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Vicissitudes dos Diferentes Corpos

VERNANT, Jean-Pierre, “Cuerpo oscuro, cuerpo resplandeciente”, in Michel Feher, Fragmentos para una historia del cuerpo humano. Madrid: Taurus, 1990.

  • Os heróis épicos expressam o sentimento de plenitude corporal dizendo que seu menos é átromon, inquebrantável e semelhante ao ferro flamejante, mas, como toda coisa humana, o menos está sujeito a vicissitudes: relaxa-se, perturba-se, enfraquece-se e desaparece com a morte, e os defuntos formam no Hades a tropa das cabeças privadas de menos.
    • Com a idade todas as qualidades físicas e psíquicas que formam o homem realizado abandonam o corpo, como lamenta Nestor ao dizer que sua força não é mais a que habitava seus membros ágeis e que seu vigor, bie émpedos, já não está intacto.
    • Émpedos, imutável e inquebrantável, é a verdadeira natureza do céu de bronze acima das cabeças humanas e dos deuses que nele habitam; a raiz phth dos verbos phthinô e seus derivados traduz o esgotamento das forças vitais que só podem murchar com o passar do tempo.
  • O que permanece do herói sobre a terra após o desaparecimento do corpo são duas coisas: a estela funerária e o canto encomiástico, ambos capazes de conferir a criaturas efêmeras uma permanência que o corpo mortal não possui por natureza.
    • A estela ou o kouros erguido sobre o túmulo permanece inabalável, menei émpedon, como testemunha permanente de uma identidade que se afundou com seu corpo numa ausência definitiva, podendo aparecer como um substituto corporal que expressa em forma imutável os valores de beleza e vida que o indivíduo encarnou durante sua breve existência.
    • A palavra poética, conservada e retomada na tradição oral que celebra as façanhas dos guerreiros de outrora, arranca-os do anonimato da morte onde o comum dos homens se esvai na noite do Hades e faz deles os heróis brilhantes cujo kléos áphthiton, a glória imperecível, destela com um esplendor que nada pode empanar.
    • Os deuses são imortais e imperecíveis porque, ao contrário dos humanos, seu ser corporal possui por natureza, no seio mesmo da natureza, a beleza e a glória constantes que a imaginação social se esforça por fabricar para os mortais quando estes já não têm corpo para mostrar sua beleza nem existência para ganhar a glória.
  • O esplendor do corpo divino manifesta-se primeiro pelos efeitos do superlativo, magnificação e multiplicação de todos os valores que no corpo humano aparecem comparativamente diminuídos: os deuses são muito maiores e cem vezes mais fortes que os homens, e quando se enfrentam corpo a corpo o mundo inteiro vacila em seus alicerces.
    • Quando Apolo avança à frente dos troianos, derruba com um simples pontapé o imenso talude construído pelos aqueus para proteger suas naves e lança ao chão seu muro sem esforço, como uma criança que destrói com uma patada os castelos de areia que construiu à beira do mar.
    • Ulisses responde a Calipso, que se jacta de não desmentir em nada a beleza de Penélope, que a esposa humana, por muito perfeita que seja, pareceria inferior em aspecto e estatura ao lado da deusa, pois ela é apenas mortal enquanto a deusa escapa à morte e à velhice.
  • A diferença essencial entre o corpo dos deuses e o dos homens não é de ordem quantitativa, mas qualitativa, e as epifanias divinas variam enormemente segundo o estatuto de cada deus: Hades permanece sempre oculto e invisível, Pan e as Ninfas aparecem de dia, Asclépio durante a noite em sonhos, Hermes se compraz normalmente no trato com os humanos, e Dioniso surge de improviso em epifanias imperativas e desconcertantes.
    • A gama dos possíveis para a aparência corporal das divindades escala-se entre o incógnito e a revelação majestosa, com duas modalidades de incógnito: o deus pode dissimular seu corpo envolto em névoa ou nuvem para permanecer invisível, ou pode dar a seu corpo uma aparência estritamente humana.
    • No primeiro tipo de incógnito, Afrodita faz desaparecer Páris do combate diante dos olhos de gregos e troianos que nada veem nem compreendem; no segundo, Posídon surge sob os traços do adivinho Calcas, mas o filho de Oileu o reconhece pelas pegadas e pela maneira de andar, semelhante à de um falcão de voo ligeiro, pois o corpo divino é ao mesmo tempo o mais pesado e o mais leve.
    • Atena, quando salta de um lugar a outro, não toca sequer o solo em seu deslocamento, mas quando sobe ao carro a caixa soa e afunda sob o peso; o corpo divino, com toda a massa concentrada de seu ser, é tão pesado quanto as estátuas de mármore ou de bronze que o localizam no templo e não menos aéreo, etéreo, impalpável e leve que um raio de luz.
  • Ver os deuses tal como são em seu corpo descoberto ultrapassa as forças humanas, e a paradoxo do corpo divino reside em que, para mostrar-se aos mortais, deve deixar de ser ele mesmo, revestir-se de névoa, disfarçar-se de homem, tomar forma de pássaro, de estrela ou de arco-íris.
    • Mirar Ártemis ou Atena nuas é uma experiência que Actéon paga com a vida e Tirésias com os olhos; Anquises, ao despertar ao lado de Afrodita em toda sua majestuosidade com as faces resplandecentes de beleza imortal, aterra-se e implora que a deusa não o prive para sempre do menos por ter-se aproximado de uma chama demasiado brilhante.
    • Metaneira, quando Deméter rejeita seu aspecto de velha e se mostra em toda sua majestade, alta e nobre de estatura, radiante de beleza e exalando perfume delicioso, com o corpo imortal expandindo ao longe sua claridade e os cabelos loiros descendo sobre seus ombros enquanto a residência se ilumina como se tivesse sido atingida por um raio, sente seus joelhos dobrar-se e permanece muda e prostrada de horror.
    • Os deuses nunca concedem a nenhum mortal o espantoso favor de mostrar-se tal como são, abertamente, a plena claridade, enargeis; Zeus, não querendo ser visto por Héracles que desejava vê-lo a todo custo, mascarou seu rosto com uma pele animal.
    • Mostrar o próprio rosto ao descoberto seria para o deus revelar-se a si mesmo, implicando um cara a cara de paridade; os mortais só têm a saída de apartar o olhar, baixar os olhos ao solo ou ocultar a cabeça para reconhecer sua indignidade e evitar o risco de afrontar o incomparável e insuportável esplendor do rosto divino.
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