====== 5 Herói, heroína e andrógino ====== //COOPER, J. C. Fairy Tales: Allegories of the Inner Life. Wellingborough: Aquarian Press, 1983.// 1. A relação amorosa entre o herói e a heroína representa a busca da força complementar necessária ao equilíbrio e à integridade, na qual os princípios masculino, solar e racional e feminino, lunar e intuitivo se integram pelo casamento, realizando a união alquímica dos opostos e a unidade do Andrógino, simbolizada também pelo círculo que reúne yin e yang. 2. O desenvolvimento dos protagonistas envolve o despertar de capacidades latentes e a passagem da infância à maturidade e da inocência à experiência, tendo o casamento como eixo predominante, enquanto a relação entre irmãos pode representar tanto o equilíbrio dos opostos quanto a necessidade iniciática de separação e formação de identidades adultas distintas. 3. A jornada do herói parte de uma condição humana não regenerada e atravessa provações em busca da alma e da realização do Si-mesmo, beneficiando também outras pessoas pela derrota de poderes malignos ou pela restauração da prosperidade, enquanto a saída do lar simboliza o nascimento, a conquista da maturidade e a procura espiritual da iluminação. 4. Os protagonistas geralmente anônimos dos contos de fadas encarnam qualidades coletivamente admiradas, e os atributos luminosos do herói permitem interpretá-lo como uma figura solar que atravessa a escuridão, supera forças adversárias e conquista a contraparte feminina, num percurso comparável ao nascimento e à ascensão do sol. 5. A adversidade inicial representa a descida da alma desde o Paraíso e conduz a experiências que ultrapassam a instrução moral e a vida prática, alcançando os mistérios do nascimento, da morte e do renascimento, enquanto as virtudes dos protagonistas se destacam diante dos vícios dos adversários e até suas aparentes limitações contribuem para o triunfo com auxílio sobrenatural. 6. Embora algumas histórias heroicas possam provir de sonhos, predominam os padrões de iniciação, nascimento, morte, renascimento e recuperação do Paraíso, que dão forma aos conflitos interiores, ao medo do isolamento e ao desejo de unidade e perfeição, podendo também manifestar a entrada de forças espirituais superiores no mundo visível. 7. As provas heroicas reproduzem desafios dos ritos de iniciação, exigindo demonstrações de maturidade, força, engenho e domínio diante das forças naturais ou sobrenaturais, mediante tarefas como obter objetos inacessíveis, encontrar a água da vida, resolver enigmas e enfrentar monstros, em continuidade com grandes jornadas míticas. 8. As narrativas de tentação apresentam principalmente a sedução motivada pelo desejo da sedutora, a aproximação de uma mulher que necessita da ajuda do herói e a atração exercida por uma deusa ou fada que pretende conduzi-lo ao outro mundo depois de comprovar seu valor. 9. As provas podem ser explícitas ou tão sutis que o herói desconheça estar sendo avaliado, como no motivo do Anfitrião Exigente, em que a cortesia diante de pedidos absurdos ou cruéis permite romper encantamentos, libertar pessoas e lugares e conquistar o reino e a união amorosa. 10. A entrada dos protagonistas num reino encantado os expõe a poderes hostis que procuram matá-los, transformá-los ou expulsá-los, mas a superação de provas e tentações permite restaurar a ordem legítima, desfazer encantamentos ou alcançar o outro mundo pelo casamento com um ser imortal, segundo exigências semelhantes às da iniciação ritual. 11. O herói dos contos de fadas conserva sua herança mítica e aristocrática, mas privilegia os feitos e a conquista da união feliz, aproximando personagens reais e camponeses em trajetórias nas quais a ameaça, o ocultamento da origem e a descoberta da verdadeira natureza reproduzem o simbolismo do segundo nascimento e fazem da oposição entre forças um meio de desenvolvimento físico, psíquico e espiritual. 12. A presença de pais lenhadores, carpinteiros ou ferreiros associa a origem dos protagonistas à madeira como matéria primordial e abrigo durante toda a existência e ao artesanato como poder criador que dá forma e ordem ao caos, encontrando paralelos em figuras míticas e religiosas ligadas à construção e à transformação da matéria. 13. As figuras do pastor e do pescador oferecem outros modelos recorrentes de origem e atuação heroica, exprimindo proteção, salvação e condução espiritual em tradições que apresentam divindades e mestres religiosos como guardiões de seus seguidores ou pescadores de seres humanos. 14. O nascimento do herói frequentemente encerra um longo período de esterilidade e vem acompanhado de uma profecia que provoca seu abandono na floresta ou nas águas, reproduzindo um padrão mítico presente em personagens como Karna, Sargão, Moisés, Édipo, Perseu, Rômulo, Remo e Siegfried. 15. A superioridade física e intelectual do herói pode despertar inveja e ressentimento, enquanto sua viagem solitária, mesmo quando pertence à realeza, preserva o simbolismo do soberano ou sacerdote que parte ao encontro da divindade e atua como personagem ritual, empregando armas e gestos cuja uniformidade atravessa mitos, sagas e contos de fadas. **As provas heroicas** 1. As provações conduzem finalmente à conquista da noiva e do reino, enquanto a morte trágica do herói pertence sobretudo à saga, à epopeia e à lenda, em contraste com o desfecho feliz próprio do conto de fadas. 2. A saga e a lenda apresentam a existência submetida às alegrias, aos sofrimentos e aos desígnios inevitáveis do destino, enquanto o conto de fadas revela possibilidades de libertação mediante auxílio sobrenatural, substituindo os limites da vida sensível pela alegria espiritual e pela felicidade duradoura. 3. A conquista da noiva mediante provas conserva um antigo padrão ritual, no qual a princesa situada numa altura inacessível ou aprisionada por um monstro representa a sabedoria transcendente que precisa ser libertada e aproximada da existência terrena, permitindo que os domínios superior e inferior, a sabedoria e o método, encontrem uma condição comum de união. 4. A transmissão da realeza pela linhagem feminina esclarece narrativas em que um estrangeiro de origem real ou humilde conquista a princesa e o reino por suas qualidades, enquanto as interpretações luminosas ou sazonais identificam a heroína com a aurora e a primavera e sua rival com a noite e o inverno, ou compreendem o casamento dos protagonistas como união sagrada dos princípios solar e lunar e reconciliação entre Céu e Terra. {{tag>Cooper folktale contos-de-fadas herói andrógino}}