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mitologia:sousa:1973:4

4 Mito pré-helênico

SOUSA, Eudoro de. DIONISO EM CRETA e outros ensaios. Lisboa: Imprensa Nacional, 2004

Mito pré-helênico e mitologia grega

1. A mitologia grega, antes tida como ponto de partida histórico a partir de Homero, revela-se agora como ponto de chegada de uma longa herança pré-helênica, cuja significação exata permanece ambígua e exige ser determinada tanto no plano histórico quanto no fenomenológico.

1.1. As descobertas da cultura minoica, do substrato mediterrâneo e de uma unidade cultural neolítica estendida do Indo ao Danúbio converteram Homero de termo inicial em termo final, e nesse percurso, entre as escavações de Cnossos e a leitura dos textos de Ugarit e Boghazköy, situa-se a tese de Martin P. Nilsson sobre a origem pré-helênica da mitologia grega.

1.2. A tese de Nilsson nasce do confronto entre a pesquisa mitográfica e a arqueológica, pois os grandes ciclos heroicos ligam-se a antiquíssimas cidades micênicas cuja importância mítica cresce na proporção de sua importância arqueológica, a ponto de os mitos servirem, desde Schliemann, de guia heurístico para a escavação dos sítios da Idade do Bronze egeia.

1.3. A concepção de uma mitologia grega essencialmente pré-helênica ainda é pouco valorizada pela filologia clássica, que, com razão, impede que pressentimentos se confundam com certezas, mas erra ao recusar deliberadamente a fecundidade de certos indícios, de modo que a compreensão rigorosa do pré-helênico acabará por levar a ciência a perdoar aos visionários algumas excursões pouco críticas pelo passado remoto.

1.4. O termo pré-helênico é bastante equívoco, já que pode designar o micênico, o minoico, o trácio, o frígio, o lídio e, em última instância, o egeo-asiânico, entendido como a parte de uma cultura antiquíssima que, desde o Neolítico, abrangia o vasto território onde depois se fixariam semitas, indo-europeus e os grandes impérios do Oriente antigo.

1.5. No sentido da tese de Nilsson, pré-helênico significa apenas micênico, isto é, a mitologia grega seria pré-helênica porque seus grandes ciclos lendários foram criados por poetas a serviço dos senhores de Micenas, Tirinto, Orcômeno, Tebas e Pilos, centros da nova cultura surgida do encontro entre aqueus e cretenses.

1.6. Os resultados de Nilsson permanecem intactos desde 1932, e sua obra sobre a religião minoico-micênica e suas sobrevivências na religião grega complementa a tese ao exigir que se determine em que medida o micênico é aqueu ou cretense, ou seja, até onde a mitologia grega é produto do espírito indo-europeu ou da cultura egeo-anatólica.

1.7. Apesar da riqueza e da firmeza metodológica dessas obras, a pergunta sobre o que significa pré-helênico continua sem resposta plenamente satisfatória, sobretudo porque quase todas as sondagens nos mitos e cultos gregos atingem um fundo pré-grego e mesmo pré-micênico.

1.8. Dizer que um mito ou rito é de origem pré-helênica significa apenas que não nasceu na Grécia clássica, deixando aberta a questão de sua verdadeira origem, seja Micenas, Creta, o Oriente semítico ou indo-europeu, o Egito ou o substrato comum a todas essas culturas, a ponto de estudiosos sérios falarem hoje de uma Perséfone de Ceram ou de uma Hainuwele de Elêusis.

1.9. O problema já não admite a simples recusa altiva de Wilamowitz, pois, embora o povo grego traga ao mundo algo irredutível ao passado oriental, um de seus traços mais característicos é a negação do componente mitológico de sua cultura, de forma análoga à cultura hebraica, amítica desde os profetas do Exílio, enquanto a helênica tende ao mesmo resultado por via de compromisso, fundindo todos os mitos num só, o mito do Homem.

1.10. Por isso se reafirma, com Nilsson, que os mitos clássicos remontam pelo menos à cultura micênica, uma vez que o grego, portador de uma tendência originária a negar a veracidade do mítico, só podia alterar, interpretar e adaptar ao próprio gênio as mitologias de povos que apenas miticamente sabiam exprimir sua vivência do real, permanecendo insolúvel a questão enquanto não se conhecer todo o processo desse contato.

1.11. Chega-se a perguntar se a mitologia grega existiu de fato, pois, embora toda a poesia grega pareça uma floresta encantada onde deuses e homens se encontram a todo instante, a beleza desses mitos é a das cinzas cristalizadas de um vulcão em extinção, e a mitopoética grega constitui a eutanásia dos mitos pré-helênicos, devendo o termo pré-helênico assumir aqui sobretudo um sentido fenomenológico.

1.12. Em todas as fases da cultura grega sucederam-se empréstimos de mitos, desde as primeiras migrações indo-europeias até as navegações micênicas na Síria e na Anatólia, e o mito encontrado era pré-helênico por preceder as épocas arcaica e clássica e por ser depois superado pela ciência e consciência helênicas, embora a história exija determinações mais precisas que nem micênico nem minoico bastam para fornecer.

2. O vocábulo pré-helênico adquire novo significado com o alargamento do horizonte histórico proporcionado pela arqueologia e pela decifração de textos orientais, o que obriga a romper o isolamento dos mitos e a abandonar o dogma da originalidade absoluta dos gregos, cuja verdadeira novidade é o Mito do Homem.

2.1. Os mitógrafos antigos, embora propensos a negar a originalidade dos mitos nacionais, jamais suspeitaram da existência de Kumarbi, equivalente oriental de Cronos, e, desde Naucrátis, Heródoto e Hecateu, o pré-helênico significava para eles sobretudo o egípcio, sendo o Egito, até o fim da Antiguidade, a pátria dos deuses e a fonte originária de suas histórias.

2.2. Os filólogos modernos mal resistiram a seguir os antigos, como mostra Paul Foucart, que em 1914 atribuiu ao Egito a origem dos mistérios de Elêusis com base em objetos egípcios encontrados sob o telestério, quando hoje se sabe, considerando a posição intermediária de Creta, que Deméter influenciou mais a Ísis helenística do que o inverso e que ela representa genuinamente a Pótnia minoica.

2.3. Considerando que épicos, líricos e trágicos extraíram seus temas da mitologia tradicional, que a poesia helenística se gaba de conhecer tradições antiquíssimas e que alguns mitos só sobrevivem porque o culto, forma mais conservadora da consciência religiosa, os reitera, é legítimo afirmar que todo mito grego é pré-helênico, desde que se lembre que o mundo pré-helênico é tão vasto quanto o mundo antigo.

2.4. O método mais fecundo no estudo da mitologia clássica consiste em romper o isolamento de cada mito, fazendo-o surgir como variante de um tema fundamental, passagem do singular ao universal que constitui a mitologia como ciência e que, ampliada recentemente, liga o pré-histórico ao subconsciente, de modo que a mitologia grega se estuda hoje sob a tríplice perspectiva da filologia clássica, da antropologia cultural e da psicologia analítica.

2.5. A ruptura do isolamento depende da amplitude dos conhecimentos históricos e da quantidade de documentos recuperados, como atesta a descoberta de Kumarbi, que confirma a inspiração oriental da Teogonia de Hesíodo, e a reabilitação de Sanchuniaton como personagem histórica, o que permite identificar o deus fenício Mot com Tânatos e Plutão, conferindo os textos de Ugarit e Hattusa novo sentido à noção de pré-helênico.

2.6. A ampliação do horizonte histórico, sobretudo pelas descobertas arqueológicas recentes e pela decifração de novos textos epigráficos, contribui mais do que qualquer outro fator para dissipar os equívocos dos estudiosos da mitologia clássica.

2.7. O principal desses equívocos é o dogma da originalidade absoluta dos gregos, pois, embora a Grécia seja para o Ocidente substrato e adstrato permanente, a filologia da segunda metade do século XIX cercou sua cultura de uma muralha contra qualquer influência asiática, em reação aos excessos do simbolismo do fim do século XVIII e início do XIX, seguido depois pelo pambabilonismo.

2.8. O simbolismo foi apressado, mas Creuzer e seus seguidores, tão atacados por Lobeck, tiveram ao menos o mérito de pressentir a historicidade de um caminho do Oriente ao Ocidente, hoje saudado pela arqueologia, ainda que o entusiasmo de quem prevê a renovação dos estudos clássicos pelo fundamento oriental ignore que a autêntica novidade grega, o Mito do Homem, já plenamente presente em Homero, não se encontra em nenhuma origem histórica, pois no caminho inverso a humanidade se dissolve em reis, sacerdotes, guerreiros e artesãos que nunca perfizeram o Homem.

2.9. Se o ser grego se esgota na atualização de uma virtualidade inédita de humanização, o pré-helênico, seja egeu, africano ou asiático, representa o desumano nos mitos que a Grécia preteriu, no homem, na natureza e na divindade, sendo que a barbárie e a crueldade presentes em Homero são relativas aos limites da humanidade definida pelo próprio poeta, e a associação semântica entre bárbaro, cruel e desumano só se completa num longo processo que o cristianismo encerrou.

3. O pré-helênico designa também uma situação histórica desumana, tanto na barbárie quanto no requinte da civilização minoica de feição matriarcal, e a compreensão dessa mitologia de uma natureza anterior à Natureza exige recusar a alegoria e tomar o mito como dado, não como incógnita.

3.1. Pré-helênico pode qualificar uma situação histórica, a profundidade do mundo antigo onde se enraízam florações que só dão frutos tardios à cultura grega, e suas determinações cronotópicas, como egeo-cretense, heládico, cicládico, minoico ou micênico, são indispensáveis para dar sentido aos traços culturais conservados na poesia e no culto, ao mesmo tempo que o termo, em contraste com helênico, assinala o desumano de um mundo tenebroso miraculosamente superado.

3.2. A desumanidade pré-helênica possui outras dimensões, reconhecidas depois de pressentidas, pois há mais de um século a história e a etnologia, unindo esforços, chegaram aonde outros, movidos pelo espírito de aventura, haviam antevisto a sobrevivência de um mundo perdido.

3.3. As ciências históricas e filológicas acompanham hoje um movimento de contestação de dogmas antes indiscutíveis, como na tese que antepõe Orfeu a Homero, fazendo deste o plagiador e não o plagiado, ou na que atribui o Platão e o Aristóteles conhecidos a Pólemon e Teofrasto, teses que, independentemente de sua verossimilhança, mostram a ciência moderna reabilitando visões antigas, como a do conceito de Escola em que o discípulo se apagava na glória do mestre.

3.4. A digressão serve para recordar uma verdade esquecida, a de que o método precede a ideia na ordem da verificação, mas a ideia precede o método na ordem da invenção, e de que metais e cristais preciosos raramente vêm à luz despidos das escórias que os prendiam à terra.

3.5. A situação pré-helênica é desumana, por definição helênica da humanidade, não só na barbárie mas também no requinte da civilização minoica do segundo milênio a.C., nascida em clima ginecocrático ou ao menos fora do domínio exclusivo dos homens, ao passo que o grego se orgulha de ser grego, homem e livre, e suas deusas, como Atena nascida do cérebro de Zeus e Hera desposada por ele, só foram admitidas após serem genealogicamente absolvidas da maternidade ou submetidas ao patriarca olímpico.

3.6. As inúmeras variantes desse complexo temático registram civilmente a opulência selvagem dos deuses pré-helênicos, e para compreendê-lo filologia, história, etnologia e psicologia recorreram à teoria do matriarcado, cuja paternidade, seja de Lafitau ou de Bachofen, importa pouco diante do fato de que a doutrina de Bachofen surgiu tão envolta em escórias que ainda hoje mal se percebe seu valor.

3.7. Contra a doutrina, a etnologia alega com razão que nada prova uma sucessão universal de promiscuidade, ginecocracia e androcracia e que os povos primitivos conhecem a família patriarcal, enquanto a filologia censura Bachofen por não datar nem criticar suas fontes e por confiar em etimologias superficiais, mas foi a etnologia, mais dócil e advertida, que reabilitou a tese na parte em que merecia.

3.8. Matriarcalismo não é primitivismo, e tanto a filologia quanto a história admitem que os imigrantes indo-europeus e semitas encontraram no Mediterrâneo povos com sacerdócio e divindade femininos preeminentes, sendo Zeus o único grande deus de nome alheio ao substrato egeo-asiânico, enquanto a etnologia mostra que os mistérios, ctônicos, agrários, noturnos e iniciáticos, alheios ao gênio indo-europeu e semítico, condizem com a cultura matriarcal neolítica e substanciam a veracidade dos mitos pré-helênicos, cuja desumanidade é a de uma natureza que não conhece o homem.

3.9. Os conceitos de mitologia e de natureza não se esclarecem independentemente um do outro, mas nenhum deles se desenvolve sem que se proponha, antes ou ao mesmo tempo, o Homem, único dado verdadeiro do problema.

3.10. A sucessão tradicional entre física, ética e dialética na filosofia grega desde Tales falseia a história, pois é provável começar pelo mais próximo, o homem, e não pelo mais distante, a natureza, de modo que o primeiro filósofo consciente de si foi o primeiro a descobrir a Natureza ao seu redor, já que os seres naturais só existem quando a Natureza existe para o Homem erguido conscientemente em seu centro, sendo centro e círculo correlativos.

3.11. Pré-helênica, a mitologia grega é a mitologia de uma natureza anterior à Natureza e de um homem anterior ao Homem, e estudá-la consiste em descobrir que seres ancestrais falam através dela.

3.12. O princípio negativo do método resume-se em guardar-se da alegoria, pois estudar a mitologia não é explicá-la, sendo ela o dado e não a incógnita, e o trabalho de reunir, comparar e classificar temas e variantes, embora necessário, é tarefa de colecionador, ao passo que o erro de antigos e modernos foi responder ao sentido dos mitos com doutrinas platônicas, heraclíticas, empedoclianas ou estoicas, quando nem a filosofia procede do mito nem o mito da filosofia.

3.13. A mitologia não é alegoria, mas tautegoria, e nessa proposição pode iniciar-se a positividade de um método que toma o mito como dado e não como incógnita.

3.14. A investigação parte da mitologia rumo a um destino ignorado, onde apenas se adivinham homens anteriores ao Homem, naturezas anteriores à Natureza e divindades menos divinas que Deus, residindo a dificuldade quase intransponível na expressão, pois o mito, como a poesia, só pode ser dito como efetivamente se diz e descreve um mundo de coisas heterônimas e heterogêneas para as quais faltam substantivos e verbos.

3.15. Antes de enfrentar essa questão sem resposta na experiência comum, convém expor de modo sintético e já interpretado a concepção de um dos mais penetrantes estudiosos contemporâneos da mitologia grega, próxima em parte da aqui defendida.

3.16. Se toda a mitologia pré-helênica tivesse sido traduzida em poesia grega sem resíduo, não haveria problema mitológico, que surge justamente nas rupturas da trama onde os gregos traíram o que não podiam entender ou traduziram o que quiseram desentender, deixando vestígios do original nos incestos de Zeus com figuras da Senhora de Creta, impostos pela primeira ordenação grega que foi a genealogia, e nas metamorfoses e catasterismos que buscavam extirpar a sacralidade pré-helênica das coisas desumanas, de modo que pelo desconexo das ideias e imagens irrompem as mensagens verídicas daquele mundo perdido.

5. A mitologia não é uma linguagem que traduza a realidade, mas uma realidade que quer exprimir-se sem mediação da linguagem, aproximável apenas pelo silêncio, pela música entendida na pausa e pela invocação de uma transcendência voltada para baixo, uma vez que o mito grego vive da morte dos mitos pré-helênicos.

5.1. Sendo o mito clássico o dado de um problema que busca saber não o que a mitologia quer dizer, mas o que efetivamente diz, a dificuldade está em que sua linguagem não admite tradução, talvez porque não existisse outra no tempo e na alma que a originaram, de modo que ou é compreendida sem mediação ou não o é de forma alguma.

5.2. Cabe indagar se a mitologia é propriamente uma linguagem no sentido em que se fala de linguagem da poesia, da filosofia ou da ciência, que supõem expressões diversas de uma mesma realidade, o que implicaria que o exprimido miticamente fosse idêntico ao que se exprimiria poética, filosófica ou cientificamente.

5.3. Se a linguagem é uma expressividade disponível que varia diante de uma realidade indiferente, talvez não haja linguagem da poesia, da filosofia nem da ciência, e certamente não da mitologia, cujas afirmações jamais se integram numa universalidade, ou então as linguagens não diferem, ou ainda nenhuma exprime a realidade, intriga que se corta com a tese de que a mitologia é uma realidade que quer exprimir-se sem mediação da linguagem.

5.4. Por isso os conceitos de natureza e mitologia não se desenvolvem separadamente, pois a natureza seria uma ideia sem linguagem própria, indiferente a todas as linguagens, que nunca penetram seu íntimo, talvez porque, como diz o poeta, a natureza não tem dentro e o único sentido íntimo das coisas é não terem sentido íntimo algum.

5.5. A consciência de que os mitos, como a natureza de que parecem falar, não têm sentido íntimo deveria ter impedido a exegese alegórica, que por mais de vinte e cinco séculos obstruiu o acesso à verdadeira essência da mitologia.

5.6. A linguagem pressupõe intimidade, e a intimidade pressupõe o Homem ou o Espírito, que interiorizou a natureza e lhe deu um dentro, razão pela qual o poeta que negava sentido íntimo à natureza se dizia o único poeta da natureza e criador de desumanidade, confirmando que a mitologia pré-helênica é mitologia do desumano, de uma natureza que não conhece o Homem e na qual ele não se reconhece.

5.7. Recuperada a possibilidade de entrever a fisionomia do mito pré-helênico através da inépcia da poesia e da arte gregas, que pretenderam reproduzir pelo ritmo o que só o rito produzia, resta celebrar a conjuração da transcendência, tanto a de cima quanto a de baixo, igualmente difíceis de responder, já que os nomes e verbos da linguagem foram forjados no magma que solidificou com os selos do pensamento racional.

5.8. A poesia enfrenta a mesma dificuldade e só a resolve abstendo-se de perguntar como, criando nova expressão para nova visão, talvez como real absoluto no sentido de Novalis, o real que renasce após percorrer a noite e regressar da morte, tal como no mito de Orfeu, pois nenhum poeta o é antes de descer aos infernos e contemplar as raízes das coisas, nem regressa sem beber do esquecimento e passar a apresentar como criação sua a imitação da origem.

5.9. O intérprete da poesia e o estudioso da mitologia precisam igualmente invocar uma transcendência que não fala linguagem alguma, já que a poesia conduz à beira do silêncio e é no silêncio que amadurecem os frutos sufocados pelas interpretações alegóricas, sendo música talvez o nome mais adequado da expressão mítica, desde que entendida mais na pausa do que no som.

5.10. Música é culto das Musas, cuja prática entre os filósofos gregos aparece como irrupção de consciência profunda e sobrevivência de um passado remoto, sendo a dança a súmula dos mistérios, a Memória a mãe das Musas e a água profunda e cristalina seu corpo sensível, elemento dos sonhos e das metamorfoses que confere a poetas e videntes sua clarividência, de modo que a harmonia silenciosa das pausas e a penumbra das águas tranquilas compõem a figura da linguagem, ou não linguagem, da mitologia.

5.11. A mitologia grega vive da morte dos mitos pré-helênicos, o que se confirma pela arqueologia, que encontra no substrato mediterrâneo a raiz da mitologia clássica, e pela reflexão, segundo a qual seria inverossímil que os gregos, ao realizar contra o mito seu ideal de humanidade, tivessem criado a substância da mitologia que precisavam negar, restando como único meio de compreender a desumanidade do mito pré-helênico deixá-lo exprimir-se em sua não linguagem, como se exprimiria uma natureza anterior ao Homem, desprovida da intimidade que só o Espírito instituiria.

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