===== ESCOLAS MAHAYANA ===== //[[.:start|JMVTC]]// * Da enorme produção literária da corrente Mahayana — na qual se destacam o Vimalakirtinirdesa, o Avatamsaka, o Abhisamayalankara e sobretudo o Dashabhúmaka, onde se encontra a célebre fórmula "o triplo dhatu não é senão citta" — surgirão duas escolas distintas de posições muito precisas: a "via da vacuidade" e a "via da consciência", ambas respondendo a uma necessidade de clarificação das posições doutrinárias que se haviam obscurecido ao longo do tempo. * Dhatu designa o "mundo" ou "domínio" e citta designa a "consciência" — a fórmula do Dashabhúmaka enuncia: "o triplo mundo não é senão consciência" * A "via da vacuidade" é designada em sânscrito por Shúnyatavada * A "via da consciência" é designada em sânscrito por Vijñanavada * A obscuridade doutrinária havia mergulhado certos mestres em crises intelectuais interiores insolúveis e dilemas inextricáveis * A primeira reação, a mais radical e surpreendente, virá por volta dos séculos II e III com Nagarjuna — um dos maiores pensadores do budismo —, que, recusando as contradições desenvolvidas entre o realismo dos Vaibhashika e o idealismo dos Sautrantika, fará surgir uma "terceira via" libertadora denominada "via do meio" — Madhyamika —, refutando um a um os argumentos parciais das duas escolas ao recordar a lei central da "produção condicionada" expressa pelo Buda, segundo a qual tudo está submetido à mudança e à impermanência, obrigando a declarar o mundo vazio. * Os Vaibhashika afirmavam que toda realidade existe objetivamente pelo testemunho comum que se pode ter dela — posição realista * Os Sautrantika sustentavam que o mundo percebido é pura ilusão pelo caráter fugitivo e passageiro dos estados de consciência — posição idealista * Nagarjuna atuou por volta dos séculos II e III * A lei da "produção condicionada" — em sânscrito pratitya-samutpada — impede que se pronuncie qualquer afirmação definitiva * A vacuidade — em sânscrito shúnyata — é o que se é obrigado a declarar do mundo: insaisissável, indefinível, idêntico a nada, não redutível nem à presença nem à ausência, nem ao aparecimento nem ao desaparecimento, nem à realidade nem à ilusão * Nagarjuna resume sua análise em oito negações: não há abolição, nem criação, nem aniquilamento, nem eternidade, nem unidade, nem multiplicidade, nem chegada, nem partida * A obra principal de Nagarjuna é o Tratado do Meio — Madhyamaka-shastra ou Madhyamika-karika —, ao qual se seguem, entre outros, o Dvadashadvara-shastra — Tratado das doze portas —, o Mahayanavimsaka — Vinte cantos sobre o Mahayana —, a Vigrahavyavartani — Eliminação das controvérsias — e a Ratnavali — Preciosa guirlanda * Nagarjuna eleva a um grau de compreensão nunca antes atingido o núcleo dialético da interdependência contido no Prajñaparamita-sutra, recusando toda posição fixa ao ver que os conceitos e as ideias estão imbricados em uma articulação complementar indissociável que os torna não autônomos, parciais, fragmentários e insubstanciais, de modo que sofrimento e libertação, ilusão e Despertar, nirvana e samsara formam um todo intrinsecamente ligado sobre o qual nenhuma afirmação ou negação, nenhum apego ou obtenção, é possível. * O Prajñaparamita-sutra contém o núcleo dialético da interdependência desenvolvido por Nagarjuna * O Samadhi-raja-sutra — II, 2 — declara: "O Desperto ensinou a Doutrina para mostrar que não se vem de lugar algum e que não se vai a lugar algum" * A interdependência radical implica que nada tem realidade no ser ou no não-ser * O ensinamento da vacuidade, apesar de sua poderosa força argumentativa, não chegou a satisfazer plenamente certos monges e eruditos que quiseram levar ainda mais longe a lógica interna da Doutrina do Desperto, fazendo surgir, a partir do século III, uma série de sutras que se apresentavam como expressão de uma "terceira" e última colocação em movimento da "Roda do Dharma", destinada a coroar a plenitude do tesouro da Doutrina. * A primeira colocação em movimento da Roda do Dharma foi a expressão primitiva das "Quatro Nobres Verdades" pelo próprio Buda * A terceira colocação em movimento inclui e declara superar o pensamento da vacuidade derivado dos Prajñaparamita-sutras e desenvolvido por Nagarjuna * Os textos surgidos nesse contexto incluem o Samdhinirmocana — Libertação do sentido fundamental —, o Mahayana-Abhidharma-sutra e o Lankavatara-sutra * Exibindo relativa independência conceitual e expondo um discurso que se pretendia o mais justo e preciso formulado desde os Sermões do Desperto quanto à enunciação das luzes capazes de conduzir à libertação, o Vijnanavada não pode contudo ser concebido sem o pressuposto argumentativo da escola do "meio" — Madhyamika ou Shúnyatavada —, tendência teórica que suscitou uma viva reação crítica e que explica, no fundo, a razão do surgimento do Yogacara na história do pensamento budista. * Vijnanavada é o nome da "via da consciência" — escola Yogacara * Madhyamika e Shúnyatavada designam a escola de Nagarjuna — "via do meio" e "via da vacuidade" * O Yogacara surge como reação crítica ao Madhyamika e como seu necessário complemento na história do pensamento budista