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FACE OCULTA DO TEMPO

MHFOT

A obra toma como ponto de partida o fenômeno da morte como “tabu” nas sociedades ocidentais modernas, ou seja, negada, recalcada e interdita de permanência.

  • Sociólogos e historiadores das mentalidades nas últimas duas décadas elucidaram definitivamente essa estrutura mental característica das sociedades ocidentais mais “modernas”.
  • Alguns comportamentos e gestos, ou sua ausência, podem ser explicados pela existência do tabu da morte, mas questiona-se se essa recusa patológica da morte seria suficiente para minar todo um sistema de crenças coerente e enriquecedor.
  • Propõe-se inverter a perspectiva, considerando se não teria sido a impossibilidade crescente de representar o além, de dar à morte um rosto minimamente inteligível e tranquilizador, que a teria gradualmente desvelado em seu horror nu, tornando-a o inominável por excelência.

O estado atual da opinião sobre a crença no além

Sondagens realizadas nos principais países ocidentais entre 1947 e 1977 mostram que a “crença em Deus” se manteve de forma razoável, enquanto a “crença no além” sofreu uma evolução paralela, partindo de um patamar mais baixo e caindo também mais baixo, tornando-se aqui e ali minoritária.

  • Os dados dos simples questionários não são totalmente significativos por esconderem diferenças nacionais sensíveis e não permitirem que a sensibilidade religiosa dos entrevistados se expresse adequadamente, sendo as entrevistas não diretivas mais fiéis às múltiplas nuances da crença e da descrença.
  • As sondagens revelam paradoxos como a desarticulação do par tradicional céu-inferno, onde a crença no céu permanece majoritária enquanto a credibilidade do inferno está em queda livre.
  • A crença no céu largamente ultrapassa a afirmação da existência do além, desafiando o axioma de que “o todo é maior que a parte”.
  • O núcleo duro dos negadores resolutos do além tende a se esfacelar, pois uma negação inicial muitas vezes dá lugar à expressão de dúvidas e esperanças mais ou menos disfarçadas, sendo apenas uma reação de defesa.
  • As pesquisas mostram a quase total desaparição das atitudes tradicionais ou “ortodoxas”, dificilmente encontrando-se uma em vinte que esteja em todos os pontos conforme os dogmas da Igreja Católica.
  • Emerge uma situação totalmente nova onde crentes e descrentes não representariam mais dois blocos irredutíveis frente a frente, mas apenas as duas extremidades de uma escala de atitudes de graus múltiplos.

As causas da transformação das crenças e o atual mal-estar

Os progressos da física fizeram explodir o quadro cosmológico no qual o “céu” e o “inferno” podiam passar por lugares verdadeiros, enquanto a exploração do inconsciente contribuiu para minar a ideia de responsabilidade absoluta e a descoberta das eras geológicas e da evolução das espécies tornou problemática qualquer ideia de ruptura radical entre o animal e o homem.

  • A revelação dos mundos religiosos da Ásia mostrou que a construção judaico-cristã não é a única soteriologia coerente possível, e todas essas causas atuam há muito tempo, pelo menos desde o século XVIII.
  • O resultado do processo é o afastamento, para não dizer o desvanecimento, do além cristão tradicional, cujos temas se tornaram, pelo menos por um tempo, não figuráveis e não representáveis para o Ocidental de hoje.
  • O Ocidental atual não dispõe de nenhum meio para integrar os temas do além na imagem que faz de si mesmo, de seu próprio corpo e de sua vida terrestre no interior de um universo em devir.
  • A angústia da salvação e o dilema salvação/perdição são luxos que a maioria dos contemporâneos não pode mais permitir, pois para isso precisariam estar primeiro assegurados da realidade da própria dimensão do além.
  • A alternativa real para os contemporâneos é entre “alguma coisa” e o terror do aniquilamento puro e simples, de modo que o “alguma coisa” se tinge necessariamente das cores da esperança.
  • Cada um se aplica a “bricolar” sua própria visão do além, longe de qualquer magistério, admitindo algo, recusando outra coisa, recolhendo ao acaso das leituras os elementos doutrinais que parecem capazes de alimentar uma esperança sempre mais ou menos vacilante.

A confusão no seio das Igrejas cristãs

A “Congregação para a Doutrina da Fé” publicou em julho de 1979 uma carta sobre questões concernentes à escatologia onde se reconhece o mal-estar e a inquietude de muitos fiéis, que começam a se perguntar se existe algo além da morte ou se não é o nada que os espera.

  • Observa-se uma fermentação anárquica de inovações teológicas que apresentam traços comuns, como a recusa do dualismo alma-corpo considerado helênico ou platônico e a insistência na ressurreição geral no último dia em detrimento do destino da alma antes desse evento.
  • Desenvolvem-se “teologias da morte total” (Ganztodstheologien), para as quais o homem, aniquilado no momento do falecimento, será miraculosamente recriado na ressurreição, sendo tais doutrinas pouco favoráveis ao inferno.
  • A Igreja reage reafirmando em sete artigos elementos essenciais de sua dogmática escatológica, como a sobrevivência de um elemento espiritual dotado de consciência e vontade (a alma) e a parusia do Cristo como distinta e diferida em relação à situação imediatamente após a morte.
  • A Igreja está mal preparada para admitir que o “povo cristão” que ela quer preservar já desapareceu praticamente enquanto tal, estando desapegado dos ensinamentos tradicionais e rebelde a qualquer doutrinação.
  • A situação parece sem saída, pois um sistema de além parece estar se decompondo, sendo difícil ver como a escatologia cristã poderia se renovar sem se deslocar ou se manter sem se esclerotizar ainda mais.

A proposta de uma nova abordagem filosófica

Propõe-se explorar outra via, considerando que a confusão dos espíritos está ligada ao isolacionismo de uma certa tradição teológica há tempo autorreferente, marcada pela desaparição de todo vínculo orgânico com a filosofia e pela ausência de diálogo com as outras religiões.

  • A filosofia deve deixar de se descarregar sobre o pensamento religioso da noção de além, recusando a cômoda repartição de papéis, pois é possível descrever uma experiência da não-morte ou da imortalidade, se se quiser.
  • A experiência da não-morte exclui o além no sentido de o tornar supérfluo, mas sua lógica interna é incompatível com a da experiência ordinária, e a gênese da noção de além consiste em escolher como “verdadeira” a lógica da experiência ordinária sem sacrificar a outra lógica.
  • A noção de além designaria um fenômeno de horizonte, uma invencível aparência transcendental segundo a qual a consciência que se experimenta finita está votada a projetar na dimensão do futuro a recuperação de sua própria infinitude escondida.
  • As estruturas constitutivas da experiência da não-morte comandam todas as formas possíveis do mito escatológico, incluindo a forma-limite da negação pura e simples de todo além.

A distinção entre abordagem teológica e abordagem imaginativa

Existe uma linha de clivagem que passa no interior de cada universo religioso, distinguindo uma abordagem teológica, que parte de dados supostamente revelados para ordená-los e sistematizá-los, e uma abordagem imaginativa ou mítico-poética, que usa o verbo poético e a imagem para evocar o além e torná-lo “já presente entre nós”.

  • A abordagem teológica torna o além um sistema fechado, um mundo em si que sobrevoa e desvaloriza a vida terrestre, enquanto a abordagem imaginativa tende a se dissolver em uma sutil e misteriosa imanência.
  • A obra seguirá a dialética de sistematização que esvaziou de substância as principais doutrinas de salvação e recolherá o que, nas produções “ingênuas” da imaginação mitológica, atesta em todo tempo e lugar a possibilidade de uma compreensão mais autêntica do sentido originário do além.
  • A imaginação constitui a via real para a abordagem do além, pois existe uma lógica oculta do imaginário que, ao longo de milênios, elimina automaticamente o que é simples fantasia pessoal ou elucubração gratuita.

O plano da obra

Uma primeira parte será consagrada à experiência da não-morte, seu estatuto filosófico possível, as situações-limite próprias para atualizá-la e as abordagens literárias que dela foram tentadas.

  • A experiência da não-morte transcende a ideia de além e, ao mesmo tempo, a funda como aparência provisoriamente legítima e necessária para a consciência religiosa.
  • As diversas escatologias, agrupadas por afinidades, são examinadas seguindo um eixo que vai do simples ao complexo, ou seja, de tipos de além pouco dicotomizados para tipos onde o contraste entre salvação e perdição se acentua.
  • A análise culmina na confrontação dos dois sistemas considerados mais complexos e mais bem estruturados: o sistema céu-purgatório-inferno no Catolicismo pós-tridentino e o sistema da Transmigração (samsara) no Hinduísmo e no Budismo.
  • A obra não é um tratado de História das religiões sobre o além, e os temas escatológicos emprestados de diferentes religiões são apenas exemplos que formam uma ronda de símbolos em torno de uma verdade central.
  • O problema filosófico da morte e do além não será abordado de frente em toda sua amplitude, deixando-se de lado a análise histórica e crítica das “soluções” filosóficas e o discurso das ciências positivas sobre a questão.
  • Mostrar-se-á como a reflexão filosófica e o conhecimento positivo dos mitos religiosos podem cooperar para evidenciar a coerência, em seu próprio plano, da experiência da não-morte, fornecendo a primeira um princípio de inteligibilidade e a segunda convidando a primeira a repensar suas certezas iniciais.
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