2.5 Aceno
SOUSA, Eudoro de. Mitologia: História e mito. Organização de Joaquim Domingues. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2004.
A DISPONIBILIDADE PARA O «ACENO»
75. Na objetividade, religião, arte e filosofia são faladas sem sentido e reduzidas a rotina, embelezamento da vida e reflexão sobre métodos da ciência e da técnica, fardos para homens-coisas que só fazem coisas-objetos e que o Diabo mantém concentrados no fazer pelo fazer, ocupando o pouco lazer entre os segmentos de negócio com o jogo competitivo, em que poucos jogam e a maioria é jogada como espectadora, jogo que o Estado bem organizado fomenta para aumentar o rendimento do trabalho e que, por ser competitivo, deixa de ser jogo e se torna prolongamento do trabalho.
76. Quem se desinteressa da competição acaba marginalizado, mas há várias espécies de marginalizados, os que se vingam do próprio fracasso pelo crime, os preguiçosos, cuja preguiça pode ser apenas recusa do trabalho a contragosto, os miseráveis que trabalham sem remuneração mínima e servem de objeto de comiseração ou de pretexto para trocar de sistema, e sobretudo os que se marginalizam por descrença nas benesses do trabalho forçado pela sobrevivência, maldição bíblica do homem expulso do Paraíso que precisa inventar outro de sua lavra, preferindo-se a marginalização voluntária que conduz pela margem à trans-objetividade dos que devem ser ociosos.
77. Religiosos, artistas e filósofos que julgam poder sê-lo em plena objetividade não se dividem, pois o homem não se divide por querer, mas pensam e agem sem ir até o limite-limiar, ou tomam o limite como inultrapassável e recuam, como os prisioneiros da Caverna prontos a matar quem lhes diga que o limite é limiar, enquanto o positivismo, sedução para os que já recusam o além, provoca também a transgressão e a antipatia dos que não aceitam ser detidos, entre os quais alguns recebem a loucura divina do Fedro, aqueles que, esvaziados do si mesmo, se tornam disponibilidade inteira, vazio que atrai a plenitude e que, por mais cheio do que não é personalidade sua, permanece sempre disponível.
78. O religioso é o primeiro dos disponíveis, e o drama ritual é o drama da possessão por um deus que se oculta no homem para que o gesto hierático desoculte o mundo que é seu corpo, desenhando os contornos do único mundo em que homens e deuses convivem, ao passo que na objetividade o possuído se faz possessor e, sacrilegamente, divide em pedaços o mundo que fora corpo de um deus, obrigando os deuses dóceis a desertar, de modo que o mito, aspecto do mundo e mistério do rito, é simbolizante, e a religião simbolizante religa o originado à origem, descobrindo simultaneamente o homem no mundo e o mundo no homem, afeiçoados ao mesmo deus possessor, princípio de simpatia e sinergia mágicas sem relação com a magia como técnica.
79. A religião é mágica de todas as mágicas porque, dentro do símbolo deus-homem-mundo, nenhuma ação é eficiente, mas inficiente, sendo interdependentes o gesto humano e o sobressalto do mundo, de modo que o religioso não age como quer, mas como pode, dentro do círculo do sagrado e do papel determinado pelo aceno do deus, que reúne homem e mundo concretos como suas duas metades, configurando uma religião elementar, elemento trans-histórico de toda religião historiável, na qual a palavra deus pode ser substituída por Dioniso ou Cristo, mas não por Deus, Absoluto-Secreto ou qualquer nome do que está além do Horizonte Extremo, deixando-se em aberto as questões cristológicas.
80. Os acenantes mensageiros da Divindade são, por ora, apenas acenantes de acenos que a filosofia determinará como mensagem do Deus, possessores do homem que desempenha o drama ritual em que o símbolo arquetípico se compõe de homem e mundo, sendo o deus o que simboliza ao apossar-se das disponibilidades de cada espécie de homem conjugada a cada espécie de mundo, de modo que esse mundo se faz corpo e esse homem se faz alma do mesmo deus, constituindo-se cada polaridade singular homem-mundo pela desocultação singular de um deus mensageiro.
81. Na objetividade, de onde os deuses foram banidos, só há um Mundo e um Homem, e mesmo a imagem de Deus como Grande Arquiteto do Universo cede ao homem como único arquiteto, admitindo-se a arte apenas como técnica ou, quando muito, como coisa bela estudada pela estética, pela psicologia, pela sociologia e pela economia da arte, que tratam artista e obra como objetos sob perspectivas variadas, contra o que todo artista se rebela, e só a compreensão da obra como símbolo a arranca do domínio das coisas, ainda que belas.
82. A obra de arte é o superlativo absoluto do símbolo e vive na trans-objetividade, onde não há coisas, nem belas, e Platão foi injusto ao fazer da poesia imitação de imitações, quando poderia ter dito que ela imita as origens das coisas e não as coisas originadas, como talvez quisesse Aristóteles na Poética, de modo que a arte mostra, na reprodução de cada coisa, sua origem, sendo obra de disponíveis possuídos por um deus que começa a falar linguagem humana em palavras, sons, cores e volumes, dizendo quem é o deus acenante e esvaziando o homem para nova possessão, num desfile de deuses na Lonjura e no Outrora pelo qual o reinar dos deuses já não está de todo oculto, embora a linguagem artística do mito se revele mais como silêncio insignificado do que por palavras significativas.
83. A filosofia, como tentativa de encher de significação o silêncio entre as palavras dos mitos, vem de muito mais longe do que a história supõe, desde o pressentimento de que os deuses acenantes são mensageiros da Divindade e de que seus acenos apontam para a Origem de todos os seres-origens, podendo uma filosofia que não abandone religião e arte buscar o sentido da passagem de Heidegger, cuja interpretação anterior, ora repudiada mas mantida, fazia o aceno ir de homem a mundo quando um deus se apossa da disponibilidade humana, deixando a alma no homem e o corpo no mundo, de modo que cada deus acena para um símbolo arquetípico, encenando um drama ritual em que rito e mito, formas elementares de religião e arte, revelam seu reino desocultado.
84. Os deuses não são Deus porque podem sair de seu reino oculto quando os possessos se libertam deles ao dizer o que são, e o mito que se pode contar é que, um dia, o homem percebeu o silêncio que precede e atravessa toda linguagem mítica, silêncio à espera de significação vinda de um mito mais abrangente, talvez quando a possessão se tornou intermitente e a religião despertou do sono do culto, percebendo que os deuses são mensageiros da Divindade, mito que acompanha o desenvolvimento da metafísica até sua nudez, em que os deuses perdem algo de seu ser e a Divindade o ganha, permanecendo oculto apenas o Expedidor das mensagens, que não se confunde com nenhuma delas, de modo que não se vê como o Deus aparece em seu ser a partir do oculto reinar dos deuses, a menos que seu ser consista apenas em expedir mensagens.
85. Se o ser do Deus se subtrai a todo confronto com o presente, que é presença das mensagens, a ontofania é teocriptia, e o mesmo vale para o aceno, no qual o acenante se oculta no acenado, de modo que o mito falaria diretamente do aparecer de mundos e homens e só indiretamente dos deuses, o que parece contradizer o fato de o mito falar dos deuses como autores de diacosmeses, dificuldade que se resolve pensando que teofania e ontofania, teocriptia e ontocriptia, dependem uma da outra, pois a presença do acenado só é pensável como ausência do acenante, ausência que não é inexistência, de modo que dizer que a ontofania é teocriptia equivale a dizer que o mundo só existe porque um deus existe, e que a ocultação do mundo desocultaria o deus, numa escatologia inversa à cosmogonia, segundo a qual a ontocriptia é teofania.
86. Para sustentar sem contradição que os deuses permanecem em seu oculto reinar enquanto acenam o aceno cosmo-antropogônico, é preciso compreender que o mito fala do aceno do deus e não do deus acenante, residindo o oculto reinar nos entreacenos, de que o mito não fala, pois sua linguagem inclui o silêncio, e as contradições do percurso são deixadas à vista para mostrar que o errar é inerente ao pensar, chegando-se à conclusão provisória, talvez definitiva para Heidegger, de que nenhum falar sobre o que os deuses fazem os retira de seu oculto reinar, sem excluir que algum dos erros reconhecidos esteja prenhe de verdade.
87. Se os deuses permanecem ocultos mesmo após o aceno, também as mensagens não revelam o ser da Divindade, que permanece em seu reinar oculto, mas o texto afirma que o Deus aparece em seu ser a partir do oculto reinar dos deuses, expressão de união e separação entre Deus e deuses, em que a união prevalece, residindo talvez aí o significado do silêncio próprio da linguagem mítica, silêncio sobre o oculto reinar dos deuses, que o mitólogo desatento confunde com teofania, enquanto quem o escuta reconhece a teocriptia, ponto de partida do filósofo, não para preencher esse silêncio e desocultar os deuses, mas para respeitar sua propriedade de permanecer ocultos.
88. Do oculto reinar dos deuses parte-se não para sua desocultação, mas para o aparecer do Deus em seu ser, pois a mensagem está para o Deus como os acenos estão para os deuses, apontando para baixo, ao símbolo arquetípico, e para cima, ao ser do Deus que a envia, sendo o oculto reinar dos deuses como os mistérios menores que preparam para os maiores, já que, se o ser dos deuses não se esgota nos acenos, menos ainda o ser de Deus nas mensagens, sem confronto possível entre manifestado e Manifestante, até a beira do Horizonte Extremo, além do qual habita Aquele de quem nada se saberia sem seus mensageiros ou sem as Fulgurações Ofuscantes da Excessividade que se contém, restando insistir nos motivos de manter o limiar mesmo no limite do Horizonte Extremo.
