====== PADMASAMBHAVA ====== //Crazy Wisdom. Chögyam Trungpa. Shambhala, 2010// * O tema a ser tratado é extraordinariamente difícil, capaz de provocar grande confusão, mas também de oferecer algo genuinamente valioso a quem o aborda. * O tema central é Guru Rinpoche, conhecido no Ocidente como Padmasambhava * Trata-se de examinar sua natureza e os diversos estilos de vida que desenvolveu ao trabalhar com discípulos * A sutileza do assunto torna difícil sua expressão em palavras * O tratamento proposto não pretende ser um retrato definitivo de Padmasambhava * Uma introdução básica se faz necessária para situar Padmasambhava no contexto do buddhadharma — os ensinamentos budistas — e compreender por que é tão admirado pelos tibetanos. * Padmasambhava foi um mestre indiano que trouxe os ensinamentos completos do buddhadharma ao Tibete, permanecendo até hoje uma fonte de inspiração, inclusive no Ocidente. * Seus ensinamentos foram herdados pelas gerações seguintes * Nesse sentido, afirma-se que Padmasambhava está vivo e atuante * Para leitores com formação ocidental ou cristã, Padmasambhava pode ser caracterizado como um santo, e sua sabedoria, seu estilo de vida e seu modo habilidoso de se relacionar com os discípulos são o que merece exame. * Os discípulos tibetanos com quem trabalhou eram descritos como extraordinariamente selvagens e incultos * Os tibetanos mostraram pouca compreensão de como receber e acolher um grande guru vindo de outra parte do mundo — eram teimosos, pragmáticos e muito apegados à terra * Além dos obstáculos humanos, havia diferenças de clima, paisagem e situação social * Traça-se uma analogia entre a situação de Padmasambhava no Tibete e a de quem traz ensinamentos espirituais à cultura americana — hospitaleira, mas também selvagem e agreste em seu lado espiritual * Na analogia proposta, os tibetanos correspondem aos americanos, e Padmasambhava permanece ele mesmo * Antes de entrar nos detalhes da vida e dos ensinamentos de Padmasambhava, é útil examinar a ideia de santo na tradição budista, que diverge da concepção cristã. * Na tradição cristã, o santo é alguém com comunicação direta com Deus, completamente embriagado pela divindade e capaz de oferecer reasseguramento às pessoas * O santo cristão funciona como exemplo de consciência ou desenvolvimento superior * A abordagem budista da espiritualidade é não-teísta — não pressupõe uma divindade externa * Por isso, não há possibilidade de obter promessas da divindade e trazê-las de lá para cá * A espiritualidade budista conecta-se ao despertar interior, não ao relacionamento com algo externo * No contexto budista, um santo — como Padmasambhava ou o próprio Buda — é alguém que oferece o exemplo de que seres humanos completamente comuns e confusos podem despertar a si mesmos por meio de um acidente da vida. * A dor, o sofrimento, a miséria e o caos da vida começam a sacudir o ser humano * Sacudido, ele passa a questionar: "Quem sou eu? O que sou? Como é que todas essas coisas estão acontecendo?" * Percebe então que há algo nele que formula essas perguntas — algo inteligente, não exatamente confuso * Na própria vida cotidiana, a confusão traz à tona algo que vale a pena explorar, e as perguntas formuladas no meio da confusão são perguntas genuínas e potentes. * As perguntas "Quem sou eu? O que sou? O que é isto? O que é a vida?" conduzem a uma investigação cada vez mais interior * Surge então a pergunta: "Quem foi que fez essa pergunta? Quem é a pessoa que perguntou 'Quem sou eu?'" * Esse aprofundamento contínuo é a espiritualidade não-teísta em seu sentido mais pleno * As situações externas falam da própria confusão, levando a pensar mais e mais longe — não a modelar-se em situações externas adicionais * Após descobrir quem e o que se é, surge outro problema: como aplicar esse conhecimento à situação de vida concreta * Existem duas abordagens possíveis diante disso — tentar viver o que se gostaria de ser, ou tentar viver o que se é. * Tentar viver o que se gostaria de ser equivale a fingir ser um ser divino ou uma pessoa realizada * Ao reconhecer as próprias fraquezas, neuroses e problemas, a tentação automática é agir como se nunca se tivesse ouvido falar de confusão ou erro * O lema implícito é: "Pense positivo! Aja como se estivesse bem" — ignorando o que se passa no nível concreto da vida, o nível da pia da cozinha * Essa postura é chamada, na tradição budista, de materialismo espiritual — não ser realista, ou, em gíria hippie, estar no espaço sideral. * O materialismo espiritual engloba qualquer abordagem — budista, hindu, judaica ou cristã — que ofereça técnicas para se associar ao bom, ao melhor, ao supremamente bom * Ao se associar com o bem, surge uma sensação de felicidade e deleite, e a impressão de que finalmente se encontrou uma resposta * A resposta encontrada é considerar-se livre desde já e deixar tudo fluir * Um reforço adicional ao materialismo espiritual consiste em associar tudo o que não se compreende na busca espiritual com descrições das escrituras sobre o que está além da mente — o inefável. * A própria ignorância sobre o que está acontecendo é transformada na maior descoberta de todas * Essa "grande descoberta" é conectada a uma suposição doutrinária — "o salvador" ou alguma interpretação das escrituras * O que antes era puro não-saber passa a ser tratado como um saber que não pode ser descrito em palavras, conceitos ou ideias * O resultado é que a confusão original é deliberadamente traduzida como algo que não é confusão, movida pela busca de prazer espiritual. * O prazer buscado é declarado de natureza incognoscível, pois não se sabe que tipo de prazer espiritual se obterá da manobra * As interpretações espirituais das escrituras referentes ao incognoscível são aplicadas ao simples fato de não se saber o que fazer espiritualmente * As dúvidas originais sobre quem se é e o que se é — o sentimento de que talvez não se seja nada — são suprimidas * Pode-se chegar ao ponto de nem mais ter consciência dessa supressão * Com a supressão do embaraço do ego que servia de degrau para o desconhecido, instalam-se dois jogos simultâneos de confusão — o jogo do desconhecido e o jogo do transcendental desconhecido. * No primeiro jogo, não se sabe quem ou o que se é, mas se quer ser algo ou alguém, e se decide seguir em frente com esse querer * No segundo jogo, busca-se a confirmação de que há algo no mundo ou no cosmos que corresponde a esse "algo" que se quer ser — e como não se consegue compreendê-lo, ele se torna o transcendental desconhecido * A grande confusão é então elevada à categoria de "espiritualidade da infinitude do Divino" ou algo semelhante * O materialismo espiritual leva a todo tipo de suposições — domésticas e pessoais, motivadas pelo desejo de felicidade, e espirituais, em torno do transcendental misterioso. * As suposições espirituais crescem porque a grande descoberta transcendental é mantida no mistério * Não se sabe o que se vai alcançar ao alcançar essa coisa desconhecida, mas se lhe dá uma descrição vaga, como "ser absorvido pelo cosmos" * Se alguém questiona essa descoberta da "absorção no cosmos", produz-se mais lógica ou buscam-se reforços nas escrituras ou em outras autoridades * O resultado final é a confirmação de si mesmo e da experiência proclamada como verdadeira, sem nenhum espaço restante para o questionamento — o que equivale a atingir o estado de egoidade, em oposição ao iluminamento. * Nesse ponto, se alguém não aceita a agressão e a paixão que se exerce sobre ele, a culpa é declarada dele — por não compreender a espiritualidade inefável * A única saída que resta para "ajudar" o outro é reduzi-lo a um títere sob o próprio comando * Essa é a primeira das duas abordagens possíveis — tentar viver o que se gostaria de ser; a segunda é tentar viver o que se é. * A segunda abordagem consiste em ver a própria confusão, miséria e dor sem transformar essas descobertas em uma resposta * Em vez disso, explora-se mais e mais, sem buscar uma resposta, mas vendo as coisas como são * Trata-se de um processo de trabalho com si mesmo, com a própria vida e psicologia, vendo literalmente o que se passa na própria mente * Nesse processo, a confusão, o caos e a neurose tornam-se base para investigação contínua, sem fixar nenhuma descoberta como a resposta definitiva. * Ao descobrir algo de errado consigo mesmo, não se conclui que isso é o problema e a resposta — vai-se mais fundo: "Por que isso é assim?" * As perguntas se aprofundam: "Por que existe espiritualidade? Por que existe despertar? Por que existe este momento de alívio?" * Chega-se ao ponto em que não há resposta — nem sequer uma pergunta: pergunta e resposta morrem simultaneamente, curto-circuitando uma à outra * Nesse ponto, abandona-se toda esperança de uma resposta ou de qualquer coisa — um estado de pura desesperança, que pode ser chamado, em termos mais delicados, de transcender a esperança * A desesperança é a essência da sabedoria louca — utterly hopeless, além da própria desesperança. * Transformar a desesperança em algum tipo de solução seria recair na confusão * O processo ocorre sem nenhum ponto de referência — sem espiritualidade, sem salvador, sem bem ou mal, sem qualquer referência * Ao atingir o nível básico da desesperança, não se torna um zumbi — todas as energias e o fascínio da descoberta permanecem * O processo de descoberta recarrega-se automaticamente, indo cada vez mais fundo — e esse aprofundamento contínuo é o processo da sabedoria louca * É isso que caracteriza um santo na tradição budista * Os oito aspectos de Padmasambhava a serem examinados conectam-se a esse processo de penetração psicológica — cortar através da superfície do reino psicológico e depois de superfície em superfície, indo cada vez mais fundo. * A discussão da vida de Padmasambhava, de seus oito aspectos e da sabedoria louca é o que estrutura o tema * A abordagem budista da espiritualidade consiste em cortar impiedosamente qualquer possibilidade de se confirmar em qualquer estágio do caminho espiritual. * A própria descoberta de que se progrediu no caminho espiritual é considerada um obstáculo ao progresso ulterior * Não há chance de descansar, relaxar ou se congratular — é uma jornada espiritual implacável e contínua * Essa é a essência da espiritualidade de Padmasambhava * Padmasambhava trabalhou com os tibetanos de sua época — um grande mago e pandita indiano, um grande vidyadhara ou mestre tântrico, que chegou à Terra das Neves. * Vidyadhara é o termo que designa o mestre tântrico * Os tibetanos esperavam receber um belo ensinamento espiritual sobre como conhecer a essência da mente * As expectativas acumuladas pelos tibetanos eram enormes * O trabalho de Padmasambhava foi cortar camada após camada dessas expectativas e de todas as suposições sobre o que a espiritualidade poderia ser * Ao final da missão de Padmasambhava no Tibete, quando se manifestou como Dorje Trolö, todas essas camadas de expectativa foram completamente cortadas * Os tibetanos começaram a perceber que a espiritualidade é o corte através da esperança e do medo, junto com a descoberta súbita da inteligência que acompanha esse processo