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vedanta:deutsch:1985:6

6 Epistemologia

DEUTSCH, Eliot. Advaita Vedānta: a philosophical reconstruction. Pbk. ed ed. Honolulu: East-West Center Press, 1985.

Aspectos da epistemologia advaita

1. O esclarecimento dos seis meios de conhecimento válido reconhecidos pelo Advaita exige examinar seu estatuto e sua relação com os problemas epistemológicos gerais, ultrapassando sua simples utilização na avaliação de doutrinas particulares como o karma.

A hierarquia do conhecimento

1. O conhecimento superior tem Brahman e o ātman como conteúdo, enquanto o conhecimento inferior abrange objetos, acontecimentos, meios, fins, virtudes e vícios, distinguindo a apreensão da realidade absoluta do conhecimento do mundo fenomênico.

2. O conhecimento superior é incomensurável com as formas inferiores de conhecimento porque ocorre intuitiva e imediatamente, sem constituir o último termo de uma progressão, e sua plenitude invalida qualquer pretensão de ultimidade dos sentidos ou da razão, que não podem demonstrá-lo nem refutá-lo.

3. A distinção valorativa fundamental da epistemologia advaita separa o conhecimento superior de todos os demais modos de conhecer, que, desde a realização de Brahman, aparecem igualmente envolvidos na ignorância fundamental.

4. Enquanto a visão espiritual da não dualidade não é alcançada, os conhecimentos inferiores conservam sua validade nos respectivos domínios e sustentam legitimamente a experiência ordinária.

5. Antes da realização de Brahman como Si mesmo de tudo, as relações fenomênicas, os meios de conhecimento, seus objetos e seus resultados permanecem suficientemente reais para orientar a experiência, pois sua ausência de realidade última ainda não foi reconhecida.

6. A mente não pode negar integralmente seus próprios conteúdos e procedimentos sem recorrer a eles, de modo que a tentativa de demonstrar a falsidade de todo conhecimento, sem referência ao Absoluto, incorre em contradição ao utilizar a lógica cuja validade pretende abolir.

7. A relativização do conhecimento ordinário somente adquire sentido pleno para quem realizou a identidade com Brahman, enquanto os meios de conhecimento continuam válidos na perspectiva fenomênica e conservam, mesmo para o realizado, sua utilidade prática quando não reivindicam validade absoluta.

8. A hierarquia advaita preserva a validade dos conhecimentos inferiores em suas esferas próprias e somente lhes retira a pretensão de finalidade última, porque nenhum deles pode produzir, demonstrar ou refutar a realização intuitiva da realidade.

O conhecimento superior como estado de ser axiológico e cognoscitivo

1. A pergunta de Śaunaka a seu mestre procura identificar aquilo cujo conhecimento permitiria conhecer tudo, orientando a investigação para um fundamento que ultrapasse a acumulação de saberes particulares.

2. Brahman constitui aquilo cujo conhecimento torna conhecido tudo o mais, porque sua realização alcança o fundamento último do ser.

3. O conhecimento de Brahman não proporciona informações sobrenaturais sobre objetos particulares ou relações naturais, pois a experiência da unidade ultrapassa o mundo empírico e remove concepções falsas sem acrescentar fatos inacessíveis aos meios ordinários de conhecimento.

4. Conhecer tudo mediante a realização de Brahman significa alcançar tudo o que possui valor último, porque a identidade do Si mesmo com a realidade elimina a necessidade de procurar em outros conhecimentos uma plenitude ainda ausente.

O “porquê” da ignorância

1. A ignorância constitui a categoria epistemológica fundamental da experiência fenomênica e se articula à ilusão e à sobreposição, caracterizando todos os conhecimentos que, desde a perspectiva de Brahman, não alcançam a realidade absoluta.

2. A identidade essencial de cada ser com Brahman precede seu reconhecimento consciente, mas a ignorância sobrepõe a essa identidade a crença de que ele é separado do Absoluto e da totalidade.

3. A investigação da ignorância suscita a pergunta por sua origem ontológica e pela razão última de os seres humanos se encontrarem inicialmente submetidos a ela.

4. A origem última da ignorância não pode ser formulada de maneira inteligível, porque o conhecimento a elimina e deixa de encontrar nela um problema, enquanto a consciência ignorante permanece submetida ao tempo e não pode estabelecer a origem das próprias condições que tornam possível sua investigação.

5. A condição de ignorância permite compreender seu funcionamento, descrever seus processos e buscar sua superação, mas não explicar por que ela existe originariamente, tornando sua fonte ontológica necessariamente ininteligível.

A validade intrínseca do conhecimento

1. A validade dos meios de conhecimento fenomênico depende da ausência de pretensões à ultimidade, e a aparente ambiguidade entre considerá-los verdadeiros e negar sua verdade absoluta recebe uma formulação sistemática na teoria da validade intrínseca de todo conhecimento.

2. Todo conhecimento possui validade intrínseca decorrente das condições que o tornam possível, mas somente o conhecimento da realidade é definitivamente verdadeiro, porque apenas ele jamais pode ser invalidado por outra experiência.

3. Uma cognição é inicialmente aceita como verdadeira e conserva sua validade até ser contrariada pela experiência ou reconhecida como apreensão defeituosa, de modo que a falsidade precisa manifestar-se posteriormente, enquanto a confiança inicial permite agir com base nos juízos ordinários.

4. A teoria da validade intrínseca descreve e justifica a disposição humana de acreditar nas cognições quando surgem, pois a percepção e o julgamento normalmente conduzem à ação sem exigir demonstrações adicionais, salvo quando existe uma razão específica para duvidar.

5. A exigência de uma confirmação externa para cada conhecimento produziria uma regressão infinita de justificações, porque tanto as inferências quanto as experiências confirmadoras precisariam ser novamente validadas, enquanto a remoção das razões de dúvida permite reconhecer a validade inerente à cognição e a ausência de contradição como sua garantia.

6. A ausência de contradição significa, em sentido último, a impossibilidade de invalidação por outra experiência, condição que somente a realidade absoluta satisfaz, porque todos os conteúdos e procedimentos dos meios ordinários de conhecimento podem ser superados por uma experiência qualitativamente superior.

7. A verdade assume, assim, uma estrutura dupla na qual todo conhecimento produzido pelos meios válidos é verdadeiro em seu domínio, embora nenhum deles possua verdade última.

8. A avaliação ocidental dessa teoria tende a ser condicionada por uma concepção hipotética da verdade, influenciada pela ciência, segundo a qual cognições e juízos devem permanecer provisórios até receberem confirmação empírica, em vez de serem considerados verdadeiros enquanto não forem refutados.

9. A aceitação intrínseca das cognições pode parecer contrária à abertura investigativa, porque favoreceria a permanência satisfeita em um conhecimento enquanto nenhuma experiência o contradissesse diretamente.

10. A validade intrínseca não exclui a dúvida nem a suspensão da crença, porque a dúvida pode constituir uma atitude interrogativa ou o conteúdo de uma cognição reconhecida como válida, distinguindo-se o reconhecimento de que se duvida daquilo sobre o que a dúvida recai.

11. Uma objeção mais incisiva aponta que a teoria permite saber apenas que uma ideia ainda não foi demonstrada falsa, sem estabelecer positivamente sua verdade, fazendo da verdade uma ausência de falsidade e conferindo à refutação um papel predominante.

12. A ausência de uma verdade positiva e definitiva nos conhecimentos inferiores é compatível com a metafísica advaita, porque a realização de Brahman invalida a pretensão última da percepção e da razão e impede reconhecer outro domínio de verdade absoluta.

13. A validade provisória dos meios de conhecimento como formas gerais de atividade não implica necessariamente a validade inicial de cada juízo particular, exigindo distinguir a adequação e os limites de um procedimento cognoscitivo da verdade ou falsidade das afirmações que ele produz.

A percepção como ato de envolvimento

1. A ignorância vincula o indivíduo a uma ordem limitada de experiência fenomênica, e a teoria advaita da percepção esclarece esse vínculo ao reconhecer que cada ato perceptivo introduz algo do mundo na consciência.

2. A percepção ocorre pelo contato imediato com objetos externos, cujas formas são assimiladas pela mente através dos sentidos, exigindo uma modificação mental correspondente ao objeto e sua iluminação pela consciência.

3. Embora a consciência testemunhal permaneça essencialmente inalterada, o conhecimento perceptivo resulta da participação conjunta do sujeito e do objeto, pois a mente não recebe passivamente impressões, mas assume características do percebido e o incorpora à própria experiência.

4. A consciência perceptiva envolve necessariamente o indivíduo no mundo de formas, relações e desejos, porque a vigília introduz na mente a realidade mutável dos objetos e mantém o si mesmo empírico ligado a eles.

O papel da razão

1. A inferência e a razão possuem importância filosófica particular entre os meios de conhecimento, porque a compreensão de suas capacidades e de seus limites determina profundamente a interpretação do mundo.

2. A inferência indiana incorpora procedimentos indutivos e permanece vinculada à experiência, extraindo suas implicações mediante relações gerais que conservam um caráter probabilístico e podem ser refutadas por observações futuras, sem adquirir necessidade racional absoluta.

3. Os princípios orientadores da inferência, como a causalidade, possuem função heurística e permitem organizar fatos, prever acontecimentos e descobrir relações, produzindo um conhecimento relativo à extensão da experiência humana e sempre sujeito à correção.

4. O raciocínio hipotético denominado tarka não constitui um meio de conhecimento empírico válido, porque suas conclusões não podem ser testadas e permanecem submetidas a objeções sucessivas, expressando a atividade da imaginação racional sem assegurar uma conclusão definitiva.

5. A razão é legítima como instrumento de compreensão da experiência empírica e pode auxiliar a apreensão das verdades espirituais mediante analogias que, embora não demonstrem o transcendente, despertam novas possibilidades de experiência a partir de elementos conhecidos.

6. A admissão do raciocínio no ensinamento espiritual não autoriza sua independência absoluta, mas reconhece sua função subordinada como auxiliar do conhecimento intuitivo.

7. A epistemologia advaita assume o caráter de uma arte fenomenológica voltada a descrever a experiência espiritual e conduzir a mente até ela, reconhecendo o valor prático da razão e sua função mais elevada na preparação da autotranscendência e da compreensão imediata.

A epistemologia “realista” do Advaita

1. A rejeição do idealismo subjetivo preserva a distinção entre sujeito e objeto no mundo fenomênico e impede reduzir os objetos da experiência ao indivíduo que os conhece, fundamentando uma modalidade particular de realismo epistemológico.

2. A interpretação do Vedānta como prolongamento dos idealismos de Hegel ou Berkeley obscurece sua singularidade, porque a unidade pertence à experiência de Brahman e não pode ser confundida com o mundo de nomes e formas sem reproduzir a sobreposição constitutiva da ignorância.

3. Todo conhecimento produzido pelos meios ordinários pressupõe uma distinção entre o conhecedor e o objeto conhecido, cuja preservação constitui um elemento central da crítica advaita às interpretações subjetivistas.

4. A defesa dessa distinção apoia-se em um argumento fenomenológico que reconhece na experiência consciente um fato que não pode ser negado sem comprometer a própria descrição do conhecimento.

5. A percepção apresenta objetos como externos, e não como simples imagens interiores semelhantes a algo exterior, de modo que negar sua existência contradiz a estrutura da consciência perceptiva e pressupõe a exterioridade que se pretende eliminar.

6. A presença do “eu” como sujeito implica sua distinção em relação a um mundo de objetos, e o funcionamento dos meios de conhecimento nessa relação fornece o fundamento para determinar as possibilidades e impossibilidades da experiência.

7. A avaliação do que pode ou não existir deve decorrer da operação dos meios de conhecimento válido, em vez de subordinar esses meios a concepções prévias sobre aquilo que seria possível ou impossível.

8. A própria estrutura da percepção exige distinguir a coisa percebida da ideia pela qual ela é conhecida, preservando a diferença entre objeto e representação.

9. A semelhança entre ideia e objeto e sua concomitância não demonstram identidade, mas indicam que o objeto constitui uma condição da ideia, cuja forma pressupõe aquilo que é apreendido como externo.

10. O realismo advaita reconhece a distinção e a implicação recíproca entre sujeito e objeto como condições necessárias do conhecimento empírico, sem lhes atribuir validade absoluta, porque essa estrutura dual permanece envolvida na ignorância e abrange apenas uma dimensão da experiência humana.

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