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ISABELLE ROBINET

LAO ZI

ROBINET, Isabelle. Lao Zi et le Tao. Paris: Bayard, 1996.

A. A lenda

  • Segundo Sima Qian, autor da primeira história da China, Lao zi — o “velho mestre” — teria se chamado Li Er ou Li Dan, sido arquivista-astrônomo na corte dos Zhou e encontrado Confúcio no século VI antes da era comum, tendo este último o comparado ao dragão “que se eleva sobre a nuvem e o vento”, além do que ele próprio era capaz de conhecer.
    • A cena do encontro entre Lao zi e Confúcio, relatada por um simpatizante do taoísmo, foi tão popular que aparece representada em várias estelas funerárias do século II a.C.
    • Permanece duvidoso que Lao zi tenha existido e sido contemporâneo de Confúcio, embora também se o tenha identificado com o “velho Dan” a quem Confúcio teria pedido conselho.
  • Apresentar Lao zi como arquivista equivale a situá-lo ao lado dos adivinhadores, astrônomos e arquivistas dos Zhou, cuja função era religiosa e que, como conselheiros dos soberanos, detinham o saber ao mesmo tempo político e religioso, ao contrário de Confúcio, oriundo do meio dos pequenos nobres e que, ao fundar uma escola, foi o primeiro a laicizar o saber.
    • Esses dois personagens representam duas tendências distintas: um saber político-religioso, de um lado, e uma reflexão política e laica, de outro.
    • Ambos, contudo, pertenciam ao meio social dos shi — pequenos nobres, pequenos funcionários e administradores que, no fim dos Zhou, assumiam o papel dos grandes aristocratas no governo dos estados, atuando como conselheiros e buscando soluções para os problemas políticos e ideológicos de sua época.
  • Segundo a lenda, Lao zi, desencantado com a decadência dos Zhou, decidiu partir para o Oeste, manifestando assim sua desaprovação em relação a uma dinastia que não merecia a vigilância de um sábio.
    • Ao cruzar uma passagem montanhosa, foi detido por um guardião que, advertido por uma luz sobrenatural emanada de Lao zi, pediu receber seu ensinamento.
    • Foi dessa circunstância que teria tomado forma o Daode jing — o “Livro da via e da virtude” —, em cinco mil palavras, atribuído a Lao zi.
  • Uma natividade miraculosa foi atribuída a Lao zi, moldada tanto à semelhança da do Buda quanto à dos imperadores míticos que estão na origem da civilização e da história da China.
    • Sua mãe o teria carregado por 72 ou 81 anos — dois números de valor simbólico — após ter sido “comovida” por uma estrela cadente; segundo outra versão, ela o teria concebido após engolir uma pérola de cinco cores caída do céu.
    • Ele nasceu sob uma ameixeira (li), o que lhe deu o sobrenome Li, do flanco esquerdo de sua mãe — a esquerda, na China, prevalece sobre a direita —, assistida por jovens celestes, enquanto o Buda nascera do flanco direito de sua mãe.
    • Desde o nascimento, soube andar e falar; seu corpo, à semelhança do do Buda, estava marcado por 72 ou 81 traços maravilhosos, como uma boca quadrada, uma protuberância solar e um crescente lunar na testa, três aberturas nas orelhas e dois ossos na fronte.

B. Divinização e aparições

O deus Lao zi

  • Lao zi é considerado um dos maiores sábios da China e foi divinizado, recebendo culto já no século II da era comum, ocupando o terceiro lugar na tríade que preside ao panteão taoísta.
    • Embora nem ele nem o Daode jing tenham sido reconhecidos por todos os taoístas como autoridades supremas, Lao zi desempenhou papel importante em numerosos movimentos taoístas.
    • Associado ao mítico Imperador Amarelo, Huang di, foi patrono da corrente Huang-Lao, desenvolvida sob a dinastia Han (século II a.C. — século II d.C.).
    • Quando essa dinastia começou a declinar e a ordem do mundo, assegurada pelo Filho do Céu por um contrato com o Senhor do Alto, foi posta em perigo, Lao zi divinizado interveio para lançar as bases de um novo pacto destinado a restaurar a ordem cósmica e política — foi nesse contexto que, por ocasião de uma aparição, trouxe uma revelação e esteve na origem do movimento dos Mestres Celestes, primeira forma organizada da religião taoísta.
    • A dinastia Tang, cujo sobrenome era igualmente Li, fez de Lao zi seu antepassado, conferindo ao taoísmo a proteção imperial.
    • Como deus, recebeu numerosos títulos que o tornaram um dos maiores do taoísmo e por vezes o deus supremo, sendo adornado com designações como “Augusto Supremo dos Nove Céus”, “Imperador Verdadeiro, Senhor Um” e “Senhor Imperador dos Nove Mistérios”.

As reencarnações. Lao zi conselheiro dos imperadores

  • Em determinados meios, o Daode jing foi concebido como um manual de conduta para a dupla arte de governar e de prolongar a vida, dois aspectos complementares da obra, ao que corresponde uma visão de Lao zi como sábio conselheiro político e mestre da imortalidade.
    • Lao zi é o Homem verdadeiro, a figura do Santo que dominou as práticas fisiológicas a ponto de transformar seu corpo, libertar-se dos laços do mundo e aceder ao Tao, tornando-se mestre de salvação e, por vezes, um messias.
    • Desde as origens da humanidade, ele teria trazido seu ensinamento aos soberanos, encarnando-se regularmente ao longo dos séculos na função de conselheiro secreto, eminência parda dos imperadores, mestre do mestre.
    • Desempenhava ao mesmo tempo o papel do vassalo incumbido do dever tradicional de conselho junto a seu suserano e o do sábio cuja presença junto ao soberano era garantia do assentimento do Céu ao exercício do poder — uma bênção do Céu, em suma, que intervinha para santificar e justificar esse exercício.
    • Lao zi apareceu, sob nomes diversos, nos tempos míticos das origens do mundo e da China junto a imperadores lendários que organizaram a sociedade, e depois ainda durante as dinastias seguintes — todos os antigos mestres históricos ou lendários dos imperadores eram assim manifestações de Lao zi.
    • O tema de suas reencarnações ganhou grande amplitude e foi desenvolvido pelo menos até os Song (960-1279).
  • No século II d.C., Lao zi apareceu a Zhang Daoling, um membro do meio dos buscadores de imortalidade, para investi-lo como Mestre Celestial, encarregado de anunciar uma lei nova, após o que nenhuma aparição como mestre conselheiro de imperadores foi mais mencionada, cabendo aos Mestres Celestes fazer o relais.
    • Continuou, porém, a descer para trazer seu ensinamento a adeptos ou para entregar a um deles mensagens destinadas ao imperador.
    • Vários messias surgiram em épocas diversas, anunciando o fim do mundo, que se chamavam Li e pretendiam ser uma reencarnação de Lao zi.

A dimensão cósmica

  • Certos textes descrevem Lao zi de modo a assimilá-lo ao Tao, atribuindo-lhe a função de “fazer com que a terra suporte e que o céu esteja suspenso” — papel próprio do Tao —, de estabelecer “a raiz do Céu e da Terra” e de ter nascido antes deles.
    • “Ele molda e transforma os dez mil seres, faz correr como uma atrelagem o sol e a lua, faz circular as estrelas… desencadeia a mudança das quatro estações.”
    • “Ele 'nasceu' no Sem-começo, surgiu no Sem-causa; antes dos dez mil seres, é o ancestral do Sopro original.”
    • Certos textos datados dos Song fazem dele uma forma hipostasiada do Tao.
  • Lao zi fundiu-se no Tao como faz o Santo taoísta, ao ponto de não formar com ele senão um único ser, “retendo seu fulgor e tornando seu corpo invisível” e, como o Tao, não tendo forma, podendo assumir todas as formas.
    • “Ele se diverte na origem das coisas”; uniu-se à realidade una e indiferenciada que jaz no âmago do universo.
    • Quando se dissipa, é o Sopro do mundo; quando toma forma, é um homem — pode igualmente revestir todas as formas, ser branco ou negro, redondo ou quadrado.
    • Como deus cósmico das origens, proferiu os Livros sagrados que estão no fundamento do mundo e do ensinamento taoísta.
  • Há vestígios, desde o século VI da era comum, de um mito cosmogônico que faz de Lao zi um Makanthropos — um Homem cósmico que é o Universo e do qual o universo é ao mesmo tempo feito por seu desmembramento, à semelhança de Osíris.
    • Esse mito se liga ao mito de Pangu, originário do sul da China, do qual há traços a partir do século III d.C.
    • “Lao zi transformou seu corpo. Seu olho esquerdo tornou-se o sol, seu olho direito tornou-se a lua, sua cabeça tornou-se o monte Kunlun (o centro do mundo), sua barba tornou-se os planetas e as mansões; seus ossos tornaram-se os dragões, sua carne tornou-se os quadrúpedes; seus intestinos tornaram-se as serpentes; seu ventre tornou-se o mar; seus dedos tornaram-se os Cinco Picos; seus pelos tornaram-se as árvores e as ervas; seu coração tornou-se (a constelação do) Dossel florido.”
  • Sob a influência do budismo, a partir do século VI, surgiu a teoria dos “corpos de Lao zi”, segundo a qual o Senhor Lao celestial nasceu da coagulação dos três Sopros originais formados em uma pequena bola engolida pela Filha de jade do Misterioso Maravilhoso, a Mãe Divina — objeto de culto —, portando as 72 ou 81 marcas extraordinárias.
    • Como o Buda, Lao zi possui vários corpos: em resumo, distinguem-se o “corpo do Tao” — o Tao inefável e invisível — e o “corpo de resposta” — a forma que ele assume para aparecer aos fiéis “em resposta” à sua demanda, em proporção de seus méritos e em relação à sua capacidade de ver e compreender —, chamado também “corpo metamórfico”.

II. O Daode jing

  • O Daode jing, que parece datar do século IV antes da era comum, ainda é objeto de debate quanto a ser obra de um único homem ou de vários, apresentando-se sob a forma de uma coletânea de aforismos frequentemente concisos e por vezes sibilinos, que testemunham um estado já muito maduro do pensamento que refletem.
    • Divide-se tradicionalmente em duas partes — a primeira consagrada ao Tao, a segunda à Via —, embora esse provavelmente não seja seu estado originário.
    • Escavações arqueológicas recentes trouxeram à luz uma versão com a divisão inversa, contendo variantes que testemunham uma interpretação influenciada pelo legalismo — escola de pensamento político que esteve na origem do autoritarismo, da centralização e da burocratização na China.

A. Aspecto lógico, dialética dos opostos

  • O primeiro capítulo do Daode jing é célebre e fundamental, enunciando a inefabilidade radical do Tao e a reciprocidade constitutiva dos opostos.
    • “As vias que podem ser seguidas (ou ditas) não são a Via constante, / Os nomes que podem ser nomeados não são o Nome constante. / Sem nome é o começo do Céu e da Terra; / O que tem nome é a mãe do Céu e da Terra. / Constantemente sem desejo, contempla-se a Maravilha. / Constantemente no desejo, contemplam-se os arredores. / Ambos têm mesma Origem e nomes diferentes; / Juntos, dizem-se o Mistério. / Mistério sobre mistério, Porta de todas as maravilhas.” (Lao 1)
    • “O Tao constante” não é “daoizável”, não é nem dizível nem praticável — dao significa “dizer” e “via, caminhar”.
    • Isso pode ser compreendido tanto como afirmação do caráter invivível e inexploitável do Tao e, portanto, como advertência para se voltar a daos viáveis, quanto como apelo a um Tao supremo além de todos os ensinamentos dispensados pelas diversas escolas de pensamento.
    • Os nomes que podem ser nomeados não são o “Nome constante” — o estatuto do que tem um nome não pode ser permanente, pois pertence ao mundo e ao devir; mas o silêncio é “o começo do Céu e da Terra”, enquanto a palavra é “a Mãe dos dez mil seres”, fonte de vida.
  • Continuamente, o Daode jing pondera os valores recebidos — o belo, o bem etc. — e seus opostos, evidenciando a geração recíproca de todos os contrários.
    • “Todos no mundo reconhecem o belo como belo; eis logo o feio. / Todos reconhecem o bem como bem; eis logo o mal. / Assim, existência e não-existência se engendram uma à outra, / Difícil e fácil se constituem um ao outro, / Longo e curto tomam forma um do outro, / Alto e baixo se remetem um ao outro, / Notas e vozes se harmonizam uma à outra.” (Lao 2)
    • A questão posta é se pode haver um nome para aquilo de que todos os nomes tiram origem e se se pode falar do que está além da linguagem.
    • Tão logo há um nome — uma determinação, um ponto de referência —, ocorre o mesmo que quando se traça uma linha: surgem dois lados, e não apenas as palavras são inadequadas, mas também as opções parciais das morais e dos sistemas de pensamento estabelecidos.
    • Uma afirmação implica a possibilidade de sua negação; todo anverso possui um reverso — não se trata apenas de evidenciar o caráter paradoxal e fundamentalmente binário do pensamento e do discurso humanos, mas também de conjugar o anverso e o reverso de uma peça, ou de inverter a ordem habitual para apreender o fundamento sobre o qual toda afirmação se apoia.
    • “A quietude é senhora do movimento” (Lao 2), pois sem repouso não pode haver movimento, e o movimento só pode destacar-se de um não-movimento — o que nada tem a ver com quietismo.
    • “A existência tem sua fonte na inexistência” (Lao 40) e, ao mesmo tempo, “a existência e a inexistência se engendram reciprocamente” (Lao 2) — é preciso ligar os dois pontos de vista antagônicos em uma visão binocular.
    • “Conhecer a masculinidade e manter a feminilidade, / É ser o Ravina do mundo. / Ravina do mundo, / Sem abandonar a Virtude Constante, / E retornar à infância. / Conhecer o branco e manter o negro, / É ser a Norma do mundo. / Norma do mundo, / Sem perder a Virtude constante, / E retornar ao Sem-termo. / Conhecer a glória e manter-se na humilhação, / É ser o Vale do mundo. / Ser o Vale do mundo. / Bastar-se da Virtude constante / E retornar à Madeira bruta.” (Lao 28)
    • Ficam assim lançados os fundamentos da lógica da ambivalência que domina o pensamento taoísta, onde um termo remete ao seu contrário e onde tese e antítese devem ser vistas sob seu aspecto de oposição dinâmica ao mesmo tempo que de complementaridade inscrita em uma Totalidade Una.
  • O primado não é dado nem à existência nem à sua ausência, mas à totalidade infinita — a do Tao sem nome e da simplicidade una, indistinta e grávida de todos os possíveis —, enquanto o Um equilibra e acolhe todos os contrários, mantendo sua associação e sua circularidade.
    • O que parece disjunto é fundamentalmente conjunto (“ambos têm mesma Origem”) — não se trata de uma realidade escondida por trás do véu da aparência, mas de uma realidade inerente à própria existência, que constitui seu fundo.
    • O recém-nascido é proposto como exemplo por ainda não estar separado de sua Mãe, de sua Raiz, e por, não tendo ainda usado nenhuma de suas capacidades, as possuir todas — assim como o silêncio contém todas as palavras.
    • “Quem encerra abundante Virtude / É como um recém-nascido. / O inseto venenoso não o pica, / Os animais ferozes não se apoderam dele, / As aves de rapina não o arrebatam, / Seus ossos são fracos, seus tendões flexíveis, / Mas seu aperto é firme. / Ignora a união do macho e da fêmea, / Mas seu sexo está ereto, / Sua energia sexual está no auge. / Chora o dia inteiro sem ficar rouco, / Sua harmonia (natural) está no auge.” (Lao 55)
    • A Via de Lao zi não prega a permanência no estado de infância nem o confinamento no silêncio — o “velho mestre” o demonstra ao entregar um ensinamento —, mas a integração, em toda coisa, de sua fonte, que é frequentemente seu contrário; o “retorno” à quietude ou ao silêncio é um aspecto de um movimento que, do ponto de vista ordinário, é de retirada, mas esse retirada é completado por um segundo retorno orientado para o movimento, para o mundo.

B. O wu

  • A mesma lógica opera no “não-agir” do Daode jing: agir é determinar, escolher um guia em vez de outro, é o mesmo que nomear e categorizar, e além disso todo esforço está condenado à destruição em razão de sua natureza intermitente.
    • “Uma rajada de vento não dura até o fim da manhã, / Uma tempestade de chuva não dura até o fim do dia.” (Lao 23)
    • A quietude e a vacância são a expressão desse não-agir, que foi por vezes simplesmente interpretado como ausência de preocupações e de paixões, mas que também significa não fazer algo de particular, intencional, nada fazer que esteja desligado de todo o seu contexto.
    • O célebre aforismo enuncia: “Não façais nada, e não há nada que não será feito.” (Lao 37)
    • Assim eram os sábios da antiguidade, sem especificidade: “Hesitantes, como quem atravessa um rio no inverno, / Temerosos, como quem teme de todos os lados, / Reservados, como um convidado / Prontos a ceder, como o gelo que vai derreter, / Autênticos, como a madeira bruta, / Largos, como um vale, / Turvos, como água lodosa.” (Lao 15)
    • Essa abordagem desemboca em uma estratégia de comportamento: “Nada no mundo mais flexível e fraco que a água, / Mas nada a supera para vencer o que é forte e duro (…) / O fraco vence o forte, o flexível vence o duro, / Ninguém no mundo que o ignore, e ninguém o aplica.” (Lao 78)
  • O wu — simples negação, por vezes empregado substantivamente — é o instrumento da via negativa que denega ao Tao toda qualidade e toda forma suscetível de precisão, tratando do Tao que “retorna onde não há seres” (Lao 14), o vazio no sentido de ausência de qualquer coisa existente, o vazio original do qual só se pode ter uma imagem sem forma.
    • No plano do comportamento, o wu é o emblema da despossessão do Santo: a virtude deste é não-virtude, seu agir é não-agir — rejeitado está todo esforço laborioso em direção ao bem ou ao melhor, bem como todo juízo de valor.
    • O Santo, como a Via natural (o Céu), como o Tao, é “indiferente”: “Céu e Terra são sem benevolência; / Tratam a miríade dos seres como cães de palha. / O Santo é sem benevolência; / Trata as cem famílias como cães de palha.” (Lao 5)
    • “O Santo se estabelece na prática do não-agir, / Dispensa um ensinamento sem palavras. / A miríade dos seres emerge e ele não os rejeita; / Fá-los viver, mas não os possui; / Age sem assurance. / Sua tarefa cumprida, não se demora nela. / Como não se demora, ela não desaparece.” (Lao 2)
    • “Grande perfeição parece um defeito, / Mas se exerce sem se esgotar. / Grande plenitude é como vazio, / Mas se exerce sem se secar. / Grande retidão parece torta, / Grande habilidade parece desajeitada, / Grande eloquência parece gaguejar.” (Lao 45)
    • A um só tempo vazio intersticial e vazio de acolhimento, o wu é sinônimo de receptividade — é o que torna habitável uma casa, utilizável um vaso: “Trinta raios se juntam a um único cubo, nesse vazio se funda o uso do carro. / De um torrão de argila se molda um vaso, em seu vazio se funda o uso do vaso. / Janelas e portas são abertas em um cômodo, nesses vazios se funda o uso do cômodo. / A existência traz uma vantagem, e a não-existência (o vazio) é seu uso.” (Lao 11)
    • O vazio extremo é quase sinônimo de quietude (Lao 16) — vazio mental e afetivo, ausência de preconceitos, preferências e desejos; em razão da dialética dos opostos, esse vazio receptáculo atrai o pleno, é flexibilidade e força atrativa, da qual a feminilidade é o símbolo.
    • Apoiando-se na renúncia, o Santo toma as coisas a contrapé: renuncia para obter, faz-se fraco para ser forte — “O Santo, colocando-se para trás, é posto à frente, / Pondo-se fora do curso, permanece presente.” (Lao 7)

C. O Tao, misteriosa presença íntima de dimensão cósmica

  • O termo dao pertence ao fundo chinês comum a todas as escolas, significando “caminho” e “dizer” e designando uma “via” no sentido de guia do comportamento, moral e ideológico, e o Daode jing opõe esses daos circunstanciais ao “Tao constante”, sua Fonte única e inominável.
    • O nome Tao é um recurso metafórico, um nome analógico que não designa propriamente aquilo a que se aplica: “Não conheço seu nome, / Sua denominação é a Via (Tao) / Forçado a nomeá-lo, direi Grande.” (Lao 25)
    • Por ser amorfo, o Tao contém todos os possíveis e é a Raiz una de todas as produções de todos os daos múltiplos, o tronco comum inconcebível de todas as forças antagônicas e complementares.
    • Com o Daode jing, e a partir dele, o termo Tao reveste um sentido cósmico que todas as escolas adotarão em maior ou menor grau.
  • O Tao é eterno e insondável, anterior a todas as coisas, Fonte do mundo, “porta de todas as maravilhas” (Lao 1), “Espírito do vale” que “jamais se esgota” (Lao 6), “Tesouro do mundo” (Lao 62), pelo qual existem o Céu, a Terra e as estrelas, que impregna de sua força eficaz, a Virtude, sem esperar nada em contrapartida.
    • “O Grande Tao flui, à direita como à esquerda; / Os dez mil seres dependem dele para viver, / Ele não os rejeita; / Sua obra cumprida, não se vangloria. / Veste e alimenta todas as coisas, sem se fazer seu senhor. / Constantemente sem desejo, pode ser chamado Pequeno. / Todas as coisas para ele convergem sem que se faça seu senhor. / Pode ser chamado Grande. / Por fim, por não se fazer grande, / Realiza sua grandeza.” (Lao 34)
    • Ponto de convergência universal, é “como o Rio e o Oceano para os rios e os riachos” (Lao 32) e o destino de todas as coisas — infinito e sem limite, abismo sem fundo, eterno e simples, a nada redutível.
    • “O Tao luminoso parece obscuro, / O Tao que avança parece recuar, / O Tao simples parece áspero… / O Grande Quadrado é sem ângulos, / O Grande Vaso demora a completar-se, / A Grande Música tem seu imperceptível, / A Grande Imagem é sem forma.” (Lao 41)
  • O Tao é a realidade última concreta, natural, espontânea e operante, não classificada nem codificada, e é de uma experiência íntima que se trata, não de uma reflexão ou de um sistema de pensamento.
    • Mais do que uma entidade metafísica, o Tao é uma presença mística — o Daode jing rejeita o saber (capítulos 18, 19, 20, 64) em nome de um conhecimento imediato e de uma experiência interna e originária que não pode ser apreendida pelo intermédio do conhecimento mental.
    • A visão do mundo proposta pelo Daode jing é consequência de práticas de meditação às quais são feitas breves alusões, visando na maioria das vezes adquirir serenidade, clareza de espírito e receptividade que, quando atingidas, desembocam no sentimento de presença íntima de um todo cósmico.
    • Vazio, pensamento unificado, concentração, ausência de desejo, pureza de seda crua e simplicidade caracterizam uma disposição interior que desemboca na experiência dessa presença íntima — obscura e ínfima, evanescente, mas real; o adepto tenta apreendê-la ou vê-la, ainda que isso não seja possível (Lao 14, 21), imergir nela e ser acolhido por ela.
  • Evanescente e inefável, o Tao é também o lugar da nescência, da ignorância mística em que o espírito humano é mantido quanto à origem do mundo, a seu fim e à sua lei última.
    • A via negativa ou apofática muito perceptível no Daode jing encontra seu corolário positivo na noção de ziran — o “espontâneo”, o “é assim” —, que designa ao mesmo tempo o estado das coisas tais como são, independentemente de todo juízo de valor, e a força inesgotável sempre presente em cada momento e em cada coisa: o dinamismo do retorno em direção à “Mãe”, a uma fecundidade inesgotável.

D. O governo

  • É uma tradição propriamente chinesa que quase todos os pensadores tenham tratado do político, e o Daode jing não faz exceção, apresentando uma imagem do soberano ideal e santo que “excele em salvar os homens e não os rejeita” (Lao 27), inscrita na lógica direta de seu pensamento.
    • Esse soberano encarna o Tao e funde-se com ele, agindo como ele “sem agir” — ou seja, sem intenção particular, sem interferir no curso natural das coisas.
    • “O Santo diz: / Não ajo, o povo se transforma por si mesmo, / Amo a quietude.” (Lao 57)
    • Como o Tao, o soberano ideal é a Raiz, o Modelo e o Centro em torno dos quais todas as coisas se organizam e para os quais todas as forças vivas confluem, sem que ele precise impor-se nem impor lei ou moral alguma — ao contrário do soberano confuciano, que governa pelo exemplo e pela moral.
    • “Os maiores (soberanos), o povo só conhece sua existência, / Vêm em seguida aqueles que se ama e louva, / Depois os que se teme, / Depois os que se despreza (…) / (Os grandes) cumprem sua tarefa, conduzem seus negócios, / E o povo diz: seguimos nossa natureza.” (Lao 17)
  • O curso do tempo e das coisas caminha em direção a uma progressiva decadência, um afastamento do Tao, um exílio, e as virtudes confucianas, as prescrições da sociedade, a educação e as leis não estão aí senão para remediar as consequências desse afastamento, como muletas que mantêm um equilíbrio factício e difícil.
    • O Daode jing orienta-se assim na contracorrente, remontando o tempo em direção a uma Idade de Ouro de inocência e simplicidade primitivas — uma vida em uma pequena aldeia onde nada se sabe das invenções da sociedade, onde a vida tem mais sabor.
    • “Tem-se gosto pela comida, aprecia-se suas roupas, / Está-se em paz em sua morada, alegra-se com os costumes populares. / Os países vizinhos são visíveis, ouve-se os chamados dos galos e dos cães. / As pessoas morrem em sua velhice, sem ir e vir umas à casa das outras.” (Lao 80)
    • Não se trata de simples nostalgia, mas do fundamento do próprio tempo e do mundo — o tempo da Unidade primeira, feito de paz e harmonia, traduzido em termos de sociedade.
  • Em termos de prática política, o povo se encontra melhor se aprende a contentar-se com o que tem, em vez de se esgotar em desejos insaciáveis, e se seus sábios governantes são frugais e ensinam a “não prezar os objetos raros” (Lao 64).
    • “Para governar os homens servindo ao Céu, nada vale mais do que a frugalidade.” (Lao 59)
    • O Daode jing pode ainda ser lido como um ensinamento político para os homens de um tempo marcado pela violência e pelas lutas pelo poder, valorizando o desinteresse em oposição aos ambiciosos que buscam se destacar, seja em nome de um saber-fazer, seja em nome de sua integridade e alto valor moral.

E. Paradoxo, a busca da eficácia

  • A abordagem do Daode jing desemboca em um paradoxo: pretende-se conquistar usando fraqueza e suavidade, e portanto pela recusa aparente da dominação — o que levou a acusar Lao zi de astúcia tortuosa.
    • “Curvar-se para permanecer íntegro.” (Lao 22)
    • Pode-se responder que a vitória buscada visa não a dominar, mas a pacificar e a fazer reinar um equilíbrio, a reencontrar uma totalidade harmoniosa onde a fraqueza e a renúncia desempenham o papel de contrapeso à violência e ao poder dominador, levando em conta o movimento de compensação que preside à ordem natural e que acarreta uma inversão das forças em presença.
    • É uma renúncia que é apropriação, uma despossessão que é conquista — mais do que uma inversão de valores, a afirmação de um valor oposto que contém, encaixa, o valor primeiro, mantendo-o e fazendo-lhe equilíbrio.
    • Tese e antítese se sustentam e se anulam reciprocamente no plano discursivo, mas não no da existência — ambas são juntas mantidas existencialmente em uma experiência silenciosa.
01/05/2026 11:23
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