====== Unidade e Diversidade ====== //[[.:start|R. CANSINOS ASSENS]], in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas ... 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.// * A obra forma um todo único pelos extremos, mas é um conglomerado heterogêneo em suas entranhas, onde compiladores introduziram elementos literários que quebram sua unidade formal. * Pelos extremos, marcados pela misoginia homicida do rei Schahriar e sua cura por Schahrasad, as mil e uma noites formam um todo único. * No centro, os compiladores introduziram, talmudicamente, uma multidão de elementos literários que rompem a unidade formal. * Esses elementos são como corpos estranhos no bucho do Pássaro Rokh. * Como no Talmud, há na obra história, teologia, filosofia, ciências, realidade e idealidade, coisas para rir e para chorar, incluindo a morte, como nas grandes comédias. * Em As mil e uma noites, como no Talmud, há história, teologia, filosofia, superstição e ciências. * Há também realidade rasteira e idealidade etérea, coisas para rir e coisas para chorar. * Há de tudo como na vida, sem faltar a morte, como nos grandes poemas ou divinas ou humanas “comédias” que pretenderam refleti-la ao longo do tempo. * Os árabes, às vésperas de sua decadência, guardaram na obra tudo o que não queriam perder, confiando seu enunciado à narradora persa Schahrasad, como os hebreus fizeram com o Talmud na diáspora. * Como no Talmud, livro de despedida em que os hebreus guardaram todos os seus recuerdos antes de deixar a Palestina, os árabes trataram de guardar em As mil e uma noites tudo quanto não quiseram que se perdesse. * Os árabes fizeram isso às vésperas de sua decadência. * Eles confiaram o enunciado da obra à jovem narradora persa Schahrasad, que não poderia ter conhecimento disso, pois sua voz era já uma voz de além-túmulo. * A confusão heteróclita da obra procede de Schahrasad introduzir elementos de diversas origens, que os rapsodas árabes fundem com outros de origem semítica. * Toda a confusão heteróclita de As mil e uma noites procede desse fato básico. * Schahrasad introduz no livro elementos de arrasto indostânico, ario-persa, tártaro e afegão. * Os rapsodas árabes fundem esses elementos com outros de origem semítica. * Assim se formam contos como os do rei Kamaru-s-Semán (Noites 148 a 176) e Bedietu-ch-Chemal (Noites 422 a 437), em que o presente histórico dos árabes se entretece com o mito e a fábula da remota antiguidade brâmanica. * Outras vezes os elementos não se fundem, e a uma história legendária segue-se uma anedota perfeitamente histórica e de procedência exclusivamente árabe. * Outras vezes esses elementos não se fundem. * A continuação de uma dessas histórias legendárias vem uma anedota ou série de anedotas perfeitamente históricas. Essas anedotas são de procedência exclusivamente árabe. * Elas passaram a outras compilações, como as agrupadas sob o título de Varias histórias referentes a pessoas generosas (Noites 201 e 202). * O leitor salta sem cessar de uma matéria a outra e de um gênero literário a outro, com um nomadismo que tem o encanto da variedade. * O leitor de As mil e uma noites salta sem cessar de uma a outra matéria. * Ele também salta de um a outro gênero literário. * Esse nomadismo tem o encanto da variedade. * Há no enorme bazar oriental da obra apólogos, fábulas, parábolas, madrigais, epigramas, discursos, epístolas e diálogos, por onde passaram todas as caravanas literárias do mundo. * Apólogo, fábula, parábola, madrigal, epigrama, discursos, epístolas, diálogos: de tudo há nesse enorme bazar oriental. * Por essa obra passaram todas as caravanas literárias do mundo. * Devem-se assinalar no livro as constelações de sentenças, máximas, provérbios e refrões em que os sábios plasmaram seu saber empírico de forma popular. * Começando pelo mais elementar, é preciso assinalar no livro essas constelações de sentenças, máximas, provérbios e refrões. * Neles, os sábios de todos os tempos plasmaram seu saber empírico. * Esse saber empírico foi dado em forma popular. * A obra abunda em resumos abreviados de longos processos mentais, tomados de múltiplas fontes, como os Maschalim salomônicos, o Hitopadesa e o Livro de Kalila e Dimna. * As mil e uma noites abundam nessa classe de resumos abreviados e sintéticos de longos processos mentais. * Esses resumos são tomados de múltiplas fontes. * Entre as fontes estão os Maschalim salomônicos, o Hitopadesa, o Livro de Kalila e Dimna e outros muitos pelo estilo. * O refrão, dito agudo e sentencioso muito do gosto de árabes e hebreus, tem particular importância, sendo numerosíssimos os refrões árabes adotados pela Europa. * Entre esses resumos, tem particular importância o refrão, esse dito agudo e sentencioso. * O refrão sempre foi muito do gosto de árabes e hebreus. * Eles costumam incrustar essa pedraria miúda tanto em seus escritos como em suas conversas. * “Os refrões árabes — diz Gustavo Le Bon — são numerosíssimos e Espanha e o resto da Europa tomaram deles muitos dos que possuem, sendo de origem muçulmana grande parte dos que constituem o caudal inesgotável da sabedoria de Sancho Pança.” * A paremiologia forma na obra um corpo disperso de juízos sobre os temas mais diversos, nos quais os rapsodas árabes declaram sua psicologia racial. * A paremiologia em As mil e uma noites forma um corpo disperso de juízos e sentenças sobre os temas mais diversos. * Nesses juízos e sentenças, os rapsodas árabes declaram sua psicologia racial. * Isso proporciona um rico material ao psicanalisis. * Não preside unidade de critério nos refrões, que se contradizem e retificam a cada passo, pois têm muito de subjetivo e não são ciência, mas experiência. * Como é de rigor, nunca preside unidade de critério nessas guias normativas dos refrões. * Os refrões se contradizem e se retificam a cada passo, segundo a diversa casuística que os inspirou. * O refrão, apesar de sua universalidade e objetividade aparentes, tem muito de subjetivo. * No fim das contas, os refrões não são ciência, mas experiência. * Não se deve insistir nesse ponto já estudado pelos paremiólogos, mas apenas notar a riqueza em refrões da obra, muitos deles aproximáveis dos ibéricos. * Não é preciso insistir sobre este ponto, já estudado pelos paremiólogos. * Limitar-se-á a fazer notar a riqueza em refrões de As mil e uma noites. * Muitos desses refrões são possíveis de aproximação com outros de procedência diversa e especialmente com os ibéricos. * Depois do refrão, vem a fábula, criação primária de todas as literaturas, cuja prioridade de invenção é disputada pelos povos, tendo os indianos Bidpai, os gregos Esopo, os romanos Fedro e os árabes Lokmán. * Depois do refrão, vem a fábula, essa criação primária de todas as literaturas. * A prioridade de invenção da fábula é atribuída por todos os povos a si mesmos e é tema de dissensão entre os eruditos. * Os indianos têm seu Bidpai; os gregos, seu Esopo; os romanos, seu Fedro; os árabes, seu Lokmán. * Na Bíblia já há fábulas e apólogos, forma de expressão figurada que está na raiz de todas as literaturas como eufemismo e recurso dialético. * Na Bíblia já há fábulas, apólogos. * Esta forma de expressão figurada, simbólica, indireta está, como a copla, na raiz de todas as literaturas. * Ela representa, de uma parte, um eufemismo, uma maneira impessoal de dizer as coisas desagradáveis nas cortes dos monarcas. * De outra parte, representa um recurso dialético para tornar as coisas mais sensíveis e convincentes. * Os árabes têm seu Lokmán, de cujas fábulas se formaram analectas, havendo semelhanças com as de Esopo, mas o que interessa é que as fábulas incluídas nas Noites são de procedência indiana. * Os árabes têm seu Lokmán, o sábio Lokmán de quem Maomé fala em seu livro, e de cujas fábulas se formaram analectas bastante copiosas. * Entre as fábulas de Lokmán e as de Esopo, assim como entre suas respectivas biografias anedóticas, notam-se não poucas semelhanças. * O que interessa fazer constar aqui é que as fábulas que se incluem em As mil e uma noites são de indubitável procedência indiana. * As mais pertencentes ao fundo do citado monumento de Bidpai, Pilpai ou Bilpai. * Os animais, as morais, o ethos, o pathos e a filosofia empírica das fábulas são absolutamente hindus, sem ligações lokmanianas. * Tanto os animais que nessas fábulas intervêm como as morais que delas se derivam são absolutamente hindus. * O ethos e o pathos, assim como a implícita filosofia empírica, são absolutamente hindus. * Não se pode descobrir neles ligamentos lokmanianos. * Toda a parte sentenciosa e admonitória do livro é hindu, assim como os animais da selva indostânica de que o sábio Vischnuscharman se serve para educar os príncipes. * Toda essa parte sentenciosa e admonitória do livro é hindu. * Os corvos, tartarugas, leões e adives são oriundos da selva indostânica em que se movem os kakas, kurmas, singam e schrigalas. * O sábio Vischnuscharman se serve desses animais para educar os príncipes filhos do rei Darschanas. * A fábula nas Noites adquire um caráter especial que a distingue da clássica e a aproxima do fabliau medieval, sendo uma novelita longa com variedade de acontecimentos. * É preciso notar que a fábula em As mil e uma noites toma um caráter especial que a distingue da fábula clássica. * Esse caráter a aproxima do fabliau medieval pelo estilo do germânico Reineke Fuchs. * Como sublinha Taylor Lewis em seu prólogo à versão inglesa de Pilpai, a fábula antiga é uma composição breve, enquanto a fábula árabe é “uma novelita longa, que abarca variedade de acontecimentos”. * Esses acontecimentos são caracterizados cada um deles por algum aspecto social ou político e formam uma narração altamente interessante em si mesma. * Duas séries de fábulas figuram na obra: uma entre o epos do rei Omaru-n-Nômán e a história de Alí-ben-Bekkar, e outra na história de Uarduján, mencionada por Al-Masûdi. * Duas séries de fábulas ou apólogos figuram em As mil e uma noites. * A primeira série se situa entre o prolixo e complicado epos do rei Omaru-n-Nômán e a melancólica história de amor de Alí-ben-Bekkar. * A segunda série se inclui no corpo da História de Uarduján, filho do rei Cheliâd (Noite 494), que Al-Masûdi menciona como independente das Noites. * Em ambos os lugares, as fábulas atuam como interlúdio sedante após um episódio trágico e como recurso profilático contra a monotonia, aparecendo entreveradas com histórias breves de pessoas. * Em ambos os lugares, as fábulas fazem as vezes de intermediário sedante depois de um episódio trágico ou patético. * Elas também atuam como recurso profilático contra a monotonia. * As fábulas se mostram entreveradas com histórias breves de pessoas, como a titulada os Anacoretas. * Burton encontra a origem dos Anacoretas na História dos dois irmãos do papiro egípcio de Orbigny, modelo da famosa história de Yúsuf e Suleika. * Entre os apólogos da obra descuella o do Lobo e o Zorro, personificações do homem mal e do astuto, que guarda relação com o ciclo ocidental de Reineke e é um verdadeiro fabliau. * Entre os apólogos miliunanochescos descuella o do Lobo e o Zorro. * O lobo e o zorro são personificações do homem mau e do astuto. * Esse apólogo guarda relação com o ciclo ocidental de Reineke e é um verdadeiro fabliau, um roman. * Os árabes deram à fábula clássica um desenvolvimento que ela não tinha, criando, nesse sentido, uma nova variedade literária. * Os árabes deram à fábula clássica um desenvolvimento que ela não tinha. * Nesse sentido, pode-se dizer que os árabes criaram uma nova variedade literária.