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Ensinamento de Ma Ananda Moyi

ĀNANDAMAYĪ. L’enseignement de Mâ Ananda Moyî. Tradução: Josette Herbert. Paris: A. Michel, 1974.

1. Mâ Ananda Moyî, conhecida em toda a Índia também simplesmente como Mâ ou Mâtaji, nasceu em Kheora, no distrito de Tripura (Tipperah), pequena aldeia hoje pertencente ao Bangladesh, de população majoritariamente muçulmana, onde um pé de tulsî (manjericão) indicava as casas dos hindus e uma nârâyana-shîla, pequena pedra símbolo da divindade, as casas dos brâmanes.

2. Seus pais, Shrî Bipin Bihari Bhattâchârya e Srimatî Mokshadâ Sundarî Devî, eram grandes adoradores de Vishnu, sendo a mãe modelo da mulher hindu, digna, paciente, incapaz de cólera, autora de poemas e das músicas que os acompanhavam, enquanto o pai, após o nascimento de uma primeira filha, partira para levar vida de asceta, retornando à vida familiar quando a criança morreu.

3. Em 30 de abril de 1896, doze minutos antes do nascer do sol, nasceu uma segunda filha, chamada Nirmalâ Sundarî Devî, cuja mãe, antes do parto, sonhara constantemente com Deuses e Deusas entrando e iluminando sua humilde morada, e no momento do nascimento não sentiu dor alguma.

4. A menina jamais exprimiu desejo algum para si mesma, sendo tão alegre que recebeu os apelidos de Hâsi (sorriso) e Khushir (a alegre), prestativa, amiga de todos, hindus e muçulmanos, e obediente sem hesitação a todas as ordens dos adultos, o que às vezes trazia consequências imprevistas, como quando, ouvindo da mãe que deixaria cair uma tigela que segurava torta, imediatamente a soltou.

5. Nirmalâ ajudou a mãe a cuidar dos vários irmãos nascidos depois dela e dedicou pouco tempo aos estudos, apenas dois anos de escola primária, recebendo instrução religiosa rudimentar, embora acompanhasse o pai às cerimônias religiosas e cantasse com ele os cantos sagrados.

6. Não há lembrança de que Nirmalâ tenha jamais chorado, exceto na morte de seus três irmãos e apenas quando percebeu que a mãe ia sucumbir ao desgosto, de modo que os soluços da criança fizeram a mãe esquecer a própria dor, técnica a que Mâ recorreria por vezes mais tarde.

7. Seus momentos de ausência e distração, em que no meio de um trabalho ou brincadeira ficava inerte, de olhar fixo, parecendo voltar de muito longe ao recobrar os sentidos, fizeram os pais temer que fosse débil mental, mas todos a deixavam assim, pois ninguém conseguia tirá-la daquilo que pareciam ser meditações, permanecendo ela sempre plácida e indiferente à comida e às roupas.

8. Aos doze anos e dez meses foi casada com Ramani Mohan Chakravarty, de uma grande família brâmane, e, segundo o costume, voltou após a cerimônia a viver com os pais, juntando-se à família do marido apenas um ano depois.

9. Na nova família, Nirmalâ surpreendia pela precisão e rapidez de todos os gestos e pela enorme quantidade de trabalho realizado, tecendo, aprendendo empalhação e trabalhos de agulha, sem jamais se queixar e obedecendo escrupulosamente, como na infância, a todas as ordens dos mais velhos, o que por vezes parecia um tanto ridículo a quem a cercava.

10. O marido, servido por ela como um pai, depositava nela fé total e considerava bem feito tudo o que fazia, e Bholanâth, nome pelo qual seria conhecido, foi o primeiro a presenciar uma ascese extraordinária que jamais procurou entravar, logo tomando a esposa por seu guru, enquanto uma espécie de aura a envolvia e lhe retirava todo desejo humano, levando a família dele a perceber que nunca teria filhos e a pensar em casá-lo com outra mulher, embora ele aceitasse dela o serviço e a devoção que na Índia a mulher deve ao marido.

11. Aos dezoito anos, ao se instalarem em Ashtagram, ela era esbelta, um pouco mais alta que a média das mulheres de sua raça, delicada e maravilhosamente bela, com aparições tão deslumbrantes que certo dia, vestindo um sári vermelho, cor da veste da esposa de Shiva, um vizinho viu nela Durgâ e prostrou-se diante dela.

12. Em 1918 Bholanâth foi transferido para Bajitpur, onde Nirmalâ se juntou a ele e se engajou definitiva e totalmente na via das asceses, iniciando o jogo quando, ao banhar-se no tanque perto de casa, o kheyâla lhe sugeriu desempenhar o papel de uma sâdhikâ.

13. Até 1923 desempenhou esse papel, passando rapidamente por toda sorte de sâdhanâs prescritas pelas Escrituras hindus e também por outras religiões, sendo desde a primeira infância o que sempre foi, de modo que, quando as etapas da ascese se desenrolaram nesse corpo, produziu-se uma espécie de ajnâna que era na verdade conhecimento disfarçado de ignorância, pois em geral um véu separa o homem de seu próprio Si e precisa ser gasto pela sâdhanâ, mas nesse caso nenhum véu se interpunha, tendo sido trazido por jogo para depois ser retirado.

14. Sem jamais ter adquirido conhecimento das Escrituras nem recebido ensino de prática espiritual alguma, Nirmalâ iniciou sua sâdhanâ como vira a mãe e a avó fazerem, varrendo e limpando o quarto à noite após o trabalho, acendendo incenso e repetindo num canto os nomes do Senhor, e quando Bholanâth observou que, sendo shivaítas, devia repetir o nome de Shiva e não o de Hari, aprendido na infância, ela o fez sem dificuldade, pois para ela todos os nomes do Senhor se equivaliam.

15. Pouco a pouco seus membros assumiam espontaneamente posturas yóguicas correspondentes a seu estado, cujos nomes ela ignorava, e diante de fenômenos estranhos cada vez mais frequentes, desmaios e perdas de consciência, Bholanâth consultou exorcistas e médicos, um dos quais, ao tentar expulsar dela o mau espírito, foi tomado de dores terríveis e rolou pelo chão até que ela mesma interviesse, prostrando-se ele então diante dela e declarando-a uma Deusa.

16. Em 3 de agosto de 1922 Nirmalâ deu a si mesma a iniciação, pois assim como se procura chamar alguém cujo nome se ignora por sinais e palavras até que ele se aproxime e revele seu nome, também Deus, em Seu papel de guia espiritual, revela Seu nome ao peregrino em busca de mestre, findando após a iniciação as hesitações do discípulo, que encontra o fio condutor até o objetivo e compreende por fim ser um com o Nome e com o guru, já que somente Ele pode dar Seu nome e ninguém além dEle suporta conhecê-Lo.

17. Ananda Moyî jamais teve guru no sentido habitual, e na noite da iniciação, sentada como de costume após a família se recolher, seus dedos desenharam no chão um sinal místico (yantra), dentro do qual inscreveu um bîja-mantra surgido do mais profundo de si, permanecendo porém shishya (discípula) e começando a repetir o mantra, compreendendo que ele não era distinto dela e que guru, mantra e Ishta (Divindade) eram um só.

18. Após essa iniciação as funções normais de seu corpo cessaram, sem necessidade de dormir nem de comer e sem mal algum, e fenômenos raros se observavam, como stotras e mantras que lhe caíam dos lábios com rapidez impossível de anotar, numa língua que não era propriamente sânscrito nem idioma moderno da Índia, com algumas palavras sânscritas, outras inusitadas e mesmo as aparentemente sânscritas talvez em sentido não habitual.

19. Cantava com voz ora aguda e penetrante como uma espada, ora suave como a brisa da tarde, às vezes acompanhada de risos ou prantos, permanecendo depois longamente silenciosa ou estendida no chão, absorta num mundo interior.

20. No samâdhi de Mâ seus olhos se abriam amplamente, mas o olhar se fixava e toda expressão se desvanecia, o corpo tornava-se frio como gelo e toda vida parecia afastar-se dela, enquanto o rosto e pouco a pouco o corpo inteiro resplandeciam de brilho divino, passando-se às vezes dez ou doze horas sem que ninguém conseguisse tirá-la desse estado antes da hora, até que a respiração se aprofundava e, ao voltar ao estado normal, todo o seu ser parecia submerso em alegria.

21. Às vezes, mesmo fora do samâdhi, uma luz tão brilhante jorrava de seu corpo que iluminava todo o espaço ao redor, levando-a a envolver-se num pano e isolar-se num canto da casa, emanando de seu corpo nesse período um poder divino que deixava por vezes inconscientes os que queriam tocar seus pés e tornava às vezes ardente o lugar onde se sentara.

22. Cinco meses após sua iniciação ocorreu a de Bholanâth, conferida por ela no dia e hora que previra.

23. Durante três anos a partir do fim de 1922 Mâ observou silêncio, rompido raramente para pronunciar um mantra sânscrito ou dizer algumas palavras às pessoas cada vez mais numerosas que a visitavam, ficando nesses silêncios com o rosto de pedra, sem que se soubesse se reconhecia alguém, e assegurando que viria o dia em que pareceria tão semelhante a todos que causaria espanto.

24. Em dezembro de 1924 partiu para Dacca com Bholanâth, nomeado intendente dos jardins da Nawabzadi Pyari Banu, e suas ocupações diárias eram frequentemente interrompidas por estados extáticos súbitos, como quando, lavando louça junto à água, caiu em êxtase dentro dela e lá permaneceu várias horas.

25. Começou-se a falar de Nirmalâ e as pessoas acorriam cada vez mais numerosas para ver essa mulher que exercia atração extraordinária sobre jovens e velhos sem dizer uma palavra, respondendo aos homens apenas quando Bholanâth o permitia, e, hábil cozinheira, preparava com imaginação tudo o que lhe traziam sem derrogar as regras estritas dos brâmanes, fazendo sempre a quantidade exatamente suficiente para o número preciso de convivas, precisão que ainda a caracteriza.

26. Mâ considera-se ao mesmo tempo cristã, muçulmana, hindu, o que se quiser, tendo recitado versículos do Corão e pronunciado invocações muçulmanas para quem delas precisava, e certo dia, aproximando-se de um muçulmano que a observava de longe, levou-o cantando Allah ho Akbar a fazer oferendas diante do mausoléu de dois santos da Arábia que vira em visão muito antes, aceitando depois que ele a alimentasse.

27. Em 1924 morreu a irmã caçula de Nirmalâ, e Bholanâth, sabendo quanto ela a amava, constatou que para Mâ Ananda Moyî saúde ou doença, vida ou morte têm o mesmo significado, passando então os pais dela a viver em Dacca, chamados por todos Didimâ (avó) e Dadamasai (avô).

28. Todas as ações de Mâ são igualmente válidas e se desenrolam conforme as necessidades das pessoas próximas, atitude expressa nas palavras frequentemente repetidas Jo ho jâye, incitando cada ser humano a extrair o máximo de suas capacidades e do que se lhe oferece, sem que em sua presença haja apatia ou desespero, sendo a vida espiritual a via normal sem implicar de modo algum dar as costas ao mundo.

29. Em 1924 Mâ e Bholanâth foram a Siddhesvari, antiquíssimo templo de Kali abandonado onde ascetas teriam praticado duras austeridades, para onde ela voltaria a meditar vários dias, e em abril de 1925 sugeriu cobrir o templo e ali celebrar a Vâsanti pûjâ, festa da primavera em honra de Durgâ, quando, durante violenta tempestade, pareceu identificar-se com ela e o simples toque de sua sobrinha desencadeou na criança um êxtase de quase três dias, em que apontava a estátua de Durgâ como sua tia, explicando que Ela não se revela com dez braços a todos, enquanto o prasâd preparado segundo as instruções de Mâ bastou para uma multidão muito maior que a prevista.

30. Mais tarde Mâ aceitou que ali se erguesse uma construção sólida, desde que o lugar sagrado fosse coberto por uma plataforma para que ninguém o pisasse por descuido.

31. Jyotish Chandra Ray, chamado Bhaïji (irmão mais velho), assistente do diretor de Agricultura em Dacca e desde 1924 um de seus discípulos mais fervorosos, atendeu sem hesitar a um chamado dela num dia em que esperava seu chefe e foi levado a Siddhesvari, onde, vendo-a sentada numa cavidade com um lingam e com o rosto irradiando tanta alegria, exclamou que dali em diante a chamariam Ananda Moyî, ao que ela respondeu tê-lo posto à prova, pois sem sua vinda ninguém mais lhe teria dado esse nome.

32. Noutra ocasião foi Bhaïji quem a pôs à prova, querendo saber como reagiria a uma queimadura, e ela colocou uma brasa sobre o pé e observou a ferida estender-se até que ele suplicasse, explicando que seu desejo ardente fora realizado, pois a força de um pensamento puro e concentrado torna tudo possível, enquanto a menor ponta de ego retarda o progresso espiritual, e quando ele lamentou que sua vida fosse um triste fracasso apesar de contato tão santo, ela respondeu que o que leva muito tempo para nascer amadurece numa beleza duradoura após desenvolvimento igualmente longo, cabendo agarrar-se com força à mão que guia, como criança confiante.

33. Bhaïji foi em grande parte responsável pela fundação do primeiro âshram, o Ramna âshram, em Dacca, seguido ao longo dos anos por outros vinte no norte e no centro da Índia, embora ao ouvir que precisariam de um âshram para se reunir ela tenha respondido que o universo inteiro é um âshram, sendo ele construído apenas em 1929.

34. Em 1925, ao fim do período de silêncio, Mâ empreendeu um longo jejum, tomando apenas três colheres de alimento, água incluída, duas vezes ao dia, ou às vezes nove grãos de arroz, vivendo por quatro ou cinco meses de alguns grãos diários, o que se explica porque o corpo assimila apenas a quintessência do alimento e rejeita o resto, e com a ascese passou a absorver do ambiente tudo de que necessitava, podendo nutrir-se de ar ou mesmo de nada, em estado de samâdhi, pois com a ascese tudo é possível.

35. Noutras ocasiões jejuou treze e vinte e três dias sem sequer enxaguar a boca, e às vezes, após seis meses sem cereal, comia o equivalente a uma refeição para seis ou sete pessoas, chegando certa vez, a pedido de Bholanâth, a comer tanto da comida preparada pela irmã dele que foi preciso pronunciar um mantra para detê-la, e noutra, proibindo estocar alimentos, mandou preparar de uma vez toda a farinha trazida por um discípulo para vários dias e comeu tudo numa só refeição, advertindo que, se começasse a comer, ninguém seria rico o bastante para alimentá-la.

36. Mâ perdeu pouco a pouco o hábito de levar a comida à boca e desde 1926 é alimentada por uma discípula, devendo quem o faz observar estritamente as regras de pureza, pois embora não haja diferença entre esse corpo e uma massa de argila e ela pudesse comer no chão ou em qualquer lugar, o respeito à limpeza e às obrigações sociais é necessário à educação dos outros e por isso seu corpo segue automaticamente essas leis, considerando ela todas as mãos como suas, de modo que come sempre com a própria mão.

37. Em 1925 Ananda Moyî apareceu em público pela primeira vez e aceitou celebrar a Kâlî-pûjâ, durante a qual, para espanto geral, depositou sobre a própria cabeça as flores e o sândalo destinados à estátua de Kâlî, sua tez escureceu, os olhos se dilataram imensamente e todos os presentes a viram sob os traços de Kâlî.

38. No ano seguinte, celebrando novamente a Kâlî-pûjâ, recusou os sacrifícios de animais, substituindo-os por um fogo sacrificial que, contra o ritual, não foi apagado, mas conservado para um mahâyajna em benefício do mundo inteiro, celebrado vinte anos depois, e que foi mantido sucessivamente em Vindhyachal, Varanasi, Kankhal e Naïmisharanya, recusando também a imersão da estátua usada, venerada até 1938, ano da morte de Bholanâth.

39. Nessa e noutras cerimônias operava-se uma transfiguração em que Mâ surgia sob os traços gloriosos de Durgâ ou terríveis de Kâlî, rosto negro, língua pendente, olhos fulgurantes, como em 26 de janeiro de 1926, quando os cantos de um grupo de fiéis despertaram tal fervor que se decidiu repeti-los todas as noites desde então, e no mesmo ano em Siddhesvari seu corpo pareceu crescer e tornar-se de fogo irradiando beatitude, com o rosto resplandecendo de glória enquanto uma discípula prostrada entoava o hino a Durgâ.

40. No dia de Janmashtami, aniversário de Krishna, ela aparecia como o próprio Krishna, não como disfarce, mas com os traços completamente transformados.

41. As opiniões sobre o que Mâ é estavam e estão divididas, e a Bhaïji, que lho perguntou, ela respondeu rindo que a visão de deuses e deusas surge conforme as disposições herdadas (samskâras), que ela é o que era e o que será, tudo o que se imagina, pensa ou diz, mas que esse corpo não tomou forma para colher frutos de karma passado, sendo a manifestação material de todas as aspirações e ideias dos que o desejaram, com quem se pode brincar como com uma boneca, e diante da insistência dele um clarão de luz celeste ofuscante brilhou em seu rosto, aparecendo-lhe dias depois sob os traços cintilantes de uma deusa, Mãe do universo.

42. Para alguns ela é encarnação da deusa Kâlî que preside os destinos de Bengala, às vezes chamada Mânusha Kâlî (Kâlî em forma humana), para outros uma sâdhikâ dotada de enormes poderes espirituais ou um ser que realizou o Si e permanece no mundo apenas para ajudar os outros peregrinos.

43. Em meio a todas essas suposições, Mâ continuava tranquilamente a cuidar da casa, cozinhar e ocupar-se da família, obedecendo e aceitando como na infância todos os arranjos e decisões tomadas para ela, pedindo conselho aos mais velhos e aderindo à opinião geral, salvo quando seu kheyâla a levava a agir de outro modo.

44. A partir de 1926 os milagres se multiplicaram, chegando ela a deter uma inundação, e sobre esse período explicou que, tendo o kheyâla de ser como um sâdhak, era natural que se manifestassem espontaneamente as características de uma ascese intensa, sem que o sâdhak autêntico dê importância aos poderes que nele se desenvolvem ou faça deles uso deliberado, embora as pessoas possam tirar grande proveito dessa abundância que transborda de seus esforços conscientes.

45. Em 1926 chegou Didi, filha de um cirurgião de Dacca, recebida por Mâ como velha conhecida com a pergunta sobre onde estivera todo esse tempo, tornando-se uma das discípulas mais fiéis e encarregando-se até 1950 da administração de todos os âshrams criados em torno de Mâ.

46. Em dezembro de 1926 Mâ abandonou a vida sedentária e desde então viaja sem cessar pelo norte e centro da Índia e às vezes pelo sul, conforme o kheyâla, permanecendo dias, semanas ou meses num lugar e desencadeando por toda parte intensa atividade espiritual, sem necessitar ela mesma de cerimônia alguma, mas reconhecendo a importância das práticas religiosas, algumas de grande pompa como os cultos a Durgâ em Calcutá, e consagrando então um mahâyajna ao mundo inteiro para mostrar que sua mensagem não se dirige apenas a Bengala ou à Índia, pois afastadas as distinções artificiais de região e casta esse corpo é membro da grande família humana.

47. Em suas viagens Mâ leva consigo parentes que sempre sonharam visitar lugares santos sem jamais ter tido ocasião, e sua mãe, Didimâ, pura imagem de um ser sem ego, vive sempre junto a ela, desempenha papel importante no âshram, chega a dar iniciação a quem a pede, e morre em 1970.

48. Até sua morte Bholanâth esteve sempre ao lado dela, cuidando dela e acolhendo todos com calor e afeto, e quando se encolerizava Mâ assumia uma expressão aterradora que logo o acalmava, respondendo com grande ternura “não” quando ele perguntou se ela não o preferia aos demais.

49. Em setembro de 1928, em Benares, durante uma série de reuniões e cerimônias, um auditório inteiro passou pela primeira vez a interrogá-la, e suas respostas brotavam espontaneamente sem um instante de reflexão, maravilhando Gopînâth Kavirâj, que a conheceu então, enquanto o fluxo ininterrupto de visitantes não lhe deixava tempo para se lavar ou comer, e a Bholanâth, que tentava contê-lo, ela respondeu que ele não fora atento às advertências feitas a tempo e que já não se podia remontar a corrente.

50. Certo dia Mâ decidiu partir para Tarapeeth, lugar desolado procurado por ascetas, de crematório famoso pela santidade e onde só se vive praticando rigorosa sâdhanâ tântrica, levando apenas um ou dois cobertores e algumas roupas, pois dorme em geral no chão envolta num lençol, e quando Didi a alcançou viu infundados os temores de todos, pois uma multidão de Calcutá já a cercava e as mulheres da aldeia a cobriam de atenções, declarando-lhe na partida que, como povo de um siddhasthâna, sabiam reconhecer nela uma Encarnação da Mãe divina.

51. Comprado o terreno em Dacca e construída uma pequena cabana de terra, pois Mâ manifestara o kheyâla de não viver em casa de tijolos, decidiu-se celebrar ali seu aniversário de 1929, e em meio a kîrtans e cerimônias dia e noite, sem que ela entrasse na cabana, declarou subitamente que precisava partir e pediu autorização a Bholanâth, sob pena de abandonar o corpo a seus pés, impondo seu kheyâla com vigor inédito e partindo sem levar nada, nem sequer uma muda de roupa.

52. Sucederam-se as peregrinações de lugar santo em lugar santo, e Mâ dissuadia a maioria dos que tentavam acompanhá-la, que de todo modo, chegando a uma de suas etapas, sempre descobriam que ela já havia partido.

53. Quando Bholanâth adoeceu, Mâ voltou para junto dele e, em Siddhesvari, tentou para obedecer-lhe retomar o papel de dona de casa, mas tudo nela mudara e suas mãos já não seguravam nada, pois ninguém renuncia ao trabalho por força de vontade, mas esgotado o karma todo trabalho cessa automaticamente, e cuidando dele sem cessar ela própria adoeceu, com febres e espécie de paralisia, porém com alegria e riso recobrados, respondendo a Bholanâth, que exigia sua cura, que não lhe dissera para ir embora e portanto não o diria à doença, que partiria no momento certo, como de fato ocorreu, curando-se também ele.

54. A reputação de Mâ crescia sem cessar, e todos os membros de um congresso de filosofia indiana foram visitá-la e interrogá-la sobre pontos árduos, recebendo respostas serenas, precisas e livres de toda técnica metafísica.

55. Em agosto de 1930 Mâ e Bholanâth viajaram pelo sul da Índia, onde ela tudo via e notava, as características arquitetônicas e folclóricas de cada região, sentindo-se em casa por toda parte.

56. A Durgâ-pûjâ de 1930 realizou-se na colina desolada de Vindhyachal, onde uma pequena casa fora comprada, e toda a colina santa ganhou vida, e numa aldeia pouco interessada em religião e que jamais ouvira kîrtan, poucos dias após a chegada de Mâ todos organizavam serões de canto sagrado.

57. Em Calcutá os discípulos são inumeráveis e cada um organiza reuniões ou consagra parte da casa a pûjâs ou kîrtans.

58. No âshram de Ramna, em 1931, Mâ decidiu que também as mulheres cantariam o kîrtan, e cento e cinquenta mulheres, não estando livres de dia, reuniram-se à noite ao ar livre, com os homens dispensados e alguns anciãos como guardas, traço característico de quem, ao organizar algo, toma todas as precauções contra o menor incidente, tornando possível o que antes seria inconcebível, exemplo seguido noutras cidades, e no dia de sua partida cachos de mulheres se agarravam ao carro que a levaria.

59. As peregrinações continuaram, desejando todos que ela santificasse sua casa, e diante das frutas e refrescos oferecidos em cada uma, Didi, para que não pensassem que a privava de comer, distribuía igualmente as porções, o que levou Mâ a ensinar que cada um deve cumprir sua tarefa sem se preocupar com o que os outros pensam, pois quem se deixa influenciar por elogios e críticas não consegue concentrar a mente em sua tarefa.

60. Mâ descreve-se às vezes como um pássaro no galho e nesse período deslocava-se livremente, chegando com Bholanâth e Bhaïji a Raipur, perto de Dehra Dun, onde se instalaram por vários meses num templo de Shiva em ruínas e abandonado havia anos, morada de serpentes e escorpiões, de início solitários, até que, como em toda parte onde chegava desconhecida, os habitantes logo percebiam o que ela representava e se aglomeravam ao seu redor.

61. Depois de 1932 suas visitas a Bengala oriental se espaçaram, cessando naturalmente após a partilha.

62. Desde então uma multidão de peregrinos e discípulos procura constantemente alcançá-la, tarefa difícil dado seu deslocamento contínuo, vindo chefes de Estado, poderosos, cientistas, sanscritistas, artistas, monges, homens e mulheres de todas as camadas sociais, raças e religiões, de todos os cantos do mundo, pedir-lhe conselho, e alguns europeus abandonaram tudo para receber seu ensinamento, dando ela a cada um o que necessita e é capaz de receber.

63. No meio do turbilhão, Mâ permanece presente, tranquila, serena e perfeitamente consciente de tudo o que se passa ao redor, sem que nada perturbe sua paz, comentando com sorriso malicioso a um estrangeiro, quando os gritos de duas mulheres disputando a vez de tirar água quebraram o silêncio, que era um pouco de cor local.

64. Insegurança, desgraças e tensões atuais no país ou no mundo são para ela fenômenos anunciadores da nova ordem inevitável projetada pelo Criador.

65. Irradia não só alegria, mas às vezes uma luz invisível de tal intensidade que, para evitar falar, pede a um assistente que cante, e seus íntimos afirmam que um perfume divino emana de seu corpo, hálito, roupas e até da roupa de cama.

66. Pode passar vários dias sem dormir e de todo modo duas ou três horas por noite lhe bastam, horas em que conserva toda a atividade, dizendo ao retirar-se que continuará trabalhando, como os outros em seus escritórios, mas noutras esferas, conversando com seres de níveis mais elevados, e permanecendo pronta a responder a qualquer chamado.

67. Uma liberdade absoluta marca todos os seus movimentos, com andar régio e grande majestade de gestos, e ela jamais se olha no espelho.

68. Mâ não aceita nem pede dinheiro algum para si, tendo por única joia o bracelete das mulheres casadas de Bengala e não possuindo na época mais de dois sáris, um dos quais frequentemente doava, recebendo logo outro de presente.

69. Mâ Ananda Moyî leva a vida errante dos monges hindus e raramente fica mais que alguns dias no mesmo lugar, consolando os que lamentam suas partidas com a afirmação de que não vai a parte alguma, pois não há ir nem vir e tudo é o Atman, e de que percorre um jardim que cobre o universo inteiro, onde plantas, animais, humanos e grandes espíritos desencarnados brincam cada qual com beleza própria, sendo sua ausência numa parte a alegria dos irmãos de outra, permanecendo sempre com cada um, ainda que absorvidos pelas coisas materiais, pois nada lhe escapa e todas as expressões dos rostos lhe aparecem quando nela se medita, dela se fala ou se a invoca.

70. Mâ não tem vontade própria e seu único móbil de ação é o kheyâla, e a expressão Jo ho jâye encerra toda uma filosofia de vida, significando que tudo o que acontece é conforme à Vontade divina e igualmente bem-vindo, exprimindo ausência total de desejo pessoal, abandono sem reservas à Providência e convicção de que nada ocorre que não seja, em última instância, ato do Criador.

71. Jamais Mâ se opõe a essas manifestações espontâneas da Vontade divina, que tudo tornam possível, até subir sozinha no dorso de um elefante, razão pela qual quase não assume compromissos nem faz planos, mantendo-se disponível a cada instante para obedecer ao kheyâla, sentindo-se melhor quando as coisas acontecem inesperadamente, e essa obediência absoluta não exclui uma personalidade fortíssima nem o fascínio exercido sobre todos, explicado pelo fato natural e espontâneo de amar o próprio Si.

72. Esse mesmo Si, nela e nos outros, no qual está constantemente imersa mesmo em comércio intenso com o mundo aparentemente exterior, dispensa o que se chama comumente meditação, pois só se pode falar de meditação onde há meditante e objeto, e essa menininha, como gosta de se designar, não conhece japa, âchamana nem meditação, de modo que tudo o que pais, mães e amigos fazem em suas meditações também a ela se destina, contemplando ela tudo o que cada um imagine, pessoa ou objeto, pois só existe o Um.

73. Mâ parecia por vezes permanecer longos períodos em samâdhi, em poses nada rígidas e em momentos imprevistos, o que hoje ocorre apenas no dia de seu aniversário, mas assim como esse corpo é visto rindo, falando ou deslocando-se, também pode parecer em samâdhi conforme o modo de ver de cada um, tomando diversas posições segundo o ritmo da respiração, sem que haja aí questão de mudança ou imobilidade, concentração ou suspensão de atividade, nem esforço para entrar em samâdhi, que tampouco é estado permanente, sendo mover-se, sentar-se e falar exatamente o mesmo que o samâdhi.

74. Esse corpo está sempre no mesmo estado sem mudança alguma, e apenas a atitude de quem observa faz julgar ordinário ou extraordinário este ou aquele estado, pois o Universo é um jogo divino e o desejo de jogar leva a interpretar segundo as próprias luzes todas as atividades, sorrisos e fantasias desse corpo, que, se se imobilizasse, não atrairia ninguém, cabendo aprender a imergir na Alegria divina em todas as suas manifestações para alcançar o objetivo final de todo esse jogo.

75. Numa resposta mais direta, o samâdhi é um estado além de todos os planos de consciência, de imobilização completa de todos os pensamentos, emoções e atividades físicas e mentais, que ultrapassa todas as fases da vida terrena, sendo o savikalpa samâdhi apenas meio para o objetivo final, etapa passageira da ascese.

76. Os numerosos yogins que a observaram descrevem esses samâdhis em termos mais técnicos, vendo nela permanentemente o estado de mahâyoga, ápice de uma série de sâdhanâs, ou um estado de autodespertar integral que não tolera a menor ideia de separação no Ser central, em que se realiza a unidade de Brahman e âtman com a onisciência de Brahman, o que explica que Mâ possa conhecer imediata e completamente o que quiser, em particular Escrituras que jamais leu nem estudou.

77. Sua visão da Verdade suprema, segundo Gopînâth Kavirâj, coloca-a acima de toda distinção entre Brahman estático e dinâmico, e a experiência de sarvâtmabhâva, tão esperada pelos místicos na realização do Si, foi para ela normal desde a primeira infância.

78. Inúmeros estados se manifestam no corpo de Mâ, com atos, gestos e expressões que se modificam com rapidez incrível, e outrora seu corpo entrava em uníssono com o ambiente, sacudido como folha quando uma tempestade se preparava, arrastado pelo ritmo das ondas ao som do mar, ou rígido como estátua, parecendo sem vida, segundo os próprios médicos.

79. Mâ Ananda Moyî jamais teve guru nem recebeu iniciação, e perguntada sobre a idade e a sâdhanâ pelas quais alcançou a Iluminação, riu como criança e declarou ignorar data ou tempo, não saber de sâdhanâ deliberada nem de iluminação súbita que dividisse sua vida em antes e depois, sendo agora o que sempre foi.

80. Diante da insistência, afirmou que nos primeiros anos os pais foram seus guias, na vida de casada o marido, e agora, em todas as situações, todos os homens e todas as coisas do mundo são seu guru, sendo certo porém que o Ser único supremo é o único guia de todos.

81. Perfeitamente serena também fora do samâdhi, nada a afeta, pois não precisa fazer nem dizer coisa alguma, nunca houve, não há nem haverá nela necessidade alguma, e se se insiste em atribuir-lhe algo como próprio, o universo inteiro é dela, ocorrendo tudo o que nela se manifestou, manifesta e manifestará apenas para o bem de todos, já que esse corpo foi atraído ao plano material para que cada um faça o que tem a fazer, isto é, evoluir espiritualmente.

82. Sua expressão é tão móvel que nenhum pintor teria conseguido retratá-la, e riso e choro, nada raros, duravam às vezes muito, como quando, brincando com crianças, riu durante uma hora e depois perguntou onde está o centro dos risos e prantos, explicando que, quando um sentimento verdadeiro os origina, manifesta-se por todas as fibras do corpo, o que um discípulo compreendeu dias depois ao ser sacudido da cabeça aos pés pelas vibrações que emanavam dela, pois quando um sentimento se exprime apenas por uma parte do corpo sua força total não entra em jogo.

83. O riso irrompe nesse corpo sem causa aparente, desencadeado por qualquer coisa, e toda tentativa de contê-lo só joga óleo no fogo, ocorrendo mesmo diante da dor alheia, o que pode ofender quem desconhece suas extravagâncias e pensa ser objeto de zombaria, quando às vezes a verdadeira causa são incidentes passados ou futuros que se apresentam diante dela.

84. Por estranho que pareça num ser tão evoluído, ela aceita ocasionalmente a doença em si e nos outros, explicando que, movendo-se esse corpo em harmonia com a Natureza, uma grave enfermidade resultou de ter sido desviado de seu curso normal, para que se compreendessem as consequências infelizes de obstruir a evolução natural, e que sem ela o corpo teria desaparecido ou ficado inválido, embora no leito não sentisse desconforto algum e, em meio à ansiedade alheia, ouvisse uma sinfonia e sentisse deleite.

85. Embora às vezes aconselhe doentes a consultar médicos e seguir tratamento, recusa para si todo medicamento, pois para esse corpo não existe vínculo algum, “não faça isto” ou “deveria fazer aquilo” não tem sentido, o que deve acontecer é bom, decidir algo não convém à sua natureza, nada lhe traz inconveniente ou desconforto e a doença também faz parte do jogo.

86. O sâdhak aspira a um objetivo, mas ali não há questão de objetivo ou ausência dele, sendo cada artéria, veia e nervo, seu funcionamento e vibração vistos com clareza, como se alguém num quarto escuro iluminasse com uma lâmpada todos os objetos um após outro, visão impossível ao sâdhak ainda a caminho, que precisa transpor obstáculos, ao passo que ali as artérias, as veias, o funcionamento dos órgãos e o observador são “eu”, palavra usada apenas por ser preciso usar alguma.

87. Constatou-se várias vezes que ela mesma quis sua doença para atiçar o fervor de todo o âshram e provocar a repetição contínua de uma prece ou de um nome de Deus, baixando sua febre uma vez obtido esse resultado.

88. Uma doença pode resultar também de ter assumido os sofrimentos alheios, poder que nela surgiu espontaneamente e sem intenção, como quando, após visitar um doente com grave disenteria, foi ela acometida por doze horas, numa espécie de tempestade que depois se acalmou, deixando a doença o enfermo assim que passou para ela.

89. Noutra ocasião esse corpo tomou para si a febre de um doente, com acessos de até 40° a cada três ou quatro dias, e D. B., a quem tratava como pai e que lhe tinha afeto paterno, perdeu a paciência e decidiu dar-lhe quinino à força, mas encontrando-a à noite em transe, de olhos abertos e fixos, sem reagir sequer ao dedo no olho, desistiu naquela noite, e ela, sabendo quanto duraria a febre, prometeu tomar o remédio se persistisse além do prazo, o que não foi necessário, pois na data indicada estava perfeitamente bem.

90. Avessa ao espetacular, Mâ age discretamente, tendo feito voluntariamente na mão um arranhão profundo, ainda visível após mais de quarenta anos, no instante em que um bebê de oito meses estava prestes a morrer de um abscesso no ouvido, que então rebentou, salvando-o, curando outrora doentes ao entregar-lhes um objeto que segurava, método depois abandonado por kheyâla, pedindo a um jovem dado à bebida apenas que não bebesse em sua presença, de modo que sempre que queria beber julgava vê-la diante de si, deixando-se morder por uma cobra em lugar de um menino cujo horóscopo previa morte por picada de serpente, e lançando uma noz de bétel a uma criança paralítica, que pouco a pouco recuperou o uso dos membros.

91. Não se deve pedir-lhe cura, pois cada um deve seguir seu destino e nenhuma obstrução nesse caminho pode ser benéfica, mas é justo fazer o possível para manter o corpo são e alerta, já que é muito difícil seguir uma ascese doente, aconselhando ela em geral a família a cuidar do doente, consultar médico e entregar-se a Deus, e ao mesmo tempo aprender a suportar o sofrimento inevitável como uma das formas pelas quais Deus Se manifesta, acontecendo também que profetize que alguém não sarará ou saiba de sua morte próxima, sem se opor, embora atenda a certos desejos do doente antes que morra.

92. O poder de cura existe normalmente em quem alcançou certo nível de evolução espiritual, podendo os sábios aliviar os sofrimentos alheios tomando-os sobre si, repartindo-os proporcionalmente sobre outros, o que explica em certa medida a intensidade e a agudeza do sofrimento, ou, raramente e por graça divina, libertando alguém de todas as consequências de suas ações e devolvendo-o à vida divina que é seu verdadeiro Si, razão pela qual se diz que a purificação se opera pelo sofrimento.

93. Seu corpo reage não só à doença física, mas talvez ainda mais, como o de Shrî Râmakrishna, aos contatos físicos humanos, parecendo sufocar quando alguém se aproximava com fé profunda na época da ascese, tocando ela os pés de quem tocava os seus, ficando às vezes paralisada quando lhe punham flores aos pés e guirlandas ao pescoço, sentindo choque elétrico ou o corpo inteiro arder quando um bhakta pousava a cabeça em seus pés, perdendo o fôlego com uma mão sobre o pé, enquanto noutras ocasiões tais toques não produziam efeito algum.

94. Aceitar sem protesto multidões e pessoas que vêm contar seus problemas domésticos só parece desagradável a quem distingue o próprio corpo do dos outros, pois assim como não pesa carregar a cabeça, as mãos e os pés por serem partes do próprio corpo, todas essas pessoas são sentidas como membros orgânicos desse corpo, e suas alegrias e dores, problemas e soluções são parte vital dela, sem sentido de ego nem de separação, tendo cada um nela igualmente a altura e a profundidade da eternidade.

95. A certos ocidentais, chocados com as prostrações, pûjâs e âratîs feitas diante dela, ela responde que só existe o Único e não há mal em deixar as pessoas fazerem o que desejam, mas quem está na dualidade e não percebe o Um em tudo e em todos não tem o direito de se deixar adorar.

96. Algumas intervenções lembram a multiplicação dos pães e peixes, como no verão de 1942, quando, preparada comida para 400 pessoas e chegando 600, Mâ proibiu buscar mais no mercado distante, ordenou servir todos em uma hora, com coração alegre, pois o serviço de Deus assim deve ser feito, e após todos saciados ainda sobrou para 200, determinando ela que tudo fosse consumido no mesmo dia, sem desperdiçar uma migalha, e o restante dado aos famintos.

97. Mâ vê frequentemente o que acontecerá ou não no futuro, embora nem sempre lhe venham palavras para dizê-lo, enxergando com olhos em todo o corpo, pois cada coisa contém em si todas as outras e mãos, pernas, cabelos e todas as partes do corpo podem tornar-se órgãos de visão, além do terceiro olho de que se fala, mas não se entrega a predições, respondendo a quem pergunta o que acontecerá que Deus o dirá quando julgar conveniente.

98. Nem sempre conhece o pensamento dos outros, vendo claramente o que está no campo de sua atenção, assim como se conhecem as letras do alfabeto sem tê-las constantemente na mente e se lê quando se quer, e mesmo quem possui o conhecimento que tudo abarca mantém certo comportamento de compreensão ordinária.

99. As relações de Mâ com o céu, a terra, a água, o sol e as estrelas diferem das comuns e revelam um amor cósmico, pois a natureza não é para ela outra vida, mas a mesma, enraizada no Si, onde a distinção entre natureza e espírito se anula.

100. Essa comunhão total explica que Mâ possa dominar as forças da natureza, ordenando ao fogo que obedeça quando as circunstâncias o justificam, como quando, diante de dois sacerdotes incapazes de atiçar brasas trazidas de Vrindâvan para o fogo de um novo templo, fez um gesto e chamas enormes jorraram com estrondo surdo antes de voltar ao normal, ou quando fez cessar a chuva para que uma cerimônia se realizasse.

101. Quando quer tranquilidade, os elementos ao redor se acalmam, uma brisa se levanta e nuvens escondem o sol no calor insuportável, a chuva para sem razão aparente, animais e vegetais parecem dobrar-se a seus desejos, um galho de árvore morta posto na terra brota, árvores florescem fora de estação à sua passagem e em Vrindâvan vacas e touros lhe obedecem.

102. Sua comunhão com o cosmos manifesta-se também na música, tão importante na Índia, que nunca estudou, mas canta frequentemente sentada, de pé, andando e, ao que dizem, até dormindo, explicando a harmonia extraordinária de seu canto pelo fato de esse corpo ser como um instrumento musical cujo som depende de como se toca, a mesma melodia que arrasta o universo inteiro, e respondendo candidamente a quem a tomava ao pé da letra que tudo depende do ouvido de quem escuta e que cabe ao pai e à mãe decidir se essa filha, que é também mãe, é inútil ou pode prestar serviços.

103. Para os discípulos que vivem com ela, a música eterna que Mâ canta e seu acordo perfeito com o Som primordial, o shabda-brahman, origem de toda criação, revelam nela exemplo vivo da divindade da alma manifestando-se por sons e ritmos, sendo a dança da natureza apenas as ondas sincronizadas numa pulsação da Verdade.

104. A vida cotidiana de Mâ é marcada por um gosto da perfeição que alcança os menores detalhes, estando presente em tudo e tudo supervisionando, dirigindo a casa onde está, cuidando da correspondência, respondendo a perguntas, recebendo visitantes, ajudando, falando, rindo, aconselhando sobre culinária, arrumação, acolhida cortês dos hóspedes e decoração de salas de cerimônia, com vigilância especial na preparação dos cultos e insistência na precisão dos ritos.

105. Até época bem recente suas portas estavam sempre abertas a todos, jovens e velhos, ricos e pobres, príncipes e párias, hindus e estrangeiros, mas embora receba pessoas de todas as castas, religiões e raças, autoriza nos âshrams a observância das mais estritas regras de casta, ortodoxia que atrai muitas críticas e dificulta a vida dos estrangeiros, embora ela mesma possa passar por cima de todas as prescrições bramânicas quando uma razão particular o justifica, como ao aceitar ser alimentada por um muçulmano ou por uma mulher que o desejava ardentemente e morreria dias depois sem que nada o anunciasse.

106. Pouco interessada nos progressos da ciência ocidental moderna, admite que certos avanços técnicos possam ajudar na ascese, abençoando o hospital moderno de Benares, mas continua a valorizar as concepções hindus tradicionais, em especial os quatro âshramas, e, como a vida moderna pouco favorece a busca espiritual, insiste que ao menos quinze minutos diários sejam dedicados a Deus, tendo instituído a samyam saptah mahâvrat, semana anual de jejum, oração e meditação regular que reúne grande número de discípulos.

107. Sua atitude com discípulos e visitantes varia de um extremo ao outro conforme as circunstâncias, aparecendo ora como menina, ora como encarnação da severidade, ora como mãe, ora como santa serena e radiante, com compaixão e amor incomensuráveis e isentos de falsa piedade, como quando uma mãe que perdera o filho chegou soluçando e Mâ chorou tanto que a mulher esqueceu o próprio pesar e lhe suplicou que parasse, prometendo também não chorar mais.

108. Ela pode também ser terrivelmente dura quando necessário, sendo descrita por um fiel como mais dura que o trovão, mais suave que uma flor, mais bela e terna que o que há de mais belo e terno no mundo, e no entanto mais terrível e furiosa que a própria morte, cortante como a severidade, generosa e cruel.

109. Raramente dá ordens, e apenas a quem tem nela fé total, mas então devem ser executadas à letra, sem questionamento, e a um dos mais antigos e fiéis discípulos que a desobedeceu mandou sumir de sua vista e guardou silêncio por vários dias, voltando porém a ser mãe terna e consoladora diante do arrependimento sincero do culpado, que se enche de paz, ao passo que reagir a suas palavras com orgulho e cólera provoca uma angústia terrível que só cede com o arrependimento.

110. Essa dureza, segundo outro discípulo que a sofreu, dá o amor da Verdade, e os que a conhecem dizem que ela é como o Ganges, cujo contato purifica.

111. Ao impor uma tarefa Mâ concede o poder de cumpri-la, e obedecer-lhe aguça a inteligência e desenvolve o espírito de iniciativa, terminando tudo muito bem quando se faz o que ela quer, ao passo que, contrariando seus projetos, ela deixa fazer e as coisas regularmente acabam mal, de modo que entregar-se a Mâ é libertar-se pouco a pouco de toda dependência, medo, insegurança e temor do fracasso.

112. Jamais Mâ guarda presentes ou oferendas, sabendo distribuí-los imediatamente e, mesmo no meio de uma multidão, nunca devolvendo à mesma pessoa o que dela recebeu, salvo intencionalmente, pedindo então que o guarde para ela, importando-lhe não o valor monetário, mas o esforço físico ou espiritual que a oferenda representa, aceitando às vezes doces com alegria infantil, batendo palmas e comendo tudo, e outras vezes nem olhando o que lhe trazem.

113. Sua compreensão de todos os problemas espanta tanto quanto seu poder de curar feridas, pois as tristezas, pensamentos e sofrimentos dos outros são seus e esse corpo tudo compreende, embora suas reações às vezes desconcertem, respondendo frequentemente com riso a prantos e lamentações, ou acariciando em silêncio a pessoa desesperada, ou falando-lhe com grande doçura.

114. Memória e visão extraordinárias permitem-lhe reconhecer e situar imediatamente pessoas já vistas ou nunca vistas, como um francês discípulo de Shrî Aurobindo, que ouvira deste que ela estava no plano de Sat-chit-ânanda e a procurara em vão de lugar em lugar, até que em Benares, sem que ninguém lhe tivesse falado dele, ela o mandou chamar à noite, escandalizando os velhos monges da Ordem de Râmakrishna, um dos quais o acompanhou para protegê-lo e, após submetê-la a perguntas difíceis sobre disciplina espiritual e os textos mais herméticos, respondidas entre risos com voz de menina de dez anos, e após longo silêncio, prostrou-se diante dela, tomou o pó de seus pés e declarou que o francês podia segui-la.

115. Um pequeno medalhão encontrado diante da porta de sua casa pertencia a uma menina de dez anos, criada de uma mulher que visitava Mâ diariamente e que a proibia de acompanhá-la, tendo a menina entrado às escondidas na esperança de vê-la, e Mâ, mandando trazê-la, falou-lhe com doçura chamando-a de amiga e, ao saber que não estudara, riu dizendo que eram iguais, pois também ela nada estudara, enquanto a patroa notava que, apesar de todas as suas pûjâs e esforços para agradar, jamais recebera de Mâ a menor atenção.

116. Mâ supervisiona de perto a vida nos âshrams, definindo-os como lugares santos que despertam no homem pensamentos divinos, cujos habitantes devem manter atmosfera puríssima por preces contínuas, sâdhanâ, pensamentos nobres, meditações e discursos religiosos, bastando algumas cabanas para ali viver, e quando lhe pedem que vá a um âshram criado para ela nos Estados Unidos, onde alguns afirmam tê-la visto aparecer, responde que está sempre lá.

117. Em 1968 Mâ instituiu regras para os habitantes do âshram.

118. Quando uma pessoa mais velha ou superior fala, não se deve interrompê-la para comentar o que foi dito, opinando apenas quando solicitado, e havendo algo a dizer, pode-se mais tarde, em particular, expor ao mais velho a ideia que surgiu.

119. Quando um mais velho ou superior fala com outra pessoa, não se deve perturbá-lo intervindo ou conversando, e havendo algo importante a acrescentar, espera-se que termine de falar.

120. Na conversa com um companheiro não se deve zombar de ninguém nem criticar os outros.

121. Não se deve falar bem nem mal de alguém por quem se sente certo antagonismo.

122. Não se deve julgar os companheiros nem discuti-los com outros.

123. Diante de insulto ou acusação injusta, convém pensar que o Senhor acaba de dar uma lição e desejar novamente satisfazê-Lo, sem odiar quem feriu.

124. Nada de desagradável deve ser pensado ou dito sobre outrem.

125. A veracidade deve reger palavras e ações.

126. Deve-se falar pouco e somente quando necessário.

127. O bom humor deve ser constante.

128. Convém permanecer calmo, sereno, firme e sério.

129. A fala deve ser calma, firme, serena e com igual consideração por todos.

130. Só se deve prezar o que diz respeito à Busca suprema (paramârtha).

131. A conduta deve ser cortês e exemplar.

132. Em tudo o que se diz, deve-se ser honesto e franco.

133. A busca da verdade deve prosseguir a cada instante, e quando as forças acumuladas pela prática contínua da discriminação entre real e irreal, pelo japa, pela meditação, pela assistência às cerimônias, pelo estudo dos textos sagrados e pelos hinos de louvor, segundo a linha de aproximação de cada ser, levam o sâdhak a ficar obcecado pela Busca suprema, torna-se impossível não se lembrar de Deus, desaparecendo tolice, conhecimentos errôneos e sofrimentos, pois ser humano significa aspirar à realização de Deus e a vocação do homem é encontrá-Lo.

134. A vida comunitária num âshram traz grandes problemas, sentindo-se muitas vezes os discípulos ainda mais violentos e egoístas, o que se explica porque é ao limpar um charco que ele exala seus odores mais pútridos, sendo salutar que os impulsos maus subam à superfície, pois só saindo podem ser eliminados, embora Mâ não consiga ver ninguém como mau, enxergando apenas o Si divino de cada um.

135. As condições difíceis da vida no âshram servem à sâdhanâ, pois o modo amável ou desagradável como os outros se comportam é consequência do próprio karma, nascendo o homem neste mundo para colher os frutos de vidas anteriores e devendo aceitar alegrias e tristezas como tais, enfrentando os problemas, na vida mundana como na espiritual, com equanimidade, já que as dificuldades de toda peregrinação oferecem ocasião de desenvolver paciência, humildade, generosidade e amizade por todos, e os obstáculos se desvanecem pouco a pouco para quem segue esse caminho.

136. Invejável é a sorte de quem vive no âshram, livre das inumeráveis tristezas e preocupações do chefe de família e com a oportunidade maravilhosa de aperfeiçoar-se e preparar-se para a Busca suprema, fortalecendo a paciência e a resistência na convivência com pessoas de origens e caracteres diversos, cabendo não se ocupar das imperfeições alheias, mas descobrir suas qualidades, lembrando que é o próprio modo de ver ao criticar que faz sofrer, que todas as dificuldades vêm do próprio karma, cujos resultados devem ser saboreados ou sofridos em detalhe, que tudo vem dEle, que está presente para purificar e tornar digno da união com Ele, e que quanto mais se aproxima da fonte do perdão e da compaixão, mais se sente Sua presença, devendo-se passar o tempo em japa, meditação e estudo das Escrituras, ser verídico em pensamento, palavra e ação, deixar os outros agirem segundo sua natureza, ser reto e sincero com os colegas de trabalho, transformando-os pelo exemplo, e cultivar a grandeza de alma necessária para viver em harmonia com muitos, além das afeições mundanas que unem a família, criando sempre uma atmosfera espiritual pela veracidade, paciência e indulgência e entregando-se totalmente a Deus em tudo, pois tudo pode acontecer numa peregrinação, segundo a lei do mundo.

137. Aos jovens que vivem no âshram, que ao tomar esse caminho triunfaram do mundo, cabe lembrar que há um só Brahman sem segundo, um só Atman a que devem dirigir-se, sem que haja entre eles mau sentimento, cólera, discussão ou querela que os separe, pois quanto mais amigos entre si, mais tolerantes e corteses com os outros, devendo cuspir como veneno todo sentimento de ofensa e deixar que sua bondade atice a chama interior.

138. Vê-se nos outros o que se é, e se eles parecem fracos é a própria fraqueza que neles se reflete.

139. O aniversário de Mâ, celebrado anualmente com grande solenidade, é ocasião em que ela permanece longamente em samâdhi, e num desses anos apareceu às três da madrugada, deslumbrante e irradiando luz, diante de uma multidão de sannyâsins, pandits, crianças, homens de negócios, artistas, mendigos e peregrinos, deitando-se coberta de flores e repousando inescrutável por duas horas de cerimônia, como Vishnu adormecido no Oceano das beatitudes entre criação e dissolução, voltando a si ao amanhecer tão delicada, pálida e maravilhosa que cada um parecia vê-la pela primeira vez, com olhar distante e sereno abarcando tudo e o que está além.

140. Mâ Ananda Moyî não se apresenta como guru nem dá iniciação propriamente dita, pois às vezes um mantra lhe sai da boca e alguém o ouve e adota como iniciação sem que nada disso tenha sido querido ou dado, embora em raríssimas ocasiões dê um nome com caráter de mantra, muitos sintam ter recebido dela iniciação interior e outros reencontrem junto a ela mantras recebidos havia muito, não tendo discípulos no sentido próprio, mas sem contradizer quem vê nela seu guru, e não gostando que se dependa demais de sua presença física, pois só as moscas podem seguir esse corpo por toda parte sem receber iluminação por isso.

141. Ela não gosta que lhe ditem o que se quer obter, pois a mãe dá ao filho segundo suas necessidades e sabe exatamente o que dar, e riu de aldeões que especificavam demais seus pedidos, chamando-os de crianças espertas que apelam à mãe, apresentam-se como filhos e depois lhe dão bons conselhos.

142. Mâ não se vincula a doutrina alguma, embora recomende uma ou outra segundo as necessidades que percebe no interlocutor, sabendo que na casa do Pai há muitas moradas, sem esquecer que todas estão numa única e mesma casa.

143. Todos os ensinamentos de todos os mestres autênticos, haurido de fontes autênticas, são exatos e válidos para aqueles a quem se destinam, e sua aparente contradição não retira a nenhum o valor próprio como um dos caminhos.

144. Cada doutrina e cada disciplina, porém, só podem conduzir a uma realização imperfeita, pois onde há doutrina não pode haver compreensão total.

145. Em sua presença grupos, seitas, crenças e filosofias intolerantes dissolvem-se por si mesmos, e suas visões são tão universais que pessoas de todas as raças e religiões partem satisfeitas e fortalecidas em convicções depuradas e ampliadas, convencendo-se o vedantino de que ela é advaita pura, o shakta de que é encarnação da Mãe divina, o vishnuíta de que é a maior das bhaktas, assim como dois budistas, a quem respondeu com sua própria terminologia, partiram certos de seu profundo conhecimento de suas Escrituras, dois sâdhus jainistas ouviram detalhes da sâdhanâ jaina que ela seguira seis anos em sua ascese, e visitantes cristãos aprenderam a aprofundar sua visão e dela tirar melhor proveito.

146. Todos os atos e atitudes são válidos num certo nível, numa certa situação e num momento preciso.

147. Em cada religião ou tradição as pessoas têm temperamentos e preparos intelectuais diferentes e devem ser guiadas por caminhos diferentes, razão pela qual monges e chefes de família recebem dela respostas muitas vezes contraditórias.

148. O mundo de Deus compõe-se de homens que compreendem Sua natureza e de outros que não a compreendem, sendo preciso satisfazê-los dando-lhes o brinquedo que desejam.

149. Embora suas respostas se fundem essencialmente na sabedoria indiana dos rishis e munis, é impossível extrair delas um sistema filosófico, pois ela jamais impõe uma solução, mas indica várias maneiras de considerar o problema, aconselhando a um estudante trabalhar duro e terminar os estudos antes de pensar noutra coisa e advertindo a outro que essa educação só serviria para obter bens materiais, quando é pelas riquezas espirituais que se deve lutar.

150. A três chefes de família que perguntaram se deviam abandonar tudo pela busca espiritual, respondeu ao primeiro que, se ainda se perguntava, o momento não chegara, opôs-se firmemente a que o segundo deixasse a família, pois fugir não resolveria suas dificuldades, e disse ao terceiro que nenhum dever pode reter quem empreende a busca de Deus, afirmando noutra ocasião que o chamado de Deus deve ser acolhido como ordem e quem o ouve deixa tudo para trás, como folha morta que cai da árvore.

151. Diante de perguntas superficiais, acadêmicas demais, capazes de ferir alguém ou insinceras, Mâ esquiva-se ou responde com duas ou três palavras, encerrando a conversa antes de começar, e a uma estudante que a enchia de perguntas e queria discutir pediu que primeiro ouvisse tudo sem contradizer, refletisse tranquilamente e voltasse no dia seguinte se ainda tivesse dúvidas, o que ela fez declarando que todas se haviam dissipado.

152. Como em todas as ações, Mâ só responde impelida pelo kheyâla, que pode faltar, interrompendo-a então no meio de uma discussão, e certa vez, quando quiseram fazê-la falar ao microfone, embora suas respostas se dirijam sempre a uma pessoa e não a uma multidão, respondeu em monossílabos inaudíveis, mergulhando outras vezes num silêncio de serenidade imperturbável.

153. Não é o intelecto que responde nela, mas palavras extremamente simples que a mente não alcança, carregadas de sentido e bom senso e nunca desprovidas de humor, apresentando-se ela como menininha incapaz de grandes exposições que, como criança que leva aos pais algo bom e doce, oferece o que é bom e doce para que cada um tome o que quiser, sendo tudo tagarelice infantil, pois é o próprio ouvinte quem pergunta e responde, toca o tambor e ouve o som, e esse corpo, que ignora como se ensina, apenas conversa sem timidez com pais e mães, tem as crianças por amigas, permanece no Um que tudo contém, não entra em casa de ninguém, não come a comida de ninguém, não dá ordem nem ensinamento, cabendo extrair do que diz o que conduz à felicidade última, e não apenas o que agrada.

154. Tendo alcançado o estado de sat-chit-ânanda, ela dissolve os problemas que lhe trazem para resolver, e para quem a vê e se abre completamente à Sua graça todo desejo desaparece, oferecendo suas respostas, situadas em níveis tão diversos, um vislumbre difícil de captar do caminho ainda a percorrer.

155. Esse corpo responde estritamente na linha de pensamento e no espírito em que a pergunta é feita, não havendo propriamente opinião sua, pois toda linha de aproximação conduz a um objetivo além do qual está o inatingível, mas onde já não existe distinção entre atingível e inatingível, aí está o próprio AQUILO.

156. A quem se queixa da pouca disposição dela em dar respostas definitivas, cabe compreender que há um estado em que os problemas já não podem ser resolvidos de modo preciso e que nenhuma solução é jamais conclusiva, sendo preciso ultrapassar o nível onde existem certeza e incerteza, já que toda solução fornecida pela mente se limita a um único ponto de vista e deixa lugar à contradição por representar apenas uma faceta do problema.

157. A diversidade do ensinamento de Mâ Ananda Moyî, adaptado às possibilidades e necessidades de cada um, e o reconhecimento de todas as vias autênticas de desenvolvimento espiritual não o tornam vago, sendo ele, ao contrário, de rigor e precisão extraordinários.

158. O objetivo único da vida humana é realizar Deus, e quem recebeu o dom inestimável de nascer num corpo humano deve consagrar-se a isso com todas as forças, aqui e agora.

159. Sua concepção de Deus, partilhada por Shrî Râmakrishna, Shrî Aurobindo, Swâmi Râmdâs e outros grandes sábios hindus contemporâneos, é clara e total, sendo Deus ao mesmo tempo estático e sem forma, o que justifica o Jnâna-Yoga, dinâmico e com forma, o que justifica o Bhakti-Yoga e o Karma-Yoga, e interior ao homem, o que justifica o Jnâna-Yoga e o Râja-Yoga, conduzindo cada via à realização de um aspecto de Deus, embora o objetivo final seja realizá-Lo simultaneamente como o Si no homem, o universo da multiplicidade, incluindo o próximo, e o Absoluto incondicionado, e ver que os três são um só, indivisível.

160. Para alcançar essas etapas o homem deve empenhar-se em criar em si uma verdadeira obsessão, pela disciplina moral, pela convivência com sábios e santos, pelo estudo das Escrituras, pela meditação, pela oração, pelo pensamento continuamente voltado a Deus, pela repetição de um dos onipotentes Nomes de Deus, pela superação da mente, pela rejeição do ego, pela destruição progressiva do apego às coisas do mundo, pela oferta a Deus de todas as ações, pelo abandono confiante e total à graça e ao amor divinos e pela saudade de Deus, o que pode ser feito tanto vivendo no mundo quanto dele se retirando.

161. Somente assim o homem chegará à Felicidade suprema, inefável e inabalável, ao alcance de todos e à qual todos chegarão.

162. Nessa busca e nesse esforço por rasgar o véu de ignorância que impede ver e viver a verdadeira natureza, o Si, o único guia é o próprio Deus, Guru supremo, que para facilitar a tarefa se manifesta num guru humano a quem é preciso submeter-se totalmente uma vez encontrado, ultrapassando-se no momento certo tanto o ritualismo quanto o ensinamento das Escrituras, que apenas indicam o caminho.

163. Esse ensinamento maravilhoso traz o extraordinário apaziguamento de saber que na vida todas as verdades são verdadeiras, cada uma faceta da Verdade única, e todas as maneiras de ver igualmente válidas segundo o plano em que se está, encontrando então cada coisa seu lugar único no conjunto, sem que nada mais se destrua e cedendo a oposição lugar à complementaridade.

164. Tudo então se abre, e uma compreensão cada vez mais vasta se instala, permitindo descobrir tesouros em cada aspecto da vida e fontes de alegria insuspeitadas.

165. Diante de cada um, Mâ é um espelho do Ser verdadeiro e faz descobrir as potencialidades que nele existem.

166. Aos pés de Mâ cai um véu e muitos adquirem o poder de se concentrar e orar, sendo sua presença, seu sorriso e suas expressões por si sós todo um ensinamento, sentindo-se sua proteção sempre que se pensa e age de modo puro e desinteressado, e os desejos puros são atendidos.

167. Reina ao seu redor uma atmosfera de milagre, tirando ela o melhor de cada um e suscitando o que deve acontecer, mas seu maior milagre é dar a cada um aquilo de que precisa no instante preciso, recebendo cada qual resposta e bênção conforme sua sinceridade, o ardor de sua devoção e o que é capaz de receber no ponto em que se encontra, de modo que a quem se queixava de não receber dela a iluminação imediata e completa, como Krishna dera a Arjuna, respondeu simplesmente que lhe trouxessem um Arjuna e veriam.

168. Frequentemente pessoas que desejam ver Mâ com todas as forças e amor esperam pacientemente e de repente se veem inundadas de alegria e sentem suas bênçãos, pois um encontro com ela jamais é obra do acaso, a menos que o acaso seja a vontade de Deus, e chegado o momento, às vezes após anos de espera, reúnem-se as condições mais propícias, ficando Mâ, sempre rodeada de multidão, subitamente sozinha para acolher o visitante, e chegando a multidão justamente quando ele parte.

169. Não há por que se inquietar tanto em saber quando se verá Mâ, pois suas portas estão sempre abertas, e embora as quimeras do mundo façam esquecer a menininha, todas as preocupações e tribulações de cada um estão sempre diante de seus olhos.

170. Pode-se desejar deixar esse corpo, mas ele não abandona ninguém um só dia, não deixa nem deixará jamais, e quem uma vez sentiu sua atração não poderá, apesar de milhares de tentativas, apagá-lo ou riscá-lo da lembrança, permanecendo nela para sempre.

171. Os escritos dividem-se em duas partes, a primeira reunindo exposições e conversas com discípulos em que Mâ Ananda Moyî trata simultaneamente de diferentes temas, e a segunda agrupando por assunto textos curtos, cada um sobre um tema preciso.

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