===== WALDBERG ===== MICHEL WALDBERG //LA FORÊT DU ZEN// * A realidade só pode ser conhecida por quem a vive diretamente, como o peixe conhece a água ou o pássaro conhece as florestas. * A vida religiosa e a vida poética só revelam seu significado a quem as vivencia — "se não as viveis, não captareis seu significado" * As Escrituras são signos que apontam para a realidade, como o dedo aponta para a lua — "desgraçados os que tomam o dedo pela lua" * Conhecer um pêssego significa tocá-lo, cheirá-lo, saboreá-lo — e sobretudo comê-lo * O sábio, o filósofo e o artista descrevem o pêssego; o mestre vai pegá-lo, oferece-o e se cala * Os textos e toda representação são falaciosos, pois a letra mata e o espírito vivifica. * Para que a linguagem não seja pura convenção, é preciso que exista entre os interlocutores uma experiência comum da coisa de que se fala * A palavra de perfeição não é a que abunda em termos sublimes, mas a palavra de vida que ilumina subitamente o real * Huxley, em suas Notas sobre o Zen, observava que "estamos habituados na literatura religiosa a uma certa solenidade expressiva que peca de pomposa" * Huxley acrescentava: "Deus é sublime; em consequência, as palavras de que nos servimos para falar de Deus devem ser também sublimes" * Como exemplo do absurdo dessa postura, Huxley citava uma prece rezada na Irlanda em épocas de fome, em que eclesiásticos substituíram a palavra "batata" pela perífrase "tubérculo suculento", por considerá-la vil e proletária * Desconfiar dos textos se impõe porque se confundem com demasiada frequência as coisas com as palavras, atribuindo-se realidade substancial ao que é apenas efêmero e mutável. * Alan Watts apontava o que ocorre com a palavra "punho" — quando se abre a mão, o punho simplesmente deixa de existir * Os famintos não precisam de "tubérculos suculentos", mas de belas e substanciosas "batatas" * [[https://gurdjieff.hyperlogos.info|Gurdjieff]], cujos ensinamentos se assemelhavam muito aos do Zen, dizia: "Um homem saciado não pode compreender outro que tenha fome" * Ao ler um ensaio sobre o Zen, não é preciso deixar-se convencer, pois no Zen as palavras não valem. * Um raciocínio, um poema, uma sentença ou mesmo um grito podem proporcionar uma visão da realidade * Não é o mestre quem é grande, mas Deus; nem são sublimes as palavras, mas as coisas * Não existem o eu e o mundo como entidades separadas, mas o eu no mundo e o mundo no eu — e, do mesmo modo, não há budistas nem um único Buda, mas tantos Budas quantos homens viveram a experiência búdica. * Suzuki assinalava que o budismo não é o ensinamento de Buda — "é o próprio Buda" * Conhecer o próprio espírito original e contemplar a própria natureza equivale a conhecer-se como Buda, pois a natureza humana é intrinsecamente pura. * Ser iluminado equivale a reconquistar essa natureza e permitir à Essência triunfar sobre a personalidade, como afirmou Gurdjieff * O que é verdadeiramente próprio não é o que se considera como tal, mas algo que permanece sem mancha e que só pode ser captado por uma experiência mística * A experiência mística não ocorre apenas na penumbra de um claustro ou de um mosteiro — a iluminação se produz no momento em que, aqui e agora, alguém se torna a si mesmo. * O Zen não é uma filosofia, nem uma religião, nem uma seita, mas antes uma atitude — e, embora em sentido estrito seja uma transformação do budismo pertencente à história religiosa da Índia, da China e do Japão, expressa também uma propriedade fundamental do espírito humano. * O pensamento dualista triunfou provisoriamente no Ocidente, mas espíritos abertos sempre se preocuparam em escapar ao domínio da razão * Blyth, em Zen in English Literature, documenta essa presença do Zen na tradição ocidental * O Zen é, antes de tudo, uma recusa do intelectualismo — quem o pratica admite que apenas a experiência é válida, observando inclusive que a recusa da experiência é ela mesma uma experiência. * Conhecer não consiste em conhecer o mundo alheio ao eu, mas em perceber o mundo enquanto oposto ao eu * Conhecer-se no sentido do Zen não é conhecer o passado, o que se foi, mas o que se é * Conhecer a realidade é conhecer a pena usada para escrever, o papel sobre o qual ela desliza, os livros espalhados, o quarto e o pedaço de céu cinzento de novembro que se descobre pela janela * Escrever sobre o Zen implica ter consciência de que se trata de uma experiência particular, impossível de ser tornada objetiva. * O saber sobre o Zen é sempre singular — nem o autor nem ninguém poderá fazer do Zen um estudo objetivo * O essencial não reside nas informações objetivas, mas naquele algo que escapa à análise e que pode tocar o leitor como a flecha do arqueiro atinge o alvo * Herrigel evocava mestres que diziam: ao apontar para o alvo, aponto para mim mesmo — tiro e sou ao mesmo tempo atingido * O arqueiro, a despeito de toda sua atividade, precisa tornar-se um centro imóvel — e é então que se produz o grande acontecimento. * "A arte é despojada de sua arte, o tiro deixa de ser um tiro, o monitor se converte em aluno, o mestre volta a ser principiante, o fim se faz princípio e o começo, término" * Isso ocorre quando se renuncia a distinguir os múltiplos eus e eles se unificam, quando se possui, como disse Gurdjieff — e também os mestres do Hara — "um centro de gravidade permanente". * Isso ocorre igualmente quando se renunciam às categorias dualistas e não se separam palavra e locutor, Evangelho e Cristo, budismo e Buda, teoria e prática, pensamento e ação, compreensão e trabalho. * O homem não pode "fazer" se não "é" — e só tem ser na medida em que o saber que possui supera o livresco * Ser é ser a si mesmo, não o personagem disfarçado que habitualmente se apresenta aos olhos dos outros * Nunca bastará ter meditado os textos, por mais tempo que se lhes tenha dedicado — nem mesmo penetrar com o pensamento os arcanos do Universo será suficiente. * No melhor dos casos, o resultado será tornar-se filósofo e criador de sistemas ou antissistemas * Estudar o Zen como ocidental significa tender a considerá-lo uma teoria, uma filosofia ou uma doutrina — e nisso reside um equívoco completo. * O Zen não pode ser compreendido por uma decisão voluntária, como se decide apreender a filosofia de Aristóteles, Heidegger ou qualquer outro pensador * Para compreender o Zen, é preciso deixar de pensar segundo os sistemas habituais do pensamento ocidental * As categorias do pensamento ocidental não podem mais pretender universalidade — a etnografia e a história das religiões revelam modos desconhecidos de captação do real. * O chinês e o africano não pensam como o europeu — em cada sociedade, concede-se mais importância a determinado aspecto da realidade * A ausência de escrita entre os africanos sublinha a importância da transmissão direta da Lâmpada — entre pai e filho, mestre e discípulo, chefe e tribo — o mesmo ocorrendo com os mestres do Zen * A escrita por ideogramas revela que o chinês desconfia do abstrato, valoriza a estética e não se resigna a renunciar à originalidade * O Ocidente atual só reconhece o valor de um pensamento se ele é inovador, tornando-lhe estranha a ideia de Tradição — mas o espírito do Zen é contrário a isso. * Como todos os pensamentos religiosos dignos desse nome, o Zen afirma verdades imutáveis * O texto sagrado aparece com pouca variação no fundo, e a atitude dos mestres é sempre a mesma * Falar do Zen exige necessariamente deixar falar outras pessoas, pois o que se diz já foi dito por outros — ao falar do real, cai-se inevitavelmente no plágio. * Só se pode repetir o pensamento do mestre se ele foi tornado próprio * Quando um monge pergunta a Tchao-tcheu "Por que Bodhidharma veio do Ocidente?", Tchao-tcheu responde: "O cipreiro no pátio" * Chega um momento em que o discípulo tem o direito e o dever de mostrar sua autoridade — o mestre ergue seu hossu, e chega o dia em que o discípulo ergue o seu * Um dos textos fundamentais do cristianismo se intitula Imitação de Jesus Cristo * Censurar quem fala de um ensinamento que convida ao ocultamento equivale a reprovar-lhe a probidade — não é o discípulo quem fala, mas o mestre por sua voz. * São Paulo dizia: "Não sou eu quem vivo, mas Cristo quem vive em mim" * Do mesmo modo, não é o discípulo quem fala, mas Buda — e assim os mestres falam pela voz de seus discípulos * O que os mestres repetem incansavelmente é que o mero raciocínio é incapaz de comunicar a verdade, e que vale mais mostrar do que descrever. * Alan Watts assinalava que é infinitamente mais fácil mostrar como se faz um nó do que descrever o ato de fazê-lo * Nenhum raciocínio comunica a frescura da água — só mergulhando a mão no rio é possível conhecê-la * Apenas o discurso poético escapa a essa crítica, pois o poema possui a mesma riqueza das coisas e é irredutível ao comentário ou à glosa. * Rimbaud exclama: "Abracei a aurora do estio" — e anuncia: "E vivi, áurea centelha do gênio luminoso" * Rimbaud comunica, sem descrevê-la, uma experiência realizada por todos os adeptos do Zen — as palavras são desviadas de seu sentido usual e carregadas de energia * O sacerdote pode ser vil, mas sua boca pronuncia palavras santas — e isso é o que conta * Mesmo que quem escreve sobre o Zen se equivoque ao tentar compreender e tornar compreensível o texto sublime, isso não é tão grave quanto parece — o que importa é oferecer ao outro um alimento espiritual capaz de saciá-lo. * Ao escrever um livro sobre o Zen, não se pode reivindicar objetividade total, tampouco pretender dar de dentro uma imagem perfeita do assunto — o estudo é necessariamente imperfeito, mas tem ao menos o mérito da honestidade. * Considerar o Zen de fora é impossível, mas isso não significa fazer sua apologia, como Pascal fez com a religião cristã