====== Paracelso (Koyré) ====== //Alexandre Koyré — PARACELSO. "Místicos espirituales y alquimistas del siglo XVI alemán"// * Poucas pessoas em sua época tiveram obra de maior ressonância e influência do que Teofrasto Paracelso, que provocou lutas ardentes e conheceu admiração tão grande quanto hostilidade implacável, mas sobre cujo pensamento se sabe comparativamente pouco. * As questões sobre o que foi Paracelso — sábio profundo, charlatão, precursor da ciência racional, místico medieval, cabalista panteísta, médico cristão, reformador evangélico — encontram todas representação na enorme literatura paracelsista. * Falta um análise exato e paciente de suas ideias e do mundo de ideias em que seu pensamento se movia. * O esboço proposto renuncia ao estudo de fontes e influências assim como ao estabelecimento de relações e paralelos. * O maior obstáculo ao estudo de um pensamento que não é o nosso é não tanto captar o que o pensador não sabia, mas esquecer o que sabemos ou cremos saber, adotando modos e categorias de raciocínio que para pessoas de época pretérita eram bases tão válidas quanto os princípios da física matemática o são para nós. * Buscar em Paracelso precursores do pensamento contemporâneo, formulando-lhe questões em que nunca pensou, é desconhecer profundamente sua obra e encerrá-lo em dilemas que eram contraditórios para nós mas provavelmente não o eram para ele. * Paracelso foi isto e aquilo ao mesmo tempo: influenciado pelo naturalismo hilozoísta e mágico do Renascimento e provavelmente adepto da mística alemã. * Paracelso combateu a ciência médica de seu tempo proclamando o valor da experiência, mas a experiência que preconizava não tinha nada em comum com a experiência tal como a entendemos hoje, e combateu a alquimia e a astrologia não por não crer na influência dos astros ou na possibilidade de fabricar ouro. * A influência dos astros era para ele tão certa quanto a vida do mundo, e o único meio de explicar razoavelmente a produção e a propagação de doenças epidêmicas. * A alquimia e a astrologia com seus conceitos de Tinctur e Gestirn eram para ele os fundamentos de sua ciência e as duas colunas mestras que sustentavam o edifício da philosophia sagax. * Paracelso mostrou espírito crítico ao admitir a influência dos astros apenas para fenômenos massivos como epidemias, sem aceitar a astrologia judiciária. * Paracelso não era muito sábio em termos de ciência livresca, sendo na cátedra e na prática um empírico cujo saber provinha de velhas mulheres semibuxas, práticas populares, receitas tradicionais, métodos de barbeiros de aldeia e procedimentos de laboratório de mineiros e fundidores. * Era um chyrurgus, homem de prática e ofício, não de estudo, e adotou o dialeto germânico em vez do latim porque seus ouvintes não sabiam latim suficiente. * Paracelso introduziu na prática os remédios metálicos e o ópio, que parecem ser o único progresso real que aportou à ciência médica. * Paracelso é uma das aventuras mais curiosas da história do pensamento: fantasia superabundante, paixão de saber e curiosidade apaixonada pelo mundo se encarnaram em seu gênio bárbaro, e a dissolução da ciência medieval provocou nele mais do que em qualquer outro contemporâneo um renascimento das superstições mais primitivas. * A metade do que ensina é folclore ridiculamente vestido de nomes estranhos com raízes e terminações latinas e gregas que inventa com alegria infantil. * Toda a fauna dos contos populares se encontra em Paracelso: Evestra, Larvae, Leffas e Mumiae provêm do folclore. * O espírito do Renascimento e o da Reforma uniam-se em sua alma não como Renascimento literário e sábio nem como Reforma teológica, mas como se uniam na alma popular da época. * O caráter batalhador, agressivo e jactancioso de Paracelso, sua inquietude perpétua e sua curiosidade apaixonada impeliam-no a ver tudo e saber tudo no mundo, na realidade e na vida, e não nos livros nem na sabedoria morta dos sábios oficiais. * Os doutores de barrete, ignorantes que não falavam senão de Avicena e Rasés, associavam-se com farmacêuticos para prescrever remédios caros e complicados sem saber curar. * O dever supremo do médico é ajudar a natureza em sua luta contra a doença, ser aliado da vida e não seu senhor, pois a natureza cura por si mesma. * A Vida e a Natureza são os grandes temas da filosofia paracelsista e de toda a filosofia do Renascimento: a natureza é vida, o mundo está vivo em todas as suas partes, pedras e astros, metais, ar e fogo, e o universo em sua totalidade é um rio eterno de vida. * Esse rio se propaga e se rompe em correntes isoladas e múltiplas que se encontram, lutam e combatem, mas todas procedem de uma só fonte e vão se perder num mesmo oceano de vida. * Paracelso não aprendeu seu sentimento da natureza nos livros nem nas doutrinas clássicas, mas principalmente em si mesmo, como ocorre com o Renascimento em toda parte. * Para Paracelso, a natureza não é um sistema de leis nem um sistema corporal regido por leis, mas a força vital e mágica que sem cessar cria, produz e lança ao mundo novos seres, podendo tudo porque é tudo. * A natureza é comparável ao fluxo interior da alma humana que faz surgir pensamentos, desejos e imagens: distintos da alma, todos a expressam e fazem parte dela sem ser ela. * Não foram raciocínios especulativos mas a vida exuberante sentida em si mesmos que levou Paracelso e seus contemporâneos ao panvitalismo mágico, e as razões especulativas foram buscadas depois para fundamentar racionalmente uma atitude do espírito. * O princípio do raciocínio por analogia em sentido vitalista levava da doutrina do homem microcosmo — centro, imagem e representante do mundo — a uma imagem coerente do universo como corpo visível do espírito invisível e expressão tangível de forças imateriais. * Conhecer é assimilar, tornar-se em certa forma idêntico ao objeto que se quer conhecer, e não há conhecimento sem simpatia nem simpatia sem semelhança. * Só o semelhante conhece seus semelhantes: por isso se pode conhecer interiormente o que é semelhante fora de nós mesmos. * A tradição concordava perfeitamente com a sabedoria popular nesse ponto: ninguém pode compreender o outro se não pode em certa medida identificar-se com ele.