nos nomes quanto nos próprios deuses deve convencer de que aqueles que os inventaram não podiam ter em vista senão a Natureza, suas operações e suas produções — e como a Grande Obra é um de seus efeitos mais admiráveis, os primeiros que a encontraram, ao considerarem sua matéria, sua forma, as diversas mudanças que lhe ocorriam durante as operações e seus efeitos surpreendentes, tomaram ensejo para dar-lhe todos esses nomes.
    • Michel Maïer (Arcana Arcanissima) — citado como referência para a relação entre a Grande Obra e as principais partes do universo, como o Sol, a Lua, as estrelas, o fogo, o ar, a terra e a água
    • Tudo o que se forma na Natureza faz-se pela ação de dois princípios — um agente, outro paciente —, análogos ao macho e à fêmea nos animais: o primeiro quente, seco e ígneo; o segundo frio e úmido
    • Os sacerdotes do Egito personificaram a matéria de sua arte sacerdotal e chamaram de Osíris, ou fogo oculto, o princípio ativo que faz as funções de macho, e de Ísis o princípio passivo que ocupa o lugar de fêmea
    • Designaram o primeiro pelo Sol, por causa do princípio de calor e de vida que esse astro difunde em toda a Natureza; e o segundo pela Lua, por considerá-la de natureza fria e úmida
    • O fixo e o volátil, o quente e o úmido sendo as partes constitutivas dos mixtos, com certas partes heterogêneas que neles se encontram sempre misturadas — e que são a causa da destruição dos indivíduos — acrescentaram um terceiro princípio, ao qual deram o nome de Tífon, ou mau princípio
    • Mercúrio foi dado como adjunto a Osíris e Ísis para socorrê-los contra as empresas de Tífon, pois Mercúrio é como o elo e o meio que reúne o quente e o frio, o úmido e o seco, o nó pelo qual o sutil e o espesso, o puro e o impuro se encontram associados; e não se faz conjunção alguma do Sol com a Lua sem que Mercúrio, vizinho do Sol, esteja presente
  • Osíris e Ísis foram, portanto, considerados como esposo e esposa, irmão e irmã, filhos de Saturno segundo uns, filhos de Céus segundo outros, enquanto Tífon passava apenas por seu irmão uterino, pois a ligação das partes homogêneas e radicais dos mixtos com as partes heterogêneas e acidentais se faz na mesma matriz, ou nas entranhas da terra.
    • Diodoro da Sicília — fonte para a filiação de Osíris e Ísis a Saturno
    • Kircher (p. 179) — fonte para a filiação a Céus
    • Todas as más qualidades atribuídas a Tífon revelam perfeitamente o que se pretendia significar por ele
  • Essas quatro personagens — Osíris, Ísis, Mercúrio e Tífon — eram entre os egípcios as principais e mais célebres: três passavam por deuses e Tífon por um espírito maligno, sendo do tipo dos deuses fabricados artisticamente pela mão dos homens, de que Hermès fala a Asclépio.
    • A eles se acrescentou Vulcano, inventor do fogo — que Diodoro faz pai de Saturno —, porque o fogo filosófico é absolutamente necessário na obra hermética
    • Palas ou a sabedoria foi também associada, representando a prudência e a habilidade na condução do regime para as operações
    • O Oceano, pai dos deuses, e Tétis, sua mãe, vieram a seguir com o Nilo — isto é, a água — e enfim a Terra, mãe de todas as coisas; pois segundo Orfeu, a terra fornece as riquezas
    • Saturno, Júpiter, Vênus, Apolo e alguns outros deuses foram admitidos, bem como Hórus, como filho de Osíris e Ísis
  • Não apenas as coisas, mas suas virtudes e propriedades físicas tornaram-se deuses no espírito do povo, à medida que se esforçava por demonstrar-lhes a excelência.
    • Santo Agostinho (De Civit. Dei, l. 4), Lactâncio e Eusébio — mencionados como fontes cristãs sobre o tema
    • Cícero (l. 2, De Nat. Deor.) e Dionísio de Halicarnasso (l. 2, Antiquit. Roman.) — pensam que a variedade e a multidão dos deuses do paganismo nasceram das observações que os sábios haviam feito sobre as propriedades do céu, as essências dos elementos, as influências dos astros e as virtudes dos mixtos
    • Imaginou-se que não havia planta, animal, metal ou pedra especificada na terra que não tivesse sua estrela ou seu gênio dominante
  • Além dos deuses já mencionados, chamados por Heródoto (l. 2) de grandes deuses e considerados pelos egípcios como celestes segundo Diodoro, havia ainda, segundo esse mesmo autor (l. I, c. 2), gênios que foram homens mas que, durante a vida, se destacaram em sabedoria e se tornaram notáveis por seus benefícios à humanidade.
    • Diodoro — cita: “Alguns deles, dizem, foram seus reis e tinham os nomes dos deuses celestes; outros tinham nomes que lhes eram próprios. O Sol, Saturno, Réia, Júpiter chamado Amon, Juno, Vulcano, Vesta e enfim Mercúrio. O primeiro se chamava Sol, tal como o astro que nos ilumina. Mas vários de seus sacerdotes sustentavam que era Vulcano, inventor do fogo, e que essa invenção havia levado os egípcios a fazê-lo seu rei”
    • O mesmo autor acrescenta que após Vulcano reinou Saturno, que desposou sua irmã Réia e foi pai de Osíris, Ísis, Júpiter e Juno — sendo que esses dois últimos obtiveram o império do mundo por sua prudência e valor
  • Júpiter e Juno, segundo Plutarco (De Isid. et Osir.), geraram cinco deuses conforme os cinco dias intercalares dos egípcios — a saber, Osíris, Ísis, Tífon, Apolo e Vênus; Osíris foi cognominado Denis e Ísis, Ceres.
    • Quase todos os autores concordam que Osíris era irmão e marido de Ísis, assim como Júpiter era irmão e marido de Juno
    • Lactâncio e Minúcio Félix — dizem que Osíris era filho de Ísis
    • Eusébio — chama-o de marido, irmão e filho dela
  • Se é difícil conciliar todas essas qualidades e títulos numa mesma pessoa, não é menos difícil explicar como, segundo os egípcios, Osíris e Ísis contraíram matrimônio no ventre de sua mãe e como Ísis dele saiu grávida de Arueris — o antigo Hórus — que passou por filho de ambos.
    • Manéton, citado por Plutarco — fonte para essa narrativa sobre Arueris
    • De qualquer modo que se interprete essa ficção, ela parecerá sempre extravagante para quem a veja pelos olhos dos mitólogos que queiram explicá-la historicamente, politicamente ou moralmente — ela não convém a nenhum desses sistemas, enquanto o da Filosofia Hermética a desenvolve com clareza
  • Os egípcios, segundo o mesmo Plutarco, contavam muitas outras histórias marcadas pelo mesmo cunho de obscuridade e puerilidade — que Réia, após conhecer Saturno em segredo, teve depois relação com o Sol e em seguida com Mercúrio, pondo no mundo Osíris.
    • Diodoro da Sicília — acrescenta que se ouviu no momento do nascimento de Osíris uma voz que dizia: “O Senhor de tudo nasceu”
    • No dia seguinte nasceu Arueris, ou Apolo, ou Hórus o antigo
    • No terceiro dia nasceu Tífon — não pelas vias ordinárias, mas por um lado de sua mãe arrancado à força
    • Ísis apareceu no quarto dia, e Neftis no quinto
  • Heródoto nos ensina que Ísis e Osíris eram os deuses mais respeitáveis do Egito e que eram honrados em todos os países, ao contrário de muitos outros que o eram apenas em Nomos particulares — termo que designa as diferentes prefeituras ou governos do Egito.
    • O que lança muita confusão e obscuridade sobre a história dessas divindades é que, em tempos posteriores, sábios pouco instruídos das intenções e ideias de Mercúrio Trimégiste consideraram esses deuses como personagens que outrora governaram o Egito com sabedoria e prudência
    • Outros os consideraram como seres imortais por natureza que haviam formado o mundo e arranjado a matéria na forma que conserva hoje
  • Essa variedade de sentimentos fez perder de vista o objeto que havia tido o inventor dessas ficções — que as havia, aliás, tão profundamente sepultado na obscuridade e nas trevas dos hieróglifos que eram ininteligíveis e inexplicáveis em seu verdadeiro sentido para qualquer outro que não fosse os sacerdotes, únicos confidentes do segredo da Arte Sacerdotal.
    • Por mais crédulo que seja o povo, é preciso apresentar-lhe as coisas de maneira verossímil — foi necessário, por isso, fabricar uma história seguida; e o que nela se misturou de pouco conforme ao que comumente se passa na Natureza não foi para o povo senão motivo de admiração
  • Essa história misteriosa — ou antes essa ficção — tornou-se o fundamento da Teologia Egípcia, que se encontrava oculta sob os símbolos dessas duas divindades, enquanto os filósofos e sacerdotes nelas viam os maiores segredos da Natureza.
    • Osíris era para os ignorantes o Sol ou o astro do dia, e Ísis, a Lua; os sacerdotes neles viam os dois princípios da Natureza e da Arte Hermética
    • As etimologias desses dois nomes contribuíam para induzir em erro: Plutarco pretendia que Osíris significava santíssimo; Diodoro, Hórus-Apolo, Eusébio e Macróbio diziam que significava aquele que tem muitos olhos, aquele que vê com clareza — e tomavam Osíris pelo Sol
    • Os filósofos, porém, viam no nome desse deus o Sol terrestre, o fogo oculto da Natureza, o princípio ígneo, fixo e radical que anima tudo
    • Ísis para o povo comum não era senão a Antiga ou a Lua; para os sacerdotes, era a própria Natureza, o princípio material e passivo de tudo
    • Apuleio (Metamorf., l. 1) — faz falar assim a deusa: “Sou a Natureza, mãe de todas as coisas, senhora dos Elementos, o começo dos séculos, a Soberana dos Deuses, a Rainha dos Manes, etc.”
    • Heródoto — ensina que os egípcios tomavam também Ísis por Ceres e acreditavam que Apolo e Diana eram seus filhos; diz alhures que Apolo e Hórus, Diana ou Bubástis e Ceres não diferem de Ísis — prova de que o segredo dos sacerdotes havia um pouco transpirado para o público
    • Os sacerdotes haviam encontrado a arte de velar seus mistérios, seja apresentando Osíris como um homem mortal cuja história narravam, seja dizendo que era não um homem mortal, mas um astro que cobria o universo inteiro, e o Egito em particular, de tantos benefícios pela fertilidade e abundância que proporcionava
    • Sabiam ainda desviar a atenção daqueles que, suspeitando algo de misterioso, procuravam instruir-se e penetrar no assunto — dando-lhes lições de Física; e muitos filósofos gregos hauriram sua filosofia nesse tipo de instruções
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