JULLIEN
François Jullien
Daniel Bougnoux & François L’Yvonnet
François Jullien é filósofo, helenista e sinólogo. Três áreas de especialização que não apenas atestam uma vasta cultura, mas, mais essencialmente, a originalidade de uma abordagem intelectual entendida como uma aventura do pensamento.
Ele partiu, de fato, para a China a fim de agitar o pensamento europeu, de tirá-lo de suas “classificações” matriciais. Esse era o meio de desfazer os pontos de vista unilaterais, de operar um descentramento: o preço a pagar, em outras palavras, para se disponibilizar e dar toda a sua dimensão ao “crescimento do diverso”, como o chamava Victor Segalen. Para isso, era preciso passar pela experiência de um deslocamento do pensamento, criar dissenso e, portanto, fazer dissidência, o que ele chamaria mais tarde de “des-coincidir”.
Isso levou, em particular, François Jullien a questionar nossas próprias categorias de pensamento, aquelas que nos vieram dos gregos, que fundam nossa tradição filosófica e alimentaram a metafísica, mas que foram tão assimiladas que caíram no não-pensado.
Pois ele quis sondar, à maneira de Hegel na prefácio da Fenomenologia do Espírito, esse “bem conhecido”, que se tornou familiar, mas que não por isso é “reconhecido” e refletido pelo pensamento. Por isso mesmo, ele quis abrir outros caminhos, reavivar as possibilidades do espírito, cultivadas em outros lugares e deixadas em pousio ou abandonadas aqui. Como essa desconstrução da filosofia exigia um exterior, a China serviu-lhe de ponto de apoio para fazer alavanca e relançar o pensamento.
Depois de assim utilizar a China como um operador teórico, ele desenvolveu, numa “segunda” fase de seu trabalho, uma reflexão sobre a alteridade, tanto pessoal – o íntimo – quanto cultural; e se propôs a desenvolver uma filosofia em que “ex-istir” seja precisamente a capacidade de se “manter fora” – em ascensão – do atoleiro que ameaça a vida.
Mas como entrar no pensamento da existência? Trata-se de inventar uma conceptualidade fluida, um modo alerta do ensaio em que a construção filosófica não esmague a descrição do ambíguo e do singular.
Arne De Boever
* François Jullien, nascido em 1951, construiu uma trajetória intelectual que atravessa a filosofia europeia e o pensamento chinês, ocupando posições acadêmicas de prestígio tanto na sinologia quanto na filosofia.
- Formado em filosofia em meados dos anos 1970, estudou nas universidades de Pequim e Xangai, depois no Centro Francês de Pesquisa sobre a China Contemporânea em Hong Kong e na Maison Franco-Japonaise em Tóquio.
- Presidiu a Associação Francesa de Estudos Chineses e o Colégio Internacional de Filosofia; tornou-se titular da Cátedra de Alteridade na Fundação Maison des Sciences de l'Homme.
- Publicou mais de trinta livros em francês, dos quais cerca da metade foi traduzida para o inglês, tendo recebido importantes prêmios, ainda que sua notoriedade no mundo anglófono seja menor do que a de outros filósofos franceses contemporâneos.
- Deixar Jullien de lado por ser sinólogo seria um equívoco grave — sua operação intelectual se dá sempre no entre-dois das tradições chinesa e ocidental, extraindo o que denomina o “impensado” (l'impensé) de cada uma.
- A fase tardia da obra de Jullien, após o “desvio” pela China, revela a trajetória completa de seu pensamento, documentada num monumental Cahier de l'Herne a ele dedicado.
- O volume inclui três seções escritas pelo próprio Jullien, intituladas “De l'écart à l'inouï — repères I, II, III” (Do desvio ao inaudito — pontos de referência I, II, III), estruturadas como diálogo entre Jullien e um leitor atento não nomeado — presumivelmente o próprio Jullien.
- Essas seções constituem uma autocrítica filosófica sobre toda a obra e servem de ponto de entrada para o estudo apresentado em François Jullien's Unexceptional Thought: A Critical Introduction.
- O estudo proposto não pretende ser exaustivo nem tratar igualmente todos os livros de Jullien, concentrando-se em textos e temas que se revelaram mais fecundos em relação ao momento presente.
- A seleção de textos e temas abrange, ainda assim, muitas das preocupações centrais da obra de Jullien, oferecendo uma visão panorâmica do pensamento e indicando caminhos para os debates que ele suscitou.
- A forma dos “Pontos de referência” evoca experimentos literários pós-modernos e os diálogos platônicos, convocando referências que atravessam a obra de Jullien.
- Jorge Luis Borges e seu “Borges e eu” surgem como paralelo literário; Michel Foucault mencionou Borges numa passagem célebre sobre a China, em As Palavras e as Coisas.
- O diálogo como forma assume papel relevante na obra recolhida de Jullien — inclusive em livro dividido entre entrevistas e escritos de Nicolas Martin e Antoine Spire.
- O livro L'Invention de l'idéal et le destin de l'Europe (A invenção do ideal e o destino da Europa) propõe uma leitura de Platão de Chine, “a partir da China”.
- O diálogo, em sentido filosófico forte, é central para a reflexão de Jullien sobre o universal, o uniforme e o comum, em contraposição ao diálogo intercultural superficial promovido pelo Ocidente.
- O Ocidente “começou a entrar em diálogo com outras culturas porque perdeu seu poder” — esse diálogo é criticado por ser “falsamente pacífico” e “falsamente igualitário”, conduzido na maioria das vezes em “inglês globalizado ou globish”.
- Jullien reivindica uma compreensão “forte” de diálogo, que evoca ao mesmo tempo o “entre” (l'entre) e um “caminho”: o prefixo grego marca o espaço intermediário que distingue o diálogo do “monólogo de dois” e a via que o torna possível.
- O termo écart — traduzido por “desvio” ou “divergência” — não equivale simplesmente a “lacuna” (gap), pois nomeia também a ponte que atravessa esse intervalo.
- Esse diálogo só se desenvolve lentamente, exigindo que cada ponto de vista se “reflita em relação ao outro” para conduzir a um “encontro efetivo”, produzindo um “comum” que não suprime o entre-dois nem impõe “assimilação forçada”.
- A tradução ocupa papel central no método de Jullien, funcionando como a linguagem do entre-dois e instrumento de resistência à homogeneização do pensamento chinês.
- Em A Estranha Ideia do Belo, Jullien critica uma tradução francesa do tratado de pintura de paisagem de Zong Bing, do século IV: “todas essas pequenas adições, servindo de compromissos e tornando a tradução mais fluida, significam, no fim, que lidamos sempre apenas com variações do mesmo e que, acreditando ler textos chineses, continuamos sentados em casa.”
- As traduções de Jullien buscam “restituir aos textos chineses sua estranheza” — título do capítulo final de A Estranha Ideia do Belo.
- A “rolo compressor da globalização teórica” teria ocidentalizado o pensamento chinês; contudo, Jullien reconhece em O Livro dos Começos que “as noções principais do pensamento chinês não são diretamente traduzíveis”.
- Em Il n'y a pas d'identité culturelle (Não há identidade cultural), afirma-se que “a tradução é a língua lógica desse diálogo”.
- O entre-dois associado à fecundidade gerada pela “descoincidência” da divergência fundamenta a noção jullieniana do neg-ativo como força produtiva e intensiva, distinta do mal.
- A “descoincidência” revela “o negativo” — não o mal — operando como o que Jullien denomina o “neg-ativo”, desenvolvido em L'ombre au tableau: Du mal ou du négatif (Sombra no quadro: do mal ou do negativo).
- A tarefa da filosofia é separar um “negativo estéril” ou “negativo negativo” de outro negativo motivador e produtivo: “Um dos grandes problemas de nossa época é pensar o negativo fecundo, o que eu chamaria de neg-ativo, sem fazê-lo inclinar para uma dialética hegeliana de reconciliação.”
- G. W. F. Hegel e sua dialética recebem elogios parciais, mas o neg-ativo jullieniano “não se enquadra sob as leis da dialética”.
- A noção de existência baseia-se nessa compreensão do neg-ativo: a ex-istência nomeia a descoincidência do eu como processo — ou melhor, passagem (evocando o dao — 道 — ou “caminho”) do viver.
- Os “Pontos de referência”, em que Jullien dialoga consigo mesmo, formalizam a ideia de uma segunda vida — a descoincidência de Jullien com ele próprio que institui um entre-dois e produz uma via de passagem.
- A “segunda vida” é aquela vivida em perpétua descoincidência com a primeira, tornando possível uma existência mais plena.
- Esse processo autocrítico e filosófico só pode se desenvolver lentamente, razão pela qual Jullien o empreende apenas ao final da carreira, quando se torna possível avaliar a trajetória completa da obra — em especial o estudo da Grécia após o extenso desvio pela China.
