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vedanta:deutsch:1985:5

5 Karma

DEUTSCH, Eliot. Advaita Vedānta: a philosophical reconstruction. Pbk. ed ed. Honolulu: East-West Center Press, 1985.

1. A conduta transforma aquele que age, de modo que as ações boas ou más formam respectivamente disposições virtuosas ou viciosas e fazem do ser humano aquilo que sua atividade continuamente produz.

2. O ser encarnado assume formas diversas, mais grosseiras ou mais sutis, segundo as qualidades que caracterizam sua própria condição.

3. A doutrina do karma compreende o indivíduo aprisionado ao mundo como condicionado por sua conduta ao longo de sucessivos nascimentos, mortes e renascimentos, pois cada ação produz efeitos externos e tendências internas que orientam ações futuras, estabelecendo uma relação entre o agir e o estado de ser.

4. A influência do karma sobre o pensamento e a religião prática da Índia contrasta com a resistência que encontra na filosofia ocidental e com a insuficiência de seu exame crítico, tornando necessário esclarecer seu estatuto no Advaita como uma ficção conveniente, isto é, uma teoria indemonstrável que pode ser útil à interpretação da experiência.

I

1. Um pramāṇa constitui um meio de conhecimento válido pelo qual o sujeito conhece um objeto de maneira concordante com a realidade, conforme a concepção desenvolvida na filosofia indiana e particularmente no sistema Nyāya.

2. O Advaita reconhece percepção, comparação, não apreensão, inferência, postulação e testemunho como meios de conhecimento válido, de modo que a impossibilidade de estabelecer o karma por qualquer um deles determina sua indemonstrabilidade no interior do sistema.

3. A percepção não pode estabelecer o karma porque apreende objetos, qualidades e relações constitutivas imediatamente acessíveis aos sentidos, enquanto uma lei que governa as consequências das ações não constitui um objeto diretamente perceptível.

4. A comparação e a não apreensão também não demonstram o karma, porque dependem de juízos perceptivos de semelhança ou ausência, e a confirmação empírica de uma teoria exige dados observáveis que permitam testar suas consequências, condição satisfeita pelos efeitos da conduta na vida presente, mas não por sua extensão a vidas anteriores e posteriores.

5. A inferência válida depende do conhecimento de uma relação invariável entre aquilo que se pretende estabelecer e sua razão demonstrativa, mas o karma, enquanto lei universal, não pode ser obtido como conclusão desse procedimento, que pressupõe a relação geral em vez de demonstrá-la.

6. A demonstração racional por coerência metafísica também não estabelece o karma, porque a realidade exclusiva de Brahman e do ātman torna provisórias todas as demais verdades, e a unidade eterna do ser não está submetida à causalidade kármica, cuja negação não produz contradição com os princípios fundamentais do Advaita.

7. A postulação, denominada arthāpatti, constitui um meio de conhecimento distinto da inferência e é invocada por algumas interpretações para justificar o karma como explicação necessária de determinados fatos da experiência.

8. A postulação torna inteligível um fato mediante a admissão de outro sem o qual ele permaneceria inexplicável, como acontece quando a manutenção da corpulência de alguém que não come durante o dia exige supor que se alimente à noite.

9. A validade da postulação depende de que o fato suposto constitua a única explicação possível do fato observado, requisito que fundamenta a tentativa de apresentar o karma como condição necessária para compreender a diversidade de fortunas e capacidades humanas.

10. O karma não satisfaz a exigência de unicidade explicativa da postulação, porque as diferenças entre as pessoas também podem ser interpretadas mediante outras hipóteses, como a predestinação divina ou os fatores hereditários, impedindo reconhecê-lo como conhecimento validamente estabelecido por esse meio.

11. O testemunho fundamenta a aceitação de informações provenientes de uma fonte confiável, mas a autoridade das escrituras no Advaita permanece subordinada à experiência espiritual e não pode contrariar a razão ou os sentidos, sendo a própria escritura um instrumento provisório de realização da realidade, e não uma instância independente de validação.

12. A validação espiritual de uma ideia exige que ela descreva um conteúdo dessa experiência, mas o karma desaparece com a realização da unidade e da liberdade, porque a consciência não dual transcende a sucessão temporal indispensável às relações entre ações passadas, efeitos presentes e existências futuras.

13. A impossibilidade de demonstrar o karma pelos meios de conhecimento admitidos no Advaita confere-lhe o estatuto lógico de ficção, cuja utilidade deve ser avaliada pela capacidade de orientar e interpretar a experiência humana.

II

1. A compreensão da libertação pressupõe, para a maioria das pessoas, uma consciência prévia do aprisionamento, e o karma favorece essa consciência ao tornar facilmente reconhecíveis as consequências duradouras das ações e dos desejos, oferecendo uma definição prática da condição da qual se busca libertar.

2. A preparação moral para a realização espiritual exige pureza de coração, domínio de si e renúncia aos prazeres sensíveis, e a doutrina do karma pode incentivar essas disposições ao atribuir a cada decisão consequências para a totalidade da existência presente e futura.

3. A continuidade das consequências das ações ao longo de diferentes vidas oferece uma resposta ao desânimo diante da lentidão ou do fracasso do progresso espiritual, porque assegura que nenhum esforço se perde e que aquilo que não foi alcançado numa existência pode preparar sua realização em outra.

4. O karma oferece uma explicação útil, embora não demonstrável, para as desigualdades intelectuais, espirituais e sociais e para o sofrimento, atribuindo essas condições às ações passadas e presentes dos indivíduos e situando sua origem no interior da própria experiência humana.

5. O estatuto do karma como ficção conveniente decorre de sua impossibilidade de validação pela percepção, comparação, não apreensão, inferência, postulação ou testemunho espiritualmente fundamentado, enquanto sua permanência no Advaita se explica por sua utilidade para enfrentar dificuldades práticas da formação filosófica orientada ao conhecimento de si e à libertação.

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