====== AMOR, CUPIDO ====== //FAIVRE, Antoine. Accès de l’ésotérisme occidental I. Paris: Gallimard, 1986.// * A distinção entre o estado temporal e a vida eterna é comparada à diferença entre um mecanismo e um organismo, sendo o amor, desembaraçado do desejo, o testemunho da passagem para o reino de Deus como um organismo divino e acabado, no qual a união dos corpos em um só significa a superação da corporalidade separatista pela habitação de Jesus como terceiro termo. * O amor verdadeiro (Amor) eleva-se ao céu, enquanto o desejo cego (Cupido) prende-se aos sentidos materiais. * A união andrógina não é a fusão de dois corpos em um, mas a superação da separatividade no terceiro termo, que é Cristo. * A poesia e a arte, ao ornamentarem o amor sexual, frequentemente negligenciam seu valor mais elevado, expresso no anseio do Cântico dos Cânticos. * Crítica à Naturphilosophie por confundir o casamento dos sexos com a união dos corações ou o espírito do mundo com o Espírito Santo. * Ao contrário de correntes espirituais que viam na reconquista da androginia a negação do casamento, Baader é um "professor do amor" que afirma a solidariedade do casal como caminho para o acabamento, onde o estado amoroso é um dom e uma tarefa, embora o ato carnal permaneça ambíguo por ser um paliativo para a masculinidade e a marca do pecado original. * O vínculo de amor impede o autoacabamento solitário, unindo o casal solidariamente até mesmo diante do inferno. * O estado amoroso é uma "fantasmagoria natural" que revela o outro como mais perfeito, um dom (Gabe) que se torna tarefa (Aufgabe) e vocação (Beruf). * O ato carnal é um paliativo para o furor da masculinidade, incapaz de extingui-lo radicalmente. * O orgasmo da geração animal é sempre uma rebelião e a marca do pecado original, mesmo sendo necessário. * A "embriaguez da sensualidade" obscurece a compreensão do engendramento celeste, e o instinto sexual, muitas vezes acompanhado de ódio, difere do amor verdadeiro, que é religare e conciliação (Ausgleichung), sendo o abraço um gesto que prefigura o retorno à androginia ao tentar reincorporar a mulher ao thorax de onde veio, ao passo que o ato carnal é marcado pelo egoísmo e pelo esgotamento. * O desejo e a satisfação alternam-se numa nostalgia amarga que dificulta a imagem do estado angélico. * O instinto sexual diminui ou se extingue com o surgimento do amor verdadeiro. * O amor verdadeiro liberta e une positivamente os homens, sendo de natureza religiosa. * O abraço, ao contrário do coito, é um gesto de conciliação que visa reincorporar a mulher ao seu local de origem, o coração. * O ato carnal termina num "esvanecimento recíproco", análogo ao sono, irmão da morte. * A relação entre voluptuosidade e crueldade é apontada como um exemplo do contato dos extremos na vida temporal. * A definição kantiana do amor como inclinação ao que é vantajoso é refutada, defendendo-se que o verdadeiro amor é livre de necessidade e desejo (naturfrei), devendo o desejo sexual ser "consagrado" para se transformar em amor conjugal, e o amor a si mesmo só é legítimo quando exercido em Deus, não num "eu" inautêntico. * O amor só é amor quando é sem necessidade, sem desejo e livre em relação à natureza (naturfrei), mas não privado dela (naturlos). * O desejo sexual, como expressão máxima do egoísmo, tende idealmente à dissolução do indivíduo, enquanto o amor ideal assume o "sexo eterno" na unicidade eterna da pessoa. * Na pessoa amada e transfigurada, Deus ou o Todo se faz entrever através de sua unicidade. * O amor a si mesmo é legítimo e obrigatório apenas quando exercido em Deus. * O "exorcismo" religioso do amor é o princípio de toda associação livre, elevando a paixão a um vínculo de liberdade, ao passo que a sexualidade limitada a si mesma atualiza um "duplo braseiro hermafrodita" marcado pelo egoísmo e pela ilusão, que frequentemente desemboca em ódio e confunde a verdadeira androginia com o hermafroditismo. * O amor religioso eleva a paixão (assujeitamento) à categoria de aliança (vínculo) de liberdade. * A sexualidade limitada a si mesma é um esforço orgástico que se consome num "duplo braseiro hermafrodita". * A frequente aparição do ódio entre os parceiros demonstra a ilusão hermafrodita. * A androginia é a união dos princípios ativo e passivo numa única natureza; o hermafroditismo é a não-unidade dos atributos sexuais em sua inflamação extrema e deformidade. * A neutralização positiva dos sexos em sua diferença (sich auflieben) é distinta da confusão dos sexos. * O hermafrodita da arte pagã excita sexualmente, diferindo radicalmente da Madona da arte cristã. * Na arte cristã, a Madona, como figura central, expressa a natureza virginal e angélico-andrógina, cuja pureza e unidade produtora devem também transparecer nas representações de Cristo e dos anjos, convidando à contemplação que aquieta e extingue o desejo sexual. * A Madona é o foco (Focus) de todas as formas religiosas na arte, ideia à qual a teologia se mostrou infiel. * A pureza da Madona é unidade, e somente a unidade é produtora. * A natureza angélico-andrógina deve expressar-se em Cristo e nos anjos para que a contemplação eleve momentaneamente à natureza angélica. * A arte pagã, ao contrário, tem no hermafrodita o seu foco, reunindo as potências sexuais em sua inflamação polar, o que leva à confusão entre androginia (união num corpo), assexualidade (impotência) e hermafroditismo (coexistência num corpo), sendo este último exemplificado pela Vênus barbada e pelo Lingam indiano. * O hermafrodita é o foco das formas pagãs, reunindo as potências sexuais em sua "inflamação polar". * A Vênus barbata e o Lingam indiano são exemplos dessa confusão e da representação do hermafroditismo. * A noção de androginia é propriamente cristã, enquanto as doutrinas materialistas do corpo primitivo negam a doutrina cristã do corpo da ressurreição. * O amor sexual na poesia, quando tratado de modo frívolo, sentimental, racional ou diabólico, perde de vista sua função de aliança (Bund) em que os amantes se apresentam a Deus para restaurar a imagem virginal perdida, tarefa que um drama poético superior deveria representar ao mostrar a queda do andrógino original e a contínua ação da Sophia como guia e instinto de formação. * O amor é a aliança (Bund) solidária em que os amantes, diante de Deus, buscam restaurar a imagem virginal divina. * Um drama poético superior deveria mostrar o andrógino original que, seduzido pelo desejo do terrestre, se perde e se torna homem e mulher. * A Sophia, a Sabedoria, é a imagem fugidia que, desde a queda, continua a brilhar como guia (weisen) através das trevas, indicando o caminho de volta. * A androginia não é apenas um estado primordial, pois a Sophia ainda atua na alma de cada homem e mulher como supremo "instinto de formação" (Bildungstrieb). {{tag>Faivre AOC1 Baader Androginia Hermafrodismo Amor Eros}}