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Corpo Humano Efêmero
VERNANT, Jean-Pierre, “Cuerpo oscuro, cuerpo resplandeciente”, in Michel Feher, Fragmentos para una historia del cuerpo humano. Madrid: Taurus, 1990.
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O corpo humano, comprometido no curso da physis que faz surgir, crescer e desaparecer tudo o que nasce sobre a terra, carrega o estigma congênito da transitoriedade: amadurece, atinge sua plétora na plena maturidade e depois, na velhice, altera-se, enfraquece, deforma-se e degrada-se até afundar na morte.
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Essa inconstância faz dos humanos o que os gregos, para opô-los aos deuses instalados na perpetuidade de sua plena presença, chamaram de efêmeros: seres cuja vida se desenvolve dia a dia no quadro estreito, instável e cambiante de um agora do qual nunca se sabe se terá continuação.
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O caráter efêmero do corpo humano não significa apenas que está destinado à decrepitude e à morte, mas que, de modo mais essencial, nada nele é imutável: as energias vitais que desdobra e as forças físicas e psíquicas que põe em movimento só podem permanecer um breve instante em estado de plenitude e se esgotam no próprio momento em que se exercem.
O corpo humano funciona por fases alternadas de gasto e recuperação, nunca segundo uma linha contínua e a nível constante de intensidade, mas por ciclos ritmados por eclipses, pausas e obscurecimentos mais ou menos completos e duradouros.-
O sono sucede à vigília como sua contrapartida necessária; todo esforço implica cansaço e exige repouso; a fome logo manifesta o desgaste interno que a saciedade remedia de modo inteiramente provisório.
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Se o homem deve voltar à mesa repetidas vezes e garantir alimento para compensar o desgaste de suas forças, é porque essas forças se enfraquecem por si mesmas no uso, e quanto mais intenso o ardor da ação, mais grave e difícil de superar é o desfalecimento consecutivo.
A morte não prolifera apenas como o termo que limita sem remissão o horizonte da existência humana, mas está presente todos os dias, a todo momento, agazapada na própria vida como o rosto oculto de uma condição de existência onde os dois polos opostos do ser e de sua privação estão associados em mistura inseparável.-
Não há nascimento sem morte, despertar sem sono, lucidez sem inconsciência, tensão sem relaxamento; o esplendor da beleza juvenil tem no seu avesso a fealdade de um corpo gasto; as ações e forças do corpo só podem desdobrar-se ao preço de quedas de energia, fracassos e impotências que uma fraqueza congênita implica.
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Tânatos, a Morte, seja usando a máscara de seu irmão gêmeo Hipnos, o Sono, seja revestindo o aspecto de Ponos, Limos ou Geras, o Cansaço, a Fome e a Velhice, todos filhos da noturna Nix e saídos como a própria Morte do Chaos primordial, assenta-se instalada na intimidade do corpo humano como testemunha de sua precariedade.
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A Morte, associada à tribo de seus próximos, denuncia a carência e a fragmentariedade de um corpo cujos impulsos interiores, desejos, sentimentos, pensamentos e projetos nunca são perfeitamente puros, jamais radicalmente separados da parte de obscuridade e de não ser que o mundo herdou de sua origem caótica e que permanece mesmo no cosmos organizado presidido por Zeus.
Para os gregos arcaicos, a desgraça dos homens não provém de que a alma, divina e imortal, esteja aprisionada num corpo material e perecível, mas de que seu corpo não é plenamente uno e não possui de modo pleno e definitivo o conjunto de poderes, qualidades e virtudes ativas que confeririam à existência uma vida em estado puro, totalmente viva e imperecível, isenta de todo germe de corrupção e isolada do que poderia, de dentro e de fora, obscurecê-la, murchá-la e aniquilá-la.-
Essa concepção arcaica difere radicalmente da posterior oposição platônica entre alma imortal e corpo material: o que falta ao homem não é a libertação do corpo, mas a plenitude, a consistência e a perennidade que o corpo divino possui em grau absoluto e que o corpo humano possui apenas de forma diminuída, derivada e precária.
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A parte de obscuridade e de não ser que habita o corpo humano pertence ao campo nocturno do Chaos, origem do cosmos, e é por isso alheia ao campo luminoso do divino, onde a vitalidade é inesgotável e a presença é plena e constante.
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