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MAX KALTENMARK

Max Kaltenmark. Lao Tseu et le taoïsme

LAO ZI

  • Por volta do ano 100 a.C., Sima Qian redigiu a primeira história da China — o Shiji (Memórias Históricas) —, obra capital e uma das principais fontes sobre a China antiga, que inclui uma biografia de Lao zi; o que ela revela com maior segurança é que o próprio historiador já não dispunha senão de informações incertas e contraditórias sobre o personagem.
    • Sima Qian não dissimula sua perplexidade, arrolando pele-mele as opiniões que pôde recolher e admitindo que, no final das contas, ninguém sabe nada de certo.
  • O registro civil que Sima Qian apresenta no início da biografia é ele mesmo sujeito a caução: “Lao zi era um homem da aldeia de Hou xian, distrito de Lai, da prefeitura de Hu no país de Chu. Seu sobrenome era Li, seu nome Er, sua designação Tan.”
    • O local de nascimento indicado corresponde à atual cidade de Luyi, na província de Henan, a cerca de 40 li de Bozhou, localidade situada no Anhui.
    • Desde a época dos Han havia ali um santuário; ainda hoje se ergue no local o T'ai-ts'ing kong (palácio da Grande Pureza), com uma grande estátua de Lao zi de cerca de 4 metros de altura.
    • Não longe dali encontram-se, segundo a tradição, o túmulo de Lao zi e o de sua mãe — o que pode parecer surpreendente, pois para os taoístas ambos são seres excepcionais que não puderam morrer como simples mortais; além disso, nenhuma fonte indica que Lao zi tenha morrido ou sido sepultado no lugar de nascimento.
    • A tradição local situa seu túmulo em Huaili, no Shaanxi, a oeste de Xi'an.
  • Os nomes de Lao zi colocam problemas quase insolúveis: os textos anteriores ao Shiji jamais o chamam de Li Er ou Li Tan, mas sempre de Lao zi (Mestre Lao) ou Lao Dan; se Sima Qian lhe atribui o sobrenome Li, é provavelmente em razão de uma genealogia, apresentada ao final da biografia, de uma família Li de Shandong que afirmava descender de Lao zi — pretensão sem valor histórico.
    • O sobrenome Li lhe permaneceu, o que terá como consequência importante fazê-lo ser considerado ancestral pelos imperadores da dinastia Tang (618-907).
    • O verdadeiro sobrenome de Lao zi é desconhecido — Lao, cujo sentido é “velho, venerável”, é provavelmente uma espécie de alcunha frequentemente dada a velhos sábios mais ou menos lendários, pois a velhice era tida como marca de grande potência vital e grande sabedoria.
    • Sima Qian relata opiniões segundo as quais Lao zi teria atingido a idade de 160 ou mesmo mais de 200 anos; seus outros dois nomes — Er (orelhas) e Tan (orelhas longas) — estão igualmente relacionados à ideia de longevidade e sabedoria, pois os velhos sábios eram frequentemente representados com orelhas longas.
  • O que o historiador registra sobre a carreira de Lao zi reduz-se a três dados que teriam grande interesse se pudessem ser considerados autênticos: Lao Dan foi arquivista na corte real dos Zhou; recebeu uma visita de Confúcio; e partiu para o oeste, ditando seu livro no caminho, antes de desaparecer sem deixar rastros.
    • O encontro de Lao zi e Confúcio é muito célebre e permitiria situar aproximadamente a época em que viveu Lao zi.
    • Segundo a biografia, quando Confúcio se dirigiu aos Zhou para informar-se sobre os ritos com Lao zi, este respondeu: “Aqueles de quem falas, mesmo seus ossos já viraram pó, só restam suas palavras. Além disso, quando o homem honesto vive numa época favorável, apressa-se em ir à corte de carro; quando vive numa época desfavorável, erra ao acaso. Ouvi dizer que o bom comerciante esconde suas riquezas e parece desprovido; se tem uma plenitude de virtude interior, o homem superior tem a aparência exterior de um tolo. Elimina teu humor arrogante, e todos esses desejos, esse ar presunçoso e esse zelo transbordante: tudo isso não é de nenhum proveito para tua pessoa. É tudo o que posso te dizer.”
    • Confúcio retirou-se e disse a seus discípulos: “Do pássaro, sei que pode voar; do peixe, sei que pode nadar; dos quadrúpedes, sei que podem correr. As bestas que correm podem ser pegas na rede; as que nadam podem ser pegas na nassa; as que voam podem ser alcançadas pela flecha; mas o dragão, não posso conhecê-lo: ele se eleva ao céu sobre a nuvem e sobre o vento. Hoje vi Lao zi, ele é como o dragão!”
    • Em outro capítulo do Shiji, os dizeres de Lao zi ao despedir-se de Confúcio são distintos: “Ouvi dizer que o homem rico e poderoso despede as pessoas dando-lhes riquezas, que o homem bom despede as pessoas dando-lhes palavras. Não saberia ser rico e poderoso, mas tomo furtivamente o título de homem bom; vou, pois, despedi-lo com palavras: aquele que é inteligente e profundo observador está perto de morrer, pois critica os homens com justeza; aquele cujo espírito é muito sábio e grandemente penetrante coloca em perigo sua pessoa, pois desvela os defeitos dos homens. Aquele que é filho não pode mais se possuir; aquele que é súdito não pode mais se possuir.”
    • Como nota Édouard Chavannes, tradutor das Memórias Históricas, essa é uma condenação da inteligência, da piedade filial e do lealdade — princípios essenciais da doutrina de Confúcio.
    • A cena era tão popular na época dos Han que aparece representada em várias pedras funerárias esculpidas de Shandong, datando do século II a.C.; os textos, porém, não concordam nem sobre o lugar, nem sobre a data, nem sobre o número dos encontros, nem sobre os dizeres de Lao zi — o que torna difícil ter por certo que os dois grandes filósofos se tenham realmente encontrado.
  • Lao zi residiu por algum tempo na corte dos Zhou, mas ao constatar a decadência dessa casa, partiu em direção ao oeste, ao país de Qin, tendo de cruzar a passagem de Xiangu, onde, a pedido de Yin Xi ou Guan Yin — o guardião da passagem —, redigiu “uma obra em duas seções na qual expunha suas ideias sobre o Tao e sobre o De e que compreendia mais de 5.000 palavras; depois partiu e ninguém sabe o que lhe aconteceu.”
    • Guan Yin — o guardião da passagem — tornou-se um personagem importante do taoísmo, tendo-lhe sido até atribuída uma obra, o Guan Yin zi, mas trata-se provavelmente de uma figura puramente lendária.
    • Sima Qian menciona ainda dois personagens que alguns identificavam a Lao zi: Lao Lai zi, contemporâneo de Confúcio, e o grande astrólogo-arquivista Tan, que viveu bem mais tarde e fez, em 376 a.C., uma predição obscura sobre o destino dos Zhou e sua eliminação por Qin.
    • O historiador conclui: “Ninguém no mundo saberia dizer se tudo isso é verdade ou não: Lao zi era um sábio oculto.”
  • Sima Qian não dissimula a incerteza a que o condenam suas fontes — tudo o que recolheu sobre o personagem é tão vago e contraditório que nada de seguro se pode extrair —, explicando essa falta de informações dizendo tratar-se de um sábio oculto, cuja doutrina resume assim: “Lao zi cultivava o Tao e o De; segundo sua doutrina, é preciso aplicar-se a viver de modo oculto e anônimo.”
    • Qualificá-lo de sábio oculto sugeria que, após deixar sua função na corte real, ele viveu na obscuridade — ao longo de toda a história da China, encontram-se homens que, embora pertencentes à classe intelectual, escolhiam viver à margem da vida pública, fugindo dos tormentos e das honrarias do mundo que qualificavam voluntariamente de lodaçal.
    • Confúcio teve ocasião de encontrar alguns desses personagens que lhe dirigiram falas no estilo taoísta; um deles foi Lao Lai zi — o mesmo às vezes identificado a Lao Dan —, que, segundo Zhuangzi, o repreendeu em termos muito duros pela estreiteza de seu espírito e seu orgulho.
    • Outro “sábio oculto”, apelidado o louco de Chu, cantou ao passar diante da porta de Confúcio: “Ó Fênix! Ó Fênix! Como tua virtude degenerou! Teu passado, não saberia corrigi-lo, mas quanto ao futuro, ainda há tempo de te salvar. Cessa! Cessa! Hoje, os homens que tomam parte no governo estão em perigo!”
  • Esses personagens adotavam frequentemente o gênero de vida rústico dos camponeses ou, nas regiões ricas em rios e lagos do país de Chu, o de simples pescadores; outros, mais radicais, escolhiam refugiar-se nas montanhas selvagens, fora do alcance da civilização e da influência principesca.
    • A existência desses puros era um grave desafio para o príncipe — uma condenação viva e permanente de seu reinado —, mas ele não tinha poder sobre eles: a santidade superior à sua era inviolável.
    • O único recurso para se livrar de um desses sábios incômodos era ceder-lhes o trono na esperança de que, diante desse ultraje, se atirassem à água segurando uma pedra — como Zhuangzi narra de alguns deles.
  • Na história do taoísmo, esses sábios reclusos desempenharam papel importante: a maioria dos antigos pensadores taoístas vivia assim oculta, recusando-se a participar da vida pública — tais eram Zhuang Zhou, autor do Zhuangzi, e Lie Yukou, suposto autor do Liezi, além de muitos outros desconhecidos.
    • Sima Qian tem, portanto, alguma razão para classificar Lao Dan nessa categoria.
    • Não se deve, porém, crer que todos os reclusos fossem taoístas: alguns são mesmo seriamente criticados por estes últimos por seu fanatismo e zelo puritano, que os qualifica mais como confucionistas ressentidos do que como discípulos de Lao zi — os taoístas escolhiam viver na obscuridade por princípio e não por despeito.
    • O que distinguia ainda sábios como Lao Dan ou Zhuangzi dos demais reclusos é que eles tiveram escolas — provavelmente pequenas capelas onde durante longo tempo um ensinamento essencialmente oral se transmitia de mestres a discípulos, tomando estes por vezes notas; a maioria dos livros da China antiga foi redigida dessa forma, e parece que só bem tarde os mestres começaram a redigir eles próprios as obras.
    • A questão que em definitivo importa é o que ocorreu com o Daode jing — o homem Lao zi permanecendo, para nós, decididamente velado em uma impenetrável obscuridade.
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