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1 Hinduismo

PANIKKAR, Raimundo. Espiritualidad hindú: Sanātana dharma. 1. ed ed. Barcelona: Kairós, 2005.

I. A natureza do hinduísmo

1. Características

1. A pergunta pela natureza do hinduísmo, quando formulada no horizonte cristão ocidental, costuma pressupor que sua resposta o identificará como uma religião determinada, mas essa classificação antecipada, embora encontre elementos que a confirmem, impede a apreensão daquilo que o hinduísmo efetivamente é.

2. O hinduísmo não admite uma definição delimitadora, condição relacionada à ausência de fundador, ao caráter primordial e não autoral de seus principais livros sagrados e à inexistência de um nome originariamente próprio, pois sua designação foi atribuída por outros para distinguir os hindus de si mesmos.

3. A multiplicidade de caminhos, seitas, confissões e escolas doutrinais, por vezes contraditórios entre si, confere ao hinduísmo o caráter de um conjunto de religiões, mais que o de uma religião única.

2. O que o hinduísmo não é

1. A redução ontológica própria da filosofia indiana busca uma identidade integral que nenhum predicado contingente pode satisfazer, razão pela qual, assim como o atman não se identifica plenamente com corpo, desejos, ideias, mente, vontade ou ego mutável, o hinduísmo não se deixa reduzir a doutrina, ideia, organização ou rito, permanecendo aberto a qualquer verdade e receando que verdades parciais destruam a Verdade total.

2. A investigação sobre o hinduísmo exige o envolvimento existencial de quem pergunta e não pode separar-se da interrogação sobre a própria identidade, pois a objetivação de uma questão vital elimina sua dimensão vivida e a transforma em uma resposta abstrata, justificando a insistência dos gurus na pergunta fundamental sobre quem se é.

3. A natureza do hinduísmo não pode ser apreendida como uma essência mediante a razão, mas requer uma conversão ao plano factual da existência, no qual sua realidade se manifesta.

4. O caráter vital dessa investigação não impede reconhecer pressupostos epistemológicos que legitimem a pergunta pela natureza do hinduísmo, desde que a busca de uma resposta inteligível preserve a consciência de seus limites.

3. O que o hinduísmo é

1. O hinduísmo pertence à facticidade da existência e pode ser compreendido como um âmbito subjacente às mais variadas confissões religiosas, semelhante a uma matéria-prima capaz de receber diferentes formas, sem possuir um conteúdo objetivo único que exclua interpretações essenciais divergentes.

2. A aspiração hindu à Verdade não pretende atribuir-lhe um conteúdo essencial determinado, pois toda verdade intelectual implica uma delimitação que exclui outras verdades, enquanto o respeito à totalidade permite acolher aquilo que a lógica considera contraditório como diversidade potencialmente harmônica ou complementar.

3. A autocompreensão hindu torna-se incompreensível quando submetida exclusivamente a critérios externos, porque, enquanto a tendência ocidental identifica a essência com a diferença específica e favorece a classificação, a tendência oriental predominante procura a raiz comum que se manifesta nas coisas e constitui seu fundamento último.

4. A designação sanatana dharma, entendida como ordem perene que permanece e sustenta todas as ordenações particulares, expressa a natureza do hinduísmo mediante uma noção cuja amplitude ultrapassa traduções isoladas como religião, dever, direito, moralidade, lei, harmonia, justiça ou doutrina.

5. O dharma constitui a noção fundamental do hinduísmo e coincide com sua própria realidade, de modo que a expressão moderna dharma hindu introduz uma redundância influenciada pelo Ocidente, cujo esquecimento da amplitude dessa noção favorece equívocos no encontro com outras religiões.

6. A origem de dharma na raiz dhr, relacionada a sustentar e manter, esclarece seu sentido como aquilo que sustenta os povos e exprime a ordem cósmica da realidade inteira, apoiada no rta.

7. A tradução de dharma por ordem aproxima-se de seu sentido quando compreendida ontologicamente, à maneira do ordo da escolástica medieval e em equivalência com harmonia, evitando as conotações modernas que poderiam reduzi-la a uma imposição exterior.

8. O dharma é a estrutura ontológica primordial e dinâmica das coisas, reguladora da vida cósmica, individual e social, de modo que sua transgressão fere o próprio transgressor, sua preservação conduz à plenitude e seu conhecimento constitui sabedoria salvífica, enquanto a moralidade e os valores positivos recebem consistência por expressarem essa ordem intrínseca do ser.

9. O dharma protege quando preservado e destrói quando ferido, porque constitui o princípio de estabilidade e a ordem fundamental que sustenta todas as coisas.

10. A relação íntima entre dharma e karman explica a diversidade de sentidos assumidos pelo primeiro, cujas vias de realização compreendem, no plano ritual, sacrifício, oração, dádiva e ascese e, no plano moral, verdade, paciência, domínio de si e desapego dos bens terrenos.

11. O svadharma é o dharma próprio de cada ser, correspondente à sua posição ontológica e à lei que orienta seu desenvolvimento e sua integração no universo, razão pela qual realizar imperfeitamente o próprio caminho é preferível a cumprir perfeitamente o de outra pessoa, tornando inadequada a compreensão da conversão religiosa como simples troca de pertencimento sociológico.

12. A religião consiste no conhecimento e na realização do dharma, concretizados pessoal ou coletivamente mediante práticas e regras cuja sanção é intrínseca à ordem do ser, exigindo ações reparadoras do mal cometido, embora certas rupturas totais tornem insuficientes a penitência e o sacrifício.

13. A compreensão ontológica do dharma fundamenta a crença na continuidade da existência mediante o samsara, pois o karma pode ser entendido como sua cristalização e a ordem cósmica deve prosseguir e reparar suas rupturas, mas essa concepção não pode ser transposta para um horizonte individualista sem considerar sua cosmologia de origem nem reduzir a pessoa a um elo impessoal que comprometa sua dignidade e unicidade.

14. O dharma hindu possui caráter ontológico substancial, enquanto o dharma budista conserva realidade, dinamismo e eficácia sem assumir substancialidade, permanecendo, em ambos os casos, anterior à constituição pessoal e ao conhecimento intelectual.

15. O hinduísmo, compreendido como dharma, ultrapassa a redução moderna da religião a instituição sociológica ou ideologia, pois corresponde à própria realidade em sua constituição existencial e em seu dinamismo, admitindo ações contrárias à ordem sem permitir a exclusão ontológica de quem as pratica e reconhecendo múltiplas vias de realização do svadharma, inclusive aquelas que rejeitam Deus e os mitos religiosos.

16. A concepção ocidental predominante de religião pode representar apenas uma modalidade de uma realidade mais ampla, cuja compreensão tradicional não se reduz a instituição ou doutrina, mas inclui a importância da prática correta e exprime uma dimensão antropológica fundamental, designável como religiosidade.

17. A tolerância hindu acolhe interpretações e doutrinas diversas, mas não admite a negação da ordem ontológica que torna essa diversidade possível, conjugando liberdade doutrinal com a preservação existencial de um fundamento indestrutível.

18. O caráter existencial do hinduísmo confere prioridade à ortopráxis e à ação sagrada salvífica sobre a ortodoxia, destacando o ato de crer mais que sua formulação intelectual e distinguindo a fé constitutiva do ser humano, a crença como seu conteúdo e o ato de fé como aceitação livre, pois a abertura ao Mistério envolve o ser inteiro, atraído pelo transcendente na imanência do coração.

4. Hinduísmo e cristianismo

1. O hinduísmo e o cristianismo apresentam uma polaridade fecunda, comparável à relação entre brahman e Deus, que não podem ser considerados simplesmente iguais ou diferentes, mas equivalentes homeomórficos apreendidos a partir de perspectivas quase opostas e complementares.

2. O hinduísmo compreende-se como Religião da Verdade e preserva uma universalidade irredutível a determinações criadas ou conceituais, enquanto o cristianismo se reconhece como Verdade da Religião e procura unir universalidade absoluta e concretude no mistério teândrico de Cristo, possibilitando uma fecundação recíproca se ambos encontrarem um horizonte comum, ainda que dessa união resulte uma transformação radical de suas formas anteriores.

II. Espiritualidade

1. A compreensão da espiritualidade hindu pode apoiar-se em observações pertinentes ao seu horizonte próprio, sem exigir uma investigação exaustiva sobre todas as acepções da espiritualidade.

2. A espiritualidade, entendida como caminho concreto para a realização do fim último humano, pertence à religião em ato mais que à reflexão teórica e mantém relativa independência em relação ao dogma, pois um mesmo fundamento doutrinal pode sustentar espiritualidades diferentes, enquanto doutrinas distintas podem originar formas espirituais semelhantes.

3. A relativa interdependência e independência entre espiritualidade e doutrina permite compreender o caminho espiritual sem reconstruir integralmente o sistema doutrinal do hinduísmo e impede conclusões precipitadas, favoráveis ou desfavoráveis, sobre seu valor religioso.

4. A compreensão da espiritualidade hindu distingue-se da reconstrução de sua história, cuja elaboração como campo histórico ainda se encontra em estágio inicial.

5. Assim como a teologia dogmática traduz intelectualmente a ortodoxia, a espiritualidade pode ser compreendida como tradução intelectual da ortopráxis, reunindo práticas, sistemas e métodos que esclarecem como acolher as exigências religiosas e percorrer o caminho para o fim último, em vez de determinar abstratamente o que é a verdade.

6. A preferência contemporânea pela palavra espiritualidade relaciona-se ao desgaste de religião por suas associações com dogmatismo e institucionalização, mas só conserva seu valor quando não se opõe ao material nem ao sentido profundo do religioso, funcionando como complemento capaz de restituir a amplitude perdida da experiência religiosa.

7. A religiosidade é a atitude de consciência da ligação constitutiva com toda a realidade, divina, cósmica e humana, cuja expressão assume formas culturalmente determinadas e não se reduz ao pertencimento sociológico nem à elaboração doutrinal.

8. A espiritualidade pode ser entendida como expressão da vida humana que supera o dualismo entre corpo e alma e se deixa vivificar pelo Espírito, símbolo de uma terceira dimensão da existência reconhecida conscientemente pelo ser humano.

9. A espiritualidade oferece uma visão mais integral de si e das coisas ao encarnar a experiência religiosa na vida cotidiana, permitindo compreender, por exemplo, a árvore para além de suas determinações físicas e biológicas e reconhecer sua dimensão espiritual e simbólica como pertencente à própria realidade, sem interpretações mágicas ou dualistas.

10. A espiritualidade hindu constitui o mito envolvente que permite apreender o mundo vivido por aqueles que se reconhecem, de diferentes maneiras, no conjunto de religiões denominado hinduísmo.

11. A compreensão simpática do hinduísmo não deve ocultar suas limitações nem assimilar espiritualidades autóctones que reivindicam identidade própria, como as tradições adivasi e a consciência dalit, exigindo reconhecer fronteiras religiosas não fixáveis previamente e resistências à sanscritização, pois a diversidade hindu ultrapassa a tradição transmitida pela língua sânscrita.

12. A recuperação do sentido originário de dharma permite empregar uma noção própria das tradições indianas, nas quais não existe um termo que traduza adequadamente a acepção ocidental de espiritualidade, embora ambas as palavras possam alternar-se quando seus sentidos forem devidamente esclarecidos.

13. O caminho humano para o fim último, compreendido e vivido no dharma, envolve a totalidade da realidade, mas sua abordagem espiritual concentra-se nas formas do percurso e mantém implícitas a antropologia e a teologia, preservando a relação entre o ser humano e a realidade última sem separá-los em tratados especializados e independentes.

14. Toda aproximação dessa espiritualidade permanece limitada, incompleta e insuficiente diante da vastidão de seu horizonte, mas pode contribuir para o percurso espiritual de quem a acolhe.

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