====== Arabização ====== //[[.:start|R. CANSINOS ASSENS]], in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas ... 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.// * O caráter árabe reflete-se na psicologia poética e no desdém pelo detalhe circunstancial, preferindo o mistério, as sombras e os véus que sedam o espírito. * Falta de espírito crítico em comparação com a tradição ocidental grega. * Tendência a transformar a história em legenda, tornando a verdade suspeita de ficção mesmo quando acompanhada de dados concretos. * Genealogias e autoridades acadêmicas discutíveis que servem mais ao encanto do que à precisão. * A crença absoluta na própria narrativa dispensa a necessidade de validação externa, assemelhando-se ao comportamento de Maomé. * Maomé como o maior poeta de sua raça, apesar de ser inimigo declarado dos poetas. * Relatos das visões do profeta como revelações do arcanjo Gabriel aceitas com total boa-fé. * O Alcorão possui uma natureza onírica que o aproxima das Mil e uma noites, ambas obras marcadas pela falta de unidade e coerência inicial. * O Alcorão teve revisores oficiais que organizaram o texto, enquanto as Mil e uma noites permaneceram em uma forma caótica através dos séculos. * Menção ao califa Otman e ao corpo de exegetas e memorizadores que ordenaram o livro sagrado. * Comparação do papel de Otman com o de Aristarco de Samotrácia em relação à Ilíada de Homero. * A ausência de uma ordenação formal deu origem a fantasias eruditas e à lenda de uma antiguidade fabulosa para o livro. * Erro ingênuo de atribuir ao narrador a longevidade das histórias contadas. * As Mil e uma noites narram eventos que confinam com a pré-história, mas a obra em si é jovem em comparação aos clássicos do Ocidente e da Índia. * Comparação de idade com o Mahabharata, a Ilíada e o Hitopadesa. * Caracterização de Xerazade como uma criança que conta histórias de avó lidas em livros velhos. * Xerazade atua como uma reconta-recontadora de analectos incoerentes, sem um plano definido além do ciclo noturno. * Objetivo de ganhar noites à morte e passar o tempo. * A desordem indolente da obra é tipicamente árabe, contrastando com a estrutura planejada de obras gregas e hindus. * Presença de argumento e personagem central na Ilíada e na Odisseia. * Plano educativo concreto no Hitopadesa sob a presidência do pandita Vishnu Sarman. * O livro não possui um desfecho lógico obrigatório e poderia terminar em diferentes pontos conforme a cultura do ordenador. * Possibilidade de um final filosófico-humorístico após a descoberta da infidelidade universal das mulheres pelos dois reis. * Alternativa de um final erótico-homicida mais condizente com a psicologia oriental. * Rapsodos árabes prolongaram a obra introduzindo o tema da cura psíquica do rei através do tratamento literário. * Influência bíblica dos livros de Ester e Judite na ideia da intervenção redentora da mulher. * Missão de Xerazade em salvar as mulheres através de sua discrição e virtude. * A presença de anedotas libertinas e misóginas no texto representa uma incongruência em relação ao plano de redenção da heroína. * Exemplo das histórias do Rei Uarduján que ressaltam a falsidade feminina. * A falta de unidade manifesta-se na incerteza sobre o destino final de Xerazade, cujo perdão real pode ser um acréscimo tardio. * Versão de Trébutien onde o rei, entediado, ordena a execução da narradora. * A incoerência narrativa concorda com a psicologia nômade que arma e desarma tendas e histórias com facilidade. * Rejeição à estabilidade e permanência, refletindo uma psicologia fragmentada na literatura. * O árabe nômade e mercador mistura lenda, história e poesia em sua bagagem cultural conforme transita pelo mundo. * A estrutura heteróclita da obra carece de um Aristarco que lhe confira coerência ao gosto ocidental. * Opinião de Burton sobre a necessidade de coordenação lógica, considerada contrária ao gosto oriental. * O método sincrético e anacrônico de formação de livros é típico do gênio semita, incluindo o Alcorão. * Inspirações noturnas do Profeta que mesclavam revelações divinas com lendas contadas por Gabriel. * É inútil buscar um argumento fechado em um livro onde temas se repetem e se contradizem para satisfazer diversos gostos. * O sucesso de Galland deveu-se justamente à seleção e ordenação dos contos em sua versão. * O processo biogenético das Mil e uma noites é análogo ao do Alcorão, baseado na recordação de materiais já existentes. * Definição do Alcorão como um recordatório ou memorial. * A tese de Gaeje aponta o livro bíblico de Ester como o ponto de partida e motivação inicial para o centão noturno. * O núcleo original agrava o pecado da rainha Vasti e a punição imposta pelo rei, gerando a misoginia homicida do monarca. * O rei passa a desposar e matar uma virgem a cada noite, criando o motivo condutor das noites. * A introdução de Xerazade como redentora combina elementos dos livros de Ester e Judite. * Xerazade possui o arrojo de Judite e a doçura de Ester. * Dúvida sobre a intenção inicial de Xerazade em matar o rei caso a palavra falhasse. * O argumento inicial assemelha-se a uma narrativa talmúdica judaica, possivelmente escrita na Babilônia por volta do século quinto. * Elaboração por rabinos exilados cujas tradições foram posteriormente colhidas por Maomé. * O número de mil e uma noites pode ter sido uma imposição posterior por desejo de ampliação ou imitação de outros títulos. * Possibilidade de o texto original desenvolver-se em apenas uma noite e uma história. * Escritores árabes islamizados encontraram referências ao livro após a conquista da Pérsia e ampliaram o marco com versos e histórias. * Risco de desaparecimento do original durante as purificações de livros antigos ordenadas por Omar. * A abundância de elementos na literatura persa facilitou o preenchimento do marco narrativo. * Presença da nebulosa poética que gerou obras como o Livro dos Reis e o Livro de Alexandre. * Herança de tradições da Índia, Caldeia e Assíria concentradas na Babilônia. * Rapsodos árabes aproveitaram memórias da humanidade pré-histórica para povoar o mundo fantástico do livro. * Histórias de fadas, gênios e seres híbridos que refletem a interpretação mística de fenômenos naturais. * Os primeiros livros religiosos e grandes poemas surgiram de lembranças difusas do homem sobre cataclismos e fenômenos da natureza. * Identidade original entre poesia e religião. * Distinção entre o sagrado e o profano operada pela espada do legislador ou profeta. * Livros sagrados como o Rig-Veda e a Bíblia são compilações de lendas submetidas ao critério dogmático. * Permanência de temas como lutas com grandes répteis e a genealogia da primeira dupla humana. * Profetas como Zaratustra e Maomé estabeleceram seus textos como a única verdade, relegando o restante ao domínio dos sonhos. * Os rapsodos das Mil e uma noites utilizaram esses sonhos e delírios para preencher as lacunas das noites. * Incorporação de lendas milenares ariopersas irmãs das contidas no Alcorão. * Ecos do Dilúvio, destruição de cidades como castigo divino e intervenções de anjos e demônios. * Mitificação de figuras como Alexandre Magno e Salomão sob a ótica semita e ária. * A contribuição genuinamente árabe ao livro consiste na mistura de elementos históricos reais com a lenda. * Autorização de histórias fabulosas através de nomes de monarcas famosos. * O elemento puramente árabe inclui anedotas históricas retiradas de crônicas sobre os califas e a vida pré-islâmica. * Uso de obras de Ibn Qutaiba, Ibn Khallikan e Al-Masudi. * A gestação do livro estendeu-se do século oitavo ao décimo primeiro da Hégira, embora suas raízes remontem ao século primeiro. * O Talmude exerce influência igual ou superior à tradição ariopersas na estrutura das Mil e uma noites. * A linha inicial da obra é semítica e apresenta um feminismo hebraico que busca dignificar a mulher. * Contraste com histórias antifeministas de origem ária ou persa, como o Livro de Sindbad, inseridas posteriormente. * Diferente do Calila e Dimna, o livro não possui intenção didática ou moral racional, sendo passional e emotivo ao modo hebraico. * A obra é um palimpsesto onde o último compilador aplicou uma máscara islâmica retrospectiva sobre um fundo não islâmico. * Possibilidade de interpretação esotérica conforme sugerido por Roso de Luna. * O livro permanece misterioso em sua origem, sendo as histórias literárias atuais apenas andaimes de hipóteses subjetivas. * Trabalhos de Littmann, Goester e Krimsky como teias de aranha de indução. * Deve-se aceitar a forma atual como um livro árabe e estudar sua língua e estilo sob essa perspectiva.