====== MEDIAÇÃO ====== //FAIVRE, Antoine. O Esoterismo. Campinas: Papirus, 1994.// Imaginação e mediações. As duas noções estão ligadas, são complementares. A ideia de correspondência já supõe uma forma de imaginação inclinada a detectar e utilizar mediações de todos os tipos, como rituais, imagens simbólicas, mandalas, espíritos intermediários. Daí a importância da angelologia nesse contexto, mas igualmente do "transmissor" no sentido de "iniciador", de "guru" (cf. também infra, a propósito do sexto elemento). Talvez seja sobretudo essa noção de mediação que diferencie o que é místico do que é esotérico. De uma maneira um tanto simplificadora, seria possível considerar que o místico — no sentido clássico — aspira à supressão mais ou menos completa das imagens e dos intermediários, pois estes se tornam para ele entraves à unio com Deus. Enquanto o esoterismo parece interessar-se mais pelos intermediários revelados ao seu olhar interior pela virtude de sua imaginação criadora do que tender essencialmente para a união com o divino; prefere permanecer na escada de Jacó, por onde sobem e descem os anjos (e decerto outras entidades também) do que ir além. A distinção só tem valor prático; também existe às vezes muito esoterismo entre os místicos (santa Hildegard de Bingen), e observa-se uma tendência mística acentuada em muitos esoteristas (Louis-Claude de Saint-Martin). E a imaginação que permite utilizar esses intermediários, esses símbolos, essas imagens, com finalidades de gnose, desvendar os hieróglifos da Natureza, colocar em prática ativa a teoria das correspondências e descobrir, ver, conhecer, as entidades mediadoras entre o mundo divino e a Natureza. Seria instrutivo escrever a história da imaginação no Ocidente, isto é, de sua condição. Dessa forma seria enfatizada a importância dessa imaginação de que tratamos. Não apenas a simples faculdade psicológica encerrada, como em Kant, entre a percepção e o conceito, ou a louca da casa, senhora de erro e de falsidade, da qual são vítimas os que fogem do mundo permanecendo presos em seu próprio universo interior. Mas uma espécie de órgão da alma, graças ao qual o homem poderia estabelecer uma relação cognitiva e visionária com um mundo intermediário, com um mesocosmo — o que Henry Corbin propôs chamar um mundus imaginalis. A influência árabe (Avicena, Sohravardhi, Ibn Arabi) pôde exercer aqui uma influência determinante no Ocidente, mas sem o desvio da qual o paracelsismo encontrou categorias muito comparáveis. E foi sobretudo sob a inspiração do Corpus Hermeticum, redescoberto no final do século XV, que memória e imaginação se encontraram associadas a ponto de se confundir, uma parte do ensinamento de Hermes Trismegisto consistindo em "interiorizar" o mundo em nossa mens; daí as "artes de memória", cultivadas numa luz de magia durante e após o Renascimento. Compreendida dessa maneira, a imaginação (imaginatio é parente de magnet, magia, imago) é o instrumento do conhecimento de si, do mundo, do mito, o olho de fogo que perfura a casca das aparências para fazer brotar significações, "relações", para tornar o invisível visível, o "mundus imaginalis", ao qual o olho de carne sozinho não dá acesso e para trazer dali um tesouro que contribui para uma ampliação de nossa visão prosaica. A ênfase é colocada na visão e na certeza, mais do que na crença e na fé. Essa imaginação fundamenta uma filosofia visionária. Sobretudo empolga o discurso teosófico no qual ela se manifesta e aí se desdobra a partir de meditações sobre os versículos do Livro revelado: assim ocorre com a cabala judaica, com o Zohar, ou na grande corrente teosófica ocidental que toma impulso na Alemanha no início do século XVII.