LIVRE ARBÍTRIO
ZAEHNER, R. C.. The Dawn and Twilight of Zoroastrianism. New York: G. P. PUTNAM'S SONS, 1961.
O zoroastrismo é a religião do livre arbítrio por excelência. Cada homem, mais cedo ou mais tarde, se depara com a necessidade de escolher entre a Verdade e a Mentira — a verdadeira religião que o Profeta afirmava ter-lhe sido revelada e a falsa religião que seus contemporâneos haviam herdado de seus antepassados. Zoroastro, no entanto, projetou essa oposição básica entre a Verdade e a Mentira — que ele via se manifestando aqui e agora na Terra — para a esfera puramente espiritual: em todos os níveis, os dois princípios se opunham, e assim ele percebeu que todo o cosmos, tanto material quanto espiritual, estava permeado por essa tensão fundamental: em oposição à Mente do Bem transcendental estava a Mente do Mal, em oposição ao Espírito Generoso, o Espírito Maligno ou Destrutivo, em oposição à Retidão, o Orgulho e assim por diante; e em todos os níveis uma escolha tinha de ser feita, não estando o próprio Ahura Mazdah, o Sábio Senhor, isento disso.
No nível mais baixo, o boi tem liberdade para escolher entre o bom lavrador e o homem que não é lavrador, e ‘dos dois, ele escolheu o lavrador que o cuidaria, um senhor que segue a Verdade e cultiva (?) a Mente Boa; o homem que não é lavrador não terá parte nas boas novas, por mais que se esforce.’ A livre escolha, que é privilégio até mesmo do reino animal, foi um dom gratuito de Deus às suas criaturas logo no início da existência, pois “no princípio, ó Mazdah, por tua mente criaste para nós formas materiais (gaêtha) e consciências e vontades racionais (khratu), pois estabeleceste a vida corpórea — atos e doutrinas para que os homens pudessem, assim, fazer suas escolhas com liberdade de vontade.' A escolha que deve ser feita é, em última análise, sempre aquela entre a Verdade e a Mentira. “Para nossa escolha”, diz o Profeta, “a Verdade foi apresentada para nosso próprio benefício, mas ao [falso] mestre a Mentira para sua própria ruína.” Assim, embora não haja dúvida alguma na mente de Zoroastro de que a Verdade está exclusivamente de seu lado, ele percebe que a liberdade de vontade implica a liberdade de fazer a escolha errada, ou seja, a liberdade de errar; e é interessante que a palavra varena, que em aveestano significa ‘livre escolha’, passe, em sua forma pahlavi varan, a significar ‘heresia’ — um paralelo exato com o desenvolvimento da palavra grega hairesis no cristianismo. ‘Tanto aquele que fala a verdade quanto aquele que fala falsamente, tanto o sábio quanto o tolo, erguem suas vozes de acordo com [o que há em seus] corações e mentes.’ Ambas as partes têm o direito de proclamar suas doutrinas e não parece haver uma maneira óbvia de decidir qual doutrina é verdadeira, a menos que alguma autoridade universalmente aceita seja reconhecida. Essa dificuldade era plenamente evidente para Zoroastro, pois ele pergunta a seu Deus quem é realmente um seguidor da Verdade e quem um seguidor da Mentira, admitindo assim que seus inimigos podem ter sido sinceros ao defender suas visões falsas. Para resolver a dificuldade e porque se via sinceramente como um profeta de Deus, reivindicou tal autoridade para si mesmo e se colocou como juiz entre as duas partes. “Embora”, diz ele, “talvez o melhor caminho a escolher não seja claro para todos verem, ainda assim enfrentarei todos vocês, pois o Sábio Senhor me reconhece como juiz entre as duas partes, pois somos nós que vivemos de acordo com a Verdade.”
É nessa qualidade de juiz, talvez, que Zoroastro, em Tasna 30, convoca todos os homens a tomar a grande decisão. “Ouçam com seus ouvidos”, profetiza ele, “contemplem com a mente bem clara as duas escolhas entre as quais devem decidir, cada homem [decidindo] por si mesmo, [cada homem] sabendo como isso nos parecerá (?) no [momento da] grande crise”. Com essas palavras, ele apresenta o mito da escolha primordial que os dois Espíritos, a quem ele chama de “gêmeos”, tiveram de fazer no início dos tempos:
“No início, aqueles dois Espíritos que são os gêmeos bem dotados (?) eram conhecidos como um bom e o outro mau, em pensamento, palavra e ação. Entre eles, os sábios escolheram corretamente, não assim os tolos. E quando esses Espíritos se encontraram, estabeleceram no início a vida e a morte, de modo que, no fim, os seguidores da Mentira encontrariam a pior existência, mas os seguidores da Verdade, a Melhor Mente. Desses dois Espíritos, aquele que era da Mentira escolheu fazer as piores coisas; mas o Espírito Santíssimo, revestido do céu rude, [escolheu] a Verdade, assim como [todos] aqueles que buscavam com zelo agradar ao Sábio Senhor [praticando] boas obras. Entre os dois, os daëvas não escolheram corretamente; pois, enquanto deliberavam, a ilusão os dominou, de modo que escolheram a Mente mais Maligna. Então, de comum acordo, lançaram-se precipitadamente à Fúria para que, assim, pudessem extinguir(?) a existência dos homens mortais.'
