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vedanta:herbert:anandamoyi:1.2

1.2

ĀNANDAMAYĪ. L’enseignement de Mâ Ananda Moyî. Tradução: Josette Herbert. Paris: A. Michel, 1974.

1. Um funcionário do Governo e sua esposa vieram pela primeira vez solicitar o darshan de Mâ, e uma de suas perguntas deu ocasião à resposta que se segue.

2. Quem diz não ter fé deve procurar convencer-se dela, pois onde há negação a afirmação existe em potência e ninguém pode pretender estar além de ambas, sendo absolutamente necessário ter fé, já que o desejo natural de crer em algo está profundamente enraizado no homem e, ao desabrochar, torna-se fé em Deus, razão pela qual o nascimento humano é tamanho benefício e ninguém pode ser dito sem fé, pois cada um, sem dúvida, crê em alguma coisa.

3. A palavra manush (homem) deriva de man (mente) e hush (consciência), testemunhando o despertar e a vigilância da mente e demonstrando que o homem é naturalmente chamado a buscar o conhecimento do Si, e assim como a criança que aprende a ler e escrever precisa aceitar repreensões e críticas, também Deus administra ao homem de tempos em tempos pequenas correções, testemunhos de Sua misericórdia, que do ponto de vista humano parecem muito dolorosas, mas na verdade transformam e conduzem à paz, perturbando a felicidade humana para incitar à busca do caminho da Beatitude suprema.

4. O corpo humano vive pela respiração, e daí provém o sofrimento, havendo nos caminhos da vida dois tipos de peregrinos, o primeiro como turista ávido de ver toda sorte de coisas, saltitando por prazer de experiência em experiência, e o segundo seguindo o caminho conveniente ao ser real do homem, que o leva à sua verdadeira morada, o conhecimento do Si, de modo que a viagem empreendida por prazer e curiosidade encontra certamente a dor, inevitável enquanto não se acha a verdadeira morada, pois o sentido de separação, raiz do sofrimento, repousa no erro da dualidade, razão pela qual o mundo se chama du-niya, o que repousa na dualidade.

5. A crença de um homem é grandemente influenciada por seu meio, devendo ele escolher a companhia dos santos e sábios, pois crença significa crer no próprio Si e descrença, confundir o Si com o que não é o Si.

6. Há casos de realização do Si ocorrida pela graça de Deus, de modo espontâneo, e outros em que Ele desperta uma sede insaciável de Verdade, alcançando-se a realização somente após numerosas provações, sendo tudo, porém, obra de Sua misericórdia.

7. O homem julga-se autor de suas ações quando na realidade tudo é dirigido por Aquilo, que é o vínculo e a fonte de energia, e ainda assim as pessoas dizem “eu faço”, o que é maravilhoso, pois quando alguém perde o trem apesar de todos os esforços vê-se claramente de onde são dirigidos todos os movimentos, sendo fixado por Ele tudo o que acontece a qualquer um, em qualquer lugar e a qualquer momento, e perfeitas as disposições que Ele toma.

8. Existe um parentesco eterno entre Deus e o homem, que em Seu jogo às vezes parece ser cortado sem jamais sê-lo de fato, embora de outro ponto de vista nada exista que possa constituir parentesco, e a quem se apresentou a esse corpo como recém-chegado respondeu-se que era sempre recém-chegado, mas conhecido desde sempre.

9. A luz deste mundo vai e vem, instável, ao passo que a Luz eterna jamais se apaga, sendo por ela que se percebe a luz exterior e todas as coisas do universo, visíveis apenas porque essa grande Luz brilha sempre dentro de cada um, e só porque o Conhecimento supremo da essência de todas as coisas jaz oculto nas profundezas do ser é possível adquirir qualquer conhecimento.

10. O cérebro humano pode ser comparado às raízes de uma árvore, que regadas distribuem o alimento por toda a planta, e o cansaço cerebral surge quando se deixa transbordar pelas coisas exteriores, aliviando-se a cabeça e enchendo-se de alegria ao voltar para casa e conversar com os entes queridos, pois sendo-se senhor do próprio cérebro o trabalho não pode cansar, e todo trabalho é na verdade o próprio trabalho, assim como o mundo inteiro pertence ao próprio Si, embora seja percebido como separado, à semelhança dos outros, sendo reconhecê-lo como próprio fonte de alegria e a noção de separação fonte de pena, já que perceber a dualidade significa dor, conflito, luta e morte, razão pela qual convém entregar-se a alguma forma de sâdhanâ.

11. Tudo está nas mãos de Deus, e convém tê-lo sempre presente, sendo cada um Seu instrumento usado a Seu bel-prazer, de modo que compreender o sentido de “tudo é dEle” alivia imediatamente de todos os fardos, e da rendição a Ele resulta que ninguém mais parece estranho, tornando-se tudo próprio, o próprio Si.

12. A noção de separação deve ser dissolvida pela devoção ou queimada no fogo do conhecimento, dissolvendo-se ou queimando-se apenas o que por natureza pode sê-lo, isto é, a ideia de que exista algo além do próprio Si, alcançando-se então o conhecimento do Si.

13. Pela virtude do poder do guru tudo se torna possível, devendo-se buscar um guru e, enquanto isso, já que todos os nomes são Seu Nome e todas as formas Sua forma, escolher um deles e conservá-lo como fiel companheiro, embora Ele seja também sem nome e sem forma, pois o Supremo pode ser ao mesmo tempo tudo e nada, apegando-se ao nome ou à forma que mais atrai e orando sem cessar para que Ele se revele como sad-guru, sendo certo que o guru habita interiormente e nada se realiza antes de descobrir o guru interior, e na falta de desejo de voltar-se para Deus convém impor-se uma rotina diária de sâdhanâ, como os escolares submetidos a horário fixo.

14. Quando a prece não brota espontaneamente do coração, cabe perguntar por que se encontraria prazer nas coisas fugidias deste mundo e, diante do desejo ardente de coisas exteriores ou da atração especial por uma pessoa, deter-se e reconhecer o encantamento, pois não existe lugar onde Deus não esteja e a vida familiar, âshrama do chefe de família, também conduz a Ele quando aceita como âshrama, ajudando a progredir rumo à realização do Si, ao passo que cobiçar celebridade, reputação ou posição leva Deus a concedê-las sem trazer satisfação, já que o Reino de Deus é um todo e só a admissão nesse todo satisfaz, concedendo Ele apenas um pouquinho, o bastante para manter o descontentamento sem o qual não há progresso, pois os filhos do Imortal jamais se resignarão ao Reino da Morte nem Ele lhes permitirá ali permanecer, acendendo o desejo com pequenas dádivas para aguçar o apetite de maiores, método pelo qual exerce pressão, de modo que quem percorre essa estrada a acha difícil e se perturba, mas quem tem olhos para ver percebe claramente que o peregrino progride, reduzindo a aflição sentida a cinzas todos os prazeres terrenos, no que consiste a tapasyâ, e se aquilo que obstrui o caminho espiritual traz em si os germes de sofrimentos futuros, as dores e angústias provocadas pelos efeitos dessas obstruções marcam o início de um despertar da Consciência.

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