Philip Renard
‘I’ is a Door. The essence of Advaita as taught by Ramana Maharshi, Atmananda (Krishna Menon) and Nisargadatta Maharaj.
“Eu” Enquanto Tal
1. O uso da palavra Princípio por Atmananda não constitui tentativa mental ou filosófica de compreender ou enquadrar o “eu”, mas uma maneira de nomear o que o “eu” é em si mesmo, o “eu” enquanto tal, realidade que precisamente antecede todo movimento ou enquadramento mental.
2. Com expressões como “em si” e “enquanto tal” a linguagem chega a seu limite, pois algo se refere a si mesmo, não se converte no instante seguinte em outra coisa, é o fator constante no que sempre muda, sua própria natureza verdadeira, sem depender de nada mais, sendo designado pela palavra sânscrita svarupa e por sinônimos como fundo, conteúdo, substrato, estado puro e estado natural, indicações todas de uma só e mesma realidade.
3. Toda tentativa linguística de referir-se à natureza essencial de algo pode ser mal compreendida num relance, como quando o termo “essência” sugere um pequeno ser ou núcleo dentro de uma forma mais grosseira, a ser descoberto ampliando-se cada vez mais ao microscópio e examinando sempre o interior do núcleo, sugestão que reaparece em comentários populares das célebres passagens “Tu És Aquilo” da Chandogya Upanishad, em que Uddalaka ensina o filho partindo um fruto cada vez mais.
4. Esse tipo de investigação permanece sempre aprisionado no objetivo, termo entendido não como o imparcial, mas como tudo o que pode ser observado e é objeto dos sentidos e pensamentos, ao passo que subjetivo não designa opinião colorida pela pessoa, mas aquilo que é puramente Sujeito, que por definição não pode ser observado e que por Si mesmo ilumina constantemente tudo o que é objeto.
5. A investigação de algo interior como essência ou núcleo localizável jamais oferece compreensão do Supremo, não sendo possível afirmar, como se sugere hoje em certos círculos advaitas, que a pesquisa moderna da física e a verdadeira autoinvestigação sejam uma só coisa, pois a física permanecerá sempre no campo do objetivo.
6. O mesmo vale para conceitos abrangentes como Cosmos, Espaço ou Infinito, pois o Espaço (Akasha), embora imperceptível aos sentidos, é certamente concebível pela mente e portanto de natureza objetiva, e retirada dele essa última mácula de objetividade deixa de ser morto e inerte, torna-se autoluminoso e brilha imediatamente como seu fundo, a Realidade.
O Princípio-“Eu” É a Única Realidade Última
1. Todo o ensinamento de Atmananda versa sobre o Sujeito, referindo-se exclusivamente Àquilo que conhece, que não é um Conhecedor, nem ele nem ela, mas o Conhecer enquanto tal (Jnana), chamado também Experiência (Anubhava), o Experienciar enquanto tal, e Sentir enquanto tal (Rasa), três sinônimos da Maravilha que de fato “eu” sou.
2. O Princípio-“Eu” é a única Experiência possível, e mesmo o homem ignorante só pode experimentar a Si mesmo, pois uma experiência com muitos objetos não é Experiência, mas sobreposição de objetos à Experiência, que é sempre uma e a mesma, ninguém podendo conhecer ou experimentar algo além do próprio Si, sendo “eu” a única experiência e a única palavra que a denota, o único que existe sem requerer prova, enquanto o objetivo não pode existir independentemente dele, razão pela qual o Princípio-“Eu” é a única Realidade última.
3. Esse modo radical de falar, que reduz praticamente tudo Àquilo que conhece, implica que os objetos não precisam ser ignorados ou removidos, mas podem ser tomados como indicadores da Realidade, contrariamente à maioria dos textos da tradição Advaita, que exigem do estudante aprender a não prestar atenção aos objetos sensoriais, pois na verdade nada é obstáculo, ninguém é jamais realmente engolido por um objeto nem impedido por algo, nada precisa ser removido e nada oculta a consciência.
4. Nem mesmo o chamado ego é inimigo, mas uma grande ajuda para a realização da Verdade, sendo sua presença no homem, ainda que em forma distorcida, infinitamente melhor que sua ausência, como numa árvore, pois é o ego inteiro que busca e se esforça pela libertação, e quando dirigido à Realidade última sua parte material cai automaticamente e resta apenas a parte de Consciência como o verdadeiro Princípio-“Eu”, e isso é a libertação.
Pensar no Guru Apenas na Esfera Dualista
1. A ênfase na não-dualidade radical não supõe que, no contato cotidiano entre pessoas, o ego já se tenha dissolvido completamente, nem que isso valha para a relação dos estudantes com o mestre, de modo que aquilo que se descreve como verdade última não é tomado como já verdadeiro para estudantes e leitores em suas atividades, sendo considerado armadilha proclamar cedo demais que “tudo é Consciência” num ambiente mundano ou relacional e cabendo continuar apontando a diferença enquanto ela for o verdadeiro estado de coisas para o estudante, razão pela qual o advaita não se aplica à relação entre mestre e discípulo.
2. Convém pensar no Guru apenas na esfera dualista, aplicar-lhe todo o coração e perder-se nele, para que o Supremo dance como uma criança diante de si, pois o Advaita é apenas um indicador do Guru e não se alcança plenamente antes do estado sem ego, sendo vedado sequer pensar ser um com o Guru, pensamento que jamais leva ao Supremo e apenas afoga, já que o Advaita aponta exclusivamente para o Supremo.
3. A atitude devocional constitui grande ajuda, mas é apropriada apenas em relação ao próprio Guru.
4. A pessoa específica por meio da qual se teve o orgulhoso privilégio de ser iluminado é a ÚNICA FORMA que se pode adorar e cultuar em puja à vontade como pessoa do próprio Guru, pois embora tudo seja o Sat-Guru, isso só vale quando nome e forma desaparecem, devendo o verdadeiro aspirante precaver-se contra o engano de dirigir avanços devocionais semelhantes a qualquer outra forma, seja de Deus ou de homem.
5. A rigidez dualista na relação entre discípulo e guru manifesta-se na regra de que um discípulo jamais deve prestar lealdade a dois gurus ao mesmo tempo, sendo aceitar mais de um guru simultaneamente ainda mais perigoso do que não ter nenhum.
6. Na vida diária, cada nível, o Absoluto e o relativo, exige abordagem própria, não se aplicando a abordagem não-dualista ao plano relativo do ser, como ilustra o episódio do início da carreira de Atmananda como inspetor de polícia, ao interrogar um homem suspeito de furto que negava constantemente o crime.
7. Tendo realmente cometido o furto, seria melhor confessá-lo e admitir o erro, pois ainda que fosse possível esconder a verdade por algum tempo, o Princípio interior que observa todas as ações faria sofrer pelo resto da vida por ter mentido uma vez, sendo impossível ocultar a Verdade desse Princípio.
8. Viver a verdade exige sensibilidade, sem afirmar peremptoriamente que a inverdade também é simplesmente Consciência, e o fato de tal postura provir de um mestre verdadeiramente radical na não-dualidade estimula a considerar o paradoxo aparente que tudo isso encerra.
Todas as Atividades São Atos de Adoração a Mim
1. Apesar desse tratamento preciso da diferença no plano em que as diferenças simplesmente precisam ser tratadas, a não-dualidade radical leva a um estilo de escrita que não fala sobre um “eu” ou um Princípio-“Eu”, mas a partir dele, como nas passagens do Atma Darshan em que fala a própria Consciência, o “Eu”, e não uma pessoa chamada Atmananda, convidando a olhar as coisas dessa perspectiva do “Eu” como a única Realidade.
2. Eu sou a Consciência que resta após a remoção de tudo o que é objetivo, e percebendo que cada objeto, onde quer que esteja, Me afirma, desfruto de Mim mesmo em toda parte e em tudo, sendo em Mim que pensamentos e sentimentos surgem e se põem, sendo Eu sua Testemunha imutável, a Luz da Consciência em todos os pensamentos e percepções e a Luz do Amor em todos os sentimentos.
3. No Atma Nirvriti, escrito alguns anos depois no mesmo estilo, o mundo brilha por Minha luz e sem Mim nada é, sendo Eu a luz na percepção do mundo, e os pensamentos que surgem e se põem em Mim não podem ser outra coisa senão Eu mesmo, pois havendo pensamento vejo a Mim mesmo e não havendo permaneço em Minha própria glória.
4. Tais textos, por sua originalidade, podem provocar um choque de reconhecimento maior que os textos tradicionais sobre “o” Si, que permanece indicação em terceira pessoa e deixa pairar a sugestão de ser algo diferente de “mim”, que sou simplesmente Eu, primeira pessoa, quando na verdade Eu já sou Aquilo, e não “o eu”, tratando-se de reconhecer que já agora sou Aquilo, a própria Consciência, e que por isso posso falar de Mim mesmo como tal, seguindo o exemplo de reconhecer-Se e falar a partir dessa perspectiva.
5. Eu sou pura felicidade, e todas as atividades dos órgãos dos sentidos e da mente visam à felicidade, sendo portanto puja, atos de adoração dirigidos a Mim, que permaneço sempre em repouso percebendo desinteressadamente essa puja, enquanto eles Me tocam repetidamente sem saber, recaem na passividade e dela saem para retomar a puja, até que, compreendendo que na atividade Me adoram e na passividade jazem tocando-Me, todo o seu sofrimento cessa, e a ação deixa de ser ação e a passividade deixa de ser passividade, porque a ignorância foi arrancada pela raiz.
Está-se Sempre na Natureza Real
1. No pensar e no falar sobre si mesmo pode ocorrer uma inversão, pela qual se percebe que já se olha a partir daquilo que se procura e que não é preciso ir a lugar algum, sendo pensamento e sentimento, tidos por muitos como inimigos, expressões da celebração do “Eu”, pois todo pensar se dirige a Mim para dissolver-se na paz que Eu sou, sem que esse movimento seja uma agressão, e a suposição equivocada de que pensamentos e sentimentos precisam antes ser removidos decorre da identificação com alguém que sofre e é perturbado por eles, razão pela qual é justo chamar isso de puja, já que Aquilo a que se dirige essa adoração é tão totalmente Nada que pensamentos e sentimentos só podem ser nele devorados, sendo Eu, Nada, Ninguém ou Não-mente, a única direção verdadeira de todos eles, súplica para serem dissolvidos e enfim repousarem em Mim.
2. A natureza real do pensamento é Consciência e a verdadeira natureza do sentimento é Felicidade, de modo que, sempre que surge um pensamento ou sentimento, está-se na Natureza Real como Consciência e Felicidade, e igualmente no sono profundo, na tristeza profunda, no desapego extremo, no terror, na acalorada discussão lógica e no fim de toda atividade chamado morte, experiências em que se está despojado até da ideia de corpo ou de mente, pois ao transcender a mente está-se sempre na Natureza Real.
3. Todos os estados possíveis de experiência estão assim abrangidos, nada mais havendo a dizer, pois jamais se é privado da Natureza Real nem se pode escapar dela, sendo “eu” a palavra exatamente igual que todos dizem, apontando sempre para Si mesma e experimentada por cada um como “Eu mesmo”, de modo que todo estado ou sentimento de separação foi devorado em Mim e o “Eu” já não é porta, mas o próprio Devorador.
