4.3 Narciso
VERNANT, Jean-Pierre. Figures, idoles, masques. Paris: Laffont, 1990.
Narciso e o espelho de Dioniso
1. Situar o espelho na erótica platônica conduz ao coração do mito de Narciso, analisado na esteira de Jean Pépin e Pierre Hadot a partir de duas questões, a razão pela qual o mito de Narciso é quase sempre apresentado, em imagens e textos dos primeiros séculos da nossa era, num contexto dionisíaco, e o tipo de relação, de correspondência ou de oposição, que se estabelece, sobretudo em Plotino, entre a história de Narciso e o “espelho de Dioniso”.
2. Narciso, que declara à ninfa Eco preferir morrer a ser possuído por ela, é punido com o voto de amar sem jamais possuir o objeto amado e, diante daquele que na água da fonte responde a cada olhar e gesto com olhar e gesto simétricos, ao compreender que esse outro é ele mesmo, deseja poder separar-se do próprio corpo e que o amado estivesse distante, pois a posse de si o impede de possuir-se, infeliz, como resume Ovídio, por não ser diferente de si mesmo.
3. O espelho em que Narciso se vê como outro, por quem se apaixona sem se reconhecer e a quem deseja possuir, traduz o paradoxo de um impulso erótico que busca reunir-nos a nós mesmos e reencontrar nossa integridade, mas só pode consegui-lo por um desvio, já que amar é tentar reunir-se a si no outro.
4. O reflexo de Narciso e o espelho de Dioniso figuram a tragédia do reencontro impossível de si, pois o desejo de reunir-se a si pressupõe afastar-se, desdobrar-se e alienar-se, mas há dois modos de alienar-se, conforme o desvio pelo outro siga o caminho mais curto ou o mais longo, já que, para reencontrar-se, é preciso primeiro perder-se e tornar-se inteiramente outro de si, não fazendo de si, como Narciso, um outro determinado, inalcançável, mas tornando-se outro por dentro, vendo-se transfigurado numa visão em que o espelho devolve não o reflexo, mas a imagem do deus que, presente em nós e separando-nos de nós mesmos, nos permite enfim possuir-nos porque nos possui, retomando-se assim os temas opostos de Aristófanes e Diotima, em que Eros, amor de si pelo impulso rumo ao outro, nada obtém se visa o outro como duplo ou metade perfeita, devendo decifrar no próximo e semelhante o extremamente outro e radicalmente distante, único capaz de fundar o valor erótico de ambos e torná-los belos sob a luz da fonte inesgotável de toda beleza.
5. Plotino, na linha da erótica platônica mas em ruptura com Platão e o classicismo grego, no momento em que a imagem passa a ser entendida não como imitação da aparência, mas como expressão da essência, confere ao espelho uma dimensão metafísica para exprimir o estatuto das almas encarnadas, cujo destino se joga entre dois polos, voltar-se para a fonte de luz, o Ser e o Uno, unindo-se a ele na contemplação, em que o reflexo nada é, ou voltar-se para o reflexo, vivendo como se fosse a realidade, particularizando-se nos limites do corpo e caindo no espelho de Narciso ou fragmentando-se como no espelho de Dioniso, mas a história de Narciso corresponde apenas a um dos aspectos do espelho de Dioniso, que reúne no mito e no rito a reciprocidade e a alternância da dispersão e da reunificação, pois Dioniso, refletindo-se, consagra-se à multiplicidade e à gênese do particular, mas permanece uno graças ao coração preservado, e cada alma aspira, através do reflexo de Dioniso refratado no múltiplo, a reencontrar a unidade de origem, percorrendo em sentido inverso o caminho do reflexo ou do despedaçamento e, por uma transformação interior ao fim da iniciação e da visão, retornando a Dioniso como fonte única, perdendo-se nele para reencontrar-se, de modo que o iniciado deve ver-se no espelho com máscara dionisíaca, transformado no deus que o possui e transportado a outro lugar, pois, se no espelho em que Dioniso menino se olha o deus se dispersa, no espelho iniciático nosso reflexo surge como figura estranha, máscara que nos olha em nosso lugar e nos indica que não estamos onde cremos estar e que é preciso buscar alhures para enfim alcançar-nos.
6. Contra interpretações fáceis, Hadot destaca o aspecto antinarcisista de Plotino, para quem o essencial não é a experiência de si, mas a de um outro ou de tornar-se outro, experiência em que o sonho de Narciso seria enfim realizado, tornar-se outro permanecendo si mesmo, de modo que no duplo fundo do espelho de Dioniso há não apenas a figura de Narciso, mas, para quem sabe ver, o iniciado, também a promessa do sonho realizado.
