Avatara
DE NICOLÁS, Antonio T. Avatāra: The Humanization of Philosophy Through the Bhagavad Gītā. Foreword by Daniel H. H. Ingalls. New York: Nicolas Hays, 1976. (Reedição: Lincoln, NE: iUniverse, 2003).
Sumário
- Agradecimentos
- Prólogo
Parte I
- A floresta
Parte II
- Capítulo Um — O problema da filosofia
- Capítulo Dois — O problema da filosofia contemporânea
Parte III
- Capítulo Três — A Bhagavad Gītā: o canto da visão corporificada
- Tradução
Parte IV
- Capítulo Quatro — Crise de identidade
- Homem natural — homem cultural
- Dharma — karman
- Ahaṃkāra — anahaṃvādī
- Capítulo Cinco — Contexto: o problema do conhecimento
- Sacrifício
- Conhecimento do campo em cada campo
- Visão corporificada
- Capítulo Seis — Estrutura: o problema da corporificação
- Puruṣa — prakṛti — guṇas
- Manas — buddhi
- Yugas — desmembramento — corporificação
- Capítulo Sete — Sentido: salvando a condição humana
Apêndices
- Apêndice I — Apêndice ao Capítulo Dois
- Apêndice II — Apêndice ao Capítulo Cinco
- Apêndice III — Notas introdutórias e críticas à Bhagavad Gītā
Prólogo de Raimundo Panikkar
Espanha, Índia e América do Norte
1. Numa época marcada por comparações superficiais entre Oriente e Ocidente em quase todos os planos, da política à religião, torna-se revigorante um estudo que leva a sério, e até incorpora corporalmente, o encontro e a fecundação mútua desses dois grandes ramos da experiência humana, pois não é comparando-os que eles se encontrarão, mas por meio de um incesto novo e, ao mesmo tempo, primordial, ideia ligada à vertente indiana desta apresentação.
2. Numa época de escassa consciência filosófica, em que a filosofia autêntica cede lugar às análises das ciências e aos questionários dos sociólogos, é animador deparar com um esforço ousado de reflexão genuína sobre aquilo de que a filosofia realmente trata, a vida e a realidade sempre esquiva e em constante evolução, já que não se filosofa pensando sobre os outros e sobre dados, mas pensando com os outros e através das experiências passadas, contribuindo assim para o fazer de uma das mais altas e eficazes atividades humanas, ideia ligada à vertente espanhola.
3. Numa época de autoconsciência acadêmica, de atitude crítica e de abordagens científicas para quase tudo, é sinal positivo encontrar um estudo ambicioso do tipo que muitos pretenderam realizar no início de sua aventura intelectual e abandonaram por falta de tempo, coragem, segurança ou verdadeiro pathos humano, pois a perfeição não se alcança criando obras perfeitas, já que só Alá é perfeito, como sabe todo tecelão muçulmano de tapetes, mas arriscando o erro e aceitando a correção para melhorar a qualidade de toda a vida sob o sol, ideia ligada à vertente norte-americana.
4. Um livro que trata do espírito Kshatriya, da filosofia espanhola e do ambiente norte-americano, tocando quase toda a circunstância de quem o apresenta e vindo de um amigo cujo impulso interior e cujo daimon são conhecidos em três mundos distintos, convoca o karma, a vocação e o prazer de escrever um pró-logos, uma pré-tradução, no sentido de Ortega, para quem aquilo em que o ser se traduz é precisamente a linguagem, o logos, de modo que a linguagem nada mais é que a tradução, a revelação ou a simples manifestação do ser, razão pela qual ser e verdade têm a mesma raiz e muitas vezes o mesmo nome em sânscrito: sat, satya.
5. Falar do ser e traduzi-lo em linguagem é tarefa do autor e de seu logos, cabendo ao dharma de quem escreve um prólogo apenas a função de dizer uma palavra tanto em favor do logos do autor quanto antes dele, duas funções a cumprir de maneira necessariamente condensada.
6. Se o ser ou a realidade pudessem ser inteiramente traduzidos em logos, não haveria espaço para prólogo algum, pois o logos esgotaria a realidade, a recobriria por completo e não deixaria lugar para nada antes dele, assim como, se o autor de um logos pudesse dizer tudo, inclusive tudo o que deseja dizer, não haveria razão para nenhum outro logos em seu favor.
7. A palavra em favor do autor consiste em sublinhar a importância da tentativa de Antonio de Nicolás, que filosofa autenticamente, pensa de fato e extrai sua experiência do vasto campo do mundo ocidental, com incursões discutíveis, mas reveladoras de uma mente que enfrenta problemas reais em estreito contato com toda a história do Ocidente, buscando decifrar o mistério exterior e interior e, inspirado no importante e negligenciado Ortega y Gasset, dando um passo gigantesco, como uma das passadas tradicionais de Vishnu, para reinterpretar um documento capital da Antiguidade, a Bhagavad Gita.
8. Mesmo que o leitor discorde de algumas ou de muitas de suas visões, a ousadia de empreender tarefa tão formidável coloca de Nicolás em posição de destaque como intérprete da Gita e como pensador intercultural, num estudo aprofundado de um livro sagrado com instrumentos hermenêuticos muito diferentes dos de um mimamsaka clássico ou de um biblicista tradicional, partindo da convicção de que toda leitura autêntica de um texto é tanto uma leitura para dentro quanto uma leitura a partir dele, liberdade que o documento sagrado sempre permite sem gritos de traição, sendo a Gita escolha feliz sobretudo por ter se tornado uma das pontes entre a sabedoria do Oriente e a do Ocidente.
9. O esforço de Antonio de Nicolás para unir os três mundos mencionados constitui empreendimento que certamente merece uma palavra em seu favor, e nisso consiste a primeira função do pró-logo.
10. A palavra antes do autor, se o logos é apenas tradução, encarnação, revelação e expressão do ser ou da realidade, não consiste em dizer algo sobre o logos do livro nem algo diverso a título de crítica ou elogio, mas em abrir espaço para uma consciência especial do não dito, do não pensado, daquela realidade impermeável ao logos porque qualquer tradução a mataria, incapaz de prosperar em solo estrangeiro ou de viver num corpo alheio: o mythos, outro componente do real, que é também o pneuma, o brahman, o Espírito irredutível ao logos, ao atman e à Palavra.
11. O caminho para essa esfera do real não é um método de mera racionalidade, mas pode ser o da inspiração como a do Espírito, o da sugestão como a do oráculo de Delfos ou o da respiração como só o brahman respira, e a música calada e a solidão sonora de São João da Cruz, evocadas por de Nicolás, talvez possam introduzir nesse novo domínio.
12. Nesse domínio nada há a dizer, restando apenas dirigir a atenção e a intenção para o reino onde Oriente e Ocidente não precisam se encontrar porque nunca se separaram, onde o humano, o cósmico e o divino não estão dialeticamente opostos nem existencialmente cindidos por não serem três, mas uma única realidade, reino ao qual Krishna procura conduzir Arjuna, reino oculto do mito vivo, num apelo a fazer filosofia, a encarnar o mental e a realizar o primado da vida.
13. Era uma vez, num tempo primordial e irrepetível que todos podem reencenar se não se deixarem esgotar e afogar pelo tempo, Yama, o Homem, o Deus, a Cultura, o Ocidente, e Yami, a Mulher, a Deusa, a Natureza, o Oriente, gêmeos sozinhos no universo, ele estéril e desesperado apesar de seu poder, armas, riquezas e tecnologias, ela impotente, anárquica, faminta e pobre à beira do paroxismo, ambos desejando unir-se e gerar uma descendência que desmentisse os infelizes kalpas de exploração, injustiça e sofrimento, mas sabendo que um abraço meramente sentimental os mataria, pois Yami ansiava pela técnica sabendo que seria sua morte e Yama temia destruir a última esperança, a inocência primeira e o cuidado livre da vida despreocupada, enquanto ecoam as objeções correntes de que não se pode servir a dois senhores, de que o universo só subsistiu porque os deuses se retiraram, de que cada hemisfério deve seguir seu destino e de que não convém apagar as distinções laboriosamente elaboradas entre matéria e espírito, corpo e alma, humano e divino, num impasse dialético em que a união parece engendrar um novo pecado original que tornaria o kalpa seguinte pior que o anterior.
14. Segundo o Rig Veda, o futuro de toda a raça humana dependia de Yama e Yami se unirem, transgredindo o dharma dos deuses que proíbe aos mortais o incesto, ato próprio apenas dos seres divinos, de modo que a união seria afronta pior que Arjuna matar seus parentes e a recusa significaria o fim da humanidade, mas os dois célebres hinos silenciam sobre o desfecho para não fazer cair na armadilha dialética, pois o incesto não foi consumado e a raça humana não nasceu morta, superação da dialética que simplesmente deixa ser o milagre da vida e abre espaço para o não dito, o não pensado e o impensável sem desprezar as regras dialéticas nem o lugar e a função própria do logos, já que o mito não se reduz ao logos assim como o espírito de modo algum se subordina à palavra.
15. Esse mito não precisa ser explicado nem traduzido, permanecendo apenas como palavra anterior à palavra autêntica que o leitor é convidado a desfrutar nas páginas cuja apresentação constitui uma honra.
