====== Fontes ====== //[[.:start|R. CANSINOS ASSENS]], in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas ... 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.// ** Hipótese indianista ** * A hipótese indianista é antes uma presunção sugerida pela estrutura do livro e por detalhes tópicos e substanciais que fazem pensar em uma influência hindu. * As Mil e Uma Noites se assemelham ao Calila e Dimna, com a diferença essencial de que seus personagens são pessoas e não animais, marcando uma transição da fábula ao conto — e a técnica é a mesma do livro sânscrito, consistindo no entrelaçamento característico de histórias que se enredam, complicam e nascem umas das outras em partenogênese, respondendo a uma intenção moral de alta pedagogia em imagens. * A Índia aparece já mencionada no exórdio do livro — o rei Schahriar é senhor das ilhas de Al-Hind, seu nome pode ser interpretado como Senhor-Ario-da-cidade, e os nomes das duas irmãs Schahrasad e Dunyasad são deformações evidentes de Karataka e Damnaka, que em sânscrito significam respectivamente "domadora" e "gralha", conservando neste último um vestígio zoológico. * Tudo o que há de fabuloso no livro procede da Índia — do fundo fantástico do Mahabharata e do Ramayana, onde já se encontra a mitologia de anjos, demônios, fadas e gênios que pululam nas Noites, assim como a fauna monstruosa de homens-peixes e homens-macacos, sendo hindus a paisagem e a atmosfera das Mil e Uma Noites. * O modelo sânscrito em que os autores das Mil e Uma Noites originais poderiam ter se inspirado está perdido, e o único que poderia ser suposto como sua paráfrase ou refundição é um livro persa escrito em pálavi — o Hasar Afsanah ou Mil Contos, de autor igualmente anônimo e igualmente perdido, sem deixar outra marca além de seu título, inscrito no censo mortuário de livros denominado Muruchu-z-Zahab (Praderas de Ouro), do polígrafo árabe Abu-l-Hasán Al-Masûdi, que floresceu em Basra no século IV da hégira. * O título íntegro da obra de Al-Masûdi é Al-Maruchu-z-Zahab ua Máadini-l-Gahuar (As praderas de ouro e minas de pérolas). * Nessa obra lê-se o seguinte: "De essa classe é o livro intitulado Hasar Afsanah ou Mil Contos, palavra que equivale ao árabe Zurafah (Facetiae), que o vulgo conhece por O livro das mil e uma noites (Kitabu-alf-Leilah ua Leilah). Trata-se de uma história de um rei e seu visir, a filha deste e uma escravinha que levam os nomes de Schirsad (filha de Leão) e Dinarsad (filha de Dinar). E dessa classe são também as histórias de Farzah e Simás, que contêm pormenores referentes aos reis e visires de Hind: o Livro de Sindbad e outros de caráter análogo." * Von Hammer reforçava sua argumentação citando outro trecho do mesmo Al-Masûdi, em que o historiador árabe menciona que Al-Manzur — segundo dos califas abássidas e avô de Harum-al-Rashid, no século II da hégira — mandou traduzir ao árabe muitos livros gregos, latinos, siríacos e persas, entre eles o Kalilah ua Damnah, as Fábulas de Bidpai (Pilpai), a Lógica de Aristóteles, a Geografia de Ptolomeu e os Elementos de Euclides. * Von Hammer conclui em hipótese: "Tudo induz a crer que o original das Mil e Uma Noites foi traduzido ao árabe sendo califa Al-Manzur, ou seja, trinta anos antes de sê-lo Harum-al-Rashid, que depois havia de desempenhar nessas histórias tão preponderante papel." * Von Hammer cita ainda outros argumentos, expostos na seguinte ordem: um século após a menção de Al-Masûdi, um poeta que assina "Rasti" — takhallus ou pseudônimo — e que era um dos vates de câmara do sultão gasnévida Mahmud (século XI da era cristã) pôs em verso e provavelmente refundiu o Hasar Afsanah. * No famoso Kitabu-l-Fihrist — ou Livro índice — de obras arábigas, composto no século IV da hégira por Mohammed-ben-Ishak-an-Nadim, popularmente conhecido por Ebn-Lakub El Werrek — e que Burton retifica como Abu-l-Farach Mohammed Ibn-Ishak, vulgarmente conhecido por Ibn-Ali Yakub Al-Uarrak, baseando-se em Ibn Jalikan —, lê-se o seguinte: * "A primeira parte sobre a história dos confabulatores nocturni e dos recontadores de aventuras fictícias, juntamente com os nomes dos livros que tratam de tais matérias." * "Os primeiros que compuseram temas de imaginação e deles fizeram livros e os depositaram nas bibliotecas, dispondo alguns deles como referidos por línguas de animais, foram os paleopersas e os reis da primeira dinastia." * "Os reis ascânios, ou da terceira dinastia, acrescentaram outros àqueles e os aumentaram e ampliaram nos dias dos sassânidas (quarta e última dinastia)." * "Os árabes também os verteram a sua língua e os puliram e embelezaram, e escreveram outros semelhantes. A primeira obra dessa classe foi o Livro de Hasar Afsanah, que significa Alf-Zarafah, cujo argumento é o seguinte: um rei dos reis costumava, quando casava com uma mulher e passava com ela a noite, mandá-la matar na manhã seguinte. Casou uma vez esse rei com uma donzela filha de reis, Schahrasad, dotada de talento e erudição, a qual, enquanto jazia com o rei, pôs-se a contar-lhe histórias de fantasia e ao final da noite encadeava sua história em outra, própria a induzir o rei a poupar-lhe a vida para que lhe referisse o desfecho na noite seguinte, e assim até que mil noites se cumpriram. O rei seguia coabitando com ela até que ela concebeu um filho, comunicou-lhe o ardil de que se valera, e então o rei se maravilhou de sua inteligência, afeiçoou-se a ela e perdoou-lhe a vida. Tinha esse rei uma Kahramanah chamada Dinazard, que secundou a esposa em sua empresa." * "Dizem também que esse livro foi composto para Humai, filha de Bahmán, e que nele se continham outros argumentos." * Mohammed-ben-Ishak acrescenta: "E é a verdade — se Alá quiser — que o primeiro que se recreou ouvindo contos de noite foi Al-Iskandar (Alexandre, o macedônio), que tinha um número de homens encarregados de contar-lhe histórias imaginárias e fazê-lo rir, embora sua intenção não fosse apenas distrair-se, mas também aprender, por essas histórias, a ser mais cauto e prudente. Depois dele, os reis fizeram uso do livro intitulado Hasar Afsanah, o qual contém mil noites, mas menos de duzentos contos de noite, pois uma só história abarca nele várias noites. Eu o vi completo várias vezes, e é na verdade um livro corrompido de rançosas histórias." * O único livro que poderia ser invocado como modelo ou versão original das Mil e Uma Noites árabes é, pois, o livro persa — e, além disso, um livro fantasma — de modo que, à falta de realidade, os partidários da tese hindu se amparam nessa sombra e, inferindo sua existência de sua certidão de óbito, já que tudo o que morre viveu, a apresentam como testemunha no debate sobre a origem das Mil e Uma Noites, sendo assim obrigados a abandonar a tese hindu para desposar a tese persa — e é o que faz Von Hammer-Purgstall, descendo um degrau da escada. ** A tese persa ** * Von Hammer-Purgstall defende sua tese persa com tanto mais facilidade quanto quase tudo o que se poderia afirmar sobre a origem hindu das Mil e Uma Noites é transferível aos persas, cuja literatura e fundo religioso-místico não são senão uma adaptação em escala reduzida das colossais criações bramânicas. * Os antigos iranianos, animados por um sentido helênico da medida, reduziram as proporções gigantescas dos palácios e poemas hindus à escala do humano, introduziram ordem e clareza nesse caos de grandeza monstruosa e trabalharam com arte preciosista e minuciosa o marfim e o ouro da Índia. * Os persas constituem um termo médio entre a grandeza desmesurada da Índia e a nulidade imaginativa dos semitas — e Babilônia foi em seu tempo um grande laboratório de poesia e de teologia mística, como o foi depois a Alexandria dos Ptolomeus. * Em Babilônia os homens viram os anjos pela primeira vez, e todas as teogonias e cosmogonias semíticas dali procedem. * O cativeiro dos judeus em Babilônia foi para eles uma escola de cultura iniciática, e toda a ardente espiritualidade que inspira as flamejantes visões de Ezequiel e os plácidos devaneios de Isaías é a febre mística que se respira naquela cidade. * Séculos depois, quando o exílio se converte em dispersão, é em Babilônia que os judeus se sentam a compilar o Talmude — livro em que a rigidez do Antigo Testamento se humaniza e se floresce de sorrisos poéticos. * Há uma analogia notável entre as Mil e Uma Noites e o Talmude — em ambos os livros há de tudo, verdade e lenda, recordações de raça e visões universais, e ambos são como arcas em que dois povos, em vias de dispersão, encerram seus pergaminhos e suas múmias. * Os persas estão, como os gregos, entre o Oriente e o Ocidente — são belos, inteligentes e sonhadores, e aptos por suas condições naturais para exercer a alta diplomacia da cultura, sendo um povo-fênix que ressurgiu três vezes de suas cinzas, falou três línguas, escreveu em três alfabetos e conta seus dias por vários calendários. * Os persas tiveram três civilizações, passaram pela escola helênica e traduziram os maiores livros sânscritos para o Ocidente, bem como as obras mais insignes da cultura grega para o Oriente — e foram eles os tradutores do Panchatantra, que em sua versão árabe, feita sobre a persa de Rudagi, Mekaffa deu a conhecer ao Oriente e à Europa. * Nada de estranho haveria em que os persas fossem também, com seu Hasar Afsanah, os autores originais das Mil e Uma Noites, compostas das histórias de noite que notoriamente nasceram sob seu céu noturno — e com todas essas razões indutivas os persianistas defendem sua tese. ** A tese árabe ** * Como os persianistas testemunham com um morto — o hipotético Hasar Afsanah —, não conseguem convencer os arabistas, que têm em seu apoio um vivo: o livro árabe. * Silvestre de Sacy — o barão Silvestre de Sacy, tradutor de Hariri e suprema autoridade da época em questões arábigas —, em sua Mémoire sur l'origine du Recueil des Contes, intitulé Les Mille et une nuits, lida perante a Academia de Inscrições e Belas Letras de Paris em 1829, rebate com grande cópia de argumentos eruditos as afirmações de seus adversários e sustenta a tese da origem absolutamente árabe do livro, sem vínculo genealógico com nenhum livro anterior, sânscrito ou persa. * Segundo De Sacy, as Mil e Uma Noites foram concebidas e escritas por árabes, em terras do Islã, sendo meros recursos literários as referências a personagens e países exóticos — Índia, Pérsia, China. * Mesmo nos contos localizados em cenários exóticos, observa De Sacy, os autores não fazem senão descrever gentes, costumes e acontecimentos de Bagdá, Mossul, Damasco e Cairo durante a época dos abássidas. * De Sacy menciona como exemplo a História do rei Kamaru-s-Semán e o rei Schahramán (Noites 148 a 176), cujo pai reina sobre muçulmanos, cuja mãe se chama Fátima, e em que o príncipe encarcerado se consola recitando versículos do Alcorão — o que basta para demonstrar que ali não se pode descobrir senão a obra de um literato muçulmano. * De Sacy faz notar ainda que o árabe das Mil e Uma Noites não é o árabe clássico, mas o vulgar, sugerindo tratar-se de uma criação da época de decadência literária do Islã, escrita provavelmente na Síria. * Quanto ao Hasar Afsanah, De Sacy nega-lhe categoricamente toda relação de paternidade e toda identidade com as Mil e Uma Noites, afirmando que os persianistas se deixaram seduzir por um equívoco — e expõe sua interpretação do passo de Al-Masûdi com estas palavras: * "Falando Masûdi das relações portentosas que corriam em seu tempo sobre certos monumentos e personagens da história dos árabes antes de Maomé, assegura que, a juízo de alguns, são outras tantas fábulas e narrações novelescas parecidas às que nos traduziram das línguas persa, indiana e grega, como, por exemplo, o livro intitulado Os mil contos. Esta é a mesma obra comumente chamada As mil noites e que contém a história do rei, do visir, da filha do visir e a ama desta, sendo os nomes daquelas mulheres Chirzada e Dinarzada." * "Se me perguntam o que digo do passo de Masûdi, advertirei, em primeiro lugar, que todo ele foi alterado, pois apresenta duas variantes de algum vulto. Não disputo que esse historiador tivesse notícia de um romance persa intitulado Os mil contos, e que esse romance se traduzisse ao árabe, como as Fábulas de Bidpai, sob o califado de Al-Mamum. Quanto às palavras esta é a mesma obra comumente chamada As mil noites, dou de barato que sejam de Masûdi, embora bem pudessem ser um acréscimo; mas o que tenho por certo é que Masûdi disse As mil noites e não As mil e uma noites. Essa noite a mais se deve com certeza aos copistas. Todo o que, em conclusão, pode extrair-se do texto de Masûdi é que houve outrora, com o nome de Mil contos, um livro de origem persa ou indiana, traduzido depois ao árabe, que não conhecemos, e do qual poderiam ter sido tomados os nomes dos principais personagens das Mil e Uma Noites." * De Sacy resume suas conclusões: "Minha opinião é que as Mil e Uma Noites foram escritas na Síria, em linguagem vulgar, sem que seu autor houvesse terminado o livro, já porque a morte o impediu, já por qualquer outra razão, e que, posteriormente, os copistas procuraram rematar a obra, incluindo nela histórias já conhecidas que não pertenciam a essa coleção, como As viagens de Simbad, o marujo e a História dos sete visires, ou compondo algumas eles mesmos, com maior ou menor fortuna, e que a isso se deve a grande variedade observada entre os diferentes manuscritos." * Ante a força desses argumentos, o orientalista francês Langlés, principal defensor da tese da origem ário-persa das Mil e Uma Noites, nada teve a replicar, e o orientalista austríaco Hammer foi obrigado a fazer concessões, reconhecendo a parte importante que cabe aos árabes na paternidade do livro — e a dissertação de De Sacy teve tanto êxito que Augusto Weil a colocou como prólogo à frente de sua versão alemã das Mil e Uma Noites. ** A tese persa com rubrica judaica ** * A tese persa reaparece com rubrica judaica, sustentada pelo orientalista holandês Gaeje, que com um só golpe — abrindo a Bíblia no Livro de Ester — demonstra de modo conclusivo que a motivação primeira das Mil e Uma Noites não deriva do Calila e Dimna nem de nenhum livro sânscrito ou persa, mas do grande livro judaico. * No Livro de Ester encontram-se já condensados todo o argumento da obra e as prefiguras de seus protagonistas — o rei Assuero correspondendo a Schahriar, Ester correspondendo a Schahrasad, seu pai adotivo o visir Mardoqueu, e Amã, o visir antissemita do rei Assuero, personagem que nas Mil e Uma Noites não aparece. * O monarca persa Assuero reinava "desde a Índia até a Etiópia, sobre cento e vinte e sete províncias" e era casado com a rainha Vasti, mulher bela e soberba — e o drama conjugal que se segue está narrado nos seguintes versículos do livro bíblico: * "O dia sétimo, alegre pelo vinho o coração do rei, mandou este a Mahuman, Bizta, Harbona, Bigta, Abagta, Zetar e Carcas, os sete eunucos que serviam ante o rei Assuero, que trouxessem à sua presença a rainha Vasti, com sua real coroa, para mostrar aos povos e aos grandes sua beleza, pois era de formosa figura; mas a rainha se recusou a vir com os eunucos, e o rei se irritou muito e se inflamou em cólera. Perguntou então o rei aos sábios conhecedores do direito que lei deveria ser aplicada à rainha Vasti por não ter feito o que o rei lhe havia mandado por meio dos eunucos." * "Memucan respondeu ante o rei e os príncipes: Não é somente ao rei que a rainha Vasti ofendeu; é também a todos os príncipes e a todos os povos de todas as províncias do rei Assuero, porque o que a rainha fez chegará ao conhecimento de todas as mulheres e será causa de que desprezem seus maridos. Se ao rei parecer bem, faça publicar e inscrever entre as leis dos persas e dos medos um decreto real mandando que a rainha Vasti não apareça mais diante do rei Assuero, e dê o rei a dignidade de rainha a outra que seja melhor do que ela." * "Depois disso, quando já se acalmou a cólera do rei, pensou em Vasti e no que esta havia feito e na decisão que a respeito dela se havia tomado. Os servidores do rei lhe disseram: Busquem-se para o rei jovens virgens e belas, pondo o rei em todas as províncias de seu reino comissários que façam reunir todas as jovens virgens e de bela presença em Susa, a capital, na casa das mulheres, sob a vigilância de Hegue, eunuco do rei e guarda das mulheres, que lhes dará o necessário para se ataviar, e que a jovem que mais agrade ao rei seja a rainha em lugar de Vasti." * Basta exagerar um pouco os caracteres para que o rei Assuero, em vez de repudiar a rainha Vasti, mande matá-la e as virgens reunidas em seu serralho desfilem ante ele não para que escolha nova esposa, mas para que as goze e as sacrifique por turno — e se terá o caso do misógino e agressivo rei Schahriar. * A semelhança ressalta ainda no modo como o rei toma conhecimento do serviço que Mardoqueu lhe prestara em tempos: "Aquela noite se foi o sono ao rei e disse que lhe trouxessem o livro das memórias das coisas dos tempos, e leram-nas diante do rei" — por essa leitura o rei Assuero soube que o pai adotivo de sua esposa lhe salvara a vida sem ter sido recompensado, e decidiu chamá-lo e honrá-lo, nomeando-o grande visir em lugar de Amã, que morre na forca que para o hebreu havia, com demasiada pressa, mandado erguer. * Essa história — que poderia inscrever-se no já citado livro de At-Tenuji, Al-Farchu-bádi-sch-Schiddet (A alegria após a aflição) —, que começa mal e termina bem e que os judeus leem todos os anos fazendo-a seguir de uma alegre mascarada em que se trocam os papéis de Mardoqueu e Amã, é em resumo a mesma história do rei Schahriar e de Schahrasad, que também começa mal e termina bem para as mulheres e para todo o reino da Pérsia. * Assuero é um caráter menos violento que Schahriar, ao passo que Schahrasad é mais enérgica e brava que Ester, aproximando-se no heroico a Judite, pois age por iniciativa própria e não por sugestão de seu pai adotivo Mardoqueu — sendo Ester apenas uma bela boneca em mãos de Mardoqueu, sem malícia feminil nem histórias para contar. * Burton insinuou que talvez Schahrasad também carregasse sua navalha escondida, por se lhe falhassem os contos. * A irmãzinha Dunyasad, que acompanha Schahrasad, recorda a irmã menor que a Sulamita leva consigo ao palácio de Salomão: "Temos uma irmã que ainda não tem seios..." * Todo o livro das Mil e Uma Noites está salpicado de constelações hebraicas — tudo o que nele se diz de Salomão e seu poder sobre homens e gênios é de procedência talmúdica, assim como muitas das anedotas edificantes que nele se intercalam, e há sobrados motivos para aceitar a hipótese do orientalista holandês Gaeje, que atribuiria a paternidade das Noites a um escritor judeu arabizado, dos muitos que pululavam naquelas cortes orientais. ** Outras opiniões: Weil, Burton, Mardrus ** * A tese de Gaeje não prevaleceu por seu caráter hipotético — e com o alemão Gustavo Weil a tese árabe de Silvestre de Sacy recebe um reforço. * Para Weil, as Mil e Uma Noites são obra de um escritor árabe, egípcio por mais sinais, que romanceou em parte segundo um antigo modelo e em parte segundo a tradição oral, não tendo podido rematar seu trabalho ou tendo-o perdido parcialmente, vindo outros a completá-lo. * O inglês Burton, em contrapartida, inclina-se para o lado persa e supõe que as Mil e Uma Noites são a arabização de um modelo persa — o Hasar Afsanah ou qualquer outro livro igualmente perdido. * Burton, grande orientalista e viajante, tradutor e comentador das Mil e Uma Noites, rejeita as induções de De Sacy, qualificando-as de muito superficiais (very superficial). * Burton salva o escolho do passo de Al-Masûdi e reafirma que o livro das Mil Noites são as próprias Mil e Uma Noites, a despeito da diferença de uma noite a mais: "Para mim essa discordância de títulos é um pormenor secundário. Entre os árabes, como entre os antigos irlandeses, os números ímpares têm algo de divino — o provérbio diz que trazem boa sombra —, sendo os outros considerados por consequência nefastos. Em suas Viagens, Ouseley diz que o número mil e um é predileto dos orientais e cita a Cisterna das Mil e Uma Colunas em Constantinopla." * "Kaempfer, em suas Amoenitates exoticae, fala dos conventos de dervixes e das tumbas de santões nas proximidades de Konya, dizendo: Muitas são as tumbas que encerram cinzas de varões doutos de todos os tempos; mil e uma enumera o autor do livro intitulado Hasar ve yek mezar, ou seja, Mil e um mausoléus." * "A meados do século XVII, o famoso dervixe Mujlis, chefe dos sufis de Isfahan, compôs, com o título de Hasar ve yek Rus, um livro — Mil e um dias — que Petit de la Croix traduziu ao francês com prólogo de Cazotte, e Ambrósio Phillips retraduz ao inglês." * "Na Índia e em toda a Ásia, um número redondo não seguido de outro mais concreto resulta indefinido, e assim os indianos sempre acrescentam a unidade a centenas e milhares, dizendo cento e um em vez de cem, e mil e um em lugar de mil." * Burton faz notar que nas Mil e Uma Noites tudo delata a origem persa — persa é o cenário da maioria das histórias, e quando não foram demasiado trabalhadas pela pena dos literatos árabes, como a dos Sete Visires — que é o guebro Bajtiyar-Nameh —, tanto os personagens como os episódios se mantêm paleoiranianos. Burton cita ainda a Historia de Mazin de Jorasan, cujo protagonista se converte em Hasã o de Basra na edição MacNaghten, como exemplo do processo de transição. * O processo de islamização das Mil e Uma Noites é análogo ao de cristianização sofrido pelo Livro de Calila e Dimna nas versões europeias, e ao das Gesta Romanorum, em que a vida e os costumes da Roma pagana e cesariana reaparecem vazados no molde da Europa cavaleiresca medieval e cristã. * A cosmogonia persa corresponde ao fundo das revelações que os anjos fazem a Balukiya sobre os arcanos do Universo; o Scheiku-l-Bahr que Simbad, o marujo, encontra em seus viagens aparece já no romance persa de Kamaraupa; a silva de Histórias que tratam de enganos e malandragens das mulheres (Noites 344 a 365) é a transfusão em prosa árabe do famoso Sindibad-Nameh ou Livro de Sindibab, com rastros também nas Gesta Romanorum, em Boccaccio e em toda a literatura medieval; e a História de Seifu-l-Muluk e Bedietu-ch-Chemal (Noites 422 a 437) é o trasunto de um romance persa de amor romântico do século IX, traduzido a todos os idiomas do Oriente muçulmano. * Os argumentos de Burton, porém, não conseguem apagar inteiramente a ideia da origem hindu por um lado e árabe por outro — pois tudo o que ele atribui aos persas pode referir-se em último termo aos hindus, de quem os persas tudo tomaram, ao mesmo tempo que desde época imemorial tudo isso já fazia parte do fundo semítico. * Em 1899, o doutor Mardrus — médico sírio e escritor francês —, no prólogo a sua versão direta das Mil e Uma Noites, afirmava resolutamente o mesmo que De Sacy em seu tempo: que as Mil e Uma Noites eram um livro árabe, concebido e escrito por árabes e em terras árabes, sem empréstimo algum indo ou persa, sem aduzir razão erudita alguma em apoio dessa convicção, a que parecia ter chegado pela via intuitiva, pela voz do sangue árabe que nele falava. * Há ainda uma revivescência da tese indianista, exposta em forma dogmática e apriorística por madame Blavatski — essa grande intuitiva russa, essa vidente, essa Schahrasad russa passada pelas escolas místicas da Índia —, que no final do século XIX veio contar aos sábios da Europa contos indianos que formavam a base de uma nova religião: a Teosofia. * Para madame Blavatski, as Mil e Uma Noites são um livro esotérico que faz parte da grande tradição da gnose imemorial, cujo segredo guardam os sacerdotes budistas do Tibet, e que ela revelou à Europa em sua voluminosa enciclopédia ocultista intitulada A doutrina secreta. * Nessa obra, ao falar das lendas populares do folclore universal, madame Blavatski lhes atribui um valor de revelação e de veículos do saber esotérico dos iniciados indianos, com estas palavras: "A tradição não desfigurou os fatos ao ponto de torná-los irreconhecíveis. Entre as lendas do Egito e da Grécia, de um lado, e as da Pérsia, de outro, há demasiada semelhança de figuras e de números para que se possa atribuir à simples casualidade, como foi amplamente provado pelo astrônomo e orientalista Bailly. Essas lendas passaram a ser depois contos populares persas. As façanhas do rei Artur e de seus cavaleiros da Távola Redonda são contos de fadas pelas aparências, e, no entanto, encerram fatos muito reais da história da Inglaterra. Por que, pois, a tradição popular do Irã não há de ser, a seu turno, parte integrante dos acontecimentos pré-históricos da perdida Atlântida? Antes da aparição de Adão nos falam essas tradições dos devis ou devas, gigantes fortes e perversos que reinaram sete mil anos, e dos peris ou ized, menores mas melhores e inteligentes, que só reinaram dois mil anos. Aqueles foram os atlantes, os vakshasas do Ramayana; estes últimos, os ários ou moradores do Bharat Varsha, ou seja, da Grande Índia." * Deixando de lado o sentido esotérico das Mil e Uma Noites — tema que o teósofo espanhol Roso de Luna, "o mago de Logrosán", desenvolve em seu livro O véu de Ísis —, não há como negar razão a madame Blavatski quanto à origem última das Mil e Uma Noites, se se admite sua origem persa, pois o persa conduz ao hindu, e é na Índia que reside todo esse mundo maravilhoso a que as Histórias de Simbad, o marujo, e muitas outras transportam. * Na Índia está Garuda, o original da Ave Roc persa e dos cavalos voadores; lá residem também as princesas-serpentes, as sarpa-rachas, avós veneráveis da serpente-rainha Yámlika da miliunanochesca História de Hásid Kerimu-d-Din; e lá está o Ogro terrível, arquétipo de todas as maravilhas, magias e esplendores que nas Mil e Uma Noites deslumbram. * Juan Lahor afirma: "No Mahabharata há todo um mundo criado pela imaginação popular, mundo fantástico de ogros e ogras, de peixes, serpentes, animais falantes, seres encantados e sinistros demônios que veremos reaparecer nas Mil e Uma Noites, em nossos romances de cavalaria e em nossos contos de amas, sem que saibamos ainda que caminho puderam seguir para chegar até nós." * Que a atmosfera das Mil e Uma Noites seja indiana não basta para provar que o livro se escreveu sobre um modelo sânscrito — e é somente isso que, nos termos do debate, poderia interessar, de modo que, por falta de dados concretos, fehacentes e documentais, continua ainda por precisar o lugar de origem, a nacionalidade e a pátria das Mil e Uma Noites, mesmo após estudos tão prolixos e bem orientados como os de Astruj (1905), Littmann (1923) e Goester e Krimsk (1919), reinando a mesma desorientação entre os eruditos quanto à paternidade pessoal do livro e sua idade.