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PERNETY

A. J. PERNETY. Fables egyptiennes et grecques.

Introdução

  • Tudo entre os egípcios tinha um ar de mistério, segundo o testemunho de São Clemente de Alexandria, pois suas casas, templos, instrumentos, vestes e até seus gestos eram símbolos e representações de algo grandioso.
    • São Clemente de Alexandria — fonte citada (Stromat., l. 1)
    • Esse gosto pelo simbolismo foi haurido nas instruções do maior homem que jamais apareceu, chamado Thoth ou Phtath por seus compatriotas, Taut pelos fenícios e Hermès Trimégiste pelos gregos
    • Eusébio — fonte citada (l. 1, c. 7) para o nome fenício Taut
    • A Natureza parecia tê-lo escolhido como seu favorito, e Deus lhe havia infundido as artes e as ciências para que instruísse o mundo inteiro
  • Diante da superstição introduzida no Egito, que havia obscurecido as ideias que os ancestrais transmitiam sobre Deus, Hermès inventou símbolos tão sutis e difíceis de compreender que apenas os sábios mais penetrantes poderiam ver com clareza, enquanto o povo comum não encontraria neles senão motivo de admiração.
    • Para transmitir suas ideias puras à posteridade, Hermès escolheu um número determinado de homens, os mais aptos a guardar seu segredo, e apenas entre aqueles que podiam aspirar ao trono
    • Esses homens foram estabelecidos como Sacerdotes do Deus vivo e instruídos em todas as ciências e artes, com a explicação do significado dos símbolos e hieróglifos imaginados por Hermès
    • O autor hebraico do livro intitulado A Casa de Melquisedec fala de Hermès nos seguintes termos: “A casa de Canaã viu sair de seu seio um homem de consumada sabedoria, chamado Adris ou Hermès. Ele instituiu as primeiras escolas, inventou as letras e as ciências matemáticas, ensinou aos homens a ordem dos tempos, deu-lhes leis, mostrou-lhes a maneira de viver em sociedade e de manter uma vida doce e graciosa; aprenderam com ele o culto divino e tudo o que poderia contribuir para que vivessem felizes; de modo que todos os que depois dele se tornaram notáveis nas artes e nas ciências ambicionavam portar o mesmo nome de Adris”
  • Entre todas as artes e ciências, havia uma que Hermès comunicou aos sacerdotes sob a condição de que a guardassem com segredo inviolável, obrigando-os por juramento a não divulgá-la senão àqueles que, após longa prova, fossem julgados dignos de sucedê-los.
    • Esse saber era chamado de Arte dos Sacerdotes, conforme atestam Salamas (De mirabil. mundi), Mahumet Ben Almaschaudi em Gelaldinus, Ismaël Sciachinicia e Gelaldinus
    • Alkandi menciona Hermès nos seguintes termos: “No tempo de Abraão vivia no Egito Hermès ou Idris segundo; que a paz seja sobre ele; e foi cognominado Trimégiste porque era Profeta, Rei e Filósofo. Ensinou a Arte dos metais, a Alquimia, a Astrologia, a Magia, a ciência dos Espíritos… Pitágoras, Bentecle (Empédocles), Arquelaos o Sacerdote, Sócrates, orador e filósofo, Platão, autor político, e Aristóteles o lógico, hauriram sua ciência nos escritos de Hermès”
    • Eusébio declara expressamente, seguindo Manéton, que Hermès foi o instituidor dos hieróglifos, que os ordenou e os revelou aos sacerdotes, e que Manéton, Grão-Sacerdote dos Ídolos, os explicou em língua grega a Ptolomeu Filadelfo
    • Os hieróglifos eram considerados sagrados e mantidos ocultos nos lugares mais secretos dos templos
  • O grande segredo observado pelos sacerdotes e as altas ciências que professavam fizeram com que fossem respeitados em todo o Egito, e o mistério que faziam dessas ciências irritava ainda mais a curiosidade alheia.
    • Pitágoras — citado por São Clemente de Alexandria (l. 1, Strom.) — sempre ávido de aprender, consentiu até em sofrer a circuncisão para ser admitido entre os iniciados
    • As ciências eram transmitidas apenas no fundo do santuário — conforme Justino (Quaest. ad orthod.) — e somente àqueles julgados dignos pela extensão de seu gênio e por sua probidade
  • As figuras hieroglíficas, que deveriam servir de fundamento inabalável para sustentar a verdadeira religião em toda a sua pureza, tornaram-se ocasião de queda para o povo ignorante, pois os sacerdotes, temendo violar o segredo, foram obrigados a dar explicações forçadas que degeneraram em abuso.
    • Os sacerdotes acrescentaram símbolos arbitrários aos que Hermès havia inventado e fabricaram fábulas que se multiplicaram com o tempo
    • O povo acostumou-se insensibentemente a considerar como deuses as próprias coisas que lhe eram apresentadas apenas para evocar a ideia do único Deus vivo
  • Não surpreende que o povo tenha se deixado iludir por ideias tão bizarras, pois os sacerdotes raramente se exprimiam com ele senão de modo simbólico, e o povo tomava tudo ao pé da letra.
    • Os egípcios, tidos como os mais espirituais e esclarecidos de todos os homens, dificilmente poderiam ter caído em absurdos tão grosseiros quanto os que lhes são atribuídos
    • Orfeu, chamado pelo mais sábio dos gregos por Diodoro da Sicília, transformou-se, por assim dizer, no Egito e se apropriou das ideias e raciocínios dos sacerdotes, a ponto de seus hinos anunciarem antes um sacerdote egípcio do que um poeta grego
    • Orfeu foi o primeiro a transportar para a Grécia as fábulas dos egípcios, mas não é provável que tenha querido apresentá-las como realidades
    • Homero e Hesíodo são questionados: teriam querido, a sangue frio, enganar os povos apresentando como histórias verdadeiras fatos inventados e personagens que jamais existiram?
  • Um discípulo tornado mestre transmite comumente suas lições da mesma maneira e segundo o mesmo método com que as recebeu; tendo sido instruídos por fábulas, hieróglifos, alegorias e enigmas, os autores antigos usaram dos mesmos recursos.
    • Tratando-se de mistérios, escreveram misteriosamente — e não era necessário advertir os leitores, pois os menos perspicazes podiam perceber
    • Os títulos das obras de Eumolpo, Menandro, Melantius, Jâmblico, Evante e muitos outros, repletos de fábulas, convencem de que pretendiam ocultar os mistérios sob o véu das ficções
  • Jâmblico se explica assim no começo de sua obra: “Os escritores do Egito, pensando que Mercúrio havia inventado tudo, atribuíam-lhe todas as suas obras. Mercúrio preside à sabedoria e à eloquência; Pitágoras, Platão, Demócrito, Eudoxo e vários outros foram ao Egito instruir-se pela frequentação dos sábios sacerdotes daquele país. Os livros dos assírios e dos egípcios estão repletos das diferentes ciências de Mercúrio, e as colunas as apresentam aos olhos do público. Estão cheias de uma doutrina profunda; Pitágoras e Platão hauriram delas sua filosofia.”
    • Jâmblico — autor e obra citados no início de seu tratado sobre os mistérios egípcios
  • A destruição de várias cidades e a ruína de quase todo o Egito por Cambises, rei da Pérsia, dispersou muitos sacerdotes pelos países vizinhos e pela Grécia, onde continuaram a ensinar suas ciências misteriosamente, envolvendo-as nas trevas das fábulas e dos hieróglifos para que o povo comum, vendo, não visse nada, e ouvindo, nada compreendesse.
    • Cambises, rei da Pérsia — agente histórico da dispersão dos sacerdotes egípcios
    • Todos hauriram dessa fonte, mas uns tomavam apenas a água pura e límpida, enquanto a turvavam para os outros, que nela só encontravam lama
  • Desse estado nasceu a fonte de absurdos que inundou a terra durante tantos séculos, pois esses mistérios, mal compreendidos e mal explicados, espalharam-se pela Grécia e daí por toda a terra.
    • A maioria dos poetas, pouco familiarizados com o fundo desses mistérios, exagerou ainda mais as fábulas dos egípcios, e o mal cresceu até a vinda de Jesus Cristo, que desenganou os povos dos erros em que essas fábulas os haviam lançado
    • Hermès havia previsto essa decadência do culto divino e os erros das fábulas que deveriam tomar seu lugar — no Asclépio: “Virá o tempo, disse ele, em que os egípcios parecerão ter adorado inutilmente a Divindade com a piedade devida… Ó Egito! Ó Egito! Não restarão de tua religião senão as fábulas; elas se tornarão até incríveis para nossos descendentes; as pedras gravadas e esculpidas serão os únicos monumentos de tua piedade”
  • É certo que Hermès nem os sacerdotes do Egito reconheciam a pluralidade dos deuses, e quem ler atentamente os Hinos de Orfeu — particularmente o de Saturno —, o Asclépio de Hermès, as palavras de Parmênides o pitagórico e as obras do próprio Pitágoras encontrará expressões que manifestam o sentimento sobre a unidade de um Deus, princípio de tudo e sem princípio em si mesmo.
    • Orfeu — hino de Saturno citado, no qual se diz que esse deus está difundido em todas as partes do universo e não foi engendrado
    • Parmênides o pitagórico — mencionado como testemunho da doutrina da unidade divina
    • Jâmblico — citado como capaz por si só de convencer pela doutrina dos mistérios dos egípcios quanto à primeira causa e ao primeiro princípio de tudo
    • Os outros deuses mencionados pelos antigos não são senão diferentes denominações dos atributos divinos ou das operações da Natureza
  • Hermès e os outros sábios apresentaram ao povo as figuras das coisas como deuses apenas para manifestar um único e mesmo Deus em todas as coisas, pois quem vê a sabedoria, a providência e o amor de Deus manifestados no mundo vê o próprio Deus, já que todas as criaturas são espelhos que refletem os raios da sabedoria divina.
    • São Dionísio o Areopagita — citado como referência para essa concepção
    • Paul Ernest Jablonski — mencionado por sua obra Pantheon Aegyptiorum (Francoforte, 1751), na qual justifica perfeitamente os egípcios da idolatria ridícula que lhes é imputada
  • Os egípcios e os gregos nem sempre tomaram esses hieróglifos como puros símbolos de um único Deus; os sacerdotes, os filósofos da Grécia e os magos da Pérsia foram os únicos que conservaram essa ideia, enquanto a crença na pluralidade dos deuses se acreditou tanto entre o povo que os princípios da sabedoria não foram sempre suficientemente fortes para vencer a timidez da fraqueza humana.
    • Um sacerdote do Egito, lamentando a pueril credulidade dos gregos, disse certo dia a alguns deles — conforme Platão no Timeu: “Os gregos são crianças e serão sempre crianças”
    • Os filósofos pareciam adotar em público as absurdidades das fábulas, o que agravava ainda mais a situação
  • Essa maneira de exprimir Deus, seus atributos, a natureza, seus princípios e suas operações foi praticada em toda a Antiguidade e em todos os países, pois não se julgava conveniente divulgar ao povo mistérios tão elevados e sublimes.
    • A natureza do hieróglifo e do símbolo é conduzir ao conhecimento de uma coisa pela representação de outra totalmente diferente
    • Pitágoras — segundo Plutarco (L. de Osir. et Isid.) — ficou tão tomado de admiração ao ver a maneira como os sacerdotes do Egito ensinavam as ciências que se propôs imitá-los, e seus escritos são plenos de equívocos e sentenças veladas sob torneios de expressão muito misteriosos
    • Moisés — segundo Rambam (In exordio Geneseos) — teria escrito seus livros de maneira enigmática: “Tudo o que está contido na lei dos hebreus está escrito num sentido alegórico ou literal, por termos que resultam de certos cálculos aritméticos ou de certas figuras geométricas, de caracteres mudados, transpostos ou dispostos harmonicamente segundo seu valor. Tudo isso resulta das formas dos caracteres, de suas junções, separações, inflexões, curvaturas, direções, do que lhes falta, do que têm a mais, de sua grandeza, sua pequenez, sua abertura, etc.”
    • Salomão — mencionado como aquele que considerava os hieróglifos, os provérbios e os enigmas objeto digno do estudo de um homem sábio; nos Provérbios (c. 1): “O sábio se dedicará ao estudo das parábolas, aplicar-se-á a interpretar as expressões, as sentenças e os enigmas dos antigos sábios”; e em Abenephi: “Penetrará nos desvios e sutilezas das parábolas; discutirá os provérbios para descobrir neles o que há de mais oculto”
  • Os egípcios não se exprimiam sempre por hieróglifos ou enigmas — faziam isso apenas quando se tratava de falar de Deus ou do que havia de mais secreto nas operações da Natureza —, e os hieróglifos de um não eram sempre os hieróglifos do outro.
    • Hermès inventou a escrita dos egípcios; sabe-se que havia quatro espécies de caracteres: a primeira era a escrita vulgar, conhecida de todos e empregada no comércio da vida; a segunda era usada apenas entre os sábios para tratar dos mistérios da Natureza; a terceira era uma mistura de caracteres e símbolos; a quarta era o caráter sagrado, conhecido dos sacerdotes, usado somente para escrever sobre a Divindade e seus atributos
    • Eccl. c. 39 — referência indicada para essa classificação
    • A confusão entre esses diferentes modos de escrita ocasionou os erros em que caíram muitos antiquários, que explicavam todos os monumentos antigos conforme um único objeto
    • Para interpretar corretamente seria necessário ter modelos de todos esses diferentes caracteres — o que não se possui, restando propriamente apenas as fábulas, como Hermès havia previsto no Asclépio de Apuleio
  • Todo homem sensato que refletir honestamente sobre as absurdidades das fábulas não poderá deixar de considerar os deuses como seres imaginários, pois as divindades pagãs tiram sua origem das que os egípcios inventaram; e se no Egito essas fábulas foram imaginadas apenas para explicar simbolicamente o que se passa na Natureza, seus princípios e suas operações, é forçoso explicar as fábulas gregas antigas — as divulgadas por Orfeu, Melampo, Lino, Homero, Hesíodo — no mesmo sentido e conforme a intenção de seus autores.
    • Orfeu, Melampo, Lino, Homero, Hesíodo — mencionados como os primeiros divulgadores das fábulas gregas de origem egípcia
    • As puerilidades e absurdidades presentes nessas fábulas mostram que o desígnio de seus autores não era falar da Divindade real, pois tinham haurido em Hermès e nos sacerdotes do Egito ideias demasiado puras de Deus para falar dele de maneira tão indecente
    • Quando tratam dos altos mistérios de Deus, os autores antigos o fazem com elevação de ideias, sentimentos e expressões — sem mencionar incestos, adultérios ou parricídios
    • Os autores das fábulas personificaram, à maneira dos egípcios, os princípios que a Natureza emprega e suas operações, misturando lições de política, moral e física, e por vezes se servindo de um fato histórico para formar suas alegorias — mas essas coisas são apenas acidentais e não constituem a base do conjunto
  • É vão o esforço de explicar esses hieróglifos fabulosos pela história ou pela moral, pois quem quis fazê-lo pela história viu-se obrigado a admitir a realidade dos deuses, deusas, heróis e heroínas, ao menos como reis, rainhas e personagens históricos, deparando com um obstáculo invencível na dificuldade de ordenar tudo segundo as regras da sã cronologia.
    • As fábulas estão repletas de absurdidades e traços tão licenciosos que são infinitamente mais próprias para corromper os costumes do que para formá-los — o que revela que o objeto de seus autores não era propor modelos de virtude
    • Seria igualmente inútil torturar-se para encontrar nelas um sentido moral
  • Podem-se provavelmente distinguir quatro espécies de sentidos dados a esses hieróglifos, tanto pelos egípcios quanto pelos gregos e outras nações onde estiveram em uso.
    • O primeiro sentido — o dos ignorantes, que compõem o povo comum — tomava a história dos deuses e as fábulas ao pé da letra: daí a fonte das superstições às quais o povo é tão propenso
    • O segundo sentido — o daqueles que percebiam que essas histórias eram ficções — penetrava nos sentidos ocultos e misteriosos das fábulas e dos hieróglifos, explicando as causas, os efeitos e as operações da Natureza; esses eram os que operavam coisas surpreendentes servindo-se dos recursos da Natureza, cujos procedimentos se propunham imitar — e esse era o objeto da Arte sacerdotal, guardada sob juramento e proibida de ser divulgada sob pena de morte
    • A Arte sacerdotal não era outra senão a de fazer algo que pudesse ser a fonte da felicidade do homem nesta vida — a saber, a fonte da saúde, das riquezas e do conhecimento de toda a Natureza
    • Hermès, ao instituir os hieróglifos, não pretendia introduzir a idolatria nem ocultar as ideias que se devia ter da Divindade; seu objetivo era fazer conhecer Deus como o único Deus e impedir que o povo adorasse outros — esforçou-se por fazê-lo conhecer em todos os seres, assinalando em cada um traços da sabedoria divina
    • Se velou sob os hieróglifos alguns mistérios sublimes, não era tanto para ocultá-los ao povo quanto porque esses mistérios estavam além de seu alcance, e o povo, não podendo contê-los nos limites de um conhecimento prudente, não deixaria de abusar das instruções recebidas
  • Vários antigos afirmaram que o segredo consistia no conhecimento do que tinham sido Osíris, Ísis, Hórus e os outros pretensos deuses, e que era proibido, sob pena de morte, dizer que tinham sido homens — mas esses autores estavam certos do que avançavam?
    • Se o que dizem fosse verdade, esse segredo não teria por objeto Deus, os mistérios da Divindade e seu culto — pois Hermès, que obrigou os sacerdotes ao segredo, sabia bem que Osíris, Ísis etc. não eram deuses e não os teria apresentado como tais aos sacerdotes que instruiu na verdade, enquanto induzia o povo em erro
    • Não se pode suspeitar um homem tão grande de uma conduta tão condenável e que não se concilia de modo algum com o retrato que dele se faz
  • O terceiro sentido de que esses hieróglifos eram suscetíveis foi o da moral ou das regras de conduta; e o quarto, finalmente, era propriamente o da alta sabedoria — pelo qual se explicava, por meio das pretensos histórias dos deuses, tudo o que havia de sublime na religião, em Deus e no universo.
    • Os filósofos gregos foram instruídos nesse sentido pela frequentação que tiveram com os sacerdotes, e disso há grandes provas em todas as suas obras
    • Eudoxo — teria tido como mestre Conófis de Mênfis
    • Sólon — teria tido como mestre Sonquis de Saís
    • Pitágoras — teria tido como mestre Enúfis de Heliópolis
    • A Arte sacerdotal propriamente dita não foi ensinada a todos esses filósofos — pois quem diz arte diz algo prático, e o conhecimento de Deus, da moral e da filosofia não é uma arte
    • Os autores antigos ensinam que Hermès ensinou aos egípcios a Arte dos metais e a Alquimia
    • O padre Kircher — mesmo combatendo a pedra filosofal em todas as ocasiões em que teve de falar dela — admite, com base no testemunho da história e de toda a Antiguidade, que Hermès havia velado a arte de fazer ouro sob a sombra dos enigmas e dos hieróglifos: “É tão certo que esses primeiros homens possuíam a arte de fazer ouro, seja extraindo-o de toda espécie de matérias, seja transmutando os metais, que quem o duvidasse ou quisesse negá-lo mostraria perfeita ignorância em história. Os sacerdotes, os reis e os chefes de família eram os únicos instruídos nisso. Essa Arte foi sempre conservada em grande segredo, e aqueles que a possuíam guardaram sempre um profundo silêncio a esse respeito, com receio de que os laboratórios e os santuários mais ocultos da Natureza, sendo descobertos ao povo ignorante, este voltasse esse conhecimento em detrimento e ruína da República. O engenhoso e prudente Hermès, prevendo esse perigo que ameaçava o Estado, teve razão de ocultar essa Arte de fazer ouro sob os mesmos véus e as mesmas obscuridades hieroglíficas de que se servia para ocultar ao povo profano a parte da Filosofia concernente a Deus, aos Anjos e ao Universo” — (Oedypus Aegypt., t. II, p. 2, De Alchym., c. 1)
  • O padre Kircher, apesar de todos esses testemunhos, conclui que os egípcios não conheciam a pedra filosofal e que seus hieróglifos não tinham sua prática por objeto — o que surpreende, pois ele próprio havia copiado quase palavra por palavra autores que tratam expressamente do assunto, como os doze tratados do Cosmopolita e o Arcanum Hermeticae Philosophiae opus de d'Espagnet.
    • D'Espagnet — mencionado como autor do Arcanum Hermeticae Philosophiae opus, utilizado pelo padre Kircher em suas explicações
    • O Cosmopolita — mencionado como autor dos doze tratados utilizados pelo padre Kircher
    • O padre Kircher declara em seu prefácio sobre a alquimia dos egípcios: “Algum Aristarco se levantará sem dúvida contra mim por empreender falar de uma Arte que muitos consideram odiosa, enganosa, sofística, cheia de embustes, enquanto muitos outros a têm como uma ciência que manifesta o mais alto grau da sabedoria divina e humana. Mas que saiba que, tendo-me proposto explicar, na qualidade de Édipo, tudo o que os egípcios velaram sob seus hieróglifos, devo tratar dessa ciência que eles haviam sepultado nas mesmas trevas dos símbolos. Não é porque a aprove, ou porque pense que se possa extrair dessa ciência alguma utilidade quanto à parte concernente à arte de fazer ouro; mas porque toda a respeitável Antiguidade dela fala e no-la transmitiu sob o selo de uma infinidade de hieróglifos e figuras simbólicas. É certo que, de todas as artes e ciências que irritam a curiosidade humana, não conheço nenhuma que tenha sido atacada com mais força e melhor defendida”
    • O padre Kircher conclui — (De Alchym. Aegypt., c. 7) — que os egípcios não falavam da pedra filosofal, mas de um elixir: “uma certa substância do mundo inferior análoga ao Sol, dotada de excelentes virtudes e de propriedades tão surpreendentes que estão muito acima da inteligência humana — isto é, uma quintessência oculta em todos os mixtos, impregnada da virtude do espírito universal do mundo, que aquele que, inspirado por Deus e iluminado por suas luzes divinas, encontrasse o meio de extrair, tornar-se-ia por seu meio isento de todas as enfermidades e levaria uma vida plena de doçura e de satisfações”
  • Se o que o padre Kircher descreve não é precisamente a pedra filosofal, não se sabe em que ela consiste — pois o objeto dos filósofos herméticos antigos e modernos foi sempre extrair de um certo sujeito, por vias naturais, esse elixir ou essa quintessência, e operar, seguindo as leis da Natureza, de modo a separá-la das partes heterogêneas em que está envolvida, a fim de colocá-la em condições de agir sem obstáculos para libertar os três reinos da natureza de suas enfermidades.
    • Os filósofos dizem que o Sol é o pai desse espírito universal e a Lua sua mãe
    • Não se deve confundir os filósofos herméticos ou verdadeiros alquimistas com os “Sopradores”: estes buscam fazer ouro imediatamente com as matérias que empregam; aqueles buscam fazer uma quintessência que possa servir de panaceia universal para curar todas as enfermidades do corpo humano, e um elixir para transmutar os metais imperfeitos em ouro
    • Esses eram os dois objetos que os egípcios se propunham, segundo todos os autores antigos e modernos — e é essa Arte sacerdotal que faziam tão grande mistério, e que os filósofos manterão sempre envolta na obscuridade dos símbolos e nas trevas dos hieróglifos
    • Haled (Comment. in Hermet.) — citado: “Há uma essência radical, primordial, inalterável em todos os mixtos, que se encontra em todas as coisas e em todos os lugares; feliz aquele que pode compreender e descobrir essa secreta essência e trabalhá-la como é necessário! Hermès diz também que a água é o segredo dessa coisa, e a água recebe seu alimento dos homens. Marcunes não hesita em assegurar que tudo o que existe no mundo se vende mais caro do que essa água; pois todo mundo a possui, todo mundo dela necessita. Abuamil diz, falando dessa água, que se a encontra em todo lugar, nas planícies, nos vales, sobre as montanhas; no rico e no pobre, no forte e no fraco. Tal é a parábola de Hermès e dos Sábios a respeito de sua pedra; é uma água, um espírito úmido, cuja compreensão Hermès envolveu sob as figuras simbólicas mais obscuras e mais difíceis de interpretar”
  • A matéria de onde se extrai essa essência encerra um fogo oculto e um espírito úmido — e não surpreende que Hermès a tenha representado sob o emblema hieroglífico de Osíris, que significa fogo oculto, e de Ísis, que sendo tomada pela Lua significa uma natureza úmida.
    • Kircher — (Oedip. Aegypt., t. I, p. 176) — citado para o significado de Osíris como “fogo oculto”
    • Diodoro da Sicília — confirma que os egípcios, considerando Osíris e Ísis como deuses, dizem que percorrem o mundo sem cessar, que nutrem e fazem crescer tudo durante as três estações do ano — Primavera, Verão e Inverno —, e que a natureza desses deuses contribui infinitamente para a geração dos animais, pois um é ígneo e espiritual, o outro úmido e frio, o ar é comum a ambos, e todos os corpos são gerados por eles, enquanto o Sol e a Lua aperfeiçoam a natureza das coisas
    • Plutarco — assegura que tudo o que os gregos narram sobre os Gigantes, os Titãs, os crimes de Saturno e dos outros deuses, o combate de Apolo com Píton, as correrias de Baco, as buscas e viagens de Ceres, não difere do que concerne a Osíris e Ísis — e que tudo o que foi inventado de semelhante nas fábulas divulgadas deve ser entendido da mesma maneira, como o que se observa nos mistérios sagrados, cuja revelação ao povo é tida como um crime
  • Tudo na Natureza sendo gerado do quente e do úmido, os egípcios deram ao primeiro o nome de Osíris e ao segundo o de Ísis, dizendo que eram irmão e irmã, esposo e esposa — e foram sempre tomados pela própria Natureza.
  • Quando não se recorrer a sutilezas, será fácil descobrir o que os egípcios, os gregos etc. entendiam por seus hieróglifos e suas fábulas — pois os haviam imaginado tão engenhosamente que ocultavam várias coisas sob a mesma representação, assim como entendiam uma mesma coisa por diversos hieróglifos e diversos símbolos: os nomes, as figuras e as próprias histórias variavam, mas o fundo e o objeto não eram diferentes.
  • Sabe-se — e basta abrir as obras dos filósofos herméticos para ver à primeira vista — que eles seguiram em todos os tempos não apenas o método dos egípcios para tratar da pedra filosofal, mas empregaram também os mesmos hieróglifos e as mesmas fábulas, em todo ou em parte, segundo sua inclinação.
    • Os árabes imitaram mais de perto os egípcios porque traduziram em sua língua um grande número de tratados herméticos escritos em estilo egípcio; a proximidade dos dois países e o comércio mais frequente entre as nações também contribuiu para isso
    • Essa unanimidade de ideias e esse uso ininterrupto desde tantos séculos formam, senão uma prova irrefutável, ao menos uma presunção de que os hieróglifos dos egípcios e as fábulas foram imaginados em vista da Grande Obra e inventados para instruir apenas algumas pessoas em sua teoria e prática
  • Não é o primeiro a ter tido a ideia de explicar esses hieróglifos e essas fábulas pelos princípios, operações e resultado da Grande Obra — chamada também pedra filosofal e medicina dourada — e eles se encontram difundidos em quase todas as obras que tratam dessa Arte misteriosa.
    • Fabri de Castelnaudary — publicou no século anterior algo sobre os trabalhos de Hércules, sob o título Hercules Philochymicus; parece ter lido os filósofos herméticos, mas superficialmente, sem conseguir fazer uma concordância judiciosa nem penetrar em seus verdadeiros princípios
    • Jacques Tolle — quis abarcar toda a fábula em um pequeno tratado intitulado Fortuita; demasiado obcecado pela química vulgar, jurava apenas por Basile Valentin, que evidentemente não compreendia, pois o explicava quase sempre ao pé da letra
    • Olaus Bornchius (Prospect. Chym. Celebr.) — citado para atestar que Basile Valentin é um dos autores herméticos mais difíceis de compreender, tanto pelas alterações introduzidas em seus tratados quanto pelo véu obscuro dos enigmas, equívocos e figuras hieroglíficas com que os recheou
  • Michel Maïer produziu grande número de obras sobre essa matéria, e sua enumeração pode ser vista no Catálogo dos Autores Quimistas, metalurgistas e filósofos herméticos inserido pelo abade Lenglet du Fresnoy em sua história da Filosofia Hermética.
    • D'Espagnet — estimava entre as obras de Maïer seu tratado dos Emblemas, por representar com suficiente clareza aos olhos dos perspicazes o que a Grande Obra tem de mais secreto e oculto
    • O tratado de Michel Maïer intitulado Arcana Arcanissima serviu de canevas para a distribuição da obra em questão — embora suas ideias não sejam sempre seguidas
    • Maïer embaralhava seus raciocínios quando não queria ou não podia explicar certos traços da fábula, seja porque o segredo tão recomendado aos filósofos lhe pesasse no coração, seja porque sua discrição fosse forçada
  • Os filósofos herméticos que empregaram as alegorias da fábula são pelo menos tão obscuros quanto a própria fábula, para quem não é adepto — e só lançaram luz sobre ela na medida necessária para fazer compreender que seus mistérios não eram mistérios para eles.
    • Basile Valentin (Tratado do Vitríolo) — citado: “Lembrai-vos bem disso: trabalhai de maneira que Páris possa defender a bela e nobre Helena; impedi que a cidade de Troia seja novamente saqueada pelos gregos; fazei com que Príamo e Menelau não estejam mais em guerra e em aflição; Heitor e Aquiles logo estarão de acordo; não combaterão mais pelo sangue real; terão então uma Monarquia que deixarão mesmo em paz a todos os seus descendentes” — Basile Valentin introduz todos os principais deuses da fábula em suas doze Chaves
    • Raimundo Lúlio — fala frequentemente do Egito e da Etiópia, sempre de modo alegórico
  • Todas as explicações a serem dadas são tomadas desses autores ou apoiadas em seus textos e raciocínios — e serão tão naturais que será fácil concluir que a verdadeira química foi a fonte das fábulas, que elas encerram todos os seus princípios e operações, e que é vão torturar-se para explicá-las claramente por outros meios.
    • O uso estabelecido de explicar as Antiguidades pela história e pela moral prevaleceu a tal ponto que o preconceito faz considerar toda outra aplicação como devaneio
    • Essa obra se dirige aos que não podem sair do labirinto em que se encontram engajados seguindo os sistemas habituais, e que buscarão aqui um fio de Ariadne — que certamente encontrarão; e também aos versados na leitura assídua dos filósofos herméticos, mais aptos a proferir um julgamento são e desinteressado
    • Quanto àqueles que, cegados pelo preconceito, atribuem a egípcios, a Pitágoras, Platão, Sócrates e outros grandes homens ideias tão absurdas quanto a da pluralidade dos deuses, convida-se apenas a conciliar esse sentimento com a ideia de alta sabedoria que se reconhece em todos os seus escritos, e a realizar uma leitura mais séria e refletida de suas obras
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