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ABHINAVAGUPTA – LUZ SOBRE O TANTRA

AGLT. ORIGINAL

  • O Tantraloka — a Iluminação dos Tantras — é a obra mais extensa de Abhinavagupta, filósofo e mestre espiritual que viveu entre os séculos X e XI e pertencia à tradição religiosa do Trika caxemiriano, sistema xivaísta não dualista desenvolvido na Caxemira provavelmente a partir de meados do século IX.
    • Abhinavagupta é considerado um dos mais notáveis filósofos e mestres espirituais da Índia
    • O Trika caxemiriano tem como primeiras obras importantes o Xivassutra de Vasugupta e o Xivadrishti de Somananda, ambos compostos entre 850 e 930 d.C.
    • O Trika integra o conjunto mais amplo do xivaísmo tântrico e remonta aos tempos épicos e upanixádicos
    • Por traçar sua origem não à Revelação védica mas ao deus Xiva, o Trika é considerado não védico — embora as Escrituras xivaístas e autores como Abhinavagupta eventualmente invoquem a autoridade da tradição védica
    • Os adeptos iniciados eram prescritos a agir, ao menos exteriormente, conforme as regras de conduta do varnaxrama
  • As tradições xivaístas se dividem em dois grandes conjuntos de tradições e escrituras — o Xivaísmo Ágâmico, cujas escrituras são os agamas, e as tradições cujas escrituras são chamadas tantras, muitas delas atribuídas aos ensinamentos de Bhairava, forma temível de Xiva.
    • O Xivaísmo Ágâmico é geralmente chamado Xaivasiddhanta — a doutrina xivaísta estabelecida — e é considerado o depositário das doutrinas e práticas comuns do xivaísmo, constituindo seu ensinamento geral, o samanixaxastra
    • Os tantras de Bhairava enfatizam o poder aterrorizante da divindade e o aspecto transgressor e extático do culto, ao contrário dos agamas
    • Nos agamas, o poder feminino — shakti — é o poder criador abstrato de Xiva; nos tantras, é uma entidade divina frequentemente aterrorizante que irradia seu poder absoluto no universo por meio das Yoginis, divindades femininas secundárias que encerram o cosmos em uma rede de poder — o yoginijala
    • As Yoginis são geralmente subordinadas a uma forma temível de Xiva e presididas pelas oito “Mães” — matri — “Brahmi e as demais”
    • O professor Sanderson, de Oxford, escreveu um ensaio breve mas autorizado sobre as tradições xivaístas, publicado em S. Sutherland et al., The World's Religions (Londres, Routledge, 1981)
  • Entre os textos chamados shaktitantra — nos quais as principais divindades são femininas e a Deusa suprema é considerada superior ao próprio Bhairava — três podem ser considerados como constituindo a forma original, pré-Kaula, do Trika: o Malinivijayottaratantra, o Sidhayogeshvarimata e o Tantrasadbhava.
    • A Deusa suprema aparece ora como as três deusas supremas do Trika — Para, Parapara e Apara — ora como Kali presidindo um círculo de Kalis subordinadas
    • O vasto Jayadrathayamala — JRY —, contendo 24.000 shlokas, é chamado por Abhinavagupta de Tantararajabhattaraka, “O Venerável Rei dos Tantras”, e expõe as doutrinas e descreve o culto de mais de cem manifestações de Kali em sua forma de Kalasankarsini, Destruidora do Tempo
    • A interpretação esotérica dessas deusas por Abhinavagupta é examinada nos capítulos 4 e 5 do Tantraloka
  • Os cultos das Yoginis parecem ter sido praticados por grupos de ascetas que viviam às margens da sociedade convencional; uma evolução interna a esses cultos atenuou seu caráter transgressor, permitindo sua adoção pela comunidade xivaísta mais ampla sob a forma das tradições Kaula.
    • O termo kaula ou kaulika deriva do substantivo kula, que significa grupo ou família — termo também usado para designar as famílias ou linhagens de Yoginis ou Mães
    • As tradições Kaula se desenvolveram em diferentes sistemas chamados amnaya — “transmissão” — cada um com seu próprio conjunto de divindades, ritos, mitos e mantras
    • O termo kula foi igualmente empregado para nomear o Absoluto — kula, akula —, o poder divino — kaulikí shakti —, os ritos e as regras de conduta — kaulacara
    • Kula designa também o corpo humano e o corpo cósmico, ambos perpassados pela mesma energia divina kaulikí, a qual se encarna nas “famílias” de Yoginis
  • O conjunto Kula se desdobrou em quatro “transmissões” nomeadas segundo os quatro pontos cardeais — Oriental, Norte, Ocidental e Sul — cada uma com suas divindades, práticas e textos específicos.
    • A Transmissão Oriental — purvaamnaya — é possivelmente a mais antiga tradição Kaula; nela Xiva e a Deusa são venerados como Kuleshvara e Kuleshvari, rodeados pelas oito Mães; é dela que o Trika evoluiu, enfatizando os aspectos mentais e místicos do culto sobre o ritual, e tornando possível sua prática por chefes de família sem comprometer a pureza ritual
    • A Transmissão do Norte — uttaraamnaya — abrange os cultos de Kali e inclui três tradições: o Mata, o Krama e o culto de Guhyakali
    • O Mata — “A Doutrina” — cultua deusas teriomórficas atemorizantes, as Mateshvari; Abhinavagupta o considera inferior ao Trika, mas superior ao Siddhanta
    • O Krama — “A Sequência” — organiza seu panteão e culto em sequências ou fases fixas; seus textos mais antigos são o Devipancashatika e o Kramasadbhava; posteriormente o mestre sul-indiano Maheshvarananda (século XIV) introduziu desenvolvimentos influenciados pelo Pratyabhijna
    • O culto de Guhyakali — deusa teriocefálica aterrorizante — pretende concretizar e transcender o Mata; sobrevive hoje no Nepal como culto de Guhyeshvari
    • A Transmissão Ocidental — pascimamnaya — tem como divindade principal a deusa corcunda Kubjika, com o deus-mantra Navatma como consorte; seu texto principal é o Kubjikamatatantra (KMT), editado criticamente por T. Goudriaan (Leiden, Brill, 1988)
    • A Transmissão do Sul — daksinaamnaya — cultua a deusa Kameshvari ou Lalita Tripurasundari no diagrama de nove triângulos chamado shricakra, com o mantra especial Srividya; seus textos básicos são o Vamakeshvarimatatantra (VMT) e o Yoginihridaya (YH), este último traduzido ao francês por A. Padoux como Le coeur de la Yogini (Paris, Collège de France, 1994); é a mais recente das amnaya e permanece ativa na Índia e no Nepal

O Não Dualismo Caxemiriano. O Trika. Abhinavagupta

  • No século IX d.C. surgiram na Caxemira novas doutrinas não dualistas “descobertas” por Vasugupta, desenvolvidas no século X por Somananda e Utpaladeva e definitivamente formuladas por Abhinavagupta, cujo discípulo Ksemaraja as popularizou.
    • Vasugupta expôs essas doutrinas no Xivassutra e no Spandakarika — este às vezes atribuído a seu discípulo Kallata
    • Somananda as desenvolveu no Xivadrishti; Utpaladeva as aprofundou no Ishvarapratyabhijnakarika (IPK)
    • Para o Xaivasiddhanta — crença da maioria dos xivaístas caxemirianos —, a impureza que acorrenta a alma humana era uma substância — dravya — que apenas a ação ritual poderia destruir para permitir a liberação — moksha, mukti
    • Para os não dualistas, a causa-raiz da impureza e da servidão humana é a ignorância — ajnana —; portanto somente o conhecimento, a gnose — jnana —, pode erradicá-la, como Abhinavagupta enuncia já no início do Tantraloka (1.22)
  • Embora relegando as práticas rituais a papel secundário, nem Abhinavagupta nem os demais autores do Trika negaram sua eficácia, em especial a da iniciação — diksha —, sempre considerada pré-requisito necessário de todas as práticas espirituais conducentes à liberação.
    • A estrutura do Tantraloka revela o papel fundamental do ritual na busca da liberação: os capítulos 2 a 4 descrevem as vias superiores — upaya — de caráter místico; o capítulo 5 esboça as práticas “externas” corporais, iôgicas e rituais; os trinta capítulos seguintes as descrevem em maior ou menor detalhe
    • As obras filosóficas de Abhinavagupta encontram-se principalmente em seus dois comentários ao Ishvarapratyabhijnakarika de Utpaladeva — o Vimarshini (IPV) e o Vivritimarasini (IPVV) —, bem como no Paratrimshikavivara (PTV)
    • O Tantraloka é igualmente importante por suas numerosas citações e alusões a obras tântricas anteriores, algumas conhecidas apenas por essas referências, e por sua contribuição à “domesticação” do ritual xivaísta de base kapalika

O Tantraloka

  • O Tantraloka — com seus 5.858 estrofes — é uma das obras mais extensas de Abhinavagupta, não podendo ser datado com precisão; seu autor declara que a obra não contém nada que não esteja já explícita ou implicitamente no Malinivijayottaratantra, o qual, segundo ele (TA 1.18), encerra a essência dos ensinamentos do Trika, que por sua vez encarna a essência de todos os agamas e tantras.
    • No último capítulo Abhinavagupta relata as circunstâncias em que compôs a obra e como sua família chegou à Caxemira
    • O Tantraloka abrange o ritual dos Siddhantágamas, elementos característicos do Kula, o culto de Kali do Mata, e as divindades, crenças e práticas da transmissão ocidental e mesmo da transmissão do sul
    • Toda essa matéria é reunida por Abhinavagupta em uma síntese original, junto com os ensinamentos místicos de alguns de seus mestres e sua própria abordagem da vida espiritual
  • O Tantraloka é dividido em 37 capítulos — ahnika em sânscrito, literalmente “trabalho de um dia” — de extensão variável, dispostos em ordem não ilógica e descritos brevemente nas estrofes 285 a 329 do primeiro capítulo, as quais Lilian Silburn optou por não incluir na tradução, preferindo listá-los na introdução.
    • Capítulo 1 — As diferentes formas de conhecimento (vijnanabheda): introdução à obra inteira
    • Capítulo 2 — O “não meio” (anupaya), também chamado gatopaya: onde todos os meios desaparecem
    • Capítulo 3 — O meio supremo (paropaya) ou meio de Sambhu (shambhavopaya); também chamado icchopaya — o meio do impulso pré-discursivo (iccha) ao conhecimento; é aqui que se descreve o varnaparamarsha, a emanação fonemática do cosmos
    • Capítulo 4 — O meio do poder (shaktopaya) ou via do conhecimento (jnanopaya)
    • Capítulo 5 — A via da alma limitada (anavopaya) ou do homem ordinário (naropaya), também chamada kriyopaya: o meio da ação ritual
    • Esses cinco capítulos — totalizando 1.114 estrofes, pouco menos de um quinto do Tantraloka — são os traduzidos na edição em questão; expõem a doutrina espiritual que perpassa a obra e mostram os diferentes caminhos para a liberação; todos os capítulos subsequentes descrevem os ritos e observâncias necessários para atingir o objetivo indicado nesses primeiros ahnikas
    • Capítulo 6 — O meio do tempo (kalopaya): como transcender o fluxo do tempo — o samsara — e assim atingir a liberação
    • Capítulo 7 — O surgimento das rodas de poder (cakrodaya): seu papel e usos
    • Capítulo 8 — O curso do espaço (deshadhvan): cosmologia e descrição do universo
    • Capítulos 9 e 10 — O curso e as divisões dos níveis ônticos (tattvadhvan, tattvabhedanam)
    • Capítulo 11 — O curso das kalas (kaladhvan): as kalas são divisões do cosmos
    • Capítulo 12 — Adhvaprayoga: como utilizar as kalas para atingir a liberação
    • Capítulo 13 — A descida do poder (shaktipata): natureza, ação e formas da graça divina (anugraha)
    • Capítulos 14 a 26 — Dedicados às diferentes formas de iniciação (diksha): 23 capítulos totalizando 1.400 shlokas, o que revela a importância do tema para Abhinavagupta
    • Capítulo 14 — Introdução à iniciação (dikshopakrama)
    • Capítulo 15 — A iniciação “regular” (samayadiksha): primeiro nível de iniciação, pelo qual se ingressa na comunidade xivaísta como membro “regular” — samayin —, sem direito de oficiar
    • Capítulo 16 — A iniciação do “filho espiritual” (putrakadiksha), conferida ao samayin e que o habilita a oficiar; também chamada visheshadiksha — iniciação especial — ou nirvanadiksha — iniciação libertadora
    • Capítulo 17 — Rituais a serem realizados pelo putraka para se unir misticamente a Bhairava
    • Capítulo 18 — A iniciação abreviada (samkshiptadiksha): ritual simplificado que pode contudo conferir o estado de Xiva — shivatva
    • Capítulo 19 — A iniciação que liberta imediatamente (sadyonirvanadiksha), também chamada shankaradiksha
    • Capítulo 20 — A iniciação que alivia ou equaliza o peso do karman (tulasuddhidiksha)
    • Capítulo 21 — A iniciação de alguém ausente (parokshadiksha)
    • Capítulo 22 — A remoção de marcas (lingoddhara): eliminação dos rastros deixados pelos atos ou práticas rituais anteriores do iniciado
    • Capítulo 23 — A consagração (abhisheka): é a acaryadiksha, a iniciação do mestre espiritual
    • Capítulo 24 — A última oferenda (antyeshti): o ritual fúnebre
    • Capítulo 25 — Shraddha: ritos fúnebres
    • Capítulo 26 — Outros atos a serem realizados (sheshavritti)
    • Capítulo 27 — O ícone xivaísta e seu culto (lingapuja ou lingarca)
    • Capítulo 28 — Ritos ocasionais (naimittika)
    • Capítulo 29 — O kulayaga ou mahayaga: o “grande rito” do Kula, envolvendo união sexual com uma parceira iniciada — estudado por Lilian Silburn em Kundalini. The Energy of the Depths (Albany, SUNY Press, 1988)
    • Capítulo 30 — Os principais mantras do Trika e do Kula
    • Capítulo 31 — O mandala: como traçar e utilizar o mandala dos tridentes e lótus (trishulabjamandalá), segundo diferentes Escrituras
    • Capítulo 32 — As mudras: diferentes formas da khecarimudra
    • Capítulo 33 — A conjunção ou unificação (ekikara) das rodas de poder e das energias com vistas à liberação
    • Capítulo 34 — A penetração do adepto em sua própria natureza (svasvarupapravesa)
    • Capítulo 35 — A reunião das Escrituras xivaístas (shastramelana)
    • Capítulo 36 — A transmissão das Escrituras xivaístas (shastravadhara), de Bhairava até os tantras do Trika
    • Capítulo 37 — Os tratados que devem ser lidos; nas últimas estrofes (33 a 85), Abhinavagupta relata como sua família chegou à Caxemira e como compôs o Tantraloka
  • Examinados o conteúdo e a ordem dos capítulos, o Tantraloka expõe de maneira bastante lógica os meios de atingir a liberação — partindo da graça divina e da experiência mística, passando pelo mundo vivido, pela iniciação e pelas práticas rituais e iôgicas, até o conhecimento das Escrituras xivaístas, sempre perpassado pela graça e sempre orientado para o mesmo fim último da liberação.

Cosmogonia e Liberação. A Graça Divina

  • Um dos primeiros pontos sublinhados por Abhinavagupta no primeiro capítulo do Tantraloka é o papel da ignorância — ajnana — como causa-raiz não apenas da servidão humana mas da própria existência do fluxo cósmico — o samsara —, distinguindo-se entre ignorância espiritual — paurusha ajnana — e ignorância intelectual — bauddha ajnana.
    • A ignorância espiritual — paurusha — aparece no nível cósmico do purusha; a intelectual — bauddha — é específica do intelecto humano, buddhi
    • O homem está acorrentado — ele é um pasu — e é uma alma limitada — um anu — por causa dessa ignorância intelectual, que é apenas a forma humana da ignorância cósmica por meio da qual Xiva, velando-se por uma espécie de “engano cósmico”, faz o mundo aparecer
    • A divindade suprema manifesta-se por uma “ação quíntupla” — pancakritya —: criação (srishti), manutenção (sthiti), reabsorção (samhara), ocultamento (tirodhana) e graça (anugraha)
    • O tirodhana — vontade do Senhor de se ocultar — é, segundo Abhinavagupta, o fundamento atemporal do karman e da impureza humana original — mala —, sendo portanto responsável pela existência do mundo e pela servidão humana, enquanto o anugraha — graça — produz a liberação
  • A graça — anugraha — é considerada a mais elevada das cinco ações de Xiva; no Paratrimshikavivara, Abhinavagupta afirma que a própria essência do Senhor é graça, e que Xiva não difere de seu poder — shakti —, descrito como “consciência criadora que concede graça a este mundo”.
    • Para a graça, Abhinavagupta emprega preferencialmente o termo shaktipata — “descida do poder divino” —, que evoca melhor do que anugraha o caráter puramente gratuito e totalmente livre da graça, que Xiva concede ou retém livremente
    • A graça toma também a forma da descida ao nível humano de poderes atemorizantes ou favoráveis que ou obstruem o caminho para a liberação ou o desobstruem revelando a verdadeira natureza do Si mesmo
    • Um capítulo inteiro do Tantraloka — o capítulo 13 — é dedicado ao shaktipata, imediatamente antes dos capítulos sobre a iniciação, pois o adepto xivaísta receberá diferentes tipos de iniciação conforme a intensidade da graça a ele concedida
    • Abhinavagupta distingue três tipos de graça — intensa, moderada e fraca —, cada um subdividido da mesma forma, totalizando nove modalidades
    • A graça mais intensa concede diretamente — imediata ou ao morrer — a liberação completa, correspondendo ao anupaya; a moderadamente intensa destrói a ignorância e confere a mais alta gnose ao mestre mais perfeito — svayambhu ou akalpita guru; a fraca apenas desperta o desejo de encontrar um mestre que conduza à liberação em vida — jivanmukti
    • Quanto mais fraca a graça, mais longo o caminho e mais numerosos os meios necessários ao progresso; os que seguem a via da alma limitada — anavopaya — necessitam de práticas rituais e iôgicas ao longo de várias vidas antes de atingir a liberação
    • A busca da liberação e toda a vida espiritual são, portanto, governadas pela graça; a ação direta de Xiva se faz sentir em toda parte, pois ele é o único agente real neste mundo
    • Ser liberto equivale a experimentar identificação plena com a atividade cósmica de Xiva — como Abhinavagupta enuncia ao final do terceiro capítulo do Tantraloka
    • Os meios — upaya — para a liberação são (conforme o primeiro capítulo, shlokas 167 a 170) diferentes tipos ou métodos para experimentar a união — avesha — ou fusão — samavesha — com a divindade

Os Upayas

  • Seguindo o desdobramento da graça divina de sua forma mais intensa à mais fraca, Abhinavagupta descreve os diferentes upayas conforme a intensidade maior ou menor da graça experimentada pelo devoto xivaísta.
    • Sobre o anupaya há muito pouco a dizer: é o caso em que a liberação é concedida de uma vez, imediata e integralmente, sem nada precisar ser feito para recebê-la; expô-lo antes dos demais upayas equivale a recordar a presença universal e sempre existente da divindade — satatodita
    • Os que recebem uma graça tão intensa podem morrer imediatamente por sua intensidade; se sobreviverem, estão tão plenamente absortos em Deus que são incapazes de agir praticamente como guru ou acarya, podendo no entanto ajudar outros por sua mera presença
    • O shambhavopaya — via de Sambhu, i.e. de Xiva —, também chamado paropaya ou via suprema, visa unificar misticamente a consciência do adepto com o impulso criador originário, não cognitivo, da divindade; Abhinavagupta escreve (TA 1.146-147): “aquilo que brilha no limiar do conhecimento, na pura consciência indiferenciada de si mesmo, é o que se chama vontade ou impulso — iccha”
    • No terceiro capítulo Abhinavagupta descreve o processo pelo qual o impulso pré-cognitivo da divindade cria o cosmos — o varnaparamarsha —, a manifestação na consciência de todos os fonemas do alfabeto sânscrito, cada um dando origem a uma das categorias ou níveis ônticos — tattvas — que constituem o cosmos; os quatro níveis da vac, de para a vaikhari, e a eficácia dos mantras são também ali descritos
    • O shaktopaya — via da energia ou do poder, ou do conhecimento, jnanopaya — conduz o adepto do pensamento discursivo — vikalpa — à consciência intuitiva não discursiva do Absoluto como Poder — shakti — mediante purificação mental ou espiritual; pelo raciocínio puro — sattarka — atinge-se o iluminamento — bodha; a meditação criadora intensa — bhavana — desempenha papel importante nesse processo
    • No quarto capítulo Abhinavagupta descreve a ação da roda do poder — shakticakra —, entidades divinas que habitam e animam tanto o cosmos quanto a consciência humana, concepções adotadas da cosmologia “faseada” da tradição Krama; uma prática soteriológica com os mantras SAUH e KHPHREM é também descrita, identificando o adepto com o processo cósmico enquanto jogo de Bhairava
    • O anavopaya — via da alma limitada, anu —, também chamado kriyopaya — via da ação ritual, capítulo 5 —, destina-se a yogins ainda enredados nos caminhos deste mundo mas que desejam se libertar; visa purificar suas ações por meios mentais, rituais e iôgicos; o capítulo é relativamente breve — apenas 158 shlokas — porque Abhinavagupta apenas o aborda superficialmente aqui, sendo muitas práticas rituais e iôgicas descritas nos capítulos seguintes
    • Seja qual for o caminho seguido, o objetivo último é sempre o mesmo: a fusão com o oceano indiferenciado da Consciência Absoluta

O Texto do Tantraloka. A Tradução

  • A tradução utilizou a edição do Tantraloka — acompanhada do comentário de Jayaratha, o Viveka — realizada pelos pandits Mukund Ram e Madhusudan Kaul, publicada em Bombaim e Srinagar em doze volumes entre 1918 e 1938 na Kashmir Series of Texts and Studies (reeditada em oito volumes em Delhi, 1987), única edição existente da obra.
    • Essa edição foi utilizada com algumas emendas por Raniero Gnoli para sua tradução italiana do Tantraloka — Luce delle Sacre Scritture (Torino, UTET, 1972) —, obra pioneira e de grande relevância indológica
    • A tradução italiana, embora notável, apresenta dificuldades para os não familiarizados com as tradições xivaístas e que não podem recorrer ao texto sânscrito, por não incluir tradução do comentário de Jayaratha — sem o qual o texto de Abhinavagupta não é fácil de compreender e por vezes torna-se completamente obscuro
    • A presente tradução — cobrindo apenas os volumes 1 a 3 do texto publicado — acrescenta à tradução do Tantraloka explicações, notas e excertos do Viveka de Jayaratha, buscando tornar a obra acessível ao leitor não especializado sem deixar de ser útil aos indólogos; as notas e explicações tendem a destacar o aspecto místico do texto, predominante nos primeiros capítulos
    • Lilian Silburn — que havia trabalhado durante muitos anos na Índia e na França em uma tradução do Tantraloka — iniciou a presente tradução parcial quando suas forças e visão já estavam se deteriorando e não viveu para concluí-la; o trabalho, especialmente no que se refere ao capítulo 5, teve de ser terminado sem seu auxílio; ela leu apenas as primeiras páginas da Introdução
    • O manuscrito de Lilian Silburn foi editado e processado por Jacqueline Chambran
    • A revisão do inglês do resumo foi realizada por Barbara Bray, cuja colaboração é reconhecida com gratidão por A.P.
    • Espera-se que a tradução, mesmo em seu estado atual, sirva para introduzir os leitores a aspectos do Tantraloka — obra que inegavelmente figura entre os principais textos religiosos e metafísicos da Índia
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