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BOREL – WU WEI

Henri Borel. WU WEI. A SABEDORIA DO NAO-AGIR

Tornou a anoitecer. Sentamo-nos numa colina suave, íntima e serena, no grande silêncio daquele tempo solene.

As montanhas ao nosso redor jaziam em humilde devoção, como ajoelhadas, imóveis, sob o Céu, a receber a bênção da noite que lentamente descia. As árvores solitárias, espalhadas pelas colinas, permaneciam imóveis em atenta devoção.

O mar murmurava, vago e indefinido, perdido em sua própria imensidão. Havia paz no ar, e os sons, como preces, elevavam-se ao Céu.

O Sábio permanecia ali, majestoso e natural como uma árvore, venerável como a própria noite. Eu viera fazer-lhe novas perguntas. Porque minha alma estava em tumulto, e só encontrava paz quando estava com ele. Mas agora que estava sentado ao seu lado, quase não ousava falar. Tinha a sensação de que já não era necessário, como se tudo já estivesse revelado.

Não era tudo belo e simples nesta noite? Não era meu próprio ser que eu via no encanto da natureza ao meu redor? E agora que eu ali estava, sonhador no infinito, não era isso tudo? Mas eu me abri, rompendo meu suave silêncio:

“Pai — disse com leve tristeza — cada tua palavra permanece em mim, e seu perfume enche minha alma. Já não é minha antiga alma. É como se antes eu estivesse morto, verdadeiramente, e não soubesse o que me acontecia, cada dia e cada noite, tanto que me tornei tão leve, tão vazio por dentro.

Pai, eu sei, é o Tao, que morre e incrivelmente renasce, mas não é Amor, e sem o Amor, o Tao me parece uma obscura Mentira.”

O Sábio olhou a noite ao nosso redor e sorriu.

“Então, o que é o Amor? — calmamente me perguntou. Tu sabes?”

“Não, não sei — respondi. Eu não sabia nada, e justamente por isso foi para mim uma imensa alegria. Refiro-me ao amor por uma jovem, o amor por uma mulher. Quando vi aquela jovem e minha alma se emocionou pela primeira vez, eu entendi o que era, Mestre. Era como um Oceano, como um imenso Céu, como morrer. Era luz, e eu estivera cego! Eu me sentia mal, Pai, meu coração batia tão forte, e meus olhos ardiam. O mundo inteiro parecia arder, e todos os eventos mais estranhos ganhavam vida. Como um grande fogo que se acendera em minha alma. Sentia uma ansiedade, mas era tão prazerosa, e tão grande, infinita. Pai, eu achava que era maior que o Tao.”

“Sei bem o que era — disse o Sábio. Era a Beleza, a forma terrestre do Tao sem forma, vinda para definir o ritmo de tua íntima união com o Tao. Poderias tê-lo sentido do mesmo modo, olhando para uma árvore, uma nuvem, uma flor. Mas, como és uma pessoa de paixões, para ti só podia ser revelado por outro ser humano, por uma Mulher, porque essa é a forma que mais facilmente compreendias, e que te era mais familiar. E como em ti a paixão venceu a pura contemplação, teu ritmo se acelerou, tornando-se uma tempestade furiosa, como um mar revolto, que se move sem saber para onde vai. A essência desse complexo de emoções não era o Amor, era o Tao.”

Mas a calma plácida do ancião me colocou em estado de febril excitação, e eu lhe respondi brutalmente.

“Tu podes expor isso como uma magnífica teoria, mas se nunca o sentiste em primeira pessoa, não podes realmente saber do que falas.”

Ele me olhou com um olhar compassivo e fixo, e pôs uma mão em meu ombro.

“O que dizes, filho, poderia soar cruel se o dissesses a outra pessoa. Eu amei nesta Terra antes mesmo que começasses a respirar. Viveu então uma jovem mulher, tão bela que vê-la era como ver a Forma do Tao vinda ao mundo. Para mim ela era o mundo, e o mundo ao seu redor estava como morto. Não via senão ela. A vi, e aos meus olhos não existiam mais árvores, nem pessoas, nem nuvens. Era mais bela que esta noite, mais suave que estas linhas que flutuam ao redor das montanhas, mais delicada que estas belas copas de árvores em espera, e sua luz era mais agradável que a luz daquela estrela distante, lá no alto.

Não te direi o que aconteceu depois. Ardia como o inferno, mas não era real, e assim, como uma tempestade, terminou. Pensei em morrer, quis morrer para fugir de minha dor. Mas uma aurora surgiu em minha alma, e tudo voltou a ser familiar e suportável. Nada estava perdido. Tudo voltou como era. A beleza, que não me era destinada, continuou a viver, pura, em mim. Porque não estava naquela mulher, estava em minha alma. E eu a vi brilhar por toda parte no mundo, com uma luz imortal. A Natureza não era senão a aparência do que aquela mulher fora para mim. E minha alma era uma só com a Natureza, e flutuava no mesmo ritmo, rumo ao Tao, sem fim.”

Senti-me serenado por sua calma, e disse:

“A mulher que amei morreu, pai, e nunca foi minha esposa, e arrancou minha alma, como uma criança arranca uma flor. Mas agora tenho uma esposa, um prodígio de força e bondade, uma esposa que confia em mim, como a luz confia no Céu. Só que não a amo, como ainda amo minha pobre amada que morreu. Embora saiba que ela é uma pessoa mais pura que a outra. Por que não consigo amá-la? Tornou minha vida triste e solitária, uma viagem serena e tranquila para a morte. É pura e simples como a natureza, e seu rosto é para mim claro, como a luz do sol.”

“Oh, tu a amas — disse o Sábio — simplesmente não sabes o que é o Amor, e o que significa amar. Eu te digo: o Amor nada mais é que o ritmo do Tao.

Eu te disse que vens do Tao, e ao Tao retornarás. Quando ainda és jovem, e há escuridão ao redor de tua alma, sentes o primeiro movimento como um choque, e então não compreendes para onde vais. Vês a mulher diante de ti. Pensas que é para ela que o Ritmo te guia. Mas quando a tens, e sentes os arrepios de teu corpo contra o dela, continuas a sentir o Ritmo, implacável, dentro de ti, e sabes que deves ir além, cada vez mais longe, para aplacá-lo. Então um grande tormento pousa sobre as almas daqueles dois amantes, que se olham, perguntando um ao outro para onde vão. Nesse momento tomam-se docilmente pelas mãos e, movidos pelo mesmo ritmo, seguem em suas vidas, rumo ao mesmo objetivo.

Podes chamar isso de Amor, se quiseres? Eu o chamo de Tao.

E as almas dos enamorados são como duas nuvens brancas, que vagam ternamente, uma ao lado da outra, e, movidas pelo mesmo vento, desaparecem no infinito azul do Céu.”

“Mas isso não é Amor — disse eu — quero dizer, o Amor não é o desejo de ver teu amado tesouro perder-se no Tao. O Amor é o desejo de estar sempre com ela, o desejo de unir vossas almas profundamente e vê-las tornarem-se uma só, o desejo de vossos corpos fundirem-se na bem-aventurança de uma só respiração. É querer estar sempre só com a pessoa amada, não com os outros, não com a natureza. E se eu tivesse que me fundir no Tao, toda essa Felicidade se perderia para sempre. Oh, deixa-me ficar nesta Terra pródiga, seguro de meu Amor, tão íntimo e suave, o Tao é tão obscuro e impenetrável para mim!”

“O desejo do corpo morre — disse ele, impassível. O corpo da Amada murchará e morrerá na terra fria. As folhas das árvores desvanecem no outono, e as flores que murcham curvam-se para a terra. Como podes amar o que não existe para sempre?

Nem mesmo tu sabes como amas, nem o que amas. A beleza de uma mulher é apenas o eco desvanecido da beleza sem forma do Tao. A emoção que desperta em ti, aquele desejo de fundir-se com sua beleza, aquela sensação que se expande, na qual tua alma quer fluir com seu Amor para a suprema felicidade, acredita, não é senão o Ritmo do Tao. Só que ainda não o sabes.

És ainda como um rio, que conhece apenas suas margens luminosas, inconsciente da força que o move, mas que depois, inevitavelmente, fluirá para o grande mar. Por que sentimos aquele desejo de felicidade, de felicidade humana, que dura um instante e depois se vai?

Chuang Tzu disse:

'A suprema felicidade não é felicidade.'

Não achas repreensível e insensato que as pessoas caiam à mercê de uma vontade que vacila em busca de um instante de felicidade, que se esvai no mesmo instante? Não desjas a felicidade de uma mulher. Ela te revela o Tao. É a forma mais pura do Tao que se manifesta na totalidade da natureza. É a força gentil que acende o ritmo dentro de ti. Porém ela também precisa dele, como tu, e tu és para ela a mesma revelação que ela é para ti. Não penses que ela seja o Tao, e que por isso quererias unir-te a ela, como à coisa mais sagrada. Tu a repelirias, se ao final visses quem ela realmente é. Se realmente queres amar uma mulher, ama-a como amas a mísera criatura que és, e não busques nela a felicidade. Que consigas ou não vê-lo no Amor, sua natureza é o Tao. Um poeta vê uma mulher, e, emocionado pelo Ritmo, vê a beleza de sua Amada por toda parte, entre as árvores, as montanhas, os horizontes, porque a beleza da mulher é a mesma da natureza. É a forma do imenso Tao Sem-Forma, e o que tua alma deseja na emoção de vê-la, aquela vaga e estranha sensação que te invade, não é senão ser um só com aquela beleza e com o Tao, a essência dessa beleza. E o mesmo ocorre com tua esposa. Vós sois, um para o outro, dois anjos que mutuamente se guiam para o Tao, sem saber.”

Fiquei em silêncio por um tempo, pensativo. Havia uma grande melancolia nas cores suaves e no silêncio da noite. No horizonte, onde o sol desaparecera, uma faixa de luz vermelha e fraca brilhava, como uma dor que se aplaca.

“O que significa essa tristeza difusa por toda a natureza? — perguntei. Não é toda a Terra que geme de dor no crepúsculo? E chora, com cores languidas, com os topos curvados das árvores, com as montanhas vigilantes. Quando a natureza sofredora brilha diante de seus olhos, os humanos são tomados por uma dor maravilhosa.

É como se a própria natureza expressasse seu desejo de Amor. E tudo se torna nostalgia, os mares, as montanhas, as nuvens.”

E o Sábio disse: “É a mesma dor que se sente nos corações humanos. Teu desejo agita também a natureza. A melancolia da noite é a nostalgia que sentes em tua alma. É tua alma que perdeu seu Amor, o Tao, com o qual outrora era um só. E agora não quer senão fundir-se com sua Amada. Aquele fluir totalmente no Tao, aquele sentir-se um só com teu Amor, aquele senso de pertencimento, tão infinito que nenhuma morte e nenhuma vida poderá romper sua unidade, tão inabalável e puro que não sentes mais nenhum desejo agitar-se em ti, porque a perfeita bem-aventurança foi alcançada e é a paz total, única, sagrada, serena, imperturbável, não é esse o amor infinito?

Porque só o Tao é o eterno, puro e infinito, e a essência da alma. Não é mais puro que o amor por uma mulher, aquele amor pobre e triste, no qual cada dia vês a vida pura da alma, contaminada por uma paixão obscura e mortal?

Só quando te uniste ao Tao, dura para sempre a conexão, a união perfeita com a alma de teu Amor, e com a alma de todas as pessoas que foram teus irmãos, e com a alma da Natureza.

E aqueles raros momentos de felicidade, que todos os amantes na Terra sentem por um instante, não são nada comparados à alegria infinita, na qual as almas de todos os amantes se perdem uma na outra, e se tornam um só ser infinito de candida pureza.”

Foi para mim a luz de um horizonte de felicidade para minha alma, que ia além do instável horizonte do mar, mais alto que o Céu.

“Pai — disse em lágrimas — havia tanta sacralidade, e eu não estava consciente? Desejei tanto, e tanto chorei que não tinha mais lágrimas, e meu peito ofegante tremia de medo. Sim, eu tive muito medo. Pensei que morreria. Não acreditava que pudesse estar bem, porque ao meu redor via tanto sofrimento. Pensei que estivesse condenado para sempre àquelas paixões selvagens, aquele desejo físico ardente que enfurecia em mim, e que eu detestava, e ao qual, como um covarde, tive que me render. O medo paralisava minha respiração, enquanto pensava no corpo frágil de minha mulher, indefeso, absorvido na terra fria. Pensei que nunca mais sentiria a calma bem-aventurança de olhar em seus olhos, aqueles olhos nos quais brilhava sua alma luminosa. E estava realmente, sempre presente, em mim, como um bom pastor, o Tao, e era o Tao a luz que brilhava em seus olhos? Estava realmente em toda parte, ao meu redor, no céu, nas árvores, no mar? A essência do Céu e da Terra é então a essência de minha Amada e de minha alma? Havia então em mim um desejo ardente que eu não conhecia, e que me tornava inquieto? Eu pensava que queria tirar-me meu Amor, e que não amaria mais.

Mas era realmente o ritmo que movia também minha Amada, aquele mesmo ritmo que dá respiro a todo o mundo natural, e no qual os sóis e planetas se movem luminosos através do infinito? Então tudo é sagrado, e o Tao está em tudo, e também em minha alma. Oh! Pai, tudo se torna tão leve em mim. Creio que minha alma já intui o que será, como também o Céu acima de nós, e o grande mar. Olha com quanto cuidado as árvores nos rodeiam, e observa com terna devoção as linhas das montanhas. Toda a natureza vibra de sacralidade, e também minha alma agora treme de bem-aventurança, porque viu seu Amor.”

Por muito tempo fiquei em silêncio, tacitamente esquecido. Sentia-me um só com a alma de meu Mestre e com a Natureza. Não via nem sentia mais nada, e sem desejos e sem vontade alguma, estava em profunda paz.

Fui despertado por um leve ruído próximo. Um fruto caíra da árvore atrás de nós. Quando levantei o olhar, vi a luz da lua brilhando no céu acima de nós.

O Sábio sentou-se ao meu lado e, amorosamente, inclinou-se para mim.

“Estás muito cansado, meu rapaz — disse preocupado.

É demasiado para ti, em tão pouco tempo. Estavas tão cansado que adormeceste. Dorme também o mar, vês, nenhuma ruga quebra sua calma plácida que imóvel absorve a luz sagrada em seus sonhos. Mas precisas acordar, é tarde, teu barco já está pronto e tua esposa te espera em casa, na cidade.”

Ainda suspenso entre a vigília e o sonho, respondi:

“Deixa-me ficar aqui de qualquer modo, deixa-me poder voltar com minha esposa e ficarmos para sempre aqui.

Não posso voltar para o meio das pessoas, agora. Oh, Pai, tremo só de pensar, já vejo seus sorrisos zombeteiros, os olhos cortantes, seu ceticismo, seu distanciamento. Como posso agora levar esta maravilhosa leveza de minha alma sensível àquelas pessoas obscuras? Como posso ocultá-la bem, com palavras ou risos, de modo que não a vejam e não ofusquem sua luz, com seu humilhante escárnio?”

Ele pôs uma mão em meu ombro e, com tom sério, disse: “Ouve com muita atenção, meu rapaz, o que agora tenho para te dizer, e confia. Talvez isto te fira, mas devo fazê-lo. É hora de voltares verdadeiramente à vida, e de estares entre as pessoas. Aqui já disseste demais. Talvez também o que eu te disse já fosse demais. Agora deves crescer sozinho e encontrar-te em cada coisa. Se fores simples, cada coisa acharás simples, como uma criança acha uma flor. Neste momento sentes o que te disse, profundo e puro. Como estás agora, estás vivendo um dos momentos mais belos de tua vida. Mas ainda não és forte o bastante para carregá-lo, como carregarias uma roupa.

Tu voltarás e tua alma te parecerá novamente uma ideia, uma teoria. Mas, pouco a pouco, chegarás ao ponto em que ela se tornará uma pura sensação que permanecerá para sempre. Quando esse momento chegar, poderás tranquilamente voltar e ficar aqui para sempre, se ainda o desejares, mas então eu já estarei morto há muito tempo. Deves crescer na vida, não além, porque ainda não és puro o bastante para elevar-te acima da vida. Um instante atrás estavas pronto, mas logo depois houve uma reação.

Não se pode iludir as pessoas, ou evitar dar a mão a elas. Mas não mostres a elas tua alma, se te parecer que estão ainda muito atrás. Não é por maldade que zombariam de ti, mas por pura convicção, pois são inconscientes de sua imensa miséria, de sua maldade, e de terem se afastado de todas aquelas coisas santas pelas quais agora vives. Deverás ser tão forte e seguro que nada poderá perturbar-te. Só o serás depois de dura batalha. Mas nas lágrimas encontrarás tua força, e através da dor conhecerás a serenidade. E sobretudo lembra-te que aquele Tao, aquela Poesia, aquele Amor, é sempre o mesmo, mesmo que o chames com nomes abstratos, e está sempre em ti e ao teu redor, e não te abandonará, será tua proteção e estarás sempre seguro naquele mundo bendito. Serás envolvido por seus benefícios e te dará um amor infinito. Toda coisa é sagrada na Natureza, em razão do Tao que vive nela.”

Ele falava tão baixo, e de modo tão convincente, que eu não tinha nada a contestar. Com obediência deixei-me levar até a praia.

Meu barco me esperava, o mar estava calmo.

“Adeus, meu rapaz, adeus — disse com tom gentil e voz tranquilizadora — Pensa em tudo o que te disse.”

Mas eu não me sentia capaz de partir assim.

De repente me ocorreu pensar nele vivendo tão só lá em cima, e senti lágrimas de compaixão brotarem em meus olhos. Peguei sua mão.

“Pai, vem comigo — supliquei — eu e minha esposa cuidaremos de ti, te trataremos bem, e se estiveres doente, nós te assistiremos. Não fiques aqui, sozinho, na vida, sem amor!”

Ele riu suavemente, balançou a cabeça como um pai faz com seu filho, e disse com tom amoroso, mas impassível:

“Já caíste novamente. Vês que precisas voltar à vida? Acabo de te dizer quão grande é o Amor que me cerca. E tu me achas só e abandonado. Mas com o Tao estou em casa, seguro, como uma criança com sua mãe. És muito doce, um rapaz querido, mas deves tornar-te sábio, muito mais sábio. Não te preocupes comigo, não é preciso, mas te sou muito grato por tua preocupação. Pensa apenas em ti primeiro. E agora faz como te disse. Confia em mim, quando digo que te fará bem. Adeus, há algo em teu barco que te fará lembrar dos dias que aqui passaste.”

Em silêncio curvei-me para sua mão e a beijei. Por um instante tive a impressão de que ela tremia, que ele também estava emocionado, mas quando olhei, seu rosto estava calmo e sereno como a lua. Subi em meu barco, e o remador pegou os remos. A golpes velozes me conduzia sobre a água lisa. Já estávamos muito longe, quando meu pé esbarrou em algo, e percebi que havia algo diante de mim, no barco. Peguei-o. Era uma caixa. Rapidamente a abri. E na luz suave e calma da lua, a maravilhosa porcelana da estátua de Kwan Yin resplandecia em brilho místico, justamente a mesma imagem que o velho guardara e amara com tanto cuidado. Na majestosa serenidade das linhas doces mas rigorosas do puríssimo Kwan Yin, em fina porcelana, opalescente, como feito de éter, repousando sobre as folhas brilhantes de uma delicada flor de lótus. Brilhava ao luar, como se fosse composto da pura luz da alma. Eu não conseguia acreditar que aquele objeto sagrado me fora dado como presente. Agitei meu lenço e acenei com a mão para agradecer ao Sábio. Ele permaneceu imóvel na praia e olhava em nossa direção. Trêmulo, esperei por um gesto, um aceno de despedida. Mas ele ficou imóvel. Estava olhando para mim? Fitava o mar?

Fechei a caixa manuseando-a com cuidado, e a mantive ao meu lado, como se estivesse levando comigo seu Amor. Agora eu sabia que ele me amava, mas sua calma estável era algo grande demais para mim, que me sentia triste porque ele não acenara com a mão. Nos afastávamos cada vez mais. Sua figura ficou cada vez mais desfocada. Por fim, não o vi mais. Ele ficou lá, só na natureza, com os pensamentos de sua alma, só no infinito, sem um amor humano, mas imerso no imenso coração do Tao.

Eu retornava à vida e às pessoas, meus irmãos e amigos, em cada um dos quais o Tao vive, na alma, imortal e essencial.

Ao longe, o tremular de todas as luzes costeiras do porto, e o ruído da cidade que vagamente chegava sobre o mar. Então senti em mim um grande poder, e ordenei ao remador que fosse um pouco mais rápido. Eu chegara ao fim. Não estava seguro, na cidade como na terra, nas ruas como no mar?

Em cada coisa há Poesia, há Amor, há o Tao.
E o mundo inteiro é sagrado e seguro,
como uma casa boa e forte.

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