===== DUVAL ===== //[[https://ereignis.hyperlogos.info/doku.php?id=estudos:duval:start|Jean-François Duval]]. Heidegger et le zen. Sisteron: Présence, 1984.// * Um velho Mestre, Jean Trouillard, iniciador de Plotino, costumava dizer que se entra na Filosofia como se entra na religião — inteiramente ou não se entra —, e esse princípio se aplica a este livro, que se propõe menos a informar do que a iniciar, no sentido muito antigo do termo. * A informação é dada em superabundância nas sociedades modernas, mas o homem contemporâneo frequentemente carece dos critérios que lhe permitiriam fazer uma síntese proveitosa para sua maturação pessoal, consolando-se com um ativismo sobrecarregado, um relativismo morno ou um desespero abafado. * Para "realizar-se", o homem desse tempo de penúria — sujeito a todas as coceiras ideológicas — passa a considerar o tempo como trampolim privilegiado: seja o tempo "contra o relógio" dos tubarões da economia, seja o tempo da história dos ideólogos de olhar frio * Ao fim da vida, o homem contempla o tempo que se esforçou por vencer e descobre em negativo que todo o seu "ter" não o fez ser nem um palmo a mais — na obscura consciência de que talvez tenha simplesmente passado ao lado do essencial, ao lado de uma "existência essencial" * A filosofia, quando não se reduz — como ocorre com demasiada frequência hoje — a infantilidades inocentes ou a ideologias castradores, sempre reivindicou esse acesso ao essencial, assumindo o risco de talvez não o ter alcançado ou de tê-lo alcançado de modo imperfeito. * Para Platão, não se trata apenas de "viver", mas de viver "bem" * O jovem príncipe Siddharta Gautama — em breve Buda, o desperto — ao perceber que sua vida "bela" não era a vida "boa", depois de encontrar um velho, um moribundo e um cadáver, decidiu cessar seus divertimentos e não mais abandonar a pose recolhida de seu Silêncio cósmico para encontrar a Verdade e conhecer aquilo que Spinoza chamaria pelo belo nome de "Beatitude" * A filosofia começa quando se rompe com os hábitos, as palavras e as poses; quando se é capaz de perturbações da alma para recentrar-se em "si mesmo" e descobrir que se é maior do que si mesmo — e então começa a Iniciação, que nada tem a ver com uma simples e efêmera "informação" * É nessa ruptura e por esse começo iniciático que este livro também se abre. * É curioso ligar as duas palavras "iniciação" e "livro", pois apenas alguns grandes livros — essencialmente anônimos — podem orgulhar-se dessa ligação, uma vez que a iniciação é assunto de Mestre a discípulo, de professor a estudantes, de mestre a alunos, e exige a frescura dos desertos, a abóbada dos céus da Grécia, a doçura das vigílias e a cumplicidade dos amigos. * O desejo expresso é que o branco do papel transpire para o leitor essa frescura das noites de deserto estrelado e desses fogos himalaicos que abrasamam o olhar e recordam ao homem perdido entre os séculos que seu coração é um centro com reflexos diamantinos * Apenas nessa "concordância" — em que Stanislas Breton, Mestre do autor, vê sempre reflexos de "primeira manhã das coisas" — a leitura iniciática do livro se tornará possível, e a errância das "informações" poderá tornar-se peregrinação iniciática. * Cada um dos capítulos que pontuam o percurso do livro se chama "espira" — não por originalidade de fachada, mas como tradução de uma das mais altas lógicas do entendimento humano quando este se esforça por compreender "aquilo" que o faz ser, crescer e transformar-se. * Segundo a filosofia grega, as Upanishads, a Cabala, o Sufismo e o Oriente cristão, o centro do ser humano é o coração — princípio de incorporação aos ritmos do Universo, que os estoicos chamavam de "o Vivente" * O coração é o lugar onde o Fogo das energias espirituais se mescla às águas das energias materiais — Núpcias de Sangue * Recentrar-se é menos atomizar-se na busca de um elemento ou princípio único de explicação da existência do que descobrir um foco, um princípio de irradiação onde confluem as energias mudas da Vida pancósmica * A Espiral traduziu nas artes de todas as grandes épocas da humanidade esse ritmo de expansão imóvel da consciência de si, que se revela logo consciência que a Vida pancósmica toma em nós de si mesma * Cada espira do livro manifesta ao mesmo tempo a intensidade e a expansão do olhar pelo qual o ser humano aprende que é o conceito, a Palavra da própria Vida sobre si mesma * As duas primeiras espiras preparam o descentramento da consciência ilusória — a consciência que se tem, ou que "alguém" dá, de si mesmo — por meio de dois pensadores, Heidegger e "um" japonês, cuja identidade é de interesse secundário para a iniciação, e que se descentram progressivamente de sua identidade emprestada, "magnetizados" por "algo" que os atrai como o Enigma da Vida universal. * Na terceira espira, passa-se com eles da vontade de interpretar o que foi, o que é, o que se disse ou se diz — do que Ionesco também poderia curar — para deixar-se interpelar por "aquilo" que fez ser e faz ser, por "aquilo" que torna pudicamente todo discurso possível. * A quarta espira tenta nomear "Isso" que começa a mostrar-se em próprio — "Ser", "Tempo", "Palavra" — deixando pressentir a pureza diamantina da Vida universal, embora sejam ainda apenas os véus mais exteriores dos quais os dançarinos enamorados do Sufismo precisam libertar-se para deixar-se abrasar pelo Fogo que diz ao entendimento hindu e ao entendimento grego a germinação pura onde a Vida que ilumina vem então a eclodir. * A partir desse Todo, a sexta espira deixará a Vida universal desdobrar-se aos olhares deslumbrados do Iniciado, cujo Corpo anforal vê doravante toda coisa — como a si mesmo — vir à presença, apresentar-se, ad-vir desde o Silêncio do Espaço pancósmico onde tudo vem a produzir-se. * Percebendo "Isso" como potência radiante de produção, a sétima espira fustigará as interpretações niilistas da Dimensão pancósmica da Vida universal — Dimensão que faz tudo ad-vir e nos convida a ampliar esse advento segundo os modos de nosso lugar na Natureza. * "Isso", em seu ritmo radiante, que o Zen e a Meditação nomeiam "Iki" — "O vento da silenciosa paz de um silêncio resplandecente" * "Isso" cuja força pura irradia o Jardim japonês como o traço de Hartung; o esplendor da cerejeira em flor como os passos de bronze que disseram os primeiros iambos à fidelidade das estrelas * "Isso" cuja força iluminante deve libertar do niilismo do Ocidente * Somente então será possível, na oitava espira, reescutar o esforço do metafísico que busca mostrar, na alquimia do corpo de diamante que é o ser humano, as faculdades e as forças motrizes — menos potências de conhecimento do que "capacidades" em que se diz, pura e simplesmente, a Vontade da Vida universal de tomar consciência de si mesma. * Trata-se de um Kant incomum — a Vida universal diz a si mesma o que é desde o Silêncio benevolente, eclosão da primeira palavra do Cosmos sobre si mesmo, pela qual a Vida chega a sonhar-se a si mesma * Essa eclosão silenciosa não é, contudo, nenhum tipo de realização — trata-se antes de uma tensão criadora, de uma dor de parto pela qual a Vida universal busca superar-se a si mesma para harmonizar-se em todas as virtualidades não eclodidas que a impelem a ser, crescer e transformar-se — frêmito do Vazio superabundante, mas frêmito doloroso, objeto da nona espira. * Quando a obscura alquimia da Vida for suficientemente clara no coração de diamante do leitor enamorado pelo Atrativo daquilo que lhe terá revelado a meditação espiraliforme dos giros do Fogo essencial da Vida pancósmica, e quando o olhar se tiver suficientemente habituado a essas terras desconhecidas que apenas os filhos de águias podem cruzar sem se perder, a décima espira dirá essa procissão do Silêncio para um olhar de Esfinge — um olhar que, ao término da iniciação, não abrirá mais a boca senão para dizer, como Plotino: "Fixa teu olhar, e vê..." * Plotino é evocado como figura emblemática do olhar iniciático consumado