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U. G. The Mystique of Enlightenment: The Radical Ideas of U.G.. Edited by Rodney Arms. Goa: Dinesh Vazirani, 1982.

1. A libertação não pode ser concedida por outra pessoa nem produzida por suas palavras, restando apenas desfazer a mistificação promovida pelos negócios da santidade e abandonar o dispêndio de tempo e energia na busca de um estado que existe somente na imaginação.

2. O estado natural pertence a todo ser humano, sem constituir privilégio de santos, seres divinizados ou indivíduos excepcionais, e sua expressão espontânea é impedida pelo esforço de alcançar alguma coisa e tornar-se diferente daquilo que já se é.

3. O estado natural situa-se fora da experiência e da compreensão fundada no passado, acontece sem causa e não exige comunicação, tornando-se manifesto quando cessa a comparação entre o funcionamento presente e as descrições alheias, juntamente com a necessidade de escutar autoridades.

4. Não há ensinamento, método, sistema ou técnica capaz de transformar a existência e produzir o estado natural, pois sua descrição se limita ao funcionamento humano despojado das maquinações do pensamento e permanece fora do domínio daquilo que pode ser ensinado.

5. O estado natural não precisa ser alcançado nem criado pela vontade, porque consiste na própria atividade viva dos sentidos, cujo funcionamento espontâneo é perturbado pelo pensamento quando este os instrumentaliza para obter vantagens e assegurar sua continuidade.

6. As experiências religiosas de felicidade, beatitude e êxtase são estados temporários induzidos pelo pensamento, enquanto o estado natural não pertence ao campo da experiência nem do tempo, tornando ilusória qualquer busca que pretenda experimentar, apreender ou expressar o intemporal.

7. O estado natural consiste em uma condição física que envolve uma transformação química de células, glândulas e nervos, sem se reduzir a uma mudança psicológica transitória ou às experiências provocadas por substâncias como o LSD.

8. A iluminação perde seu caráter místico ou espiritual ao se apresentar como um processo exclusivamente físico de luminosidade interna, percebida mesmo com os olhos fechados e associada a determinados pontos da cabeça, cuja presença não desempenha função particular no organismo.

9. O estado natural caracteriza-se por um não saber permeado de assombro, no qual as coisas são percebidas sem reconhecimento imediato e o conhecimento permanece desengatado, sendo mobilizado apenas por uma necessidade concreta e voltando ao segundo plano assim que a resposta é produzida.

10. A paz natural não resulta da fabricação de um estado mental pacífico, porque esse esforço introduz perturbação e violência, enquanto o silêncio efetivo possui caráter explosivo e vital, como uma energia incessante na qual a vida é consciente de si sem depender de um sujeito que a conheça.

11. O sentir assume a forma de uma resposta física localizada no timo, cuja reativação no estado natural permitiria que movimentos e sons repercutissem no organismo sem classificação valorativa, identificação pessoal ou separação entre um sujeito e um objeto percebido.

12. A afeição consiste em ser afetado por tudo, e não em dirigir emoções a alguém, de modo que a sensibilidade do estado natural pertence aos sentidos e a compaixão corresponde à ausência de separação que permitiria constituir os demais como outros.

13. A suposta entidade denominada eu, mente ou si mesmo estabelece uma continuidade ilusória ao ligar sensações distintas e preencher os intervalos existentes entre elas, fazendo parecer que um coordenador permanente reúne os diferentes acontecimentos sensoriais.

14. No estado natural, os sentidos funcionam independentemente e só se coordenam temporariamente quando uma exigência externa requer uma resposta, sem que exista um coordenador ou uma continuidade pessoal que permaneça após o atendimento dessa exigência.

15. A compreensão apoiada na experiência não alcança o estado natural, porque toda experiência pertence ao pensamento, e até a tentativa de proporcionar uma impressão desse funcionamento incorre no risco de induzir ao engano.

16. Sem um coordenador, as sensações permanecem simples e não são traduzidas nem vinculadas entre si, de maneira que o movimento de uma boca não é associado ao som de uma voz, o ruído da água não é ligado à sua imagem e os pés não são reconhecidos como pertencentes a um eu.

17. O funcionamento natural corresponde a uma consciência primordial que permanece intocada pelo pensamento e não depende de suas operações de reconhecimento e interpretação.

18. A visão funciona como um fenômeno físico de captação luminosa, semelhante a uma câmera sensível, produzindo sensações sem discriminar entre uma montanha coberta de neve, uma lata de lixo ou qualquer outra coisa.

19. Sem um eu que dirija o olhar, os olhos são atraídos espontaneamente por movimentos, luminosidades e cores, enquanto a consciência reflete o que está presente com clareza e sem tradução, separação ou distância subjetiva, salvo quando surge uma necessidade de conhecimento.

20. No estado natural, a atenção visual contínua seria acompanhada de mecanismos espontâneos de repouso e lubrificação dos olhos, sem que o lacrimejamento tenha significado divino ou que a prática deliberada de não piscar possa produzir essa condição.

21. A beleza resulta da intervenção do pensamento, enquanto a percepção natural acompanha mudanças de luz e clareza sem julgamento estético, podendo envolver uma expansão da consciência e uma alteração espontânea da respiração, após as quais a atenção se desloca para outro acontecimento sem direção pessoal.

22. A escuta habitual apreende traduções próprias de vibrações sonoras, e não as palavras alheias diretamente, porque o pensamento interpreta o que chega aos ouvidos para extrair algum resultado, restringindo a comunicação efetiva ao atendimento de necessidades práticas.

23. Sem tradução mental, as línguas se apresentam como configurações sonoras cujas diferenças residem no espaçamento das sílabas e na melodia, independentemente do conhecimento linguístico disponível.

24. A preferência por uma sinfonia em detrimento dos gritos de gatos decorre de um gosto culturalmente adquirido, pois a apreciação de música, poesia e linguagem é produzida pelo pensamento, embora permaneçam reais os efeitos físicos nocivos de sons excessivamente intensos.

25. O pensamento interfere no tato ao converter continuamente as sensações de contato em qualificações como dureza, maciez, calor, frio, umidade e secura, impedindo que permaneçam sem interpretação.

26. A consciência de um corpo próprio é constituída pelo pensamento que reúne impulsos táteis isolados em uma unidade, enquanto, na ausência dessa ligação, o corpo se apresenta apenas como um conjunto de sensações sem diferença essencial em relação aos objetos circundantes nem pertencimento a um eu.

27. Durante o repouso ou qualquer outra postura, a ausência de ligação entre as sensações impede a constituição de uma forma corporal contínua, deixando apenas pontos de contato, sons e uma vaga sensação de peso que não são reunidos em um corpo reconhecido como próprio.

28. O sabor não pode ser recuperado como experiência mental quando falta a capacidade de recriar imaginativamente a sensação passada, sendo necessário o contato efetivo do alimento com a língua para mobilizar seu reconhecimento, embora as preferências habituais permaneçam e não produzam desejo por alimentos ausentes.

29. O olfato participa continuamente da vida cotidiana, mas, sem a interferência interpretativa do pensamento, os odores se apresentam apenas como estímulos ou irritações nasais, sem a diferenciação valorativa entre um excremento e um perfume caro.

30. A fala surge espontaneamente em resposta às perguntas, sem um sujeito que formule previamente pensamentos e respostas, enquanto a exposição programada e a transcrição dessas palavras transformam a expressão viva do estado natural em algo artificial e sem vida.

31. O estado natural assemelha-se a uma flor que desabrocha e manifesta uma fragrância singular enquanto vive, sem poder ser capturado ou preservado, pois conservar palavras, ensinamentos e expressões produz apenas um equivalente artificial daquilo que possui valor exclusivamente em sua manifestação presente.

32. A personalidade não se transforma necessariamente no estado natural, permanecendo suas disposições, sua irritação e suas particularidades, enquanto o esforço de modificar a si mesmo afasta o funcionamento espontâneo e alimenta expectativas injustificadas de humildade ou perfeição espiritual.

33. A singularidade do contato com a vida faz com que cada manifestação do estado natural seja própria de uma pessoa e de seu tempo, sem criar uma identidade coletiva ou uma fraternidade de indivíduos que se reconheçam como espiritualmente realizados.

34. As necessidades naturais limitam-se a alimentação, vestuário e abrigo, obtidos pelo trabalho ou pela ajuda alheia, de maneira que sua negação não constitui espiritualidade e a exigência de algo além delas corresponde a uma disposição mental neurótica.

35. A sexualidade depende da interpretação e da intensificação produzidas pelo pensamento, que identifica corpos, qualifica sensações e antecipa prazeres, enquanto, na ausência dessa elaboração no estado natural, não se forma o impulso sexual que submete o organismo a uma tensão e descarga vivenciadas como prazer.

36. A repressão, a sublimação, a abstinência e a continência não conduzem ao estado natural, e os tabus que cercam a sexualidade destroem sua alegria sem produzir realização espiritual, embora o ápice da experiência sexual se aproxime de uma experiência direta em contraste com as experiências tomadas de empréstimo.

37. O contato vivo com aquilo que está presente ocupa integralmente o aparelho sensorial, sem conservar imagens de pessoas ausentes ou abrir espaço para temores sobre o futuro e especulações acerca de Deus, da verdade e da realidade.

38. O estado natural não consiste em onisciência nem em possuir respostas para todas as questões humanas, mas na cessação das perguntas que não mantêm relação com o funcionamento do organismo e para as quais esse funcionamento não oferece espaço.

39. A renovação da sensibilidade corporal ocorreria por um processo involuntário equiparado à morte física, marcado por entorpecimento dos sentidos, desaceleração cardíaca, resfriamento e rigidez, culminando, após cerca de quarenta e oito ou quarenta e nove minutos, em uma interrupção do pensamento cuja duração não pode ser experimentada nem conhecida.

40. O retorno desse apagamento acontece sem decisão consciente, restabelece o fluxo do pensamento e a clareza sensorial e desencadeia movimentos espontâneos que desfazem a rigidez, renovando sentidos, glândulas e sistema nervoso sem depender de posturas aprendidas ou exercícios deliberados.

41. A própria morte não pode ser experimentada, assim como não se pode determinar diretamente onde começam ou terminam vida e morte, sendo possível presenciar apenas a morte alheia e inexistindo uma morte psicológica distinta da morte física.

42. O medo da morte coloca em questão a intensidade do apego à própria continuidade e a razão pela qual seu possível término desperta tamanho temor.

43. A estrutura da experiência teme a morte porque não consegue conceber um acontecimento do qual esteja ausente, projetando sobrevivência, céu ou reencarnação para justificar seu sentimento de eternidade, embora não disponha de lembranças do nascimento ou da inexistência anterior nem de uma alma verificável que assegure essa continuidade.

44. Os sonhos surgem da recomposição de registros perceptivos captados continuamente e combinados quando o corpo repousa ou o pensamento se torna passivo, enquanto a impressão de um eu que controla a percepção sustenta também a identificação retrospectiva de estar dormindo, sonhando ou acordado.

45. O problema moral não decorre simplesmente de regras de conduta ou da superação de impulsos considerados negativos, mas do julgamento das ações antes e depois de sua realização, mediante a distinção entre certo e errado que pretende orientá-las.

46. A moralidade corresponde à ação da vida sem questionamento e sem a proteção de um eu, porque, quando não há uma identidade a defender, desaparece a necessidade de mentir, enganar, fingir ou praticar atos socialmente considerados imorais.

47. O afastamento do estado natural é produzido pela busca de felicidade, novas experiências e aperfeiçoamento pessoal, reforçada por ideais sociais e religiosos de perfeição que induzem ao controle dos pensamentos e comportamentos para tornar-se diferente daquilo que se é.

48. Os pensamentos pertencem a uma esfera compartilhada, e o pensador denominado eu surge como um movimento secundário que pretende interpretá-los e controlar a vida, estabelecendo uma atividade paralela e isolada que afasta o ser vivo de seu próprio funcionamento.

49. O estado natural não elimina o pensamento, cuja atividade é necessária à sobrevivência e só cessa definitivamente com a morte do organismo, mas restitui seu ritmo espontâneo e dissolve o eu que o interpreta como propriedade pessoal.

50. A observação do eu é realizada pelo próprio eu, que se divide ilusoriamente em sujeito e objeto para conservar sua continuidade, de modo que os esforços de compreendê-lo ou transformá-lo em algo espiritual prolongam sua existência, enquanto a ausência desse empreendimento dissolve tal divisão.

51. A identidade entre aquilo que observa e aquilo que é observado não pode ser compreendida pelo pensamento que traduz tudo segundo conhecimentos prévios para obter algum benefício, pois o estado natural corresponde justamente à ausência do esforço de compreender ou modificar a si mesmo.

52. A ideia de um além, denominado Deus, verdade, realidade, Brahman ou iluminação, nasce do afastamento da vida cotidiana e da projeção de conhecimentos recebidos, que produzem experiências correspondentes e são posteriormente reforçados por elas.

53. Aquilo que é conhecido ou experimentado não pode constituir o além, cuja eventual existência corresponderia à ausência do movimento do eu e, por isso, não poderia ser convertida em uma experiência desse mesmo eu.

54. O reconhecimento e a nomeação das coisas introduzem o pensamento na sensação e constituem o eu pela separação entre observador e observado, mantendo uma repetição verbal contínua que substitui o contato imediato ou se desvia para preocupações alheias à atividade presente dos sentidos.

55. O eu nasce com cada pensamento e depende de sua continuidade para parecer permanente, embora não exista uma entidade estável que reúna pensamentos e experiências nem um sujeito separado que pense e sinta.

56. A nomeação de sensações como raiva, tristeza, felicidade, ciúme ou inveja constitui o sujeito que supostamente as experimenta, enquanto a ativação incessante da memória para sustentar essa identidade consome energia e produz desgaste.

57. A nomeação é necessária à comunicação, mas sua repetição interior constante transforma a vida em um diálogo incessante consigo mesmo, diferindo da fala solitária em voz alta apenas por permanecer silenciosa, inclusive entre aqueles que pretendem diagnosticar e corrigir esse comportamento nos demais.

58. A tradução contínua das sensações em palavras mantém o eu em existência, e a possibilidade de cessar essa comunicação interior desperta medo porque ameaça a própria continuidade da identidade.

59. As experiências de paz, felicidade, silêncio, beatitude e êxtase dependem de conhecimentos anteriores recebidos de outras pessoas, de maneira que seu reconhecimento revela um conteúdo antigo e adquirido, sem conferir à experiência caráter original ou metafísico.

60. Mesmo a experiência de um objeto cotidiano é mediada pelo conhecimento socialmente transmitido sobre ele, de modo que pensamentos, sentimentos e experiências reproduzem os padrões da sociedade e não constituem acontecimentos inteiramente novos.

61. A dissolução do eu implica a saída de todo o conteúdo acumulado de pensamentos e sentimentos humanos, porque a identidade pessoal é constituída exclusivamente por esse conhecimento herdado.

62. O esforço de controlar, modificar ou interromper o pensamento depende de conhecimentos recebidos e prolonga o próprio movimento que pretende dominar, pois querer e pensar não são atividades distintas e a vontade de compreender acrescenta impulso à continuidade mental.

63. A instrumentalização dos sentidos para obter resultados protege a continuidade do eu à custa de outras pessoas e coisas, tornando o pensamento um mecanismo de defesa cuja atividade destrutiva ameaça o próprio indivíduo e a humanidade.

64. A repetição do pensamento produz desgaste, mas a busca de uma solução e qualquer resposta oferecida alimentam sua continuidade, diante de um impulso acumulado por milhões de anos que não pode ser vencido pela vontade individual.

65. As práticas de controle mental e de atenção deliberada perpetuam o eu que as executa, enquanto a percepção sem reconhecimento dissolveria a estrutura da experiência e restituiria o ritmo natural, pois consciência imediata e continuidade de um sujeito que reconhece o já conhecido não podem coexistir.

66. A emergência do estado natural não possui causa conhecida nem pode ser provocada pela vontade ou transmitida como método, dependendo de um mecanismo corporal que assumiria o funcionamento quando a estrutura da experiência cedesse, sem que alguém pudesse produzi-lo por si mesmo ou mediante ajuda alheia.

67. O estado natural contraria o interesse do eu em continuar existindo, porque dissolve todas as suas formas e não pode ser alcançado por adiamentos, práticas religiosas ou compreensão progressiva, sendo a ausência do eu e da pergunta a própria compreensão que encerra a busca por descrições e respostas.

68. A busca de uma transformação espiritual imaginária afasta o ser humano de seu estado natural, enquanto a expressão espontânea da inteligência já presente, que ninguém pode conceder ou retirar, constitui a condição de ser aquilo que se é.

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