====== CRIAÇÃO DAS ALMAS NO KORE KOSMOU ====== //FESTUGIÈRE, A. J. Hermétisme et mystique païenne. Paris: Aubier-Montaigne, 1967// * A criação das almas na Korè Kosmou e sua relação com a literatura alquímica * Reitzenstein (1904) comparou a revelação hermética de Ísis a Hórus com a paradosis de Ísis a Hórus na alquimia * Zielinski (1905) demonstrou que a composição do "misturado" de onde provêm as almas (Korè Kosmou 14-21) é operação alquímica, salientando os termos krama, epipagos, exatmizomenon anthos * A questão central não é a natureza química exata do processo, mas o objetivo: o demiurgo na Korè Kosmou fabrica um "misturado de animação" (psychosis) da mesma forma que o alquimista busca o "mercúrio filosófico" destinado a vivificar os metais * A primeira e a segunda operação demiúrgica na Korè Kosmou * Deus, querendo animar o mundo superior, decide enchê-lo de espíritos (pneumata) e procede à operação (techniteia) * Mistura seu sopro com fogo e substâncias desconhecidas, profere encantamentos e agita o composto até surgir à superfície uma matéria mais sutil, pura e transparente, chamada "Animação" * A formação repete-se sessenta vezes, originando sessenta camadas e sessenta tipos de almas, correspondentes a sessenta regiões (chorai) atmosféricas * Todas as almas são eternas, derivadas da mesma substância, mas de perfeição decrescente * Segunda operação: fabricação da matéria dos signos zodiacais antropomórficos e zoomórficos a partir de uma água e uma terra analogicamente preparadas, agitados e insuflados com sopro divino * Terceira operação: com o resíduo (leipsanon) dessa mistura, as almas moldam os corpos dos animais, que recebem o espírito invisível (to aoraton pneuma) e o fermento de homoigênese (ousian te homoigônias), isto é, a capacidade de se reproduzir * A finalidade da operação alquímica na Korè Kosmou * Produção de uma matéria viva que gera as almas, princípio de vida * Produção de uma matéria viva que constitui os signos zodiacais, cuja função é transmitir vida pelos seus influxos * Obra do demiurgo reduz-se a criar matéria vivente, ou "Animação" * A analogia entre a techniteia demiúrgica da Korè Kosmou e o magistério perfeito dos alquimistas * O mercúrio filosófico é descrito como teinture, elixir ou fermento que vivifica os metais como alma * Assim como a psychosis da Korè Kosmou, o mercúrio é a substância que dá vida e mantém a vida dos corpos * Descrições simbólicas do mercúrio filosófico na tradição alquímica * Aparece como espuma (aphros), baba (aphrosualon), líquido espermático (apospermatismos drakontos), leite (gala), orvalho (drosos), líquido translúcido como o mel ático ou o vidro (hydor hualou) * No símbolo do ovo alquímico é o branco: "água argentada, espuma do mar, leite virgem, nuvem suspensa como astro" * É também descrito como "água de fogo", "água aérea", "espírito líquido" (pneuma hygron) * Denotação vitalista: "água de vida", "vida dos corpos", "alma dos metais" * Concepção vitalista da alquimia e sua aplicação ao metal * Os metais são concebidos como seres vivos: nascem, crescem, se nutrem e se reproduzem * Comparação com plantas: o metal é árvore que germina, floresce e frutifica, nutrido pela "água divina" * Comparação com o feto: o processo alquímico assemelha-se à gestação, com a necessidade de maturação plena para não gerar "abortos" (ektromata) * Exemplos: Livro de El-Habib, Zózimo e Cléópatra descrevem o processo como gestação e parto do "filho metálico" * A metáfora da geração e o princípio da reprodução segundo Ísis e Hermes Trismegisto * Ísis a Hórus: "Quem semeia trigo, colhe trigo; quem semeia homem, colhe homem; o semelhante gera o semelhante; o ouro colhe ouro" * Hermes a discípulos: "Quem semeia trigo faz nascer trigo; as substâncias são tingidas pelas substâncias" * A alma dos metais como essência luminosa * O metal possui corpo e alma: a fusão separa ambos, como a morte separa corpo e alma no homem * A alma do metal é o brilho, derivado da água divina, o pneuma baphikon (espírito tinctorial) * Exemplos: Agathodaimon descreve vapores como espíritos; Demócrito: "o arsênico tem uma alma e um corpo" * O corpo metálico é resíduo sombrio, a alma é a claridade que retorna ao céu * A manutenção da vida metálica pela água divina * Como plantas e recém-nascidos, os metais devem ser alimentados pelos mesmos princípios que lhes conferem vida * "A natureza vence a natureza, a natureza encanta a natureza": o cobre conserva-se com equilíbrio entre sólidos e líquidos, recebendo "água divina" * O poder de regeneração do mercúrio filosófico * A água divina pode matar o metal, mas também regenerá-lo com nova alma * Metais compartilham um mesmo corpo, mas recebem almas diversas, como graus de perfeição de uma única teinture * Esquema da Korè Kosmou: sessenta almas contra as sete tinturas metálicas da alquimia * A passagem de um estado metálico a outro é morte e renascimento, com regeneração pela água divina até a "alma de ouro" * O testemunho do "Diálogo de Cléopâtre e dos filósofos" * Ostanes e seus companheiros a Cléopâtre: "Em ti está oculto todo o mistério; dize como as águas descem ao Hades, como o pharmakon tes zoes desperta os mortos, como novas águas vêm com a luz" * Cléopâtre: "As águas arrancam do sono os corpos e espíritos, consolam-nos no Hades, revestem-nos de cores brilhantes como flores de primavera" * Cléopâtre: "O fogo prova todas as coisas; quando recebem a glória do fogo, a natureza terrestre se torna divina" * Cléopâtre: "O mistério dos filósofos é divino: o corpo torna-se luminoso, a alma e o espírito se alegram; 'Desperta do Hades, ressuscita do túmulo'; corpo, alma e espírito unem-se em amor, tornam-se um só, cheios de luz e deidade" * A regeneração é obra do fogo que os conduz da morte à vida, da doença à saúde, da escuridão à luz * A relação entre o Diálogo de Cléopâtre e a Korè Kosmou * As "águas benditas" que produzem a pneumatosis dos metais correspondem à psychosis da Korè Kosmou que gera os pneumata * Hipótese de Zielinski: a "Virgem do Mundo" (Isis) seria o mercúrio, descrito como phygadodaimon kore e parthenos pyripheuktos * Observação de que o mercúrio virgem é substância fluida a ser fixada por espírito, como a Korè que porta e dá à luz a revelação * Dupla interpretação de Korè: "Virgem" ou "Pupila" * Reitzenstein e Zielinski afirmam que o teleion melan dado a Ísis por Kamêphis é a alquimia * Olympiodoro: "Zózimo alude à kore do olho e à íris celeste" * Ísis é o olho do sol; Ísis pode ser assimilada a Íris como reveladora e logos proforikos, discípula e emuladora de Hermes-Thoth, o logos revelador da sabedoria hermética e instrutor de Ísis, "Pupila do Mundo"