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vedanta:herbert:anandamoyi:1.5

1.5

ĀNANDAMAYĪ. L’enseignement de Mâ Ananda Moyî. Tradução: Josette Herbert. Paris: A. Michel, 1974.

1. Diante do relato sobre um homem que, sem sair do assento, fazia surgir das mãos objetos como flores, guirlandas e doces, Mâ evocou um incidente ocorrido em sua presença muitos anos antes em Dacca.

2. Esse corpo testemunhou inúmeros incidentes semelhantes sem em geral comentá-los, mas certa vez ocorreu algo estranho quando, ao chegar uma senhora, surgiu nele a vontade de deitar-se em seu colo e percebeu-se distintamente um pacote com diversos objetos amarrado no sári dela à altura da cintura, e como todos lhe pediam que mostrasse objetos vindos por meios sobrenaturais, inclusive o prasâd do templo de Kâlî em Dakshineshvar que supostamente surgia em suas mãos, perguntou-se a ela repetidas vezes se desejava que esse corpo o percebesse antes mesmo que chegasse, e diante da insistente concordância dela e de seus discípulos aconteceu espontaneamente o que devia acontecer, sem que esse corpo tirasse nada das próprias mãos.

3. A uma discípula daquela mulher, que perguntou por que Mâ, que jamais envergonhara ninguém em público, o fizera dessa vez, respondeu-se que esse corpo não interfere no comportamento natural de ninguém e que, do acontecimento mais simples ao mais extraordinário, o que deve ocorrer sobrevém naturalmente, tendo a mulher sido saudada com grande respeito, recebido o próprio âsana de Mâ e uma guirlanda, sem que nada fosse revelado naquele dia, até que ela mesma declarou que voltaria no dia seguinte, sendo o que então ocorreu a maneira dEle de Se manifestar, pois toda forma e toda expressão são Ele somente, qualquer que seja o método que escolha para instruir alguém, e esse corpo não tem desejo algum, sendo bom tudo o que acontece (jo ho jâye).

4. Outrora, quando esse corpo fazia pranâm a cada criatura, inseto, aranha, cão ou gato, fazia-o com plena consciência da presença do Ser supremo em cada coisa.

5. O princípio de que tudo o que acontece é bom exige um complemento, pois recorrer à falsidade ou ao engano jamais pode ser bom e quem engana será enganado, embora a falsidade também possa ser transformada em verdade quando, diante de alguém que engana deliberadamente, a sinceridade do discípulo faz surgir a verdade e o discípulo ultrapassa então o guru, já que o empenho obstinado em encontrar a verdade conduz inevitavelmente à sua revelação.

6. Ao discípulo daquela mulher foi lembrado que todos haviam sido perguntados repetidas vezes se esse corpo devia mostrar e que, sem exceção, continuaram a pedir que o fizesse, nada mais havendo a dizer.

7. Uma jovem que à menor provocação entrava no que as pessoas tomavam por samâdhi, parecendo sem vida e com mãos e pés gelados, caiu nesse estado também diante desse corpo, e a mãe dela, conterrânea a quem Mâ chamava avó, pediu ajuda, e compreendendo perfeitamente do que se tratava, sussurrou-se ao ouvido da jovem que em breve receberia uma carta do marido, fazendo-a voltar a si imediatamente, cura cujo rumor se espalhou longe, intrigando quem imaginava um mantra poderoso, quando na verdade era o mantra adequado àquelas circunstâncias, pois seu estado devia-se apenas à inquietação causada pelo longo silêncio do marido.

8. Um jovem passava por estados sobrenaturais e visões, permanecendo horas em pranâm com o rosto banhado em lágrimas e afirmando ver e ouvir Krishna ensinando Arjuna como na Gîtâ, e a ele se explicou que o sâdhak incapaz de controlar firmemente a mente fica exposto a ver e ouvir de tudo, coisas imaginárias e autênticas misturadas, podendo até cair sob influência de algum espírito ou poder, experiências que entravam em vez de criar aspiração divina pura e podem tornar-se fonte de autossatisfação ou prazer egoísta, sendo indesejável perder o controle de si, pois quem busca a Verdade não deve deixar-se dominar por nada, mas observar atentamente todo fenômeno, permanecendo plenamente consciente, desperto e senhor de si, já que perda de consciência ou de domínio próprio nunca é boa.

9. O Senhor Buda é a própria essência da Iluminação, e todas as manifestações parciais de sabedoria na sâdhanâ desembocam na Iluminação suprema (bodha svarûpa), assim como se alcançam o conhecimento supremo (jnâna svarûpa) e o amor supremo (bhâva svarûpa), havendo no ápice do caminho do amor um estado de perfeição equivalente ao do conhecimento supremo do Si, no qual o adorador descobre que o néctar do amor perfeito é idêntico ao conhecimento supremo e não há lugar para excitação emotiva, que impediria o resplendor do amor supremo (mahâbhâva), de modo que quem não chega ao fim de todas as sâdhanâs por um caminho particular não se engajou verdadeiramente nele, sendo excitação emotiva e amor supremo totalmente diferentes e incomparáveis.

10. Quem medita, consciente ou não do corpo, identificado ou não com ele e em quaisquer circunstâncias, deve permanecer bem desperto e evitar rigorosamente cair na inconsciência, mantendo-se aberto a percepções autênticas, contemple o Si enquanto tal ou uma forma particular, pois essa meditação abre o ser à Luz e ao eterno, sendo bom sinal que o corpo, antes dolorido, se sinta depois perfeitamente fresco e disposto, sem fadiga nem fraqueza, como se muito tempo tivesse passado ou nunca tivesse havido mal algum, ao passo que deixar-se submergir pelo primeiro contato com a Beatitude e declarar depois ignorar onde se esteve não é desejável, descobrindo quem se torna capaz de meditação real, na medida em que toca a Realidade, a alegria inefável contida até nos objetos exteriores.

11. Para quem na meditação perde a noção de si, desliza numa espécie de torpor e alega depois ter mergulhado em intensa beatitude, essa beatitude é obstáculo, e se a força vital parece ter ficado latente, como em quem sai de sono profundo com grande sensação de alegria, isso indica estagnação e apego, obstáculo à verdadeira meditação pela tendência a recair frequentemente nesse estado, embora do ponto de vista do mundo pareça fonte de profunda alegria interior e sinal certo de progresso espiritual.

12. Ao meditar, convém considerar-se um ser puramente espiritual (chinmayi), iluminado pela luz do Si e estabelecido em sua beatitude, procurando concentrar-se no próprio Ishta conforme as instruções do guru, e o jovem das visões, sendo inteligente e capaz de compreender esse raciocínio, viu cessarem as experiências espetaculares, passando a meditar e praticar outros exercícios espirituais de modo perfeitamente sereno e discreto.

13. Passar horas numa certa postura, conseguindo recolher-se nela mas não em outra, prova que se tem prazer nessa posição, prazer que também constitui obstáculo, pois embora no início da prática do japa e da meditação seja bom manter a mesma posição o máximo possível, para quem se aproxima da perfeição já não importa quanto tempo se manteve a postura, e então, deitado, sentado, de pé ou inclinado, nada mais distrai da contemplação do ideal ou do Bem-amado.

14. O primeiro sinal de progresso surge quando só se está à vontade na postura de meditação e nada exterior interessa, sendo atraente apenas permanecer o máximo possível na postura favorita, imerso em profunda alegria interior, contemplando o objeto supremo da devoção, o que marca o início da concentração exclusiva da mente e um passo na direção certa, embora a postura ainda tenha importância preponderante e a capacidade de nela permanecer fixado indique aproximação da perfeição no âsana, sendo na verdade toda atitude do corpo, de pé, sentado ou caminhando, um âsana correspondente ao ritmo e à vibração do corpo e da mente em dado momento, de modo que alguns iniciantes só meditam na postura prescrita pelo guru ou pelas Escrituras, outros começam em qualquer posição normal, mas, tornado natural o japa ou alcançado o dhyâna, o corpo assume espontaneamente a posição mais apropriada, como um soluço involuntário, aperfeiçoando-se as posturas por si mesmas com a intensidade da meditação, assim como um pneu bem cheio conserva sua forma natural, e na verdadeira meditação o corpo sente-se leve e livre, sem fadiga, dor, rigidez ou dormência ao levantar-se.

15. Na verdadeira meditação estabelece-se o contato com a realidade, que deixa marca como o contato do fogo, dissipando os obstáculos, consumidos pelo vairâgya ou fundidos na devoção ao Divino, tornando as coisas do mundo opacas, insípidas e estranhas e falar delas sem atrativo e até penoso, enquanto a perturbação diante da perda de bens terrenos mostra quanto os objetos dos sentidos sufocam o espírito, nó do ego chamado granthi, que se afrouxa pela meditação, pelo japa ou por outra prática adequada ao caminho de cada um, desenvolvendo-se a discriminação e o discernimento da verdadeira natureza da percepção sensorial do mundo, até que quem se debate na rede e dela começa a libertar-se, abrindo-se cada vez mais à Luz, vê que tudo está contido em tudo, que há um só Si, Senhor de todos, de quem todos são servidores, realização cuja forma varia segundo a orientação de cada um, sabendo-se por percepção direta que, existindo o Um, tudo o mais também existe, que nada vai nem vem e no entanto tudo vai e vem, o que é impossível exprimir em palavras, e aproximando-se de Deus na medida em que se desapega do mundo dos sentidos.

16. Alcançada a verdadeira meditação, a postura escolhida já não pode ser obstáculo nem fonte de prazer, pouco importando qual seja, pois sentado reto ou torto a postura correta vem por si mesma e o corpo toma a posição devida, havendo casos de completa independência da posição física, em que a meditação vem sem esforço em qualquer uma, e também, sem dúvida, um estado em que, assumindo uma postura especial como padmâsana (pose do lótus) ou siddhâsana (pose perfeita), nada pode interromper a união com o Ser supremo.

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