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2 Aventura humana

DANIÉLOU, Alain. La Fantaisie des dieux et l'aventure humaine. Monaco: Éditions du Rocher, 1985.

I – AS ORIGENS

  • Segundo a cronologia dos Puranas, a humanidade presente teria surgido há cerca de cinquenta e oito mil anos, número que corresponde a doze vezes e meia a idade dos ancestrais (Pitri), isto é, a duração de uma linhagem ou de uma espécie particular de homens.
  • Antes da humanidade atual existiram homens ou seres análogos, e cada espécie humana atingiu um altíssimo nível de desenvolvimento e de saber antes de desaparecer em catástrofes planetárias, deixando vestígios que serviram de base às humanidades seguintes, as quais, ao alcançar os limites do conhecimento permitido ao homem no plano da criação, também estão destinadas a desaparecer.
  • A criação é um fenômeno contínuo em que espécies surgem, evoluem e deixam de existir, e nenhuma espécie nasce de um casal único, pois, embora uma mutação possa ser obra de um indivíduo, o aparecimento de uma espécie nova é sempre um fenômeno global.
  • Desde o nascimento da humanidade atual surgiram quatro espécies de homens em momentos precisos do ciclo, que se encontram, portanto, em idades diferentes de sua evolução, de modo que a história humana é marcada pelos conflitos entre povos em estágios distintos e o principal problema das civilizações é organizar sua coexistência.
  • A arqueologia só fornece dados sobre épocas que empregaram a pedra e o metal, materiais que não são indispensáveis a uma civilização refinada, e a decadência espiritual do homem, segundo a tradição hindu, acompanha o progresso da metalurgia desde a idade de ouro (Satya Yuga) até a idade de ferro (Kali Yuga).
  • A prudência científica que só reconhece a existência humana a partir de objetos materiais sobreviventes é um método muito aleatório, dependente do acaso das descobertas, e dela é arriscado tirar conclusões.
  • Após a destruição das cidades do Indo pelos arianos, a pedra deixou de ser usada na construção urbana por um milênio, e as chamadas idades da pedra foram na realidade idades da madeira, da taipa e dos tijolos de argila.
  • Ainda hoje existem na Índia, perto de Pondicherry, populações que constroem cascos de navios em madeira curvada, perfurada a fogo e costurada com estopa, sem nenhum metal, capazes de atravessar os mares, e artistas que erguem maravilhosos palácios de madeira cobertos de afrescos, como os de Trichur, em Kerala, enquanto os mais antigos templos escavados na rocha, em Ajanta, reproduzem arquiteturas de madeira muito elaboradas das quais não resta vestígio.
  • Na África já não se encontram nem os sítios de cidades outrora célebres por seu esplendor, e no Japão alguns templos de madeira só foram preservados graças à substituição periódica das partes danificadas.
  • Os homens que decoravam os santuários das cavernas pré-históricas não viviam sob a terra, mas pintavam também com afrescos suas casas de terra ou de madeira, como ainda se faz nas aldeias indianas.
  • Quando surgem vestígios importantes de civilizações perdidas, eles se apresentam frequentemente num altíssimo nível de urbanismo, arte, literatura, astronomia e mitos filosóficos, o que pressupõe um longo passado, e certos monumentos megalíticos da Índia, da Europa e da antiga América exigiram o transporte e o polimento de blocos enormes, com orientações que implicam conhecimentos astronômicos muito avançados.
  • Não existe linguagem primitiva incapaz de exprimir as noções mais abstratas, e não se pode julgar o nível cultural dos povos pelos vestígios duráveis que sobreviveram nem pelos costumes de povos novos erroneamente chamados primitivos.
  • Os conhecimentos astronômicos, médicos, matemáticos e físicos dos indianos e de outros povos, alguns milênios antes da era cristã, eram em certos casos mais avançados que os dos europeus de apenas dois séculos atrás, e o mundo moderno está muito mais próximo de Kapila, Pitágoras, Euclides e Aristóteles que dos teólogos medievais.
  • Os astrofísicos que estudam o nascimento e a evolução do mundo aproximam-se cada vez mais das teorias milenares da cosmologia shivaíta preservadas pela Índia.
  • A ideia de que a civilização moderna partiu praticamente do zero, de uma fonte única de homens semimacacos há alguns milênios, falseou ou fez negligenciar as informações transmitidas pela tradição e pelas descobertas arqueológicas.
  • O fascínio pelos progressos técnicos dos últimos séculos faz esquecer os períodos de obscurantismo que os precederam e as diferenças no nível de evolução dos povos, levando a conceber o progresso como fenômeno contínuo e geral do macaco a Einstein.
  • A história humana não apresenta evolução regular, mas alternâncias de desenvolvimento e regressão ligadas a ciclos astrológicos e climáticos, nas quais raças bárbaras, ainda em sua infância, destroem civilizações mais antigas e evoluídas, abolindo ciências e artes e deixando sobreviver apenas fragmentos de saber que servem de base a novas culturas.
  • Em todos os continentes encontram-se traços e lembranças de épocas de cultura brilhante e técnicas muito avançadas pertencentes a idades passadas, seguidas de períodos de barbárie e ignorância.
  • O primeiro dos grandes povos civilizadores da época histórica parece ter sido o dos dravidianos.
  • O Lugal-ud, texto sumério inscrito em tabuinhas de argila há seis mil anos, evoca gelos acumulados, um fogo terrível, o degelo, chuvas intermináveis e as águas cobrindo a terra antes de se retirarem, e o Gênesis menciona homens vindos do Oriente que se estabeleceram numa planície do país de Senaar, a Suméria.
  • As populações chamadas dravidianas, que falavam como os sumérios línguas aglutinantes, surgiram na Índia depois da última glaciação, por volta de 9000 antes de Cristo, e segundo a tradição teriam vindo de um continente tragado pelo mar, a Lemúria, que se estenderia de Madagascar à Indonésia.
  • Os Dramilas ou dravidianos, os Termiloi de Heródoto, pertencem a uma raça de tipo mediterrâneo, e sua civilização espalhou-se pela Índia desde o cabo Comorim até o Himalaia.
  • A partir do sexto milênio antes da era cristã, durante o Dvapara Yuga, a idade da dúvida, desenvolveu-se a civilização dravidiana, que atingiu seu apogeu entre o sexto e o segundo milênio e construiu, entre outras, as cidades de Mohenjo Daro e Harappa no vale do Indo, com influência sobre todo o continente indiano e sobre as cidades sumérias.
  • Os dravidianos eram um povo de navegadores, com grandes portos na península de Kathiawar e no golfo de Cambay, necrópoles de uma população ligada à do Indo, chamada Povo das Tartarugas, descobertas em Omã, influência indo-suméria evidente sobre a primeira dinastia egípcia e estreita ligação com a civilização cretense.
  • Há correspondências precisas entre as culturas suméria e indiana: o Senhor dos Animais sumério corresponde a Pashupati, a Dama das Montanhas a Parvati, Nergal e sua irmã Ereshkigal a Yama e sua irmã Yami, a montanha dos cedros da Epopeia de Gilgamesh ao Daruvana, e ambas partilham o culto do touro, o símbolo dos chifres, o relato do dilúvio e o simbolismo dos números.
  • Os sumérios eram chamados Cabeças Negras, e os fiéis da antiga religião são ainda hoje chamados na Índia Kala-mukha, Cabeças Negras.
  • Isidoro de Sevilha, no século VI, baseando-se em antiquíssimas tradições, menciona uma migração de populações vindas da Índia, os Garamantes, que pelo Egito teriam chegado à Espanha e daí à Grã-Bretanha, enquanto historiadores soviéticos sustentam que a migração ocorreu em sentido inverso, do Mediterrâneo para a Índia, ligando-a ao mito da Atlântida.
  • As línguas dravidianas, outrora faladas em toda a Índia, sobrevivem sobretudo no sul, com o tâmil, o canarês, o telugo e o malaiala, além de ilhotas na Índia central e do nordeste e do brahui no Baluchistão, enquanto no Ocidente subsistem línguas aglutinantes aparentadas, como o georgiano, o basco e o fula, vestígios periféricos de uma antiga cultura às margens do mundo ariano.
  • Os pelasgos da Grécia pré-helênica eram provavelmente de cultura dravidiana, e o lígure era uma língua euscaroide aparentada ao basco, assim como provavelmente o etrusco.
  • Estudos sobre grupos sanguíneos revelaram a origem pré-ariana dos caucasianos, bascos, sardos e berberes, populações de origem neolítica que não descendem nem do homem de Cro-Magnon nem dos celtas e cuja chegada se situa entre a partida dos Cro-Magnon para o norte e as invasões celtas da Idade do Bronze.
  • Essas populações periféricas vivem nas terras de fim de mundo, como a Bretanha ocidental, o País de Gales, a Escócia do norte, a Irlanda e a Islândia, e em refúgios mediterrâneos como a Sardenha, a Córsega, vales alpinos, a Ligúria, o Atlas e certos grupos tuaregues, com sangue próximo ao dos bascos e altíssima frequência do grupo O.
  • O sangue dos ameríndios também pertence ao grupo O, suas línguas são aglutinantes e seus símbolos religiosos e princípios arquitetônicos são muito próximos dos dravidianos, o que indica que pertencem aparentemente à mesma espécie humana.
  • A invasão dos arianos, vindos das planícies da Ucrânia no alvorecer do segundo milênio em consequência de mudanças climáticas, foi uma catástrofe material e cultural sem precedentes.
  • As tribos arianas estabeleceram-se inicialmente apenas no noroeste da Índia e penetraram lentamente no vale do Ganges, enquanto o sul e o leste permaneceram por muito tempo independentes, preservando línguas, religiões e costumes.
  • Os arianos destruíram as cidades do Indo por volta de 1800 antes de Cristo, mas também a Suméria, Creta e Micenas, e espalharam-se por todo o Ocidente: os cassitas instalaram-se na Babilônia por volta de 1750, os hicsos penetraram no Egito na mesma época, e persas, aqueus, dórios, romanos, celtas e germanos eram tribos arianas.
  • Nada subsistiu da língua cretense e ignora-se tudo da língua etrusca, embora numerosos nobres romanos tenham estudado nas universidades da Etrúria.
  • A expansão linguística ariana prossegue implacavelmente nos dias atuais, pois os textos sobre as culturas dos povos colonizados pelos europeus só sobrevivem em línguas arianas, e mesmo na Índia as classes dirigentes conhecem certos elementos do pensamento hindu apenas por versões nas línguas dos novos conquistadores.
  • Por uma curiosa falsificação da história quis-se acreditar que as fontes da civilização são arianas ou indo-europeias, mas a descoberta dos mundos egípcio e cretense e dos textos sumérios, hititas e babilônicos confirmou a primazia de antigas culturas cuja língua e tradição a Índia preservou.
  • A religião dos arianos, levada à Índia, à Pérsia e à Grécia aqueia e dórica, provém de uma sociedade patriarcal de nômades, na qual o culto do cavalo substitui o do touro.
  • Imposta pelos conquistadores, a nova religião falseou a ordem da sociedade indiana, fazendo dos homens de origem ariana um povo de senhores que se considerava superior aos demais, enquanto os não arianos foram tratados como raça inferior destinada à escravidão (dasyu), privados de direitos civis e muitas vezes repelidos para as regiões montanhosas, periféricas e para o sul.
  • Os conquistadores destruíram as cidades, massacraram as populações e escravizaram os sobreviventes sem consideração por posição ou saber, prática que não se limitou à Grécia antiga, onde sábios e filósofos foram vendidos como escravos, e que se reproduz na atitude dos colonialistas modernos para com os letrados nativos.
  • Os descendentes dos príncipes e os detentores do saber viram-se misturados aos artesãos e trabalhadores agrícolas nas classes consideradas inferiores, e pouco a pouco organizaram-se em sociedades ocultas que formavam uma civilização paralela secreta, na qual grupos de ascetas tinham a missão de transmitir os diversos aspectos do antigo saber.
  • As sociedades ocultas representam em todo o mundo um esforço para manter formas de conhecimento provenientes do mundo pré-ariano, e na Índia esses grupos de iniciados frequentemente simularam a loucura para escapar às perseguições, o que explica certas regras de conduta estranhas adotadas pelas ordens monásticas herdeiras do antigo saber.
  • Os arianos, mantendo seus privilégios raciais, assimilaram gradualmente técnicas, artes e concepções filosóficas e teológicas da antiga civilização indiana, e o vedismo impregnou-se da cultura do mundo que pretendera escravizar, a ponto de príncipes e filósofos não arianos serem elevados à condição de arianos honorários.
  • Os primeiros hinos do Rig Veda, que representam a religião original dos arianos, foram provavelmente compostos antes de sua chegada à Índia, enquanto o Atharva Veda, o mais tardio de seus livros sagrados, já reflete ritos, crenças e práticas mágicas sem relação com aqueles hinos.
  • A influência dravidiana é perceptível nos grandes rituais, nos Brahmanas e nas concepções filosóficas dos Upanishads, e a tradição do Yoga, originária da civilização do Indo, prossegue por meio dos ascetas não arianos chamados Yati no Rig Veda e Vratya no Atharva Veda.
  • Os ensinamentos do sábio não ariano Kapila, de pele morena, cuja influência aparece por volta do século VII antes de Cristo, introduziram no mundo ariano teorias cosmológicas do Samkhya, numa tradição oral cuja extensão e complexidade dificilmente se avaliam.
  • Grupos de iniciados organizados em sociedades secretas formaram-se em toda parte onde as religiões arianas se impuseram, para preservar ritos e formas de saber ameaçados, como a alquimia, a astrologia e os poderes de visão e predição do Yoga, frequentemente perseguidos como diabólicos pelas religiões oficiais.
  • Graças à tradição oculta houve, em diversas épocas, esforços para recuperar o antigo saber e os antigos cultos: quando Lakulisha restabelecia o shivaísmo, surgiam no Ocidente a Gnose e o mitraísmo, o imperador Adriano buscou reunir um colégio de sábios para reencontrar o saber antigo, e uma tentativa semelhante de Prospero Colonna está na origem do Renascimento, cujas bases filosóficas e religiosas foram eliminadas pelas perseguições da Igreja.
  • Práticas e ritos dionisíacos subsistiram por muito tempo na Europa, apesar do cristianismo, em organizações iniciáticas secretas, e seitas sufis preservaram no mundo muçulmano um ensinamento esotérico e danças extáticas de caráter dionisíaco, apesar da oposição do islã ortodoxo.
  • A escrita, fenômeno ligado ao Kali Yuga, surgiu simultaneamente na Índia, na Suméria e no Egito por volta de 3300 antes de Cristo.
  • A antiga escrita de Mohenjo Daro, ainda não decifrada, parece ter desaparecido após a invasão dos arianos, que ignoravam a escrita e deviam considerá-la feitiçaria maléfica, e textos escritos provavelmente sobreviveram em centros esotéricos dravidianos, restando deles apenas versões posteriores, enquanto os túmulos egípcios e, por um milagre climático, as tabuinhas sumérias preservaram documentos originais.
  • Os arianos tinham repugnância pela escrita, razão pela qual nada se sabe da tradição druídica, e seus textos religiosos, os Vedas, Upanishads e Brahmanas, eram e ainda são transmitidos por procedimentos mnemotécnicos muito elaborados que garantem a continuidade oral mesmo por meio de pessoas que não compreendem seu sentido, não sendo considerado válido para os ritos um texto aprendido em livro.
  • A antiga escrita manteve-se na Índia apenas de forma secreta, nas dinastias de sacerdotes ou letrados que perpetuavam a tradição do antigo saber.
  • Uma nova concepção da escrita, com finalidade comercial, surgiu entre os fenícios no início do primeiro milênio antes de Cristo, chegando a Chipre e Cartago no século VIII e a Malta e à Sardenha no século VII, enquanto o alfabeto grego, derivado do fenício, formou-se no século VIII, difundiu-se entre etruscos e latinos a partir do VII e só foi unificado no IV, e a escrita aramaica, futura escrita árabe, espalhou-se pelo Irã no século VI.
  • Somente no século VI antes de Cristo, no período crítico do meio do Kali Yuga e na época do Buda, mais de um milênio após a chegada dos arianos, Dario, que anexara o vale do Indo, introduziu na Índia a escrita aramaica dos mercadores e a moeda, de modo que os antigos alfabetos sânscritos, o brahmi e o kharoshthi, são de origem semita.
  • As primeiras inscrições datam do século III antes de Cristo, quando a língua védica já evoluíra para diversas línguas populares, os prácritos.
  • A escrita permitiu aos arianos fixar os textos religiosos e filosóficos até então orais, e sobre essa base grandes letrados forjaram uma língua artificial, o sânscrito, a língua refinada concebida para durar para sempre, que se tornou pouco a pouco a língua universal da cultura, cuja forma definitiva foi estabelecida no século IV antes de Cristo pelo gramático Panini.
  • Além das inscrições e moedas, a escrita era feita sobre papiro, folhas de palmeira, pergaminho e seda, e o papel, surgido na China no início da era cristã, só se difundiu no Ocidente no século XIV e na Índia pouco depois, razão pela qual a maioria dos manuscritos indianos, em folhas de palmeira, precisa ser recopiada periodicamente.
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