====== 1 Cinderela ====== //COOPER, J. C. Fairy Tales: Allegories of the Inner Life. Wellingborough: Aquarian Press, 1983.// 1. Cinderela constitui um dos contos de fadas mais difundidos do mundo, com centenas de versões recolhidas em diferentes tradições, antecedentes orientais muito antigos e contínuas recriações, preservando como núcleo a história de uma jovem bela e bondosa cuja condição se transforma depois do segundo casamento do pai. **A lareira** 1. A passagem da felicidade familiar à submissão imposta pela madrasta simboliza a perda do Paraíso e a descida da alma ao sofrimento terreno, enquanto a permanência de Cinderela entre as cinzas reúne os sentidos de humilhação, luto e transitoriedade com a centralidade espiritual da lareira, entendida como centro sagrado, lugar de transformação pelo fogo, comunicação com os mortos e proteção contra os espíritos exteriores. 2. A lareira constitui também um domínio feminino de calor, alimentação e conforto, no qual se depositavam oferendas aos mortos e alimentos destinados aos pequenos seres benfazejos que, nas narrativas maravilhosas, realizavam trabalhos domésticos. 3. A condição de guardiã do fogo aproxima Cinderela das vestais, de Héstia e do Lar romano, fazendo dela uma representação do espírito e da alma, enquanto as duas irmãs correspondem ao corpo e à mente, de modo que o conjunto das três exprime a passagem da existência sensorial à consciência individual, à integração e à iluminação. **As irmãs feias e a madrasta** 1. A fealdade das irmãs pode ser exclusivamente interior, exprimindo crueldade, avareza, inveja, vaidade e estupidez sob uma aparência atraente, enquanto a madrasta personifica o princípio feminino obscuro e destrutivo e a experiência da perda do Paraíso diante das duras condições do mundo fenomênico. 2. A mãe falecida conserva frequentemente uma função protetora, oferecendo auxílios mágicos ou manifestando-se como pomba branca, presença numa árvore funerária ou animal benfeitor, sobretudo uma vaca, cuja capacidade de alimentar e proteger remete ao aspecto maternal da Grande Mãe e, em certas tradições, ao simbolismo do outro mundo. 3. Algumas versões preservam motivos de canibalismo, nos quais a mãe é morta e devorada pelas filhas mais velhas e seus ossos mágicos são recolhidos por Cinderela, enquanto outras atribuem à própria mãe a perseguição da filha mais jovem, aproximando essa maternidade destrutiva de figuras míticas como Lilith e a rainha demoníaca que devora crianças. 4. O princípio feminino devorador aproxima-se também das sereias e harpias e reaparece em narrativas como João e Maria e em versões da Bela Adormecida nas quais uma sogra assassina persegue a heroína depois do casamento, submetendo-a à desfiguração, ao abandono no mar ou à morte, sempre superados pelo resgate ou pela restauração milagrosa da vida. **A árvore mágica e os auxiliares de Cinderela** 1. Entre os poderes que auxiliam Cinderela, destaca-se a árvore nascida de um ramo plantado sobre o túmulo materno e regado por suas lágrimas, que abriga a alma da mãe ou satisfaz suas necessidades, simbolizando a Árvore da Vida e assumindo formas culturalmente diversas, como palmeira, pessegueiro ou aveleira sagrada, da qual a jovem recebe as vestes necessárias para comparecer ao baile. 2. A punição das irmãs por uma ave que lhes arranca os olhos exprime o motivo recorrente da justiça retributiva, enquanto as numerosas espécies da árvore benfeitora incluem a macieira, vinculada ao ramo mágico do outro mundo céltico e invocada para substituir os andrajos da heroína por roupas esplêndidas. 3. A árvore mágica pode nascer dos restos enterrados de um animal auxiliar assassinado ou de três gotas de sangue, tornando-se fonte de tesouros, alimentos e vestimentas, à semelhança da Árvore da Vida paradisíaca, ou abrigando uma anciã, um anão ou uma fada que entrega os presentes à jovem perseguida. 4. Como expressão do princípio feminino protetor, a árvore oferece refúgio e santuário à heroína e participa de um amplo simbolismo mítico de nascimento, alimentação, abrigo e sobrevivência das almas, no qual a vida humana pode permanecer ligada à existência de uma árvore e a presença dos mortos fundamenta proibições de corte e poda. 5. Nas versões camponesas, animais domésticos adaptados às diferentes regiões assumem a função protetora posteriormente popularizada pela fada madrinha, e seus restos podem originar árvores mágicas cujos frutos, acessíveis apenas a Cinderela, substituem o sapato ou outro objeto como prova de reconhecimento e condição para o casamento. 6. Árvores capazes de falar e transmitir mensagens proféticas constituem um motivo amplamente difundido nas tradições narrativas, desde a América do Norte até a Babilônia e da Índia à Escandinávia, encontrando paralelos na eleição de um rei pelas árvores no Livro dos Juízes e nas conversações vegetais evocadas por Browning em Paracelso. **Os trabalhos de Cinderela** 1. Os trabalhos servis e as tarefas impossíveis impostos a Cinderela, como separar sementes das cinzas, produzir alimentos com quantidades insuficientes ou fiar volumes extraordinários, são cumpridos com auxílio sobrenatural e remetem tanto às provações de Psiquê quanto ao simbolismo das sementes nos antigos ritos de fertilidade, casamento e proteção contra o retorno dos mortos. 2. A antiga prática de lançar sementes sobre os recém-casados, posteriormente substituídas por confetes, conserva vestígios dos ritos de fertilidade. 3. As tarefas destinadas a conservar Cinderela na servidão e impedi-la de participar da festa representam as provações necessárias da alma antes do retorno ao Paraíso, após as quais os poderes sobrenaturais transformam sua aparência e possibilitam o encontro com o príncipe, realizado em algumas versões cristianizadas no interior de uma igreja. **A transformação e o baile** 1. A transformação de ratos e lagartixas em cavalos associa os animais dos lugares escuros aos poderes sobrenaturais da lareira e à esfera de Apolo Esminteu, convertendo-os nos cavalos brancos ou dourados do deus. 2. Os ratos, relacionados às almas dos mortos, à feitiçaria e a divindades como Rudra, participam das transformações que conduzem Cinderela à festa, enquanto a abóbora convertida em carruagem reúne os simbolismos da ampulheta, dos mundos superior e inferior e do carro solar, exprimindo poder divino e iluminação em narrativas nas quais o esplendor dos meios de transporte cresce progressivamente. 3. Os andrajos e disfarces de Cinderela representam sua separação da verdadeira condição e do Paraíso, e sua retirada revela a identidade oculta da heroína e os poderes da alma, numa transformação comparável ao abandono das roupas terrenas e à recuperação do Manto da Glória nas imagens gnósticas e cristãs do Paraíso perdido e recuperado. 4. As três vestes mágicas de esplendor crescente exprimem proteção sobrenatural e transformação ritual, reunindo cores, metais, astros, animais, flores e pedras preciosas numa representação da plenitude material e espiritual, cujas correspondências abrangem a vestimenta cósmica antiga, os mantos de glória e interpretações relacionadas ao céu, às estações e às etapas da aurora. 5. As três idas ao baile, à festa ou à igreja correspondem às etapas da iniciação e ao reconhecimento entre os princípios feminino e masculino, mas os perigos dos momentos de passagem exigem o retorno temporário da alma ao domínio terreno antes da meia-noite, ficando o sapato perdido como vestígio da glória alcançada e meio de identificação associado, conforme a versão, à terra, à água ou ao ar. **O sapatinho de cristal** 1. O sapatinho de cristal da versão de Perrault suscitou a hipótese de uma confusão entre os homófonos franceses verre, vidro, e vair, um tipo de pele, admitindo-se tanto a possibilidade de referência a um tecido então conhecido quanto a substituição de um termo pouco familiar por outro mais corrente durante a transmissão da narrativa. 2. A presença de sapatos de vidro, cristal ou diamante em tradições de diferentes regiões, inclusive em narrativas nas quais o calçado identifica um herói, amplia o motivo para além de Perrault e permite relacioná-lo à mitologia da luz, também expressa por materiais como ouro e outros revestimentos luminosos. 3. O vidro e o cristal ocupam lugar importante nas narrativas maravilhosas como materiais de montanhas, cidades, palácios, embarcações e sepulturas, associando-se às moradas divinas, aos caminhos dos mortos e às dificuldades de acesso ao outro mundo, cuja superação pode exigir a intervenção de animais agradecidos. 4. Pontes, árvores, castelos e embarcações de vidro, assim como palácios de cristal e pilares desse material, aparecem em sagas e tradições irlandesas, alemãs, chinesas e oceânicas, reiterando sua vinculação aos espaços extraordinários e às passagens para domínios sobrenaturais. 5. Os poderes mágicos atribuídos ao cristal e ao vidro correspondem, na alquimia, à perfeição espiritual, à luminosidade própria, à visão interior e à pureza, enquanto a capacidade isolante do vidro simboliza a passagem de um estado a outro. 6. O sapato simboliza simultaneamente liberdade, maturidade, posição social e poder sobre seu portador, podendo marcar a emancipação da escravidão ou da autoridade paterna, a posse matrimonial e a legitimidade sucessória, de modo que o sapatinho de Cinderela assegura seu reconhecimento e sua elevação a uma condição superior. 7. O uso ou a retirada dos sapatos também distingue a condição sagrada da terrena e participa de gestos de aceitação, rejeição, investidura e transferência de direitos, como nas práticas bíblicas de confirmação de negócios e em costumes matrimoniais nos quais o calçado estabelece vínculos de posse, direitos domésticos ou homenagem à futura esposa. 8. A prova do sapato relaciona-se a antigos costumes matrimoniais e ao poder feminino sobre o homem, mas o sentido pleno da narrativa exige a busca pessoal do príncipe por sua companheira, cujo reconhecimento e reaparecimento nos mantos de glória culminam no casamento como realização da unidade, do Andrógino e da recuperação do Paraíso. {{tag>Cooper folktale contos-de-fadas Cinderela}}