6 Linguagem das imagens
DE NICOLÁS, Antonio T. Four-dimensional man: meditations through the Ṛg Veda. Stony Brook, N.Y: N. Hays, 1976.
6. A linguagem das imagens e do sacrifício (yajna)
1. A unidade originária torna-se a totalidade das manifestações sem perder o fundamento comum que as torna possíveis.
2. A manifestação de Agni revela a presença de Varuna, mostrando que diferentes figuras divinas podem exprimir uma mesma potência originária.
3. O Sol constitui a face dos deuses, tornando visível a orientação compartilhada por Mitra, Varuna e Agni.
4. A palavra dos poetas exprime como multiplicidade aquilo que permanece uno em seu fundamento, diferenciando manifestações sem esgotar sua origem comum.
5. A compreensão da passagem do canto à carne humana mediante o sacrifício exige reconhecer os critérios sonoros da linguagem védica, cuja atividade articula potência originária, norma cultural e manifestação cantada.
6. A potência geradora indivisível move-se segundo rta e manifesta-se onde a palavra cantada ressoa, tornando inseparáveis a força criadora, a orientação normativa e a realização linguística.
7. A coincidência entre potência, norma e canto pode realizar-se em qualquer ponto sonoro, pois toda altura admite a função de centro tonal para diferentes estruturas.
8. Deuses, heróis e dragões constituem protótipos que incorporam perspectivas múltiplas de uma origem comum, figurada pela oitava musical como campo aberto a sistemas alternativos de organização.
9. A linguagem das imagens e do sacrifício torna-se compreensível quando essas relações sonoras são articuladas às possibilidades e aos limites da manifestação cultural anteriormente diferenciada.
10. A linguagem de sat manifesta um corpo cultural que procura realizar-se e compreender-se, produzindo diferenciações que precisam ser recuperadas em sua relação com a unidade originária.
11. A potência originalmente una fragmenta-se em imagens autônomas de deuses, dragões e corpos humanos ou animais, cuja multiplicidade constitui os espaços diferenciados da manifestação.
12. Cada corpo figurado abre possibilidades de incorporação humana determinadas pelo movimento e pela duração do canto, de modo que a experiência corporal precede as teorias que procuram explicá-la.
13. O sacrifício reconcilia a unidade indivisível da origem com a pluralidade descontínua das imagens de sat, constituindo o mito fundamental que reúne as diferentes figuras do mundo védico.
14. A linguagem das imagens cria e desfaz posições e personalidades, enquanto o sacrifício reconduz a dispersão exterior à origem mediante a integração do conjunto das capacidades sensoriais em uma visão incorporada e centrada no momento eficaz.
15. A multiplicidade dos centros da experiência não pode ser reduzida a uma condição patológica, pois monocentrismo e policentrismo constituem possibilidades de expressão corporal que não precedem a existência nem oferecem sua definição radical.
16. O policentrismo contemporâneo pode manifestar dispersão de sentidos, personalidades e orientações, cuja desarticulação revela a perda do fundamento afetivo capaz de reunir a experiência e conferir direção à vida.
17. O amor personaliza aquilo que acolhe e permite sentir em si a vida humana e não humana, reconhecendo semelhanças pelas quais seres, coisas e ideias se tornam possibilidades de participação afetiva.
18. A fragmentação psíquica contemporânea não oferece um critério universal para julgar outras culturas, pois pode decorrer da perda do amor pela própria existência e pela orientação que anteriormente reunia sua experiência.
19. A atenção à própria vida revela condições, faces e contradições variáveis, impedindo apresentar a identidade pessoal como uma unidade inteiramente simples, constante e sem mistura.
20. O policentrismo védico nasce da exuberância criadora que produz, desfaz e renova incorporações, cujo percurso circular permite sustentar a inovação sem romper a continuidade da experiência.
I
1. A linguagem das imagens e do sacrifício concentra-se na atividade do canto, cujo movimento reúne sensações em figuras divinas e heroicas, articulando a descontinuidade das percepções à continuidade necessária para sua reconciliação.
2. A multiplicidade cultural pode ser reduzida pela imposição de uma voz exclusiva ou por compromissos que preservam diferentes vozes apenas sob a exigência de uma linguagem e de uma organização sonora uniformes.
3. A renovação corporal exige atravessar perspectivas sem transformar nenhuma delas em limite absoluto, permitindo que o canto complete seu percurso circular até a potência originária, cuja recuperação é figurada pela atividade do sacrifício.
4. Vrtra representa o fechamento das possibilidades humanas em espaços discursivos fortificados por explicações e ações dogmáticas, enquanto Indra incorpora a potência de destruir essas barreiras e reabrir a experiência ao conjunto de suas capacidades.
5. A destruição dos impedimentos deve ser continuamente renovada, pois a libertação das possibilidades humanas depende do exercício reiterado das forças intencionais e criadoras representadas por Indra.
6. A potência de Indra permanece disponível diante da crise, mas sua eficácia não deriva de uma vontade isolada, exigindo associar a força destruidora à intencionalidade e ao movimento incorporado que reúne inspiração, vigor e capacidade geradora.
7. O esforço prolongado de Indra converge para o momento eficaz de criação, no qual sua potência se identifica com a orientação dos videntes, estabiliza a existência humana e restitui aos deuses suas capacidades intencionais.
8. As figuras divinas e adversárias compartilham uma potência originária cuja diferenciação depende da direção de sua intencionalidade, distinguindo as forças que restringem a ação daquelas que criam segundo a ordem incorporada de rta.
9. A linguagem das imagens recupera a unidade inicial e final quando suas figuras são compreendidas pela atividade que realizam, transformando a manifestação exterior da palavra em um movimento de reunião na origem.
10. O fundamento indiferenciado de asat constitui uma dimensão positiva da experiência e das possibilidades humanas, cuja recuperação pela transformação das perspectivas produz uma renovação capaz de integrar descoberta, retorno e visão eficaz.
11. A compreensão dessa atividade exige acompanhar as relações pelas quais as imagens védicas exprimem a passagem da potência indiferenciada às manifestações e sua posterior reintegração.
12. A mudança de perspectiva e a renovação da sensação aparecem nas imagens da geração de Agni e da obtenção de Soma, cujo movimento exprime a extração de possibilidades antes ocultas.
13. A geração de Agni por movimentos de fricção e rotação manifesta uma potência retirada de seu fundamento sem romper a relação com ele, tornando presente aquilo que permanecia oculto na origem.
14. A obtenção de Soma é igualmente figurada como extração e revolvimento, articulando o falcão, a rocha e o céu às operações pelas quais uma potência latente se torna eficaz.
15. A decapitação de Makha e Vrtra, a manifestação do Sol e a passagem da serpente para fora de sua pele exprimem transformações de uma mesma potência, cuja diferenciação permite reconhecer a origem sacrificial das figuras aparentemente opostas.
16. A identificação de Makha, Soma, Indra, Prajapati e Agni evidencia a mobilidade funcional das imagens, cujos nomes distintos exprimem atividades convergentes na realização do sacrifício.
17. A participação sacrificial envolve uma disposição voluntária pela qual a potência se oferece e confere eficácia à recitação, ultrapassando a compreensão do sacrifício como ação meramente imposta.
18. A relação de Soma com Vrtra, a serpente e purusha mostra que a potência oferecida no sacrifício procede do fundamento anterior às manifestações divinas, cuja transformação se realiza por extração, diferenciação e renovação.
19. O fundamento das imagens encontra-se em asat, mas seu retorno exige a atividade sacrificial que articula a diferenciação e a reintegração, conforme figuram os desmembramentos pelos quais a potência una adquire formas múltiplas.
20. A equivalência entre decapitação, desmembramento e sacrifício reconduz as narrativas particulares à unidade originária, mostrando que seus personagens e acontecimentos não constituem fundamentos últimos, mas manifestações de uma atividade anterior à própria formação das histórias.
II
1. A imagem do sacrifício reúne os mitos particulares do Rig Veda e integra a experiência sensorial dispersa em uma atividade incorporada, centrada no momento de máxima eficácia.
2. O mito fundamental organiza a experiência e confere sentido filosófico aos acontecimentos cotidianos, função realizada pelo sacrifício como centro da vida védica.
3. A intencionalidade védica reúne percepção, capacidades sensoriais e imagens explicativas, cuja integração sacrificial lhes confere um movimento próprio e uma orientação comum.
4. O sacrifício ocupa o encontro entre ação e inação, mortalidade e imortalidade, reunindo as diferentes imagens perceptivas em um fio que concentra e distribui suas possibilidades, conforme exprime a figura da teia geradora.
5. As imagens do sono, do repouso e do despertar articulam a potência oculta à manifestação, enquanto o sacrifício converte a exteriorização em recuperação da origem e transforma a obscuridade em visão.
6. A atividade sacrificial exige discernir seu sentido e aquilo que precisa ser oferecido, permitindo alcançar o centro eficaz de rta no qual as figuras divinas surgem e ampliam suas possibilidades.
7. A dependência dos deuses em relação a Agni corresponde à função que torna o sacrifício possível, cuja compreensão deve preservar seu caráter operativo e evitar transformá-lo em uma divindade absolutamente separada ou superior.
8. A primazia sacrificial de Agni exprime sua função de representante e condutor, articulando o movimento que se dirige aos deuses à convergência dessas figuras no centro da atividade comum.
9. O sacrifício reúne a vida social e suas forças criadoras em uma orientação voltada à prosperidade e ao bem coletivo, exigindo que Agni e as demais imagens sensoriais também sejam oferecidos na atividade que sustentam.
10. Indra e o sacrifício fortalecem-se reciprocamente, pois a potência guerreira somente adquire direção eficaz quando compreende e aceita a orientação sacrificial que a reúne ao fundamento.
11. A eficácia de Soma depende de sua participação no sacrifício, cuja realização exige uma preparação concreta e uma orientação que impede reduzir sua potência ao comércio ou à procura de evasão.
12. Soma reúne as oferendas vinculadas ao paladar e figura tanto a oferta entre as ofertas quanto o centro gerador da atividade sacrificial.
13. As diferentes preparações de Soma, puro ou misturado a outros ingredientes, exprimem modalidades concretas de sua apresentação no sacrifício.
14. Os alimentos adquirem função sacrificial quando participam da reciprocidade entre oferenda e sustentação da vida, tornando-se refeições eficazes cuja distribuição integra a orientação divina e humana.
15. Soma reúne no sacrifício as demais dimensões sensoriais figuradas pelos deuses, cuja participação depende de reconhecer o sentido e a responsabilidade da atividade comum.
16. O sacrifício constitui o encontro das forças naturais, das formas da palavra e das figuras divinas, articulando a totalidade da manifestação em um centro compartilhado.
17. Os deuses convergem com uma intenção clara, sustentam os céus e as águas e oferecem por si mesmos o sacrifício que criaram, tornando inseparáveis sua potência e sua participação na atividade comum.
18. Agni incorpora a integração das capacidades sensoriais dispersas em uma atividade dirigida ao centro eficaz, cuja realização sustenta o corpo cósmico e a possibilidade de imortalidade.
19. A eficácia de Agni reúne intenção, discernimento, concentração e sabedoria, tornando o ato sacrificial capaz de orientar a criação, prolongar a vida e conferir continuidade à existência mortal.
20. O sacrifício articula as descontinuidades da percepção, do espaço e do tempo, estabelecendo o vínculo pelo qual atos dispersos podem convergir em uma atividade eficaz e abrir a relação entre temporalidade e imortalidade.
21. A reunião sacrificial desfaz a autonomia dos nomes e das formas e constitui rtu como convergência intencional de atividades, cuja organização dos movimentos passados e futuros produz momentos eficazes segundo a orientação de rta.
22. As figuras divinas convergem de diferentes posições para uma intenção comum, reunindo suas energias na potência eficaz do sacrifício.
23. A articulação entre intenção compartilhada e momentos sacrificialmente construídos permite compreender como a eficácia se realiza por uma organização concreta das ações.
24. Agni orienta os participantes, realiza os momentos adequados e completa aquilo que permanece insuficiente, tornando possível prolongar a vida mediante a convergência dos atos no caminho sacrificial.
25. A concentração das energias dispersas transforma a descontinuidade dos nomes e das formas em continuidade, recuperando o fundamento não nascido e construindo momentos eficazes cuja articulação constitui o corpo comum da norma.
26. A função de Agni como manifestação sacrificial de rta permite reconhecer o lugar próprio da atividade e sua relação entre a experiência terrestre e a potência solar.
27. O retorno ao fundamento deixa de constituir inação quando resulta de uma atividade que reúne a criação em um momento luminoso, permitindo reconhecer a origem comum das perspectivas e a unidade entre mortalidade e imortalidade.
28. A linguagem das imagens desfaz as identidades pessoais e narrativas como fundamentos definitivos, recuperando uma atividade criadora que adquire carne através das histórias humanas sem encerrar-se em nenhuma delas.
29. A reciprocidade entre rtu e rta exige uma racionalidade capaz de compreender e redirecionar o canto comum, de modo que a norma objetiva se constitua pela incorporação de atividades plurais, em vez de resultar de uma lei imposta que restrinja a diversidade dos corpos, das sensações e das decisões.
