====== SENTIDO DA ALQUIMIA ====== //Enciclopédia Einaudi 18. Natureza — Esotérico/exotérico. Lisboa: IMPRENSA NACIONAL-CASA DA MOEDA, 1990// [[Alquimia]] * A alquimia contrapõe à concepção cartesiana da matéria como massa inerte, pura quantidade e extensão, uma visão em que matéria e espírito estão ligados como princípio limitativo e receptivo com princípio ativo e operante, unificando intimamente a ordem natural e a humana-espiritual e prolongando o destino do homem no devir natural. * A alquimia não propõe apenas a aproximação qualitativa do macrocosmos e do microcosmos, mas dá preeminência ao vínculo com a totalidade, considerando que o inferior é como o superior — e é nessa perspectiva que astrologia e alquimia se relacionam como o céu e a terra, com os astros expressando o princípio ativo em descida e os metais expressando o princípio receptivo em ascensão, formando, segundo Burckhardt, uma gama ontológica à qual se podem referir os aspectos da natureza exterior e da natureza psicofísica do homem. * O universo responde ao critério da circularidade — chamada pelos alquimistas transformação das naturezas ou ciclo dos elementos —, em que todos os elementos se transformam uns nos outros e, como exprime Sinésio, tudo parte do Uno e regressa ao Uno, sendo a matéria-prima do mundo um fundo plástico e indeterminado capaz de assumir todos os estados e formas possíveis. * Os processos alquímicos descritos na Summa perfectionis de Geber — volatilização, precipitação, destilação, calcinação, coagulação, redução e outros — fazem todos pensar nessa matéria-prima que, permanecendo igual a si mesma, assume infinitamente formas diversas. * A matéria-prima não deve ser entendida como princípio vago, irracional e inconsciente, mas como fundo plástico e indeterminado que é o último garante da estrutura unitária do mundo através da infinita mudança de seus modos. * O universo é atravessado simultaneamente pela ação pessoal de Deus e pela força impessoal da natureza — energia inexaurível que impele ao ato as possibilidades intrínsecas das coisas e do homem, distinguindo-se no homem da livre energia da vontade, conservando um aspecto de fatalidade e revestindo-se do significado da ordem e do ritmo. * A relação da natureza com Deus é tanto de transcendência quanto de imanência: a natureza é a própria ordem em que se exprime concretamente a realidade transcendente de Deus, e todo o ser singular entra no plano divino do mundo. * A perspectiva de Deus que não se exprime no universo constitui, para a alquimia, mais um resíduo religioso do que o ponto de vista específico da arte. * A natureza promove ininterrupta irrupção e dissolução de formas, e o alquimista age como a natureza seguindo o princípio do solve et coagula tanto no mundo das coisas quanto na vida da alma, conformando-se ao ritmo do cosmos. * O universo é tomado pela alquimia tanto em sua unidade radical quanto em suas articulações internas, sendo concebido como organismo vivo em que todas as partes, embora distintas, estão ligadas de modo necessário — segundo Jâmblico, citado pelos alquimistas, o mundo é um animal vivo —, e no interior dessa unidade configuram-se simpatias e antipatias vinculadas aos dois princípios complementares, o ativo e masculino e o passivo e feminino. * O dualismo sexual transforma-se, segundo antiga tradição, no princípio explicativo tanto da oposição e do contraste quanto de sua integração e superação. * O universo e o homem constroem-se segundo o mesmo plano divino, que permite ligar as três pessoas em Deus, os três princípios materiais da natureza — enxofre, sal e mercúrio — e os três princípios do ser humano — corpo, espírito e alma. * Dois triângulos equiláteros entrelaçados representam na criptografia alquímica a perfeita correspondência do macrocosmos e do microcosmos; segundo Paracelso, o estudo da matriz é também a ciência da gênese do mundo. * A perda pelo homem de sua condição original é interpretada como intervenção da desunião, e a recuperação da completude como reconciliação das duas forças em conflito — desunião interior e desunião orgânica são aspectos do mesmo processo. * Não existe separação rigorosa, no estatuto da alquimia, entre âmbito teórico e dimensão prática, sendo o quadro teórico continuamente posto à prova como critério diretor de operações de transformação do mundo, e tendo como objetivo final a produção da pedra filosofal — pedra vermelha, transparente e fluida capaz de transformar metais, curar o corpo humano de todas as debilidades e devolver-lhe a saúde. * O alquimista construía seus próprios aparelhos e operava sobre grande número de substâncias dos três reinos da natureza, em operações de variações regulares de calor. * Alguns alquimistas, sobretudo Paracelso em De natura rerum, chegaram a considerar possível a criação artificial de um ser humano — a doutrina do homunculus —, seja como alegoria da pedra filosofal, seja como mito prometaico de consequências mais amplas. * O chumbo representa o estado caótico tanto do metal quanto do homem em sua interioridade, enquanto o ouro exprime a perfeição tanto da realidade metálica quanto da humana, sendo todas as outras condições etapas intermediárias no caminho para a estabilidade e a perfeição. * A alquimia apresenta elementos comuns às experiências místicas — aponta para compreensão unitária e total que é conjuntamente conhecimento e sabedoria, desenvolve indagação especulativa das conexões misteriosas do universo por meio de símbolos, representações alegóricas, narrativas mitológicas e criptografia —, mas separa-se da mística por propor não a penetração íntima da realidade de Deus, mas a reconstituição da condição original da natureza humana, seguindo a via do conhecimento — mais propriamente a gnose — e não a via do amor. * A alquimia pode tanto prescindir da perspectiva religiosa quanto integrar-se nela ou expressar-se em sentido contrário a ela, pois delimita um âmbito operativo e teórico cuja referência primeira e essencial não é a teológica, mas a cosmológica. * A transformação da alma para a qual a alquimia tende não é perseguida como propósito voluntário e livre, mas como um capítulo das vicissitudes do universo inteiro e do drama de sua libertação — segundo Burckhardt, a alquimia comporta-se como ciência ou arte da natureza, tratando qualquer estado da consciência interior como expressão da natureza única que compreende tanto as formas exteriores e corpóreas quanto as interiores e psíquicas. * O caráter privilegiado e não comum da compreensão que a alquimia reclama — expresso por Geber na Summa ao afirmar que a arte não deve ser tão obscura que exclua os sábios nem tão clara que todos a compreendam — não deve ser buscado em preocupações práticas imediatas, mas na instância de distinguir a aparência imediata das coisas e o sentido literal da linguagem da estrutura ontológica universal que só uma certa via e uma certa regra, compreensíveis apenas pelos iluminados pela sapiência, podem revelar. * Segundo Artefio, pretender interpretar a tradição alquímica segundo o significado habitual das palavras significaria perder-se nos caminhos de um labirinto sem jamais encontrar a saída. * A disciplina rigorosa da alquimia exige que a imediata expressão subjetiva seja purificada mediante uma aproximação ao horizonte cosmológico, mantendo distância de quem cultivaria a arte com o propósito imediato de obter vida longa, saúde ou riqueza. * A ciência moderna constituiu-se em parte por procedimentos que se opõem às perspectivas cosmológicas da alquimia, mas em seu desenvolvimento mais complexo abre-se a certa semelhança com o quadro teórico alquímico, recuperando, para além de determinações excessivamente rígidas, uma consideração mais atenta às continuidades, às conexões inéditas e a uma renovada circularidade tanto da cultura quanto do mundo real. * A oposição principal persiste na exigência qualitativa da alquimia frente às estruturas quantitativas da ciência moderna, no vasto quadro simbólico e alusivo alquímico frente à linguagem rigorosa da ciência, e na diferença entre o nexo intrínseco alquímico entre conhecimento e intervenção operativa e o desenvolvimento atual de momentos mais diferenciados da indagação científica. * Nas origens, porém, a ciência não renunciou às vastas conexões cosmológicas nem à consideração unitária do universo, não devendo ser confundida com os desenvolvimentos estritamente técnico-operativos das fases posteriores ou com a perda da dimensão cultural unitária do saber científico. * A passagem da alquimia à atual consideração unitária do universo processou-se por profundas transformações, mas como em todos os desenvolvimentos históricos autênticos, até as posições mais afastadas e contraditórias se ligam por um fio de continuidade e integração, o que obriga a considerar a existência da alquimia como algo muito diverso de um erro colossal e rico de um significado amplo e construtivo.