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Mortais
VERNANT, Jean-Pierre, “Cuerpo oscuro, cuerpo resplandeciente”, in Michel Feher, Fragmentos para una historia del cuerpo humano. Madrid: Taurus, 1990.
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Os deuses pertencem ao mesmo universo que os homens, mas formam uma raça diferente designada paradoxalmente de modo negativo, como os athánatoi, os não mortais, e os ámbrotoi, os imperecíveis, o que revela que, para pensar o corpo divino, os gregos partiram necessariamente do corpo deficiente e da vida mortal que experimentavam cotidianamente.
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A designação negativa é instrutiva: define por ausência e privação seres cujos corpos e vidas possuem uma positividade completa e livre de carências, mostrando que o corpo mortal é a referência obrigatória a partir da qual se constitui, por uma série de separações e negações sucessivas, um corpo depurado e ideal que encarna as eficiências divinas.
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O corpo humano e a vida mortal são, nessa perspectiva, o pobre reflexo, a imagem enfraquecida e deformada do que nos deuses se mostra como fonte, fundamento e modelo.
O sangue divino ilustra a lógica paradoxal do corpo dos deuses: os deuses estão vivos e têm sangue, mas quando esse sangue jorra de uma ferida não pode inclinar-se para o lado da morte, sendo ao mesmo tempo sangue imortal e, em sentido pleno, não sangue.-
O sangue humano, ao brotar de uma ferida, mistura-se à terra e ao pó, coagula e se corrompe, anunciando a morte, pois a sangria é a saída da vida.
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O sangue divino de Afrodite, por exemplo, jorra sem que a vida se escape com ele, permanecendo em todo momento intacto e incorruptível, de modo que os deuses se mostram simultaneamente providos de sangue imortal e desprovidos de sangue.
A alimentação dos deuses obedece à mesma oscilação paradoxal: sentam-se à mesa como os mortais, mas não para saciar a fome, pois seus corpos imortais ignoram a necessidade de comer; alimentam-se de néctar e ambrósia, que são manjares de imortalidade e não alimentos marcados pela morte e pela decomposição.-
Os alimentos humanos, sejam carne, pão ou vinho, são chamados pasto dos efêmeros porque também eles estão marcados pela morte: a carne é de um animal degolado, o pão simboliza uma vida civilizada mas equivale a ser mortal, e o vinho, por mais desconcertante que seja, provém de certo modo do apodrecido pela fermentação.
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Os etíopes, que nos confins do mundo vivem numa ilha da idade de ouro, são os mais próximos dos deuses entre os humanos por sua beleza deslumbrante, bom odor e longevidade excepcional precisamente porque ignoram os cereais e consideram o trigo uma espécie de esterco.
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Os deuses não guardam para si a carne da vítima sacrificada, mas apenas o perfume dos aromas queimados e os efúvios dos ossos calcinados que sobem em fumaça até o céu; as paradoxas divinas enunciam no fundo o mesmo: o que o corpo humano encerra de positivo como vitalidade, energia e poder, os deuses o possuem em estado puro e sem restrição.
O antropomorfismo dos deuses gregos não significa que sejam concebidos à imagem do corpo humano, mas, ao contrário, que em todos os seus aspectos ativos o corpo do homem reenvia ao modelo divino como à fonte inesgotável de uma energia vital cujo esplendor, quando consegue por um instante brilhar sobre uma criatura mortal, ilumina com um reflexo fugidio o que no corpo dos deuses é presença constante.-
O esplendor dos deuses transparece em todas as dynameis, as potências que o corpo manifesta quando, radiante de juventude, vigor e beleza, se mostra semelhante a um deus; no Hino homérico, os jônios de Delos, dançando, cantando e lutando para agradar a Apolo, parecem a quem chega de fora imortais e libertos para sempre da velhice, pois em todos eles brilha a charis.
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A charis, a graça que faz brilhar o corpo com um esplendor jubiloso como emanação da própria vida, acompanha-se da estatura, da largura dos ombros, da prestância, da velocidade das pernas, da força dos braços, da frescura das carnes, da leveza e agilidade dos membros, bem como de qualidades interiores captadas no stêthos, no thumós, nas phrenes e no noûs: fortaleza, ardor no combate, frenesi guerreiro, impulso de cólera, temor, desejo e domínio de si, compreensão intelectiva aguda e astúcia sutil.
Na época arcaica, o corpo se deixa ver não como a morfologia de um conjunto de órgãos ao modo de um desenho anatômico nem como as particularidades físicas de um retrato, mas como um brasão que transparece, em traços emblemáticos, os múltiples valores de vida, beleza e poder de que um indivíduo é titular e pelos quais proclama sua timé, sua dignidade e seu rango.-
Para designar a nobreza de espírito e a generosidade de coração dos melhores homens, os aristoi, o grego diz kalos kagathos, sublinhando que beleza física e superioridade são indissociáveis e que a segunda só pode ser avaliada ao olhar da primeira.
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Por combinação dessas qualidades e potências vitais, que comportam sempre, por sua referência ao modelo divino, uma dimensão sagrada e cuja dosagem varia segundo os casos individuais, o corpo reveste a forma de um quadro heráldico onde se inscreve e se decifra o estatuto social e pessoal de todo ser humano: a admiração, o temor, a inveja, o respeito que inspira, a estima em que é tido e a parte de honras que lhe correspondem.
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Essa escala de perfeição se eleva até os deuses instalados em seu cume, enquanto os humanos repartem entre si, em diversos níveis, os andares inferiores.
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