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Pensamento védico

Esquisse d'une histoire de philosophie indienne

Capítulo I As origens dravidiana e ariana — A comunidade indo-iraniana

1. A história intelectual da Índia foi condicionada por uma configuração geográfica que, ao isolar o território por grandes cadeias montanhosas e conservar uma passagem pelo noroeste, favoreceu sucessivas migrações e invasões, concentrando a formação civilizacional nos vales do Indo e do Ganges, preservando maior diversidade no Decão e tornando a região de entrada o principal espaço de renovação política, religiosa e cultural.

2. A antiguidade do estabelecimento dos povos dravidianos permite considerá-los relativamente autóctones, embora a sobrevivência do brahui no Baluchistão sugira uma migração anterior semelhante à dos arianos, enquanto sua absorção e subordinação no norte, acompanhadas pela incorporação de pessoas e divindades em posições inferiores, contrastam com a preservação de sociedades e tradições próprias no centro e no sul do Decão.

3. A religião dravidiana caracteriza-se por cultos locais ligados à aldeia, à tribo e ao solo, nos quais divindades femininas, frequentemente concebidas como mortos humanos dotados de poderes perigosos e propiciáveis, protegem ou ameaçam a comunidade, constituindo um substrato persistente das crenças populares mesmo nas regiões profundamente transformadas pela imigração.

4. A hipótese de uma origem dos arianos no vale do Danúbio e de sua migração pela Ásia Menor e pela Mesopotâmia apoia-se em indícios linguísticos e religiosos, permitindo relacionar seu estabelecimento no Irã e no Punjab à expansão de uma mesma família de povos que compreende também diversos ramos europeus, sem exigir a suposição de uma unidade racial homogênea.

5. O parentesco entre as línguas indo-europeias evidencia uma estrutura linguística compartilhada capaz de favorecer disposições mentais, categorias e representações religiosas semelhantes, mas a determinação de seus traços específicos exige comparações rigorosas com outras civilizações, permanecendo prematura a aplicação à indologia de conclusões baseadas exclusivamente no exame interno dessa família cultural.

6. A proximidade entre os ancestrais arianos dos indianos e dos persas encontra confirmação particularmente segura nas correspondências linguísticas e religiosas entre os Vedas e o Avesta, permitindo reconstruir aspectos do estágio comum anterior à diferenciação das duas civilizações.

7. A comunidade indo-iraniana reunia agricultores e criadores de animais organizados em famílias patriarcais e tribos governadas por reis, cuja religião doméstica articulava o culto aos ancestrais, as forças naturais divinizadas, as oferendas no fogo, o soma ou haoma e os sacrifícios animais, preservando funções sacerdotais, fórmulas rituais e divindades correspondentes nas futuras tradições indiana e iraniana.

8. A reforma zoroastriana afasta o Avesta da herança religiosa comum ao concentrar a divindade em Ahura Mazda, rebaixar os demais seres sobrenaturais e promover uma renovação moral acompanhada pela supressão dos sacrifícios sangrentos, embora o fundamento filosófico do culto e dos mitos permaneça próximo daquele conservado pelos Vedas.

9. A ordem cósmica indo-iraniana corresponde à conservação e à condução de uma realidade preexistente, em vez de sua criação, pois os deuses pertencem ao universo e sua inteligência preserva a disposição das coisas, concepção expressa pelo termo arta e por seus desenvolvimentos iraniano e védico, asha e rta.

Capítulo II

A religião védica

1. A especulação indiana manifesta-se inicialmente sob forma religiosa, fazendo de um conjunto de preces o saber supremo denominado Veda, cuja compreensão depende da investigação das origens dos escritos que fundamentam essa autoridade.

2. O termo Veda pode designar amplamente uma cultura religiosa que abrange revelação, tradição e filosofia, ou, em sentido estrito, quatro coleções sagradas de hinos, cantos, fórmulas sacrificiais e encantamentos, entre as quais o Rigveda constitui o núcleo fundamental, enquanto as demais apresentam adaptações, desenvolvimentos ou incorporações posteriores.

3. O Rigveda constitui uma literatura formada e organizada ao longo de numerosas gerações, preservada oralmente e interpretada por tradições cujas intenções nem sempre coincidem com as de seus primeiros compositores, tornando necessário distinguir as transformações históricas de seus usos e significados das concepções pré-históricas que nele subsistem.

4. A autoridade excepcional dos hinos relaciona-se ao mistério de sua antiguidade, levando a tradição a distinguir os seres humanos que transmitiram o Veda dos videntes que contemplaram sua verdade eterna e não humana, convertendo a obscuridade de suas origens em fundamento de revelação.

5. A diversidade do Rigveda reúne fórmulas litúrgicas, elogios religiosos, poesia e narrativas profanas que nem sempre se destinavam originalmente ao culto, evidenciando uma composição em épocas distintas e uma incorporação progressiva de materiais posteriormente reinterpretados pelo bramanismo, até a inclusão de uma seção final de orientação mais filosófica.

6. A interpretação do vedismo exige combinar criticamente o recurso à tradição bramânica, o estudo autônomo dos escritos védicos e a comparação etnográfica, pois cada procedimento esclarece aspectos diferentes e corrige limitações dos demais, sobretudo o risco de projetar retrospectivamente concepções tardias sobre materiais antigos.

7. A complexidade e a incerteza da investigação védica impedem avaliações simplificadoras, tornando especialmente necessária uma compreensão cuidadosa desse primeiro momento da cultura indiana e de sua permanência como referência ao longo de toda a evolução intelectual posterior.

8. O sacrifício védico ocupa uma posição intermediária entre o culto doméstico indo-iraniano e a sistematização bramânica, passando das oferendas realizadas pelo chefe de família a uma organização cada vez mais especializada de cantores, recitantes, executores e supervisores, cujas funções se articulam às diferentes coleções védicas e preparam a constituição do sacerdócio como atribuição de uma casta.

9. O Atharvaveda preserva práticas mágicas destinadas a afastar males, doenças e obstáculos, mas sua posição exterior à organização principal do sacrifício não elimina o fundamento mágico deste último, cuja eficácia estabelece uma comunhão com os deuses e lhes impõe uma ação favorável mediante a força própria do rito.

10. As divindades védicas desenvolvem-se como personificações das forças naturais submetidas ao sacrifício, adquirindo progressivamente traços humanos e atribuições morais, desde figuras próximas aos fenômenos que nomeiam até personalidades mais complexas, como Varuna, guardião da ordem, e Indra, expressão guerreira da força e do poder de vencer adversários.

11. Divindades de origem ritual, como Soma, Brahman e Agni, personificam respectivamente a bebida sagrada, a fórmula eficaz e o fogo sacrificial, sendo Agni particularmente decisivo por mediar as oferendas e estabelecer uma continuidade entre o espaço doméstico e o universo, enquanto Brahman tende a elevar-se acima dos próprios deuses.

12. O universo religioso védico compreende também espíritos naturais, demônios, mortos perigosos transformados em ancestrais por ritos funerários e divindades abstratas, cuja crescente generalidade prepara concepções de unidade divina que ultrapassam o princípio originalmente plural do vedismo.

13. A evolução teológica védica é orientada pelo sacrifício, que passa de ação direta sobre o universo a troca de oferendas por benefícios, depois a propiciação de personalidades divinas moralizadas e finalmente a contemplação de um princípio de unidade cósmica, convertendo gradualmente a técnica ritual em conhecimento metafísico.

Capítulo III

As primeiras noções metafísicas

1. Embora os Vedas forneçam sobretudo as fórmulas de um culto, suas práticas pressupõem convicções filosóficas e seus hinos contêm observações e enigmas que anunciam uma reflexão relativamente autônoma, especialmente nas partes mais recentes do Atharvaveda e do Rigveda.

2. O ritualismo primitivo pressupõe uma pluralidade de agentes, objetos, destinatários e finalidades, reforçada pela diversidade dos deuses, pela distinção entre divindades, demônios e mortos e pela separação crescente entre religião e magia, constituindo raízes pluralistas que persistirão apesar dos esforços posteriores de unificação filosófica.

3. A confiança na eficácia universal do sacrifício e a atribuição sucessiva de supremacia a diferentes deuses favorecem um panteísmo ritual e uma crescente abstração teológica, pela qual as personalidades divinas tornam-se expressões substituíveis de uma essência única designada como Brahman, Purusha, Palavra ou Agente universal.

4. O monismo permanece inicialmente uma intuição imprecisa, pois as concepções tradicionais de ordem ainda pressupõem uma realidade anterior à intervenção divina, seja como domínio de uma força sobre adversários, seja como conservação de uma harmonia entre potências cósmicas, exigindo novas elaborações rituais para fundamentar uma unidade efetiva.

5. A noção de dharman introduz uma atividade instauradora da ordem que se distingue da ordem já estabelecida, identificando as leis fundamentais do universo às leis do sacrifício e preparando a transformação posterior do ato sacrificial em dharma, entendido como regra suprema de verdade.

6. A especulação mais tardia do Rigveda desenvolve mitos abstratos e cosmogônicos que procuram derivar a diversidade de uma unidade primordial, interrogando as relações entre ser e não ser e propondo como princípios de formação do mundo o calor criador, o desejo, o espírito, o sacrifício do Homem primordial e a potência originária da Palavra.

7. A reflexão moral védica ainda associa o bem e a verdade à exatidão ritual e aos benefícios concretos da vida, compreendendo o mal como influência nociva ou erro cujas consequências decorrem da própria ação, de modo que a falta produz aprisionamento e servidão, enquanto o bem supremo começa a ser concebido como ausência de culpa e libertação de todo vínculo.

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