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vedanta:herbert:anandamoyi:1.4

1.4

ĀNANDAMAYĪ. L’enseignement de Mâ Ananda Moyî. Tradução: Josette Herbert. Paris: A. Michel, 1974.

1. Surge a dúvida sobre como a meditação numa parte pode conduzir à meditação sobre o todo, já que só é possível concentrar-se num único aspecto, e sobre a teoria segundo a qual, na absorção meditativa, ocorre uma extensão progressiva da consciência até que a mente, alcançando o que ultrapassa sua capacidade, se dissolve espontaneamente (laya), cessando a meditação e surgindo a visão divina (jnâna), sem que se compreenda como a mente chegaria por esse método a tudo abarcar.

2. Só há meditação real quando ela brota espontaneamente (dhyâna), vindo por si mesma, sem esforço.

3. Dizer que a mente se dissolve exige indagar sua origem, que é o Si (Atman), do qual, segundo a Shruti, ela emana como uma sombra.

4. Se onde há nascimento há necessariamente destruição (nâsha), a mente surgiria de novo, e é natural não compreender o caráter abrangente da mente, pois não se trata de coisa a compreender, nem de algo nem de nada a compreender, sendo a felicidade ou beatitude temporária da meditação também uma experiência, como as alegrias e tristezas do mundo, embora com pequena diferença.

5. Quem afirma descrever uma experiência ao descer das alturas do êxtase divino (samâdhi) mostra que subida e descida ainda existem para si, pois de outro modo não usaria essas expressões, havendo porém um estado onde não há mais subida nem descida, e mesmo admitindo-se que a mente subsista absorvida e purificada no samâdhi, pois de outro modo não se poderia relatar a experiência, o caminho é marcado por experiências de níveis diferentes, todas pertencentes à mente, inclusive o que se chama samâdhi.

6. Existe ainda outro estado em que já não se pode falar de subida nem de descida, nem, portanto, de corpo, e enquanto surgir a questão do corpo, da ação ou qualquer outra, esse estado não foi alcançado.

7. A dissolução (laya) da mente no Si pode parecer, de certo ponto de vista, como a do sal na água, e numa dissolução desse tipo um yogin perfeito pode ressuscitar a mente.

8. Quanto à destruição absoluta (nâsha), nâ sha significa “não Ele” e nâ sva “não-Si”, sendo isso que propriamente se chama destruição, de modo que, quando a destruição é destruída, há AQUILO, cabendo indagar se a aniquilação da mente (manonâsha) equivale à sua dissolução.

9. Cabe ao guru indicar o método, ensinar o modo de compreender e instruir na sâdhanâ, e ao discípulo praticá-la fielmente, vindo o fruto espontaneamente como revelação do Si e manifestando-se por intermédio do guru a faculdade de captar o inapreensível, mas enquanto surgir a pergunta sobre como prosseguir a realização não foi alcançada, não se devendo jamais afrouxar os esforços até a Iluminação nem suspendê-los diante de uma interrupção, que provocaria refluxo, pois a busca deve ser contínua como um fio de óleo que escorre constante e regular, sem solução de continuidade.

10. Pouco importa não dominar as necessidades corporais de sono e alimento, desde que nenhuma interrupção seja permitida na sâdhanâ, pois assim como essas necessidades retornam sempre nas horas fixas sem exceção, deve-se aspirar a que a busca da verdade não sofra interrupção, e se for possível captar o instante em que a mente, em seus movimentos, tocou o Indivisível, todos os instantes estarão contidos nesse instante supremo e passarão a pertencer a quem o captou.

11. Nos momentos de junção (sandhikshana), na aurora, ao meio-dia e no crepúsculo, o poder inerente revela-se no ponto de contato onde ir e vir se fundem, assim como a descarga elétrica é o encontro de dois opostos, manifestando-se o brilho do Ser supremo no momento da junção, pois Ele, embora presente em todos os instantes sem ser percebido, pode ser captado nos pontos em que os opostos se fundem num só, sem que se possa prever quando esse momento decisivo ocorrerá para cada indivíduo, devendo-se por isso esforçar-se sem trégua.

12. O grande instante depende para cada um de sua via pessoal de progressão, assim como o instante do nascimento determina o curso da vida, importando o instante de entrada na corrente do ser verdadeiro, a grande peregrinação, antes do qual a perfeição não pode ser alcançada, razão pela qual o guru atribui a certos discípulos horas particulares de sâdhanâ, aurora, crepúsculo, meio-dia e meia-noite, cabendo ao discípulo seguir conscienciosamente suas ordens, variáveis segundo temperamento e predisposições, pois o mesmo método não convém a todos e o indivíduo comum ignora a combinação de fatores necessária ao desabrochar de facetas negligenciadas do ser, de modo que o momento decisivo se desencadeará quando atitude e ações estiverem prontas, seguindo-se passo a passo o caminho indicado pelo guru até que tudo aconteça espontaneamente.

13. É indispensável consagrar a Deus parte das vinte e quatro horas do dia, praticando se possível regularmente o japa de um nome ou mantra numa postura especial e aumentando pouco a pouco, em intervalos definidos, como a cada semana ou quinzena, sua duração ou número de repetições, buscando refúgio nEle onde quer que se esteja e fazendo dEle o objetivo, até que, mergulhando cada vez mais nessa corrente, ocorra a transformação, diminua o apetite pelos prazeres dos sentidos, se colham os frutos dos esforços e talvez se sinta que a qualquer instante o corpo pode partir e a morte chegar.

14. Assim como a criação se renova sem cessar no universo, a atitude mental e psicológica está em constante evolução, e seguindo esse método diminui a atração pelo exterior e a visão volta-se para dentro, ampliando-se as possibilidades e reduzindo-se os sofrimentos na proporção do avanço, já que o karma extingue o karma, podendo isso ocorrer rapidamente quando tal sorte está reservada, e assim como o corpo continua a assimilar alimento mesmo sem comida, consumindo a própria carne, deve-se cuidar do Ser espiritual tanto quanto do corpo para desabrochar espiritualmente, perseverando sem fraquejar, pois ninguém sabe quando brotará a chama da Iluminação, até que Ele invada sozinho pensamentos e sentimentos, já que a mente busca sempre o que a alimenta e só o Ser supremo o pode, sendo-se então arrastado pela corrente que conduz ao Eu, perdendo as coisas exteriores seu atrativo à medida que se desfruta a vida interior, e alimentando-se a mente tão bem desse alimento por excelência que a realização de sua identidade com o Si pode ocorrer a qualquer momento.

15. Entendido laya como dissolução da mente em AQUILO, a afirmação é exata, não sendo desejável o jada samâdhi, mas sim perceber o que é a mente e quem ela é, imergindo-se ela em AQUILO.

16. Laya pode significar que a mente, sem ter para onde ir e sem encontrar seu caminho, cai em letargia, ou que ela se dissolve em AQUILO, que é a revelação do Si, deixando de ter existência separada, e diante da revelação do Si a questão de saber se a mente se dissolveu ou não sequer pode surgir.

17. As respostas situam-se no mesmo plano das perguntas, e quanto à meditação sobre uma parte conduzir ao todo, o todo está contido na parte, sendo preciso seguir as instruções do guru, em quem Seu poder se manifesta, para realizar essa verdade, oferecendo o que foi dito apenas pálida ideia de um único aspecto do conjunto.

18. Há quem perca a consciência ao meditar, desmaiando por assim dizer ébrio de alegria por longo tempo e relatando depois ter sentido uma beatitude divina, o que certamente não é realização, pois existe na meditação um estado de alegria intensa que parece submergir, sendo a mente o que é submerso, e em certo nível e circunstâncias essa experiência, se repetida frequentemente, pode tornar-se obstáculo, fazendo o indivíduo estagnar nesse nível e impedindo-o de saborear a Essência das coisas.

19. Uma vez bem estabelecida a contemplação autêntica (dhyâna), as atrações do mundo perdem todo encanto, e ao experimentar algo ligado à Realidade suprema ou ao Si não se pergunta onde se esteve nem se diz que não se tinha consciência de nada, pois não há ali “não saber”, e se a beatitude sentida pode ser descrita em palavras trata-se apenas de um gozo e, portanto, de um obstáculo, sendo preciso estar perfeitamente consciente e desperto, já que cair em letargia ou sono yóguico não conduz a nada.

20. Após uma meditação autêntica os prazeres do mundo tornam-se insossos, opacos e sem sabor, e vairâgya consiste em que cada objeto do mundo acenda o fogo da renúncia e dele se afaste como sob efeito de um choque, havendo despertar interior e exterior, sem aversão nem desprezo, mas simplesmente porque as coisas se tornam inaceitáveis e o corpo as recusa, sem nojo nem cólera, e quando vairâgya se torna inspiração viva começa a discriminação sobre a verdadeira natureza do mundo, até que o conhecimento de seu caráter ilusório surja na certeza fulgurante de uma percepção direta, parecendo tudo o que pertence ao mundo arder a ponto de não se poder tocá-lo, estado que também pode apresentar-se em dado momento.

21. Por ora o caráter temporário do que se ama pouco impressiona e nele ainda se encontra alegria, mas à medida que desperta o espírito de desapego o sabor desses prazeres efêmeros se esvai e a morte deixa de ser, caindo a máscara de felicidade dos prazeres mundanos no avanço rumo ao que está além do tempo e surgindo a pergunta sobre o que é realmente o mundo, que não se coloca enquanto nele se tem prazer, até que tudo o que pertence ao tempo comece a aparecer sob sua verdadeira luz.

22. Quem, ao voltar de um estado de contemplação, ainda consegue comportar-se como antes não foi transformado, ao passo que a meditação real conduz à indiferença ao mundo e a uma sede ardente do Divino, com a compreensão de que nada do que passa poderá saciá-la ou satisfazer.

23. Assim como filhos que partem de carro sem se voltar para ver se os pais choram, insensíveis à sua tristeza, também em certo estágio do caminho os prazeres do mundo já não tocam, sentindo-se que o vínculo com os que se consideravam seus é apenas de carne e sangue e pouco importa, e assim como ninguém põe voluntariamente as mãos no fogo ou o pé sobre uma serpente, apenas se lança um olhar aos objetos dos sentidos e deles se desvia, entrando na corrente que leva na direção oposta, até que, desapegado até do desapego, já não haja problema de apego ou desapego, mas apenas AQUILO que é.

24. Diz-se que pelo esforço contínuo se pode alcançar a Iluminação, mas ela não depende da ação, pois o véu se rasga e, feito isso, revela-se AQUILO que é, sendo o que se considera fruto do esforço apenas a iluminação do aspecto particular a que o esforço se dirigiu, enquanto a Luz sem véu (nirâvaran prakâsha) é Ele mesmo, o Eterno.

25. Os objetos parecem ora existir realmente, ora ser apenas ideias, porque se está nas garras do tempo e ainda não se atingiu o estágio em que tudo é percebido como o Eu, onde reside a solução de todo o problema, sendo excelente ter sentido isso, pois faz parte da busca suprema e nada se perde, dando frutos em algum momento o que foi vivido mesmo por um segundo, quando subitamente se tomará consciência do que são a água, o ar, o céu e portanto a criação, vindo o conhecimento do caráter real de cada elemento (tattva) como botões que desabrocham, assim como flores e frutos surgem porque a árvore os continha em potência, devendo-se buscar realizar o Elemento único supremo que lançará luz sobre todos os elementos.

26. Um objeto dos sentidos (vishaya) é aquilo que contém veneno e mil perigos e arrasta o homem à morte, ao passo que estar livre do mundo dos objetos dos sentidos (nirvishaya), onde não resta traço de veneno, é a imortalidade.

27. A sensação de queimadura que subsiste no vairâgya provém de uma ferida, sem a qual não há dor, residindo aí o erro, pois enquanto a Realidade não se revela a ferida persiste, sendo a inflamação benéfica se traz um meio de cura, assim como o doente inconsciente já não percebe seu sofrimento, enquanto o homem permanece afogado em prazeres, tristezas e aflições, caminho do mundo (samsâra) com suas eternas incertezas (samshaya), que certamente não é o que se busca.

28. A angústia humana provém de ser puxado em duas direções, Deus de um lado e os prazeres dos sentidos de outro, querendo-se renunciar sem conseguir largar tudo, mas convém deixar esse desejo despertar no coração, pois a perturbação que provoca mostra que se aproxima o momento em que a renúncia será possível.

29. Obter o objeto cobiçado decepciona, e não obtê-lo também, mas a desilusão sentida quando o desejo é satisfeito é salutar, ao passo que o tormento dos desejos não satisfeitos empurra para o sofrimento e a morte.

30. A avidez dos sentidos jamais se aplaca, crescendo o desejo à medida que se obtém, pois o mundo é a concretização do desejo e enquanto este não se satisfaz sofre-se necessariamente, havendo na vida humana duas correntes, a do mundo, onde uma insatisfação sucede outra e a necessidade é perpetuamente reestimulada, e a do Ser verdadeiro, na qual o homem se estabelece em sua natureza real e leva a termo a luta que a exprime, alcançando por fim, ao engajar-se nela, o equilíbrio perfeito de seu Ser verdadeiro.

31. A angústia de não ter encontrado Deus é salutar, ainda que os prazeres dos sentidos, mesmo não desejados, venham e obriguem a experimentá-los, pois o que se comeu deixa um gosto residual e as joias usadas por desejo têm peso que se deve suportar, mas desse fardo se será aliviado, já que ele não pode subsistir.

32. Chamar alguém de Iluminado e ao mesmo tempo sujeito à ignorância é absolutamente impossível, embora exista um estado de realização não contínuo ao qual isso se aplica, nunca porém a Realização definitiva, pois o Iluminado permanece o que é de qualquer modo que seja representado, não podendo subsistir ignorância no Conhecimento supremo, e atribuir ignorância a um ser iluminado é tomar o Conhecimento supremo por ignorância.

33. Assim como não há questão de corpo para o Liberto, também não há para ele subida nem descida, existindo porém um estado de realização em que subida e descida existem real e verdadeiramente.

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