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O DRAGÃO

(MVM:38-47)

  • A composição e o estudo isolado e paralelo das situações dos Gráficos de Deus produzem todas as ideias do cérebro e todas as luzes da consciência, e nessas situações e em seus traços manifesta-se o movimento perpétuo, resultado da atividade primordial e consequência da atividade potencial da Perfeição, de modo que cada ideograma e cada traço possuem uma atividade própria pela qual se movem livremente, conforme a via livremente consentida da qual são expressão.
    • Os Gráficos de Deus — expressão que designa os hexagramas do Yiking — são concebidos como representações simbólicas das modalidades transformadoras que constituem a existência do universo tangível.
    • A fórmula tetragramática é anunciada como a chave da causa profunda e da explicação formal dessas modalidades, a ser estudada no capítulo seguinte.
  • Resulta daí que cada traço, à medida que é considerado, adquire uma personalidade decorrente da manifestação de sua atividade particular, sendo lógico que o simbolismo intelectual e fonético lhes tenha atribuído a figura expressa da Onipotência e da Atividade Total, isto é, a figura do Dragão — mestre onisciente dos caminhos da direita e da esquerda.
    • A citação é atribuída a Phan-Khoatu, I.
    • O Dragão é apresentado como símbolo intelectual e fonético da atividade universal, não como figura meramente ornamental ou folclórica.
  • A décima primeira estrofe da célebre balada A Vida Alegre — ao som da qual, em todo o Extremo Oriente, os velhos letrados sorriem e as crianças adormecem — canta a lenda do Dragão, evocando a diferença de destino entre o peixe, que não pode viver fora de seu elemento, e o dragão, que se lança aos ares ao menor sinal de uma nuvem.
    • Tradução da estrofe citada: Os dragões e os peixes têm a mesma origem, mas quão diferente é o destino de cada um. O peixe não pode viver fora de seu elemento, mas que uma leve nuvem se abaixe em direção ao solo, e vê-se o dragão se lançar nos ares.
  • A lenda do Dragão é invocada por conter a origem da gênese mosaísta, a ficção sinaítica da lei e talvez também o símbolo da síntese alquímica.
    • A gênese mosaísta refere-se à narrativa de criação do Gênesis, atribuída a Moisés na tradição judaico-cristã.
    • A ficção sinaítica da lei alude à revelação da Lei no monte Sinai, também da tradição mosaísta.
    • A síntese alquímica é mencionada como possível horizonte simbólico adicional da mesma lenda.
  • Segundo os velhos contadores, a água que corre na terra e a nuvem que voa no céu têm a mesma natureza — apenas a aparência difere —, e a umidade fecunda o universo assim como a via do céu fecunda o pensamento dos homens, mas se suas ações não se unem, nem a água do céu age sobre a terra nem a água da terra age sobre a nuvem; quando, porém, a tempestade eleva as águas ou o calor do dia as evapora, e um leve brouillard desce ao solo ou um grande vento precipita as nuvens, então se realiza a união das duas águas, o peixe se eleva e o pássaro Hac desce, emprestam-se mutuamente asas e corpo, e em meio aos trovões e às águas mugidoras aparece o Grande Peixe sobre cujo dorso estão escritos os preceitos secretos da Lei, que, ao tocar as nuvens, se transforma no Dragão Long e desaparece nos ares.
    • O pássaro Hac é o ser celeste que habita a água do céu, contraparte aérea do peixe que habita a água da terra.
    • O Grande Peixe — figura de transição — representa o momento em que os dois princípios, terrestre e celeste, se fundem antes da transmutação definitiva em Dragão.
    • O Dragão Long — nome chinês do dragão — é o resultado da união perfeita das duas águas e portador dos preceitos secretos da Lei.
  • Recusa-se uma explicação dessa lenda popular, considerada mais clara do que todas as parábolas mosaístas e do que a lenda judaico-cristã da maçã, e propõe-se aos pesquisadores ocidentais atentos um pequeno trabalho pessoal de apropriação analógica.
    • A comparação com a lenda da maçã — referência ao Éden e ao fruto proibido — situa a lenda do Dragão como cosmogonia mais transparente e universalmente acessível.
  • Aponta-se, contudo, que o céu e a terra na realidade formam uma unidade, unidos por um veículo universal que o Sábio Chinês simbolizou pela água evaporada — infinitamente sutil mas sempre material —, e que esse veículo encontra correspondência no dogma teosófico, na doutrina platônica e nas asserções da escola gnóstica e de São Clemente de Alexandria sobre a materialidade da alma humana.
    • São Clemente de Alexandria — teólogo cristão do século II — é mencionado como ponto de contato entre a metafísica oriental e o pensamento ocidental antigo.
    • A doutrina platônica e a escola gnóstica são evocadas como confirmações independentes da noção de veículo universal sutil e material.
  • A Perfeição existe apenas pela união do Céu e da Terra, e é nessa união que o Dragão se manifesta, desaparecendo em seguida nos ares — símbolo que se entende de dois modos: o universo está sempre em atividade extrema, e a Perfeição não é visível nem inteligível ao homem, pois desaparece no momento em que é vista ou compreendida.
    • O Dragão é, portanto, um símbolo que o homem figura para si, mas que não existe para ele — existindo realmente apenas na união total realizada pelo veículo universal.
  • O símbolo do Dragão deve ser conservado como imagem excelente e abreviação conveniente nas proposições metafísicas, mesmo que sua linguagem pareça infantil.
  • O Dragão é o Verbo — não apenas no espírito dos sábios e comentadores, mas na demonstração da própria filologia: o radical LOG do Logos platônico e alexandrino pronuncia-se de modo fortemente marcado e em sílaba longa, correspondendo exatamente ao nome do ideograma do Dragão em chinês, LONG, com o O longo e o N breve e surdo, pronunciado LOGUE nas vice-realezas da China central.
    • O Logos platônico e alexandrino designa o princípio racional universal que organiza o cosmos, conceito central na filosofia de Platão e na escola de Alexandria.
    • O Verbo do apóstolo João — tal como exaltado pelos cristãos ao fim de seus sacrifícios — é identificado como sem representação mais imediata nem simbolismo mais exato em toda a humanidade do que o Dragão universal e invisível.
    • A convergência filológica é apresentada como testemunho da unidade da verdade: nunca houve mais de uma verdade, os símbolos diferem mas a pronúncia de seu nome é em toda parte idêntica.
  • O hexagramma Khièn — cujo comentário tradicional de Tsheng-tse e Confúcio sobre o primeiro hexagrama do Yiking enuncia que a ação do céu é a atividade, e que o homem dotado a imita esforçando-se sem cessar — apresenta o homem dotado como expressão especial às raças amarelas, termo de escolástica que corresponde a um estado de aperfeiçoamento inferior à perfeição e superior à sabedoria, comparável, em outras línguas, aos Iniciados, Magos, Grandes Sacerdotes, Francos Juízes, Santos, Bem-Aventurados e Mahatmas.
    • Tsheng-tse — comentador tradicional do Yiking — é uma das autoridades citadas ao longo da exposição do primeiro hexagrama.
    • Confúcio — Kongtseu em chinês — é o outro comentador do primeiro hexagrama do Yiking aqui invocado.
    • O homem dotado admite várias estases ou estágios, e apenas as circunstâncias de cada caso particular indicam a qual etapa intelectual e psíquica ele chegou no caminho da perfeição.
  • A razão de ser não tem forma visível, e por isso se emprega uma imagem para iluminar o sentido: o Dragão, através do veículo universal, percorre os seis traços do Khièn ocupando seis posições diferentes e conferindo sentido a cada traço, exatamente como uma série acústica inscrita numa pauta musical produz um acorde harmônico do qual é a única proprietária como expressão, mas cujas linhas de pauta são o tradutor e o veículo.
    • Há sessenta e quatro pautas humanas, correspondentes aos sessenta e quatro hexagramas do Yiking.
    • O primeiro hexagrama — Khièn, hexagrama da perfeição em si — é o de que os magos e filósofos chineses extraíram, em todos os ramos da sabedoria humana, seus principais e melhores ensinamentos.
  • Sobre o primeiro traço — traço inferior e positivo — o Dragão, inteligência cujas modificações são ilimitadas e símbolo das transformações da via racional do Tao expressa pelo Khièn, representa o ponto de partida do começo dos seres e permanece oculto, pois a extrema atividade da Perfeição não se produz ainda por nenhum ato de vontade nem por nenhum pensamento — é o período do não agir.
    • A citação é do Yiking, capítulo I, parágrafo 8, comentário de Tsheng-tse.
    • Por período entende-se o estado metafísico, e por situação o lugar geométrico — concepções independentes das relatividades do tempo e do espaço.
  • Sobre o segundo traço, o Dragão emerge e a atividade começa a se fazer sentir na superfície da terra — é o Dragão na rizeira: a atividade extrema do céu não se manifesta ainda, mas o homem percebe que ela existe, como se percebe a presença de um ser na rizeira pela ondulação da superfície.
    • O segundo traço é o traço mediano do trigrama inferior e resume sua expressão geral; sua correspondência com o traço mediano do trigrama superior — ambos positivos no Khièn — reforça o sentido do hexagrama: a atividade do céu é extrema, contínua e eterna.
    • Shiseng resume essa situação: o éter positivo começa a engendrar, assim como a luz do sol começa a iluminar todas as coisas antes que ele apareça no horizonte.
  • Sobre o terceiro traço, o Dragão se manifesta na situação superior do primeiro trigrama — é o Dragão visível: a incessante atividade, chegada ao alto de um trigrama, transpõe o abismo que a separa do segundo trigrama, e há perigo em ver o dorso do Dragão, isto é, em conhecer a Ciência e a Lei sem suficiente preparação pelos estados anteriores.
    • A comparação com o estado edênico e a lenda do fruto proibido é explicitamente evocada como paralelo simbólico.
    • O perigo reside em que a vontade de expansão pode conduzir à multiplicidade, ou seja, às formas e à desunião.
  • Sobre o quarto traço, o Dragão tende a abandonar o mundo sem ainda voar — é o Dragão saltante, igualmente pronto a se apagar no éter dos espaços celestes e nas profundezas dos abismos onde se encontra o lugar de seu repouso, podendo a incessante atividade tomar as asas do Dragão e desaparecer para cima ou conservar as nadadeiras do peixe e desaparecer para baixo.
    • A citação é do Yiking, capítulo I, parágrafo 14, comentário de Tsouhi.
    • Essa situação é o símbolo da liberdade e da independência com que o universo se move e entra em sua via — o Tao; e o verdadeiro fim do movimento da atividade é o repouso absoluto, o Nirvana, inteligível mas inacessível ao ser humano.
  • Sobre o quinto traço, o Dragão inteiramente manifestado age em sua plenitude e rege o mundo sem ter ainda desaparecido — é o Dragão voador, cuja simples visão propicia a idade de ouro da humanidade: a expansão feliz do Universo na Totalidade que não cessa de ser a Unidade, em que a criação existe inteiramente mas sem formas.
    • O quinto traço é o traço mediano do trigrama superior, correspondente simpático do segundo traço: o segundo traço é uma vontade de ação não formulada, e o quinto traço é essa ação não formal.
  • Sobre o sexto traço, o Dragão desaparece — é o Dragão pairante: a altura conveniente é ultrapassada, a extrema unidade é atingida, há excesso de elevação, e com o Dragão começa a desaparecer a estase de perfeição absoluta.
    • A citação é de Tsouhi, comentador do Yiking.
    • Confúcio enuncia: o que está completamente acabado não pode durar muito tempo.
    • Essa é a estase atual atravessada pelo ciclo ao qual pertence a humanidade presente — a criação tangível, a divisibilidade da unidade pela multiplicação das formas, e o desejo de retornar ao estado de unidade e de rever o Dragão.
  • A harmonia metafísica inscrita no primeiro hexagrama do Yiking comportaria um volume inteiro de deduções sobre Gênese, Criação, Cosmogonia, Teogonia, Teologia, Ontologia, Síntese universal e origem das leis humanas, trabalho que deve ser deixado como exercício e ginástica meritória à intelectualidade dos pesquisadores.
  • Além do acorde metafísico, todas as ciências — política, economia social, moral, adivinhação — encontram, pela marcha dos seis Dragões, soluções para as necessidades intelectuais da humanidade; e a título de exemplo são expostas as regras de conduta do iniciado segundo cada posição do Dragão no Khièn.
    • Dragão oculto — o homem dotado deve meditar, calar-se e desenvolver-se no estudo e na contemplação, pois agir enquanto o dragão está oculto seria não dar sua medida e cair em erro prejudicial ao futuro.
    • Dragão na rizeira — o homem dotado é consciente de sua virtude mas não pode ainda deixar a terra; melhora gradualmente os seres pelo ensinamento, sem ainda poder comandar nem se manifestar, devendo seguir o exemplo dos Magos que o precederam.
    • Dragão visível — o homem dotado, em situação inferior a seus méritos, corre perigo e deve agir com circunspecção, pois sua virtude atrai a simpatia do universo e, por essa simpatia, o ódio de seus superiores; mas que se retire ou permaneça, deve sempre seguir a via normal — o Tao.
    • Dragão saltante — o homem dotado nunca age sem relação com o momento em que age; aumentou seus méritos para ser distinguido num momento preciso; é livre de avançar ou recuar, podendo edificar por uma virtude brilhante ou redescender numa humildade meritória, devendo se inspirar nas circunstâncias.
    • Dragão voador — o homem dotado ocupa a situação superior que lhe convém; chegado aos altos cumes da inteligência, deve olhar abaixo de si o homem igualmente dotado de virtude para ajudá-lo com seus exemplos e associá-lo à sua potência; na plenitude de seus meios, deve agir.
    • Dragão pairante — a beleza infinita é difícil de conservar; o homem dotado deve saber avançar e recuar a tempo para nunca se expor a perdê-la; nunca se deve cometer excesso nas ações, mesmo as boas.
  • Confúcio enuncia, com sua habitual nitidez e concisão, os seis aforismos que determinam, pela marcha dos Dragões, a conduta normal do simples cidadão.
    • Primeiro aforismo: não mudar segundo o século; não se apegar à renome; fugir do mundo; não ter pesar de não ser apreciado nem conhecido dos homens.
    • Segundo aforismo: boa-fé nas menores palavras; circunspecção nos atos; estar em guarda contra a mentira; melhorar, sem se vangloriar, o seu século pela virtude transformadora.
    • Terceiro aforismo: ocupar uma situação elevada sem se orgulhar dela; ocupar uma situação inferior sem dela se queixar.
    • Quarto aforismo: aperfeiçoar suas aptidões; aproveitar o momento oportuno.
    • Quinto aforismo: agir e, por sua ação, salvar o universo.
    • Sexto aforismo: guardar-se de ser demasiado nobre para ter uma ocupação, e de ser demasiado elevado para ter amigos.
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