====== LOUIS-GHISLAIN CATTIAUX (1904-1953) ====== //AROLA, Raimon. La Actualidad Del Hermetismo: El Mensaje de Louis Cattiaux. 1st ed ed. Barcelona: Herder, Editorial S.A, 2020.// * A vida de Louis-Ghislain Cattiaux (1904-1953) foi marcada pela dedicação à pintura e à busca de espaço no ambiente vanguardista parisiense do entre guerras, até que, já na casa dos trinta anos, o interesse pela arte cedeu lugar à busca do Absoluto e à redação de //Le Message Retrouvé, ou l'Horloge de la Nuit et du Jour de Dieu//. * Cattiaux participou de concursos, expôs em diversas salas, fundou a galeria Gravitations e integrou o movimento artístico Transhylisme. * O termo "Absoluto" é empregado pelo biógrafo Bernard Dorival para caracterizar a nova orientação de Cattiaux. * A criação pictórica foi relegada a segundo plano a partir dessa virada interior. * Cattiaux relutava em publicar //A Mensagem// sob seu próprio nome, pois considerava o livro ditado pelo Espírito, e pretendia assiná-lo com um pseudônimo hermético. * O livro é composto de mais de seis mil aforismos. * Um dos versículos declara que o autor é tão ignorante ao terminar o livro quanto o era ao começá-lo. * A prática de assinar obras com pseudônimos ou sob nomes de sábios ilustres era recorrente entre os antigos alquimistas, que assim ocultavam sua identidade exterior. * Didier Kahn explica que os alquimistas atribuíam suas obras a autoridades como Alberto Magno e Tomás de Aquino. * Louis Claude de Saint-Martin assinou seu primeiro livro como "O filósofo desconhecido", alegando que lhe fora ditado por um "agente desconhecido". * Cattiaux pode ser denominado o filósofo da alteridade, pois o autor de //A Mensagem// não é o personagem que vivia e pintava em Paris, mas uma outra realidade que o habitava, identificada com a docta ignorantia de Nicolau de Cusa. * A sabedoria de //A Mensagem// não descreve o saber particular deste-mundo, mas a vida do mundo-por-venir. * Entre Cattiaux e quem escreveu //A Mensagem// existe uma alteridade completa. * A alteridade entre Cattiaux e a voz de //A Mensagem// remete ao mistério da palavra inspirada, presente no hermetismo e nas tradições espirituais, conforme ilustra o comentário de Amador Vega à frase do Mestre Eckhart "A saída de Deus é sua entrada". * Para Vega, o que é dito exteriormente é vão enquanto houver distinção entre quem fala e o que é dito. * A pronúncia do Verbo só é possível quando se é já o próprio Verbo. * O individualismo contemporâneo dificulta a compreensão da mensagem da alteridade, chegando-se a preferir diagnósticos psicopatológicos, como a esquizofrenia, à admissão da revelação ou da inspiração. * A recusa da alteridade sufoca o mistério. * A questão levantada é se ainda há lugar para o espírito nesse contexto. * As tradições antigas denominaram de diversas formas o conceito da alteridade, sendo o verbum dimissum ou "palavra perdida" da maçonaria um dos mais próximos historicamente, explicado por René Guénon como a perda do estado primordial. * Após a expulsão do Paraíso, essa realidade primordial permanece oculta no interior do ser humano. * Quando desvelada pelo dom do Espírito Santo, ela se torna a palavra reencontrada, o Verbo, que René Guénon relaciona ao Nome hebraico de Deus, HaShem. * Diversos versículos de //A Mensagem// aludem ao estado primordial perdido, identificado com o eu profundo e íntimo de todo ser humano. * Um versículo afirma que muitos estão adormecidos em ocupações vãs e poucos estão despertos o suficiente para buscar-se nos livros santos. * Outro versículo declara que os que rejeitam o Livro rejeitam sua própria vida sem o saber. * //A Mensagem// emerge dessa raiz original adormecida no homem que, ao despertar e unir-se ao seu complemento celeste, torna-se mensageira da mensagem, conforme indica um acréscimo manuscrito de Cattiaux na primeira prova do versículo 4 do livro 35. * O acréscimo autógrafo vincula a unificação no centro secreto ao fato de tornar-se o Mensageiro Reencontrado. * O "outro" é definido como aquele que conhece a Unidade do divino interior e do divino exterior ao homem. * Cattiaux é chamado filósofo da alteridade porque em sua obra não descreve sua realidade caída, mas a realidade paradisíaca como lugar próprio do espírito, sendo o texto escrito não pelo homem Cattiaux, mas pelo Deus desperto, a interioridade adormecida em cada homem. * Ao rejeitar o Deus das religiões exteriores, o homem ocidental apagou também o que é propriamente humano. * A separação entre Deus e homem é atribuída ao peso extremo da ignorância que nega a alteridade e impede que o espírito repouse em seu lugar. * Três versículos consecutivos de //A Mensagem// explicitam a alteridade da obra ao identificar o verdadeiro autor e o verdadeiro leitor com o pronome LVI, "ele", que Cattiaux converteu no nome do Deus que ditou o livro. ([[mensagem-reencontrada-32|Livro XXXII]]) * //A Mensagem// é dedicado "À glória de Deus e para o serviço dos homens". * O nome "Deus" na dedicatória é acompanhado de asterisco que remete à nota: "LVI: O fogo secreto que suscita os Universos, que os mantém e que os consome". * LVI é o lugar onde o espírito encontra sua morada, e //A Mensagem// se dirige ao serviço dos homens porque o hermetismo nele proposto, como o do Renascimento, pretende criar um lugar físico e puro para que o espírito universal habite no mundo. * Uma sentença do Midrash Raba afirma que o Santo-bendito-seja é o lugar do mundo, mas o mundo não é o seu lugar. * Carlos del Tilo explica que o mundo está contido em Deus, e não Deus no mundo, sendo Deus quem dá ao mundo sua consistência a partir de sua residência nele. * O lugar onde ocorre o encontro do céu e da terra não está nem no mundo inferior nem no mundo superior, mas na escada que Jacob viu em sonhos, por onde subiam e desciam os anjos, imagem que os rabinos associam ao coração como ponto de partida da subida. * Os filósofos herméticos situam esse lugar na escada que une os mundos superior e inferior. * O texto bíblico especifica que os anjos subiam e desciam, e a pergunta rabínica sobre de onde subiam recebe a resposta sutil do coração. * Thomas Vaughan, filósofo hermético-cristão, alquimista e irmão do poeta Henry Vaughan, descreveu em 1650 a escada de Jacob como o maior mistério da cabala, interpretando o sono de Jacob como a morte mística denominada pelos cabalistas mors osculi, a morte do beijo. * Vaughan situa Jacob em um extremo da escada, embaixo, e Deus no outro, em cima. * Vaughan declara não pronunciar nem uma sílaba sobre essa morte mística. * Os lugares de culto, os ritos e os símbolos exteriores são reflexos do espírito quando este está em seu lugar, e podem guiar o homem na busca, mas não substituem a experiência que representam. * Quando o símbolo é confundido com a experiência, a verdade de Deus se dilui na absurdidade da vida exilada. * Quando o espírito está em seu lugar, a união do espírito e do lugar revela o ser-que-é-Deus. * O propósito de Le Message Retrouvé é articular todos os seus temas em torno da impossibilidade de separar Deus da humanidade e o espírito de seu lugar, núcleo da dignidade humana segundo Pico della Mirandola e da ciência hermética. * O versículo final citado, //A Mensagem// Reencontrado 15,4, convida a acrescentar, ao comentar qualquer Escritura, rito ou símbolo, que se trata de uma entre as numerosas interpretações da Verdade Una. * O versículo conclui que Deus é o único senhor do véu e da nudez.