====== INTERSUBJETIVIDADE ====== //KOPF, Gereon. Beyond Personal Identity: Dogen, Nishida, and a Phenomenology of No-Self. Hoboken: Taylor and Francis, 2012.// * Dada a concepção não-individual da psique — que contém o material psíquico do outro —, a questão que se coloca é como a consciência cotidiana concebe a si mesma como self separado e isolado, e como reconciliar a afirmação de que "nas montanhas não há uma única pessoa que encontra outra" com a distinção entre Tokujo e Kassan. * Uma leitura junguiana dessa passagem enfatizaria que o self autoconsciente transfere seu material psíquico reprimido — enquanto sombra — sobre o outro, e que o mestre, sendo plenamente autoconsciente, refletiria esse conteúdo de volta ao discípulo, que então poderia encontrar a si mesmo no rosto do outro. * A intenção de Dogen ao introduzir Tokujo é dupla: estabelecer como uma pessoa iluminada pode encontrar indivíduos particulares, já que a consciência samádica transcende a estrutura binária de self e outro; e reconciliar, em uma cosmovisão não-dualista, a consciência cotidiana dos "seres sencientes" "fora das montanhas" com a consciência samádica dos "budas" "dentro das montanhas". * Dogen contrapõe a atitude epistêmica da consciência cotidiana — impedida por sua própria atitude posicional de "conhecer" os dharmas, as montanhas, o self e o outro — à consciência samádica, que não "conhece" no sentido convencional mas manifesta o self, os dharmas e as montanhas enquanto "flores florescendo". * A consciência cotidiana, aprisionada em sua estrutura posicional e binária, constitui o outro à sua própria imagem — o self centrado em si mesmo não experiencia o estado psíquico do outro a partir da perspectiva do outro, mas constrói uma imagem do outro a partir de seus próprios desejos e experiências, de modo que o outro se torna uma fabricação e não algo que pode ser efetivamente encontrado. * O sujeito — shutai — apresenta duas dimensões: é sintomático da experiência binária do mundo — que dissocia a realidade em pares de opostos — e designa uma atitude autoconsciente e intencional que relega o mundo externo e o outro à passividade. * Jung observa que a autocentragem do "eu" e o consequente emaranhamento psíquico transformam o outro na "réplica do próprio rosto desconhecido" do self. * Para "alcançar o outro", o self deve, nas palavras de Dogen, "esquecer o self", "desprender-se de corpo e mente de self e outro" e assim "verificar os inúmeros dharmas". * Na face da consciência samádica, self e outro são simplesmente presentificados tal como são — "'A pessoa vê Tokujo' significa que há Tokujo, enquanto 'Tokujo toca a pessoa' significa que há a pessoa" — e "dentro das montanhas as flores florescem" sem obstrução pela intencionalidade do self. * A autoconsciência selfless — sem self — transcende as dicotomias de subjetividade e objetividade, ipseidade e alteridade, corpo e mente, consciente e inconsciente, interior e exterior, não construindo a alteridade nem sobrepondo desejos e expectativas ao outro, mas revelando self e outro como eventos momentâneos e correlativos de consciência. * A autoconsciência selfless pode ser ilustrada pelo cultivo de habilidades físicas ou artísticas — um pianista cultivado não move conscientemente a mão em busca das teclas certas, mas parece tocar sem pensar, de modo não-autoconsciente. * Merleau-Ponty denomina o resultado dessa interação entre indivíduos de corpo-hábito — habit-body. * Em danças de salão e artes marciais como o Tai Chi, praticantes cultivados não se percebem mutuamente como objetos das intenções um do outro, mas como expressões separadas e interconectadas do mesmo movimento. * Dogen denomina esse cultivo da intersubjetividade "mover corpos e mentes do outro" e "mover o próprio corpo e mente" a fim de "desprender-se de corpo e mente de self e outro". * Dogen sustenta que o self não é um indivíduo permanente que "tem" experiências, mas constitui um evento de consciência — central a essa concepção é a lógica do presentificar — genjo —, que articula o não-dualismo de iluminação e prática. * Os estados psíquicos — emoções, pensamentos — podem ser concebidos como expressões de uma psique não-individual que contém o conteúdo psíquico de self e outro; essa psique não-individual não compreende uma estrutura psíquica coletiva, mas a interatividade do que Jung denomina complexos afetivos, convencionalmente atribuídos a indivíduos separados. * Self e outro são simultaneamente individuais e não-individuais — duas expressões individuais separadas do mesmo conteúdo psíquico — e o "desprender-se de corpo e mente de self e outro" implica que o self enquanto evento momentâneo de consciência expressa a si mesmo, ao outro, aos inúmeros dharmas e à psique não-individual. * Dogen distingue duas formas de alteridade — a consciência cotidiana, que não conhece o outro mas o constrói como objeto, e a consciência samádica, que presentifica o outro tal como é —, e aponta para uma concepção paradoxal de autoconsciência enquanto consciência-do-outro, concebível apenas como consciência não-tética. * A incapacidade do self de conhecer o outro é causada pela atitude autocentrada da consciência cotidiana, que isola o self do mundo e sobrepõe o próprio "rosto" ao outro. * Paradoxalmente, é na concepção de si mesmo como entidade separada que o self concebe o outro como mero reflexo de si mesmo. * Jung sustenta que a atitude autocentrada motiva uma transferência inconsciente do material desapossado do self sobre o outro; Dogen, ao contrário, acredita que o self autocentrado simplesmente confunde o estado psíquico do outro com o seu próprio, sem que nada seja efetivamente transferido de um ao outro. * A diferença reside na metapsicologia topográfica de Jung — que retrata self e outro como recipientes à la analogia do quarto de Freud — em contraste com a concepção dogueniana de self e outro como eventos correlativos e momentâneos de consciência que se expressam mutuamente. * O fenômeno do katto — diferentemente do emaranhamento psíquico — implica a capacidade do self de identificar o estado psíquico do outro como externo a si e de experienciá-lo sem perder sua individualidade. * O mestre reflete o rosto do self de volta ao praticante por meio de sua instrução verbal ou não-verbal e de sua responsividade ao discípulo no encontro do dokusan. * A lógica do presentificar permite a Dogen afirmar simultaneamente que "não há uma única pessoa encontrando outra pessoa" e — como Kasulis observa — "não há self nem outro", mantendo ao mesmo tempo a individualidade de self e outro como indicado no encontro de Tokujo e Kassan.