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Osíris
A. J. PERNETY. Fables egyptiennes et grecques.
Capítulo Terceiro — História de Osíris
- Osíris e Ísis, tornados esposos, dedicaram todos os seus cuidados a fazer a felicidade de seus súditos, e vivendo em perfeita união trabalharam de concerto para polir seu povo, ensinar-lhe a agricultura, dar-lhe leis e as artes necessárias à vida.
- Diodoro da Sicília (l. I, c. 1) e Plutarco (De Iside et Osiride) — fontes para essa narrativa
- Ensinaram entre outras coisas o uso dos instrumentos e a mecânica, a fabricação de armas, o cultivo da vinha e da oliveira, e os caracteres da escrita com que Mercúrio, ou Hermès, ou Thaut os havia instruído
- Ísis construiu, em honra de seus pais Júpiter e Juno, um templo célebre por sua grandeza e magnificência, e mandou construir dois outros pequenos de ouro — um em honra de Júpiter celeste, outro menor em honra de Júpiter terrestre ou Rei seu pai, chamado por alguns de Amon
- Vulcano teve também um templo soberbo, e cada deus teve seu templo, seu culto, seus sacerdotes e seus sacrifícios, segundo Diodoro
- Os egípcios pretendem que Osíris honrou e reverenciou particularmente Hermès como inventor de muitas coisas úteis à vida — Hermès teria sido o primeiro a mostrar aos homens a maneira de pôr por escrito seus pensamentos, dar nomes convenientes às coisas, instituir as cerimônias do culto de cada deus, observar o curso dos astros, inventar a música, a aritmética, a medicina, a arte dos metais, a lira de três cordas, e regular os três tons da voz — o agudo tirado do Verão, o grave do Inverno e o médio da Primavera
- Hermès teria ainda ensinado aos gregos a maneira de interpretar os termos, donde lhe veio o nome de Hermès, que significa intérprete
- Osíris, havendo assim disposto tudo com sabedoria e tornado seus Estados florescentes, concebeu o desígnio de fazer o universo inteiro participar da mesma felicidade, reunindo para isso um grande exército — menos para conquistar o mundo pela força das armas do que pela doçura e pela humanidade.
- Antes de partir para sua expedição, deu a regência a Ísis e deixou junto a ela Mercúrio como conselheiro, com Hércules constituído intendente das províncias
- Dividiu seu reino em diversos governos: a Fenícia e as costas marítimas couberam a Busíris; a Líbia, a Etiópia e países circunvizinhos, a Anteu
- Osíris levou consigo seu irmão que os gregos chamam Apolo, inventor do loureiro; Anúbis e Macedão, filhos de Osíris, seguiram seu pai — o primeiro tinha um cão por insígnia, o segundo um lobo, e os egípcios tomaram ocasião disso para representar um com cabeça de cão e o outro com cabeça de lobo.
- Osíris fez-se acompanhar também de Pã, em cuja honra os egípcios construíram na Tebaida uma cidade chamada Quemnim, ou Talhada no pão
- Maron e Triptólemo também o acompanharam — o primeiro para ensinar aos povos o cultivo da vinha, o segundo o dos grãos
- Nove jovens moças sob a condução de Apolo acompanhavam a expedição; os gregos as chamaram as nove Musas e disseram que Apolo havia sido seu mestre, donde lhe deram o nome de músico e inventor da música
- Durante esse tempo, dizem os autores, o Nilo inundou a maior parte do Egito quando do nascimento da Estrela Cão Sírio — isto é, no começo da canícula — e o sábio governador Prometeu, transtornado de dor à vista da desolação de seu país e de seus habitantes, quis de desespero dar-se a morte; Hércules veio felizmente em socorro e conseguiu fazer o Nilo retornar ao seu leito.
- A rapidez do rio e a profundidade de suas águas lhe valeram o nome de Águia
- Osíris estava então na Etiópia, onde, vendo que o perigo de tal inundação ameaçava todo o país, fez erguer diques nos dois lados do rio de modo que, contendo as águas em seu leito, esses diques deixavam escapar contudo tanta água quanto era necessária para fecundar o terreno.
- Dali atravessou a Arábia e chegou até os confins das Índias, onde construiu várias cidades — a uma das quais deu o nome de Nisa, em memória daquela onde havia sido criado — e plantou a hera, o único arbusto cultivado nessas duas cidades
- Percorreu muitos outros países da Ásia, veio depois à Europa pelo Helesponto, e ao atravessar a Trácia matou Licurgo, rei bárbaro que se opunha a sua passagem, colocando em seu lugar o velho Maron
- Estabeleceu Macedão filho como rei da Macedônia e enviou Triptólemo à Ática para ensinar a agricultura
- Deixou por toda parte marcas de seus benefícios, devolveu os homens, então inteiramente selvagens, às doçuras da sociedade civil, ensinou-lhes a construir cidades e aldeias, e retornou finalmente ao Egito pelo mar Vermelho, coberto de glória, após ter feito erigir nos lugares por onde passou colunas e outros monumentos com seus feitos gravados
- Ísis e Mercúrio lhe decretaram as honras divinas e instituíram cerimônias misteriosas em seu culto
- Tal é a história da expedição desse pretenso rei do Egito, conforme o que relata Diodoro da Sicília, que a conta sem dúvida da maneira como era narrada no país.
- Não surpreende que se tenha suposto Osíris muito religioso e pleno de veneração por Vulcano e Mercúrio, pois ele lhes devia tudo o que era — Vulcano era seu avô, inventor do fogo, e o principal agente da Natureza, enquanto o próprio Osíris era um fogo oculto.
- Diodoro descreve a descoberta do fogo por Vulcano nos seguintes termos: “Um raio tendo posto fogo em uma árvore durante o inverno, a chama se comunicou às árvores vizinhas. Vulcano aí acorreu, e sentindo-se aquecido, recreado e reanimado pelo calor, forneceu ao fogo novas matérias combustíveis, e tendo-o assim mantido, fez vir outros homens para testemunhar o espetáculo, proclamando-se seu inventor”
- Esse fogo não é senão o de nossas cozinhas, conhecido mesmo antes do Dilúvio — Caim e Abel o empregaram em seus sacrifícios; Tubalcaim o usou nos trabalhos de ferro, cobre e outros metais
- O fogo cuja invenção se atribui a Vulcano era diferente do de nossas forjas — era o fogo de que os filósofos fazem tão grande mistério; o fogo cuja invenção, segundo Artéfio, demanda um homem habilidoso, engenhoso e sábio na Ciência da Natureza; o fogo que deve ser administrado geometricamente segundo o mesmo Artéfio e d'Espagnet; clinicamente segundo Flamel; e por peso e medida segundo Raimundo Lúlio
- Os sacerdotes e filósofos instruídos por Hermès conheciam esse outro fogo, que é o principal agente da Arte Sacerdotal ou Hermética, mas guardavam profundo silêncio a seu respeito, pois fazia parte do segredo que lhes era confiado
- Vulcano era esse fogo personificado por eles, e encontrava-se por esse meio avô de Osíris — ou do fogo oculto na pedra dos filósofos, que d'Espagnet chama de mineira de fogo
- Para conciliar todas as contradições aparentes dos autores sobre a genealogia de Osíris, é preciso ter diante dos olhos o que se passa na obra hermética e os nomes que os filósofos deram em todos os tempos aos diferentes estados e às diversas cores principais da matéria no curso das operações.
- Essa matéria é composta de uma coisa que contém duas substâncias — uma fixa e outra volátil, ou água e terra —; chamaram uma de macho e outra de fêmea, e desses dois reunidos nasce um terceiro, que é seu filho sem diferir de seu pai e de sua mãe, que ele encerra em si quanto à substância radical
- A matéria posta no vaso ao fogo filosófico chamado Vulcano dissolve-se, putrefaz-se e torna-se negra pela ação desse fogo — é então o Saturno dos filósofos, que se torna por consequência filho de Vulcano, como o chama Diodoro
- Essa cor negra desaparece, a branca e a vermelha tomam o lugar sucessivamente, a matéria se fixa e forma a pedra de fogo de Basile Valentin (Carro Triunfal do Antimônio), a mineira de fogo de d'Espagnet, o fogo oculto significado por Osíris — Osíris é, portanto, filho de Saturno
- Quando a cor negra se esvai, a matéria passa pela cinza antes de chegar à branca, e os filósofos deram o nome de Júpiter a essa cor cinza — daí Osíris ser também filho de Júpiter
- Os egípcios entendiam por Ísis e Osíris tanto a substância volátil e a substância fixa da matéria da obra quanto a cor branca e a vermelha que ela toma nas operações
- Ao simples relato dessa história, não há homem sensato que não a reconheça como ficção — formar o desígnio de ir conquistar toda a terra, reunir para isso um exército composto de homens e mulheres, de sátiros, músicos e dançarinas, e pretender ensinar aos homens o que já sabiam não é coisa bem concertada.
- Diodoro da Sicília — cita a inscrição atribuída a Osíris: “Sou o filho mais velho de Saturno, saído de um tronco ilustre e de sangue generoso; primo do dia; não há lugar onde eu não tenha estado, e liberalmente espalhei meus benefícios sobre todo o gênero humano”
- O abade Banier (Mytholog., t. I) — mencionado como autor que narra esse relato com grande sangue frio, adotando facilmente, sem muita crítica, o que é favorável a seu sistema
- As Sagradas Escrituras — mencionadas como o livro mais antigo e mais verdadeiro de todas as histórias, que ensinam que a agricultura era conhecida antes mesmo do Dilúvio, tornando inútil recorrer à expedição de Osíris para fixar quando se começou a cultivar as terras na Ática e em outros países da Ásia e da Europa
- Osíris e Ísis são, como foi dito, o agente e o paciente num mesmo sujeito — Osíris parte para sua expedição e dirige sua rota primeiro pela Etiópia para chegar ao mar Vermelho, que bordejava o Egito, da mesma forma que a Etiópia; e esse não era o caminho mais curto, mas é a rota necessária nas operações da Grande Obra, onde a cor negra e a cor vermelha são os dois extremos.
- A negrura se manifesta primeiro no começo das operações significadas pela viagem de Osíris às Índias — d'Espagnet, Raimundo Lúlio, Filalete etc. dizem que não se pode ter êxito na obra sem percorrer as Índias
- Flamel (Désir désiré) e Rasis (Livro das luzes) — citados: “Essas coisas são criadas em nossa terra da Etiópia; branqueai vosso corvo; se quiserdes fazê-lo com o Nilo do Egito, ele tomará, depois de ter passado pela Etiópia, uma cor esbranquiçada; então conduzindo-o pelos segredos da Pérsia com isso e com isso, a cor vermelha se manifestará tal qual a da papoula no deserto”
- Osíris estando na Etiópia fez erguer diques para preservar o país — não da enchente do Nilo, mas de uma inundação capaz de devastar o território — pois a água desse rio é absolutamente necessária para tornar o país fértil.
- D'Espagnet (Cân. 88) — citado: “O movimento desse segundo círculo — da circulação dos elementos, que se faz durante a solução e a negrura — deve ser lento particularmente no começo de sua revolução, com receio de que os pequenos corvos se encontrem inundados e submersos em seu ninho, e que o mundo nascente seja destruído pelo dilúvio”
- D'Espagnet (Cân. 89) — citado em latim sobre as atenções do artista quanto à proporção e medida da água e do fogo nas operações
- O autor da história fictícia de Osíris não omitiu nada do que era necessário para dar hieroglificamente uma ideia tanto do que compõe a obra quanto das operações requeridas e dos sinais demonstrativos.
- A resolução da matéria em água é designada pelo débordement do Nilo no território de que Prometeu era rei ou governador
- A parte da matéria terrestre que se putrefaz e enegrace sobrenada a dissolução; ao passo que a fixa que encerra o fogo inato — que Prometeu roubou ao céu para reparti-lo com os homens — permanece no fundo do vaso e se encontra submersa
- As nove Ninfas ou Musas e os músicos que seguem Osíris são as partes voláteis, ou as nove Águias que o Sênior diz serem requeridas com uma parte fixa designada por Apolo
- Triptólemo preside à semeadura dos grãos e é encarregado por Osíris de instruir os povos em tudo o que concerne à agricultura — e não há alegorias mais comuns nas obras que tratam da arte hermética do que a da agricultura.
- Os filósofos herméticos falam sem cessar do grão, da escolha que se deve fazer dele, da terra onde é preciso semeá-lo e da maneira de proceder
- Raimundo Lúlio (Testament, Codicil, Livro da quintessência e alhures), Ripley e muitos outros filósofos chamam sua água mercurial de vinho branco e vinho tinto
- Embora Osíris conhecesse perfeitamente a prudência e a capacidade de Ísis para governar seus Estados durante sua expedição, deixou contudo Mercúrio junto a ela como conselheiro, sentindo a necessidade de tal conselheiro, pois Mercúrio é o mercúrio dos filósofos, sem o qual nada se pode fazer no começo, no meio e no fim da obra.
- O mercúrio é o principal agente interior da obra — é quente e úmido; dissolve, putrefaz, dispõe à geração; e o artista é o agente exterior
- Hércules, constituído governador geral de todo o império, deve, de concerto com o mercúrio, dirigir, conduzir e fazer tudo
- Se se examinar com cuidado todas as particularidades da expedição de Osíris, ver-se-á claramente que não há uma sequer que não tenha sido colocada a propósito e com desígnio — até as próprias cerimônias do culto rendido a Osíris, instituídas por Ísis com a ajuda dos conselhos de Hermès.
- Teria sido mais verdadeiro atribuir essa instituição apenas a Hermès, pois há toda aparência de que ele foi o inventor da história de Ísis e Osíris e do culto misterioso que lhes era prestado no Egito
- Se se tratasse apenas de narrar uma história real e de instituir cerimônias para reavivar sua memória, o simples relato dos fatos e as festas teriam mais que bastado para imortalizar um e outro — seria muito mais natural reavivar a memória por representações tiradas do próprio fundo da coisa
- O mistério devia, portanto, fazer suspeitar algum segredo oculto sob esses hieróglifos, que só se desvelava aos iniciados ou àqueles que se queria iniciar na Arte Sacerdotal
- As duas obras que formam o objeto dessa Arte estão compreendidas — a primeira na expedição de Osíris, a segunda em sua morte e apoteose: pela primeira se faz a pedra; pela segunda se forma o elixir.
- Osíris em sua viagem percorreu a Etiópia, depois as Índias, a Europa, e retornou ao Egito pelo mar Vermelho — como se dissesse: na primeira obra, a matéria passa primeiro pela cor negra, depois por cores variadas — a cinza, a branca —, e finalmente sobrevém a vermelha, que é a perfeição da primeira obra e a da pedra ou enxofre filosófico
- Essas cores variadas foram declaradas mais abertamente e designadas mais claramente pelos Leopardos e Tigres que a fábula supõe ter acompanhado Baco em uma viagem semelhante à de Osíris — e todo mundo convém que Osíris e Baco são uma mesma pessoa, ou, melhor dizendo, dois símbolos de uma mesma coisa
- A segunda obra é muito bem representada pelo gênero de morte de Osíris e as honras que lhe foram prestadas — e Diodoro relata que nos antigos escritos secretos dos sacerdotes que viveram no tempo de Osíris foi descoberto que seu irmão ímpio e celerado chamado Tífon o assassinou e cortou em 26 partes, que distribuiu a seus cúmplices para torná-los mais culpados e tê-los como detentores e apoiadores de sua usurpação.
- Ísis, irmã e esposa de Osíris, para vingar a morte de seu marido, chamou em seu socorro o filho Hórus, matou em combate Tífon e seus cúmplices, e se pôs com seu filho na posse da coroa
- A batalha foi dada ao longo de um rio, na parte da Arábia onde está situada a cidade que tomou o nome de Anteu, após Hércules — no tempo de Osíris — ter aí matado um príncipe tirano que portava esse nome
- Ísis, tendo encontrado os membros dispersos do corpo de seu esposo, recolheu-os com cuidado; não tendo encontrado certas partes, consagrou suas representações — daí o uso do Falo, tornado tão célebre nas cerimônias religiosas dos egípcios
- De cada membro Ísis formou uma figura humana, acrescentando aromas e cera; reuniu os sacerdotes do Egito e confiou a cada um em particular um desses depósitos, assegurando a cada um que possuía o corpo inteiro de Osíris, e recomendando expressamente que nunca revelassem a ninguém que possuíam esse tesouro
- Concedeu-lhes a terça parte dos campos cultivados do Egito
- Os sacerdotes fizeram tudo o que Ísis lhes havia recomendado, e cada um deles ainda hoje se lisonjeia de ser o possuidor do túmulo de Osíris — honram os animais a ele consagrados, e quando esses animais morrem, os sacerdotes renovam o pranto e o luto feitos pela morte de Osíris.
- Sacrificam-lhe os touros sagrados — um chamado Ápis, mantido em Mênfis; outro chamado Mnévis, mantido em Heliópolis — e todo o povo os reverencia como deuses
- Ísis, segundo a tradição dos sacerdotes, jurou após a morte de seu marido que não se casaria novamente; cumpriu a palavra e reinou tão gloriosamente que nenhum dos que após ela portaram a coroa a superou
- Após sua morte recebeu as honras dos deuses e foi enterrada em Mênfis na floresta de Vulcano, onde ainda se mostra seu túmulo
- Diodoro acrescenta que muitos pensam que os corpos desses deuses não estão nos lugares onde se diz ao povo que estão, mas que foram depositados nas montanhas do Egito e da Etiópia, perto da ilha chamada as Portas do Nilo
- Nessa ilha há um Mausoléu erguido em honra de Osíris, e todos os dias os sacerdotes do lugar enchem de leite trezentas e sessenta urnas, relembrando o luto da morte desse rei e dessa rainha, dando-lhes os títulos de deus e deusa — e por isso nenhum estrangeiro pode chegar a essa ilha
- Os habitantes de Tebas contam mais de dez mil anos, alguns dizem quase vinte e três mil, desde o reinado de Osíris e Ísis até o de Alexandre da Macedônia, que construiu no Egito uma cidade com seu nome
- Plutarco (De Isid. et Osir.) relata de que maneira Tífon fez Osíris perder a vida: Tífon, tendo-o convidado a um soberbo festim, propôs após a refeição aos convidados que se medissem num caixão de requintado trabalho, prometendo dá-lo a quem fosse do mesmo tamanho; Osíris tendo-se deitado nele, os conjurados se levantaram da mesa, fecharam o caixão e o lançaram no Nilo.
- Ísis, informada do fim trágico de seu esposo, pôs-se a procurar seu corpo; sabendo que estava na Fenícia, oculto sob um tamarindo onde as ondas o haviam lançado, foi à Corte de Biblos e pôs-se ao serviço de Astarteu para ter mais facilidade de encontrá-lo
- Encontrou-o enfim e fez tão grandes lamentações que o filho do rei de Biblos morreu de pesar — o que tocou tanto o rei seu pai que permitiu a Ísis levar o corpo e retirar-se para o Egito
- Tífon, informado do luto de sua cunhada, apoderou-se do caixão, abriu-o, despedaçou o corpo de Osíris e mandou transportar os membros para diferentes lugares do Egito
- Ísis recolheu com cuidado esses membros dispersos, encerrou-os em caixões e consagrou a representação das partes que não pôde encontrar; fez enfim enterrá-lo em Abidos, cidade situada a ocidente do Nilo
- Os antigos que colocam o túmulo de Osíris em outros lugares devem-se ao fato de que Ísis fez erigir um para cada parte do corpo de seu marido no próprio lugar onde a havia encontrado
- Reconhecendo-se de boa fé — ainda que a Escritura Santa e os historiadores não convencessem da falsidade do cálculo cronológico dos egípcios —, o restante dessa história não tem ar de verossimilhança alguma.
- Não há aparência de que uma rainha tão ilustre e conhecida quanto Ísis tivesse ido pôr-se ao serviço de um rei seu vizinho; nem de que o filho desse rei morra de pesar ao vê-la lamentar-se sobre o corpo do marido perdido; nem de que ela o encontre sob um tamarindo e o transporte de volta ao Egito
- Tais histórias não merecem ser refutadas — sua absurdidade é tão palpável que surpreende que Plutarco se tenha dignado conservá-la, e ainda mais espantoso que autores sábios a sustentem
- Longe de apresentar algo de absurdo, as circunstâncias da morte de Osíris e o que se seguiu, tomadas no sentido alegórico da Arte Sacerdotal, encerram ao contrário grandes verdades — e eis a prova pela simples exposição do que se passa na operação do elixir.
- Essa segunda operação sendo semelhante à primeira, sua chave é a solução da matéria, ou a divisão dos membros de Osíris em muitas partes
- O caixão onde esse príncipe é encerrado é o vaso filosófico selado hermeticamente
- Tífon e seus cúmplices são os agentes da dissolução
- A dispersão dos membros do corpo de Osíris é a volatilização do ouro filosófico; a reunião desses membros indica a fixação — ela se faz pelos cuidados de Ísis ou a Terra, que, como um ímã, dizem os filósofos, atrai a si as partes volatilizadas
- Então Ísis, com o socorro de seu filho Hórus, combate Tífon, mata-o, reina gloriosamente e se reúne enfim a seu caro esposo no mesmo túmulo — isto é, a matéria se dissolve, coagula e fixa no mesmo vaso, pois um axioma dos filósofos é: “a dissolução do corpo é a coagulação do espírito”
- Hórus, filho de Osíris e Ísis, é reconhecido por todos os autores como sendo o mesmo que Apolo — e sabe-se também que Apolo matou a flechadas a serpente Píton, que não é senão o anagrama de Tífon; mas esse Apolo deve ser entendido como o Sol ou ouro filosófico, que é a causa da coagulação e da fixação.
- Osíris foi enfim posto no rango dos deuses por Ísis sua esposa e por Mercúrio, que instituiu as cerimônias de seu culto — e é preciso notar duas coisas a esse respeito.
- Primeiro: os deuses no rango dos quais Osíris foi colocado não podem ser senão deuses fabricados pela mão dos homens — isto é, os deuses químicos ou herméticos; Mercúrio Trimegisto o diz positivamente no Asclépio
- Segundo: Mercúrio é igualmente o nome do Mercúrio dos filósofos e de Hermès Trimegisto — um e outro trabalharam com Ísis na deificação de Osíris; o filosófico agindo no vaso de concerto com Ísis, e o filósofo conduzindo exteriormente as operações; daí ter-se dado a um e a outro o título de Conselheiro de Ísis, que nada empreendida sem eles
- Foi, portanto, Trimegisto quem determinou o culto de Osíris e instituiu as cerimônias misteriosas para que fossem símbolos e alegorias permanentes tanto da matéria quanto das operações da Arte Hermética ou Sacerdotal
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