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vedanta:nicolas:1976a:3

3 Cultura e sentido

DE NICOLÁS, Antonio T. Four-dimensional man: meditations through the Ṛg Veda. Stony Brook, N.Y: N. Hays, 1976.

3. Cultura e sentido: os hinos e o sacrifício

1. A renovação do canto exige abandonar os sons que já não sustentam a vida e abrir espaço para uma expressão mais alegre, capaz de restituir a força compartilhada da experiência.

2. A proclamação habilidosa da origem dos deuses permite que gerações posteriores recuperem essa origem quando os hinos forem novamente entoados.

Introdução

1. O tom torna-se canto e o canto adquire carne humana mediante o sacrifício, cuja atividade, inseparável dos hinos, constitui tanto o fundamento do Rig Veda quanto os critérios de sua compreensão, exigindo uma mediação histórica que ultrapasse a aproximação meramente teórica entre Oriente e Ocidente.

2. A recuperação das origens é necessária para libertar a existência de determinações alheias, mas o retorno à infância ou aos começos de uma tradição pode apenas reafirmar a orientação presente quando a experiência dos outros continua subordinada aos próprios pressupostos.

3. A procura psicológica das origens pela memória, pelos arquétipos ou pelas classificações nominais permanece insuficiente quando preserva a identidade teórica do indivíduo e o isolamento cultural, pois nem a infância nem a Grécia constituem começos absolutos da atividade humana que cria ideias e culturas.

4. A renovação humana exige libertar memória, imaginação e nomes dos controles metodológicos e recuperar memórias vividas, permitindo confrontar e refutar as teorias sobre a existência para exercer sua capacidade de liberdade e continuidade.

5. A compreensão do Rig Veda deve partir de sua linguagem cantada e dos critérios de seu uso, suspendendo as separações entre prosa, lógica, poesia, imaginação, música e métrica para recuperar a atividade originária em que essas dimensões permanecem unidas.

I

1. O Rig Veda preserva o esforço das famílias de videntes para reconciliar diversidade e oposição mediante uma visão compartilhada, oferecendo uma expressão literária antiga da formação cultural indiana e de suas possibilidades de unificação.

2. A reconstrução dos períodos anteriores e contemporâneos à composição védica permanece limitada pela escassez de vestígios materiais e pelo risco de projetar interpretações exteriores, como a imagem racializada dos árias e a redução dos videntes a observadores de conquistas militares.

3. A narrativa que opõe conquistadores árias supostamente superiores a populações dravidianas consideradas inferiores organiza uma imagem simplificada da formação indiana, atribuindo valor cultural às diferenças raciais e reduzindo a diversidade histórica a uma hierarquia de civilizações.

4. A civilização indiana constitui uma criação composta por influências e tensões entre diferentes tradições, cuja diversidade os grupos védicos procuraram reconciliar mediante o sacrifício, articulando continuidade e inovação por uma atividade que exige recuperar a intencionalidade própria dos hinos.

5. Os hinos constituem a estrutura e o sacrifício o contexto de significação do Rig Veda, cuja interdependência permite compreender suas concepções de movimento, linguagem, corpo, tempo e espaço.

6. As perguntas que exigem verificar a experiência védica segundo critérios previamente estabelecidos podem impor à tradição uma preocupação teórica exterior, impedindo reconhecer a atividade radical da qual teoria e comunicação são manifestações derivadas.

7. A autoconstituição humana realiza-se pela organização das coisas em uma orientação geral da vida, cuja unidade corporal de contexto e estrutura antecede a reflexão e exige descobrir os pressupostos que tornam a linguagem compreensível em seus próprios critérios.

8. Hinos e sacrifício dependem reciprocamente um do outro, de modo que sua origem não pode ser organizada por uma precedência cronológica simples, pois o canto suscita a atividade sacrificial e esta inspira novas composições.

9. A eficácia sacrificial exige hinos adequados e conhecimento dos critérios de sua realização, estabelecendo uma reciprocidade na qual a inspiração recebida das divindades é restituída por um canto capaz de sustentar sua força.

10. A fecundidade do sacrifício depende da orientação dos hinos, cuja atividade constitui a eficácia pela qual as oferendas e as práticas podem realizar suas possibilidades.

11. A potência intencional do canto eleva a atividade sacrificial e aproxima a perspectiva humana da divina, tornando o hino a ação decisiva do sacrifício e impedindo separar sua eficácia dos elementos materiais que o acompanham.

12. A vida dos seres humanos, a presença dos deuses e a criação do mundo dependem dos hinos, cuja articulação com o sacrifício sustenta a continuidade social antes das posteriores divisões ritualísticas e institucionais.

13. A palavra cantada orienta os deuses e preserva a continuidade criadora da tradição, figurando como luz, maternidade e potência geradora capaz de nutrir-se e renovar-se por sua própria atividade.

14. Os hinos articulam a criação e a organização do mundo, dando forma aos veículos dos deuses, à autoridade divina e às forças naturais, enquanto Agni reúne a condição de fogo e cantor cuja potência cresce pela palavra.

15. A compreensão dessas relações exige começar pela forma cantada da linguagem védica e pelos critérios concretos de sua realização, cuja recuperação oferece o acesso ao sentido dos hinos.

16. A universalização da prosa e de uma lógica particular como critérios de toda linguagem transforma formas históricas de expressão em padrões absolutos, reduzindo a verdade à conformidade com regras que desconsideram outras atividades linguísticas.

17. A pressuposição de uniformidade linguística torna os estudos culturais redundantes e apenas reforça as crenças de quem interpreta, pois impede descobrir a atividade humana pela qual a linguagem se forma e adquire carne.

18. O tom constitui o fundamento da linguagem do Rig Veda, cuja forma cantada exige recuperar a estrutura musical e métrica dos hinos para reconhecer os critérios que tornam possível seu sentido.

19. A relação entre intervalos sonoros e proporções numéricas permitiu construir uma ciência de relações puras, na qual oitavas, quintas, quartas e terças ofereceram modelos para cosmologias numéricas e para a organização de múltiplas possibilidades culturais.

20. A recorrência dos tons na oitava estabelece uma matriz geradora cuja incompatibilidade com outras proporções numéricas produz diferenças e tensões, mostrando que o mundo sonoro não se funda em substâncias, mas na multiplicidade de estruturas que não podem ser perfeitamente reconciliadas.

21. A estrutura tonal dos hinos deve ser descoberta nas circunstâncias de seu uso, permitindo compreender a precisão numérica e espacial da linguagem védica e reconhecer o destino como resultado da força do canto e da fé em sua eficácia.

22. As relações tonais e aritméticas estabelecem invariâncias epistemológicas, mas cada tom permanece dependente de contexto e estrutura, de modo que a melodia exige sacrificar perspectivas anteriores e renovar a continuidade de um mundo que o cantor constitui e incorpora.

23. A abertura dos sistemas antigos de afinação preserva a multiplicidade das escalas e das perspectivas, enquanto sua redução a um padrão único limita as possibilidades musicais, cuja liberdade exige movimento corporal, transposição e sacrifício das teorias convertidas em invariantes absolutas.

II

1. A passagem do canto à carne humana implica uma pluralidade de sistemas linguísticos e culturais com igual direito à expressão, cuja continuidade e inovação dependem de impedir que uma voz transforme sua perspectiva em definição absoluta da linguagem e da cultura.

2. A composição dos hinos por diferentes grupos familiares e a partir de múltiplas perspectivas constitui a condição concreta dessa pluralidade cultural.

3. A voz humana transforma a estrutura dos hinos em carne, fazendo o corpo compartilhar os limites e as possibilidades da linguagem que sua atividade torna presente.

Rig Veda 10.71 — Hino à sabedoria

Dirigido a Brihaspati, senhor da palavra

1. A linguagem nasce da atividade sábia de nomear e revelar possibilidades antes ocultas, mas sua fecundidade depende da amizade, da compreensão efetiva e do sacrifício, pois ver e ouvir não garantem acesso à palavra, cuja realização exige orientação e participação capazes de produzir conhecimento e ação.

Rig Veda 10.125 — Hino a Vac (palavra)

1. A palavra atravessa e sustenta os deuses e os mundos, oferece potência aos seres humanos e torna possíveis alimentação, percepção, respiração e conhecimento, manifestando-se como força criadora que gera, reúne e ultrapassa a totalidade de suas próprias realizações.

2. A força criadora de Vac transforma a estrutura em carne e humaniza o mundo, mostrando que a organização da existência depende da atividade linguística que a torna presente.

3. A sabedoria constitui e sustenta céu e terra mediante formas anônimas, medidas e orientações capazes de diferenciar os mundos e preservar sua continuidade.

4. A recuperação da palavra exige repetir sua formação como carne humana, permitindo reconhecer nas realizações presentes a atividade originária dos hinos e a relação entre existência e não existência descoberta pelos sábios.

5. A potência criadora da palavra torna possíveis os deuses, o conhecimento e os fenômenos do mundo, enquanto maya adquire o sentido de abuso ou ilusão quando essa capacidade é utilizada sem a orientação do sacrifício.

6. A eficácia da ação coincide com a eficácia da visão, cuja transmissão ao canto permite ao vidente transformar conhecimento e perspectiva em potência criadora.

7. Os sábios realizam sua investigação por uma capacidade já presente no coração e no pensamento, compartilhando perspectivas divinas e distinguindo o olho físico da visão que permanece operante mesmo quando a percepção imediata se interrompe.

8. A atividade de Vac torna a nomeação inseparável da criação da realidade e da força vital, articulando conhecimento, ação, vontade e sentimento mediante a concentração que permite realizar, no momento oportuno, uma transposição de perspectiva e uma renovação da existência.

9. A produção da palavra somente dá carne ao mundo quando ação, perspectiva e ocasião adequada coincidem, exigindo compreender a linguagem como atividade vivificante, cuja realização antecede sua redução a teoria, comunicação ou representação.

III

1. A cultura precisa assegurar simultaneamente continuidade e inovação, cuja tensão não pode ser resolvida pela imposição da voz mais forte, pois sua constituição depende de perspectivas com direitos iguais e permanece incompleta, aberta e em movimento.

2. A identidade cíclica da oitava oferece uma matriz musical que pode ser estendida à cosmologia, permitindo compreender qualquer tom como ponto de referência e a matriz geradora como origem das imagens de maternidade.

3. A articulação numérica entre unidade, duplicação e geração de novos intervalos oferece uma interpretação musical das imagens de pai, filha, união divina e princípios geradores, cujo sentido se torna obscuro quando suas condições sonoras são esquecidas.

4. A teoria da afinação mostra que o movimento se organiza em relações sem ser dominado por elas, que os tons pertencem a constelações contextuais e que perspectivas recíprocas possuem igual validade, exigindo reconhecer cada realização como possibilidade particular de uma linguagem fundada no dinamismo sonoro.

5. A compreensão dessas relações depende de examinar os usos concretos pelos quais os hinos articulam perspectivas, atividades e orientações culturais.

6. A dispersão do pensamento desvinculado do sacrifício manifesta-se na multiplicidade de ocupações e desejos que procuram seus próprios objetos de satisfação, cuja orientação precisa ser reconhecida para compreender suas possibilidades e limitações.

7. As diferentes atividades humanas e naturais procuram aquilo que corresponde a seus interesses, desde o trabalho e a riqueza até o prazer e a fecundidade, revelando uma diversidade de orientações que o canto reúne sem eliminar.

8. A identificação do princípio gerador com relações numéricas amplia a multiplicidade das perspectivas e permite compreender o conhecimento como recuperação da atividade originária pela qual o descendente pode tornar-se fundamento de seu próprio fundamento.

9. O princípio paterno pode aparecer sob diferentes configurações de pés, formas, rodas e raios, cuja diversidade exprime perspectivas complementares da sustentação do mundo.

10. A recorrência da configuração quíntupla articula o movimento cósmico, a ação de Indra e a abertura dos caminhos humanos, reunindo imagens naturais e sociais em uma mesma organização cultural.

11. A multiplicidade das perspectivas do sol, do tempo e do sacrifício permanece irredutível a uma síntese exclusiva, pois o movimento cíclico do mundo exige preservar relações recíprocas que continuam presentes mesmo depois de sua unificação.

12. As duas aves inseparáveis na mesma árvore exprimem perspectivas simultâneas e distintas, reunindo a participação que se alimenta dos frutos e a visão que acompanha a atividade sem apropriar-se deles.

13. A investigação de Dirghatamas ultrapassa respostas superficiais para interrogar o fundamento que sustenta a multiplicidade, procurando compreender como uma origem não estruturada torna possíveis o mundo, seus seres e suas configurações.

14. A procura do limite da terra, do centro do universo, da potência geradora e da morada da palavra reúne as questões fundamentais acerca das condições da criação e de sua compreensão.

15. O altar, o sacrifício, Soma e brahman oferecem respostas que situam os fundamentos do mundo na atividade concreta de sua realização e sustentação.

16. A modéstia filosófica de Dirghatamas consiste em reconhecer que a posse das respostas disponíveis ainda não resolve o problema de reconciliar sua multiplicidade.

17. A procura do conhecimento exige assumir a posição de quem pergunta aos sábios sem transformar os saberes já recebidos em certeza definitiva.

18. A perplexidade diante da própria identidade manifesta a insuficiência de uma orientação que aprisiona a existência em pensamentos sem oferecer fundamento para afirmar aquilo que ela é.

19. A reconciliação das perspectivas deve responder à experiência efetiva do cantor, cuja realidade ultrapassa a atribuição de suas perguntas à simples ignorância ou imaturidade.

20. A palavra nascida de rta reúne mortalidade e imortalidade em uma origem comum, mas suas manifestações seguem direções distintas que não podem ser apreendidas simultaneamente por uma perspectiva exclusiva.

21. A reconciliação precisa preservar as perspectivas que se tornaram canto e carne humana, evitando que sua unificação exija amputar as possibilidades corporais de quem as realiza.

22. A palavra possui níveis que ultrapassam a fala ordinária, cuja compreensão integral depende da sabedoria capaz de reconhecer dimensões que permanecem ocultas na manifestação linguística imediata.

23. Os compromissos entre perspectivas tornam-se problemáticos quando aquilo que se abandona constitui uma dimensão da própria carne humana, sobretudo quando sua realização impõe uma orientação única por relações de poder e reduz a diversidade a uma forma comum.

24. O ceticismo védico constitui uma preparação para o sacrifício, cuja atividade oferece uma resposta à insuficiência das certezas e das perspectivas particulares.

25. A interrogação acerca da divindade e da origem da criação abre a possibilidade de questionar inclusive o conhecimento atribuído à instância suprema.

26. A origem da criação permanece indeterminada quando nem a produção do mundo nem o conhecimento de seu fundamento podem ser garantidos por uma afirmação definitiva.

27. A dúvida acerca de Indra interroga a possibilidade de reconhecer e honrar uma divindade cuja presença não pode ser assegurada pela visão imediata.

28. A pergunta pelo lugar de Indra admite inclusive a negação de sua existência, impedindo que o nome divino substitua a investigação de sua realidade.

29. O ceticismo torna conhecimento, linguagem e perspectiva dependentes de contexto e estrutura, reconduzindo a investigação às atividades originárias da existência em vez de encerrá-la em imagens humanas previamente estabelecidas.

30. A investigação da criação ultrapassa as oposições entre existência e não existência, morte e imortalidade, reconhecendo o desejo e a atividade dos sábios como condições de manifestação sem transformar os deuses posteriores ou uma consciência suprema em garantia definitiva de sua origem.

31. A alternativa entre conhecer e não conhecer a criação depende de condições que não podem ser pressupostas antes da constituição do mundo, tornando insuficientes as oposições entre produção e não produção, existência e não existência.

32. As afirmações de que a origem conhece ou desconhece a criação carecem de sentido experiencial quando nenhuma perspectiva esteve presente para testemunhar e compartilhar sua constituição.

33. O conhecimento contextual aplica-se aos elementos de uma estrutura determinada, mas sua extensão à totalidade originária confunde condições distintas e exige recuperar o sacrifício como atividade primeira, pela qual a unidade se manifesta em múltiplas formas e reúne passado e futuro.

34. O sacrifício constitui tanto a origem das perspectivas quanto a condição de uma cultura aberta à continuidade e à inovação, exigindo abandonar identificações teóricas para recuperar a atividade humana que cria e renova suas possibilidades.

35. O ser humano cósmico abrange os mundos e ultrapassa suas manifestações, cujo sacrifício e desmembramento fazem surgir seres, hinos, cantos, métricas, prosa, funções sociais e regiões do universo, mostrando a criação como diferenciação de uma totalidade que permanece maior que suas partes.

36. A articulação dos conceitos e critérios interpretativos permite reconhecer quatro sistemas linguísticos pelos quais as formulações do Rig Veda constituem e adquirem sentido.

37. A recuperação das origens exige ultrapassar as divisões históricas que separaram linguagem, lógica, imaginação e música, reconhecendo quatro estruturas de intencionalidade que organizam a não existência, a existência, as imagens e o sacrifício e a visão incorporada.

38. Os diferentes espaços linguísticos podem integrar-se sem negar suas realidades quando abandonam a exigência de exclusividade e reconhecem a linguagem como atividade anônima que reúne suas possibilidades segundo a orientação cultural de rta.

39. As linguagens de asat, sat, yajna e rta articulam modalidades de inação, constituição da verdade, recomposição sacrificial e visão incorporada, acompanhadas por imagens que exprimem bloqueio, manifestação e renovação, cuja integração preserva a vitalidade do corpo cultural.

40. A atividade filosófica deve recuperar as condições que tornam possíveis as interpretações e reconduzir a investigação ao fundamento humano capaz de verificar e refutar suas próprias criações, permitindo constituir liberdade, verdade e vida em continuidade e inovação.

41. A reunião, a palavra compartilhada e a harmonia das orientações humanas renovam a participação no sacrifício comum, cuja realização torna possível uma convivência fundada na reciprocidade.

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